Xingu, Cao Hamburger, 2012

Xingu

Xingu

“Xingu”, de Cao Hamburger, é um apaixonante e importante resgate de uma pouco conhecida parte da história recente do Brasil. O primeiro contato com grande número de tribos indígenas, feita recentemente, a pouco mais de 50 anos, com o motivo de povoar, desbravar o país.

O filme nos conta a história desse momento em que o governo brasileiro contratava peões para o desbravamento do seu interior. Aqui, mais especificamente a expedição do Rio Xingu, a historia dos irmãos Vilas Boas.

“Xingu”, como ainda no início se deixa bem claro, é uma adaptação livre sobre uma historia real. É um romance baeado em uma historia real.

O roteiro é de Cao Hamburger, Elena Soarez (Os Desafinados e Cidade dos Homens), e Anna Muylaet (Durval Discos e Proibido Fumar), que também co-roteirizou com Cao o “Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”.

É um roteiro muito bem escrito. Coloca tudo que tem que colocar no filme. A relação dos irmãos, a diferença de personalidade de cada um deles, a historia da relação deles com os índios e como conseguiram negociar a criação do Parque. Em momento algum, o filme os mitifica. Pelo contrário, os humaniza. Nos explica bem a longa historia desde o primeiro contato até a criação do Parque, sem pulos temporais abruptos. Além de sintetizar muito bem, na mesa onde um latifundiário, um político e um coronel resolvem o futuro do país, um pouco sobre nossa historia e nossa relação com os índios e com a floresta. 

Os 102 minutos de filme nos contarem o importante da história, sem excesso de “paisagens bucólicas” e sem pular o que importa. O roteiro é de uma preciosidade rara nesse tipo de filme.

Essa sequência pra mim é uma das mais geniais do filme. De um lado, os irmãos Vilas Boas e os índios, do outro, três conservadores ligados a alguns dos maiores poderes do país até hoje (militares, ruralistas e políticos). Ainda assim, o resultado final, se provou que a luta pode ser vitoriosa. E melhor ainda, é saber que a história é real. Com meandros de dramatização claro, mas a sua essência é real.

A direção de fotografia ficou a cargo de Adriano Golman, que já havia trabalhado com Cao em “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e com o produtor do filme, o diretor Fernando Meirelles em “360”. A fotografia é correta, sem grandes preciosismos, mas é o que se espera. As belezas naturais falam por si. Os lugares, belos também podem ser perigosos, ostís, por isso o cuidado na fotografia em não somente encantar, mas mostrar um lado mais real. E é esse objetivo direção de fotografia. O realismo. Contrário de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” que remetia a algo mais melancólico, poético e época.

“Xingu” é uma grande produção brasileira, talvez a mais cara produção brasileira dos últimos anos. Seu valor estimado é de 14 milhões de reais. É grandiosa em muitos sentidos, inclusive na coragem, de filmar nos lugares reais por onde os irmãos Vilas Boas passaram. Não é faz de conta, as locações são reais. E isso, quando se fala de cinema, é algo raro e muito caro também.

Ao contrário do que acontece com “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios” de Beto Brant, aqui, essa locomoção de espaço físico é realmente importante. O lugar, é parte da diegese. A interação com o espaço é algo muito importante. Esse foi um grande acerto do filme.

Soma-se isso a direção segura de Cao Hanburger, que como um dos roteiristas, sabia muito bem o que realmente queria, o que realmente importava. A decupagem é muito bem realizada, sem muitas firulas, mas com certa grandiosidade. As paisagens aparecem sim, mas para nos dar dimensão do país, da mata, do tamanho Parque, e não somente para nos deslumbrarmos com a bela vegetação.

A segurança da decupagem é excepcional. A escolha de cada quadro, do mais simples, do enquadramento de um rosto, aos mais complexos, como o do avião em queda livre, deixando o avião flutuar, nos levando junto aquela sensação de “vácuo”, de desespero, e por fim, ao suspense dos primeiros contatos com os indíos. Cao é um diretor que sabe criar o clima necessário pra cada cena, e também sabe finalizá-las.

Os verdadeiros irmãos Villas Boas

Os verdadeiros irmãos Villas Boas

Outro acerto. A escolha dos atores  e a entrega deles aos personagens. Em especial, o narrador da historia, Claudio Vilas Boas, interpretado por João Miguel. João Miguel dos maiores atores de sua geração. E já havia provado isso em “Mutun”, “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Estômago” por exemplo. Pernambucano, nesses  filmes João sempre fazia papel de personagens nordestinos.

Então aqui João Miguel perde o sotaque e prova que pode fazer muito mais que papeis regionais. Sua interpretação é monstruosa. Talvez por não ser expansiva, mas contida, o que é muito mais difícil. Uma interpretação contida, firme e que nas telas do cinema fica de uma tamanho imensurável. João ganhou o Festival do Rio em 2005 por “Cinemas, Aspirinas e Urubus” de Marcelo Gomes, e em 2011 por “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Vinícius Coimbra, ainda inédito.

“Xingu” é um bom filme para se entender um pouco mais da historia política de um dos mais importantes parques de preservação do país, também entender sobre nossa relação com os povos indígenas e mostrar, que os índios não são os vilões como durante anos o cinema, principalmente o americano, nos mostrou.

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“Se Nada Mais Der Certo”, José Eduardo Belmonte, 2009

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Se Nada Mais Der Certo

“Se Nada Mais Der Certo”, ultimo trabalho do diretor José Eduardo Belmonte, diretor de “A Concepção. Belmonte nos apresenta um filme pessimista, porém realista, sobre a historia de um jornalista decadente e idealista, uma mãe viciada e seu filho, um taxista amargurado pelo suicídio do pai, e uma traficante bissexual, que habitam a região da Rua Augusta em São Paulo.

Região da boêmia decadente de São Paulo, a região da Augusta é cercada por tipos como os acima descritos, e também putas, clubers, baladeiros, rockeiros, travestis, skinheads, enfim, seres curiosos, decadentes e fortes, convivendo, as vezes forçadamente em um mesmo local. Pois aparentemente é uma região democrática.

“Se Nada Mais Der Certo”
filosofa, mesmo que seja assumidamente uma filosofia de botequim, questiona, mesmo que sem realmente querer encontrar as melhores respostas, e denuncia, mesmo que nada se resolva, o mundo podre que cerca essas pessoas. Sem parecer didático ou presunçoso. Apenas mostra, conta, nos coloca no mundo daqueles personagens.

Mas ainda assim, no meio de toda essa podridão, parece haver uma luz no fim do túnel. Existe uma certa melancolia, uma busca pela família inexistente, uma certa lealdade entre os personagens que nos move a torcer por aquela escória. Mesmo quando nos pegamos a torcer pelo lado errado.

Como uma de suas principais qualidades, filme traz boas interpretações de todos os protagonistas. Cauã Reymond, João Miguel, Caroline Abras e Luiza Mariane passam uma forte realidade à seus personagens.

O diretor nos cola ao personagem principal, Leo, e sua narração nos dá um clima mais intimista, passeando por seus pensamentos. Leo, veio como um presente para Cauã, que segura muito bem seu personagem, um tipo diferente dos que costuma representar.

A fotografia de André Lavenére é muito bem realizada. Granulada e suja, com muita câmera na mão, casa perfeitamente com a linguagem documental do filme.

O roteiro é uma crítica social forte, mas é também uma crítica a certos modos de vida. E também nos deixa uma pergunta. E se nada mais der certo pra você, existe um “plano b”?

Infelizmente, a música tema e a seleção de temas para trilha sonora, de Zepedro Gollo, é fraca não ajuda a criar climas que ajudariam o filme a crescer mais ainda.

“Se Nada Mais Der Certo” é o tipo de filme nacional que não agradará ao grande público. Pois não tem final redondinho e feliz, na verdade, tem um final aberto, algo que não costuma ser recorrente no cinema brasileiro.

Por isso mesmo é um filme que não pode deixar de ser assistido. Um filme de ação inteligente, crítico, mais próximos de nossa realidade que os gangsters e terroristas de filmes americanos.

Vencedor do Festival do Rio e do Cine Ceará com o prêmio de Melhor Filme Ficção, “Se Nada Mais Der Certo” é o verdadeiro cinema nacional, aquele cinema nacional que vem assumindo uma identidade própria, não tentando copiar o formato americano.

Jair Santana

“Cinema, Aspirinas e Urubús”, de Marcelo Gomes, 2005

Cinema, Aspirinas e Urubús

Enfim, vamos ao “Aspirinas, Aspirnas e Urubús”, que na minha opinião é o melhor filme sobre o sertão nordestino, desde de “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos. Com historia simplista, despretrensiosa, e com elenco PERFEITO, leia-se Peter Ketnath, João Miguel e Hermila Guedes, ótima em mais esse personagem,  com especial destaque para o delicioso personagem de João Miguel, o azêdo,  sarcásticoe e reclamão Ranulpho. Por sinal, Ranulpho é inspirado no avô de Marcelo Gomes, e motivo principal do filme.

João Miguel ganhou vários prêmios com esse personagem, entre eles o de melhor ator no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo e no Grande Prêmio de Cinema Brasil O “Aspirinas…” na minha opinião mais que qualquer coisa, fala como a guerra afeta as pessoas, afeta nossas vidas, indepentende o quanto distantes possamos estar dela.

Não há limites para a guerra. E fora a estoria de amizade, de companheirismo, existe esse outro lado. O lado cruel da Guerra, que mesmo longe do Brasil, mesmo longe interior de Pernambuco, atinge a vida daquelas pessoas. Fazendo sim, com que o rumo de suas vidas, mudem bruscamente.

A fotografia do filme é um show a parte, responsabilidade do fotógrafo Mauro Pinheiro. Ela é árida como clima no sertão. Comparável a fotografia de “Vidas Secas”. Comparável mas não imitável. A luz estourada nos cega, como o sol do Sertão Nordestino. Casando perfeitamente com o que o filme propõe.

O roteiro é do conjunto de três roteiristas, Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Karim Aïnouz, e é inspirado em relato de viagem de Ranulpho Gomes, avô de Marcelo. O filme foi um fracasso de público. Alguns falam que em função da ruim proposta de marketing, cartaz feio e confuso. título impopular. O que não é nem uma surpresa, levando em consideração um público de cinema como o nosso. Num público como o o brasileiro, o título do filme já afasta.”CINEMA, ASPIRINAS E URUBÚS”.

O filme ganhou o prêmio Astor de Prata de Melhor Filme Ibero-Americano, no Festival de Mar del Plata.Vencedor ainda dos prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (João Miguel), Melhor Roteiro e Melhor Fotografia, no Prêmio Contigo! de Cinema.Levou duas, indicações ao Prêmio ACIE de Cinema, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia e ainda o prêmio do Sistema Educacional de CANNES, mas CANNES tem todo ano, um filme como esse, aparece de 10 em 10 anos por essas bandas, isso quando temos sorte.


Jair Santana