“Em um Mundo Melhor”, Susanne Bier, 2010

Em um Mundo Melhor

Susanne Bier é uma diretora promissora da Dinamarca, sua breve carreira, de apensas 5 filmes, tem chamado atenção do mundo. Seu recente trabalho,“Em um Mundo Melhor”, já é o segundo filme de sua carreira que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O primeiro foi em 2007, “Depois do Casamento”, que perdeu para o alemão “A Vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck .

O filme é o grande Vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 2011. É um filme tenso, forte e acima de tudo sensível. Ele provoca o espectador e faz pensar em seu senso de justiça e suas reações.

“Em um Mundo Melhor” conta a historia Christian ( William Johnk Nielsen), um garoto que acaba de perder a mãe e se muda com o pai de Londres para casa de sua avó em uma pequena cidade da Dinamarca, e lá, faz amizade com Elias (Markus Ryggard), uma garoto da sua sala que sofre bullying dos colegas maiores.

Paralela a historia de Chris e Elias estão a de seus país, os de Elias, Anton ( Mikael Persbrandt) e Marianne ( Trine Dyrholm), que vivem um processo de separação, e de Claus ( Ulrich Thomsen), pai de Chris que é acusado pelo garoto de desistir da mãe e deixá-la morrer de câncer.

Esse paralelo é muito mais forte entre Anton e Chris. Estes sim, poderíamos dizer que são os personagens antagônicos do filme. Logo que chega na escola, Chris vê seu amigo sendo agredido e também se torna vítima dos causadores do bullying. No dia seguinte, prepara uma vingança ao principal de seus agressores. Por outro lado, Anton, pais de Elias é um médico voluntário em um país na África, e convive com outros tipos de violência, em um país em meio a uma guerra civil, onde o chefe da milícia local é violento e sádico.

Sem um tom moralista, mas sim provocador, o roteiro de Anders Thomas Jensen ( “Depois do Casamento” e “A Duquesa”) nos mostra reações adversas ao contato com a violência. A velha máxima de “violência gera violência” se apresenta de uma maneira sutil, porém forte.

Em um certo momento do filme, Anton é agredido por um homem em frente aos seus filhos e de Chris, porém não reage. Ao ser questionado por seu filho Elias sobre sua não reação, responde apenas que o agressor é um idiota, e que “é assim que as guerras começam”. Sim, pode ser, mas isso não fica por aí.

Anders e Susanne usam dois microcosmos, o acampamento em meio a guerra civil e a própria escola, para mostrar, que o que vale para nossa vida pessoal, vale para um macrocosmo também. O número de pessoas pode ser menor, o grau de violência pode ser menor, mas a premissa é a mesma. A violência e a resposta a violência.

A falta de comunicação, a intolerância, a xenofobia, o preconceito, gera situações violentas, inesperadas e até incontroláveis. Situações como ir além do que se planejou com as suas ações, ou mais ainda, por perder alguém querido.

As atuações são maravilhosas. Susanne Bier mostra ser uma ótima diretora de atores. A tensão do filme é impressionante. Os dois garotos, Christian ( William Johnk Nielsen) e Elias (Markus Ryggard) seguram os personagens com uma densidade, e ao mesmo uma inocência conveniente a suas idades. São interpretações incríveis, principalmente de William Johnk Nielsen, sempre fechado, inseguro mas ao mesmo tempo que querendo parecer forte.

Todos os personagens principais estão muito bem e são muito bem construídos. Destaque para Anton (Mikael Persbrandt), pai de Elias, o médico voluntário, que convive com um tipo de violência mais elevado, e sempre mantêm a calma, a serenidade, o equilíbrio. Quando não suporta mais guardar esse equilíbrio, explode sem pensar nas conseqüências de seu ato, e se questiona depois de sua reação, mesmo sem uma palavra, se fecha para conviver com as conseqüências do que fez.

Uma das sequencias mais fortes do filme, é quando Anton volta a ser agredido em frente a seus filhos e ao amigo do filho, e não reage, fica inerte, com um rosto sem expressão, apático. A cena é muito provocadora, questionadora e por que não dizer, revoltante.

A chave da questão, a chave do filme é essa. Até onde é válida uma reação violenta a uma atitude violenta. A resposta não é fácil e não vem fácil. A vontade da reação, da vingança, está presente em todos nós.

A fotografia de Morten Soborg não apresenta grandes firulas. É simplória mas muito bem realizada. Talvez fria como a Dinamarca, é esse o tom que predomina. A luz fria. Mesmo na África tudo é meio, digamos assim, “nublado”. Sem grandes sombras, sem luz estourada. Muito funcional ao que o filme apresenta.

Outro grande destaque é para a música de Johan Söderqvist, muito presente em boa parte do filme, conversando diegéticamente o tempo todo com as ações apresentadas. É também por conta da trilha que a tensão e a emoção do filme crescem. Johan Söderqvist é responsável por trilha de filmes como “Coisas que Perdemos pelo Caminho” também de Susanne Bier e a belíssima trilha de “Deixa Ela Entrar” de Tomas Alfredson.

“Em um Mundo Melhor” é desses filmes universais, que apesar de ocorrer na Dinamarca, poderia ocorrer do seu lado. Essa é a vantagem de se usar o micro para se falar algo maior. É também um filme diferente do estilo da maioria dos filmes americanos, onde tudo é muito explicado. Aqui o silêncio é tão importante quanto cada palavra. As ações silenciosas, o olhar, tudo é parte da diegese do filme e tem que ser pensado.

Jair Santana

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“A Rede Social”, David Fincher, 2010

A Rede Social

A Rede Social

“A Rede Social”, filme do diretor David Fincher, é de roteiro de Aaron Sorkin, baseado no livro de “Bilionários por Acaso, A Criação do Facebook“, de Ben Mezrich, escrito a partir do ponto de vista do brasileiro Eduardo Saverin.

Este não é o melhor filme de Fincher, diretor de “Clube da Luta”O Curioso Caso de Benjamin Button, mas é com certeza o filme que lhe dará alguns dos principais prêmios do cinema do ano.

“A Rede Socail” é sobre um assunto muito contemporâneo, muito atual. O Facebook. Talvez o maior fenômeno de um site de relacionamento on line desde a criação da internet na década de 70. Mais que sobre “o que é” o site, o filme é sobre seu processo de criação, ou seja, “como se chegou até o Facebook”.

Mark Zuckerberg, é interpretado muito bem por Jesse Eisenberg,  que utiza em sua interpreração o mínimo de expressões no rosto e um tom de voz que parece nunca mudar. Agrega com isso uma arrogância quase inata ao personagem,  um rapaz com dificuldade de relacionamento, tanto amoroso como de amizades.

Seu único amigo, é o brasileiro Daniel Saverin, um colega estudante de Havard. Sua pretensa namorada o abandona na primeira, e fantástica, sequência do filme, em que 3 ou 4 minutos, passamos a conhecer exatamente como é a linha de pensamento e como se comporta o estranho Zuckerberg.

Mas o personagem principal do filme não é somente um curioso anti-herói. É talvez, a síntese de uma juventude. É só mais um, que passaria por cima de tudo e todos, é só mais um, que para conseguir notoriedade e dinheiro, derrubaria amigos, se uniria a inescrupulosos e por aí vai. Não é tão distante da maioria dos jovens que querem conseguir “chegar lá” o quanto antes. A famosa geração Y, nascidas a partir dos anos 80.

Então vamos acompanhar quem foi o Mark Zuckerberg do filme. Ele era um jovem muito inteligente quando se falava em técnica. Após levar um fora da namorada, cria em uma rede interna em Harvard, um programa comparativo entre as estudantes da universidade. Em apenas uma madrugada, o acesso é tanto, que faz com que a rede caia.

Pela primeira vez, ele se torna popular para alguns estudantes. É convidado então por dois irmãos de Havard, que são milionários, a criar uma rede social entre estudantes de universidades. Está aí a semente do Facebook. Daniel Saverin, seu amigo, único amigo, investe então o dinheiro inicial para que ele possa se dedicar a criação desse programa e se associa a ele. Mark então em vez de trabalhar para os dois estudantes, passa a trabalhar pra si, e some do alcance dos que o contrataram.

Roubar idéias não é algo novo. E roubando idéias, Mark Zuckerberg se tornou bilionário e virou ídolo da geração Y. Mas pelo Mark Zuckerberg que aparece no filme, e pelo que se nota em entrevistas, ficou rico e continua solitário. Seus amigos? São virtuais, assim como o seu dinheiro. O Facebook hoje é o site mais acessado do mundo, e está avaliado em mais de 50 bilhões de dólares.

Se encantará e se identificará com o filme principalmente aqueles que fazem parte desse mundo virtual, e mais ainda aos que acreditam nele. Aos que acreditam que as relações virtuais, são tão importantes ou palpáveis quanto as reais. Aos que acreditam na sensação de poder que internet pode criar.

O roteiro de Aaron Sorkin caminha entre o genial e o confuso. É ágil, genial em sintetizar situações em uma ou duas frases, como é a cena em que a ex-namorada de Daniel Saverin briga com ele por que estava marcado “solteiro” no seu perfil do Facebook., e as vezes confuso, por querer contar detalhe técnicos de algumas situações menos relevantes. Também não é um roteiro inovador. Pelo contrário, é até tradicional em seu formato. O herói está em um lugar comum, quando é chamado para o mundo especial, enfrenta problemas, e termina como uma nova pessoa. Sem grandes reviravoltas, sem grandes surpresas. Nada de novo.

A fotografia é de Jeff Cronenweth, que já havia trabalhado com Fincher em “Clube da Luta”. É funcional, tem uma texttura anos noventa, um pouco lavada, mas nada surpreendente. Não tem um grande diálogo com o filme. Até mesmo por que tudo se inicia em 2003.

A trilha sonosa de Trent Reznor é um ponto importante do filme. Presente desde sua primeira cena, a música dá o clima tenso e uma densidade as cenas que ficariam em lugar comum sem ela.

A direção de Fincher é segura. Ele prova mais uma vez ser um ótimo diretor de atores, a participação de Justin Tinberlake como Sean Parker criador do Napster é execelante, chega a roubar a cena. Ótima também é a participação de Andrew Garfiel interpretando Daniel Sevarin. Elenco bem escolhido é boa parte de um filme.

Mas Fincher erra em outros pontos. Diálogos e edição rápidos demais, e historias com muitos detalhes, não contribuem para o envolvimento do espectador no filme. Pelo contrario, acaba fazendo o filme parecer corrido demais, afastando o espectador da historia. Com toda certeza, não é seu melhor trabalho como diretor.

A verdade é que “A Rede Social” é um filme datado. É contemporâneo, como já foi citado, mas ao contrário do que acontece com grandes filmes, não terá interesse para as próximas gerações, ainda mais se o Facebook fracassar em alguns anos como aconteceu com Orkut. Algo que chama muito atenção do filme são as questões autorais na internet, ainda não solucionadas.

Se “A Rede Social” realmente é o filme do ano de 2010, teríamos que afirmar, que 2010 foi um ano sem grandes filmes e que logo será esquecido. O que não é fato. Foi um ano de bons filmes sim, o que se precisa mudar, é a linha de pensamento das grandes premiações.

Jair Santana

“A Partida”, Yojiro Takita, 2008

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A Partida

“A Partida”, filme do veterano diretor japonês Yojiro Takita, pouco conhecido ainda fora do Japão, foi sem dúvida, merecedor do prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2009. Direção forte, boas interpretações, roteiro bem amarrado e o tema universal (a morte) fazem desse filme um belíssima experiência cinematográfica.

O personagem principal, Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) perde seu emprego em uma orquestra, e com isso, se afasta do sonho de ser um grande músico. Afastado de seu sonho e com dificuldades financeiras, junto com sua esposa, Daigo volta para cidade onde nasceu e onde herdou a casa de sua mãe, e então começa a procura de um novo emprego.

Nessa procura, um anúncio fala sobre “partidas”, Daigo então o confunde com alguma empresa de turismo e sai em busca da vaga. Mas o anúncio é sobre outro tipo de partida. O trabalho, é maquiar e arrumar, defuntos, para o enterro. Apesar de resistir inicialmente, o trabalho é recompensador financeiramente, Daigo então aceita, mesmo com certa resistência.

A partir daí, o personagem aprende a realizar, respeitar e entender melhor esse ritual de passagem, guiado pelo seu chefe Kuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki), que o apresenta a esse novo mundo. A partir da observação que Kuei tem com esse trabalho, da relação que tem com os mortos e com a familia deles, Daigo então passa a respeitar, e até a apreciar aquele trabalho.

O filme é dirigido com uma sensibilidade impar, com boas interpretações, boa fotografia e um forte tema. O filme tem trilha sonora de Joe Hisaishi, mesmo de “Castelo Animado” e “Viagem de Chihiro”. A trilha é um show a parte. Dessas que com certeza, vai entrar para historia entre as grandes trilhas sonoras do cinema.

“A Partida” é um filme de apelo universal, morte e família, que ajudou o diretor Yojiro Takita a ser reconhecido pelo mundo como um grande diretor. Mas que acima de tudo, nos faz abrir os olhos para um cinema crescente, que é o cinema oriental, que começa a ganhar espaço de distribuição por essas bandas.

Jair Santana