“Contracorrente”, Javier Fuentes-León, 2010

Contracorriente

Contracorriente

“Contracorrente”, é o longa metragem de estréia do diretor peruano Javier Fuentes-León, o filme foi vencedor do prêmio na escolha do público no Festival de Sundance, e também levou  prêmios no Festival de San Sebastian e de Melhor Filme do Festival Mix Brasil de 2010.

“Contracorrente” conta a historia do pescador Miguel (Cristian Mercado), casado com Mariela (Tatiana Astengo), e vive um triangulo amoroso conflituoso com o artista plástico Santiago (Manolo Cardona) em uma isolada vila de pescadores.

O filme conta com esses três personagens muito bem construídos e complexos. Mesmo com alguns clichês, o roteiro é sensível, porém foge do piegas, e apesar de tradicional, é bem elaborado.

Pelo universo preconceituoso e extremamente masculino que vivem Miguel e Santiago, é impossível não comparar o filme com “Brokeback Mountain” e “Pecado da Carne”. E ao comparar, percebemos algumas semelhanças entre os personagens, como o de um deles ter mais certeza do que o outro sobre a segurança de sua paixão, enquanto o outro, vive a paixão conflituosa  entre a esposa e o amante. É importante também observarmos o grande contraponto entre os filmes. A esposa desse triangulo amoroso nos três casos.

Diferente da mulher americana de “Brokeback” e da judia de “Pecado da Carne”, a mulher latina de “Contracorrente” reage e luta pelo seu marido. Faz questão de saber o que acontece, e chega a abandoná-lo enquanto não sente nele a segurança de o ter por completo.

Outro ponto interessante entre os três filme é que, os três apresentam um espaço isolado (só dos amantes) para seus encontros amorosos. Seja a montanha de Brokeback, o quarto dos fundos de um açougue e no terceiro, uma praia mais isolada na ilha de pescadores.

Em “Contracorrente”, um ponto importante é que, assim como Aaron Fleishman (Zohar Strauss) em “Pecado da Carne”, Miguel, o pescador, é alguém muito respeitado em sua comunidade. E Santiago, o artista, é filho da região, mas mora na cidade grande e vai ao lugar para aproveitar a casa de praia. Ele tem a antipatia de todos da região, por desconfiarem de sua homossexualidade.

Miguel tem certeza de sua condição homossexual, mas insiste em não aceitar. Ama sua esposa, que espera um filho seu, mas seu desejo é mesmo por Santiago. E esse confito é um ponto alto do filme.

Numa cidade onde as convenções sociais ainda são mais fortes que a liberdade individual, quebrar essas convenções é assumir riscos de isolamento. E para alguém como Miguel, totalmente introduzido e de certa forma, dependente dessa comunidade, assumir essa luta em prol de sua liberdade, de sua paixão, é muito difícil.

Aí está um ponto importante no filme. A luta que ele prega contra a comunidade, mas antes de tudo, contra si mesmo. Quebrar convenções é quebrar com sua historia e seus costumes mais enraizados. E não quebrar, é se tolir, é não amar, não viver como realmente quer, é ser prisioneiro de si mesmo. Esse conflito é muito bem colocado pelo diretor, que é também roteirista do filme, e muito bem representado por Cristian Mercado.

Em determinado momento, o filme dá uma virada inesperada, por mais que seu final desde o inicio,  seja um pouco previsível, esse ponto de virada faz toda diferença no filme. Fugindo do realismo para um mundo fantástico.

O filme não chega a ser pesado. A dosagem certa de humor, dramas e romance, fazem com que “Contracorriente” seja um filme equilibrado, sem levar às lágrimas, mas também mantendo a questão com seriedade e firmeza.

A fotografia de Mauricio Vidal é muito bem realizada. A opção de se filmar numa cidade de praia, essencialmente com tomadas diurnas poderia dificultar a fotografia, e aqui, isso não acontece. A fotografia é segura, com sombras certas e paisagens que nunca roubam a cena, nunca tiram o olhar dos atores em foco, apesar das belas locações na costa do Peru. O som também é muito bem utilizado, o som do mar e do vento, sempre presentes nunca avançam mais do que deveriam, não atrapalhando o áudio dos atores..

A escolha do elenco também é super correta. Os três protagonistas, assim como os coadjuvantes escolhidos pelo diretor, parecem pessoas comuns, que realmente pertencem aquele lugar. Nada de galãs e mulheres muito belas, mas sim, pessoas reais. Nada soa artificial, tudo é muito orgânico.

“Contracorriente” apresenta boa historia com a segurança de um diretor experiente, um cinema latino questionador, que sabe realizar um bom cinema dentro da sua realidade de vida  e sem grandes orçamentos.

Jair Santana

“Rosa Morena”, Carlos Oliveira, 2010

Rosa Morena

Rosa Morena

Rosa Morena, produção Brasil/Dinamarca, é o filme de estreia do diretor brasileiro Carlos Oliveira. E já em seu primeiro filme, de roteiro também seu com Morten Kirkskov,  Carlos apresenta uma direção segura e um estilo de filme que não é comum por aqui.

Rosa Morena é um drama denso, realista e acima de tudo emocionante. Thomas é um homossexual dinamarques, que por essa condição, em seu país não pôde adotar uma criança. Vem então ao Brasil, onde tem um velho amigo, Jacob, em busca desse filho adotivo. Até aí temos o velho clichê do europeu rico que vai aos paises pobres em busca de filhos adotivos. Mas os clichês param por aí.

Não mais disposto a esperar pelos tramites legais da adoção, Thomas busca seu objetivo querendo “comprar” um filho. Aí já temos um primeiro questionamento. O fato de se comprar uma criança de uma mãe, mesmo em dificuldade é correto? O filme porém não para por ai, assim como Thomas busca comprar, existe os que querem ganhar em cima desse interesse, fazendo disso, como é frisado em certa altura do filme, um grande negócio.

Thomas tenta uma primeira vez, se aproximando de uma mãe humilde e fazendo uma proposta.Porém não é bem vinda. A esposa de Jacob, interpretada pela ótima Viviane Pasmanter, trabalha com comunidades carentes e conhece uma mulher grávida que tem interesse no “negócio”. Thomas conhece e se aproxima da mãe e de sua familia. Passa então a conviver, conhecer e até se envolver com ela. Essa aproximação acaba trazendo problemas e tensão.

O filme tem vários acertos. O roteiro muito bem escrito, a direção de fotografia Philippe Kress é muito bem realizada. Interessante notar como é muito mais um estilo europeu que brasileiro. O olhar da periferia, da pobreza é diferente de como é retratado nos filmes brasileiros. Pois como o diretor salientou, o Brasil que vemos alí é a partir da visão de um europeu.

A escolha do elenco também é um ponto certo. Rostos menos conhecidos e o ótimo roteiro dá naturalidade as interpretações. Você acredita em cada personagem. Viviane Pasmanter é o rosto mais conhecido, e ainda assim, não é um rosto óbvio. O filme não se vende pelo elenco famoso e sim pela questão que coloca.

Ainda temos trilha sonora. Algo que ainda é um problema na maiorida dos filmes brasileiros, aqui é outro dos pontos mais fortes. O responsável é o compositor dinamarques Frithjof Toksvig, desconhecido por aqui, mas em seu país é um compositor bem requisitado para trilhas de cinema, séries e comerciais.

“Rosa Morena” é um filme que questiona, mas não julga. Faz melhor. Nos coloca situações para que o espectador avalie, pense, se questione. E também chama atenção tanto para a lentidão na justiça para uma adoção (existem mais de 80 mil crianças orfãs no Brasil), para também o quanto é “facil” burlar a lei e conseguir esse filho por outras vias. Mais que certo ou errado, o filme nos apresenta uma realidade muito particular dessa situação, questionando mas não colocando um ponto final.

Cinema brasileiro com um outro e novo olhar. O jovem diretor Carlos Oliveira, que hoje vive na Dinamarca, trás uma autênticidade ao cinema brasileiro que vemos pouco. O cinema que por aqui costuma se resumir a comédias e filmes de ação, encontra nesse drama um debate sobre questõres muito próximas a nossa realidade. E aí é a grande chave do filme.

“Rosa Morena” não é um filme sobre favela, sobre pobreza, é sobre relações humanas e busca de um sonho. O quanto custa buscar o seu sonho e até onde podemos ir por eles.

Jair Santana