“Rio”, Carlos Saldanha, 2011

Cartaz do filme "Rio"

Carlos Saldanha percorreu um longo e sólido caminho até chegar a direção do filme “Rio”, um dos maiores sucessos de bilheteria de 2011. Começou como produtor de curtas metragens, depois passou a trabalhar com efeitos visuais de filmes como “Um Passe de Mágica” e “Clube da Luta”, até chegar na co-direção de “A Era do Gelo” e “Robôs”. Já em 2006 assumiu a direção da franquia e dirigiu “A Era do Gelo 2” e logo em seguida em 2009 a ultima parte da trilogia, “A Era do Gelo 3”. Mas talvez seja em “Rio” que sentimos que Carlos Saldanha chega a sua maturidade como diretor.

“Rio” apresenta a historia de Blu, uma arara azul, com quase o mesmo do mesmo nome do estúdio onde foi criado, Blue Sky, ramificação de animação da FOX. A arara azul, é uma espécie nativa da mata atlântica brasileira, que se encontra ameaçada de extinção.

Blu (Jesse Eisenberg) foi capturado ainda jovem por contrabandistas de aves, e acabou, por acidente, caindo em uma pequena cidade no frio estado de Minnesota nos EUA, aos cuidados da jovem Linda (Leslie Mann ), com quem tem uma forte relação de amor e confiança.

Blu é encontrado por um ornitólogo (biológo que se dedica ao estudo das aves), Túlio (Rodrigo Santoro), que tenta convencer Linda a levar Blu para o Brasil para que ele possa encontrar uma fêmea de sua espécie com a finalidade de perpetuar sua espécie.

Como bom roteiro clássico que é, Linda e Blu apresentam uma certa negação a sair do seu lugar comum e partir para o mundo especial, mas lógicamente acaba indo para o Rio de Janeiro, para que Blu encontre com Jade (Anne Hathaway) e viva sua esperada aventura.

O roteiro é de Don Rhymer, de “Vovó Zona 1,2 e 3” e “Ta Dando Onda”. Roteiro clássico, sem novidades, com clichês e final previsível. Sim, mas com tudo isso, ainda é um roteiro com uma boa mensagem, do cuidado com a preservação de animais em extinção, com bons personagens e com muitas tiradas engraçadas. Mais que isso, com um humor, que apresenta certa leveza e consegue agradar crianças, e também com uma inteligência que consegue agradar aos adultos.

Apesar de muitos críticos esquecerem, devemos lembrar que acima de tudo, “Rio” é uma animação, diferente de “Wall-E” de Andrew Stanton e “O Mágico” de Sylvain Chomet, que são animações adultas. “Rio” é sim, acima de tudo um filme infantil, por isso, alguns clichês, como o final feliz, são necessários para que as crianças não saiam frustradas do cinema.

E o interessante no filme é justamente, que “Rio”, consegue manter uma ingenuidade e sutileza dos filmes infantis, sem ser um filme bobo e aleatório, conseguindo agradar, e muito, os adultos também.

Visualmente, Carlos Saldanha conseguiu construir um filme rico, belo, cheio de detalhes reais de seu cenário inspirador. Construiu um Rio de Janeiro apaixonante, mesmo sem esconder a pobreza das favelas. Mesmo que seja tudo com sua liberdade poética e um visual romantizado, a favela, a pobreza, presente no personagem do garotinho, e a marginalidade, nos personagens que traficam as aves, estão presentes no filme. Está tudo ali, bom e o ruim Rio de Janeiro.

Um Rio de Janeiro com liberdade poética claro, onde se pula de asa delta na Gávea e se passeia ao redor do Cristo Redentor. Mas não se pode procurar verossimilhança espacial em um filme, ainda mais em uma animação. Criticar esse ponto, já seria um exagero quase que patológico.

Muitos críticos brasileiros reclamaram dos clichês apresentados no filme, como se no Rio, os cariocas vivessem em função do carnaval ou falassem inglês fluentemente. Talvez, o problema seja realmente dos críticos, por esquecerem primeiro, que o filme, não é brasileiro, e por ser realizado por um estúdio americano e voltado para o mercado internacional, logicamente será falado em inglês. E segundo, o Rio de Janeiro, próximo ao carnaval, vive sim, em função da festa. Mas talvez, pra se entender isso, tenha que se viver no Rio de Janeiro por algum tempo, para se ter a visão do que representa o carnaval para a cidade e para o carioca. Carnaval esse, que começa sua preparação, festas e ensaios, no segundo semestre do ano anterior, com pessoas vivendo plenamente o carnaval, mesmo já próximo do natal por exemplo. Mas não vamos aqui, continuar dissertando sobre a ignorância de alguns críticos.

Temos sim que entender, o objetivo do filme, para que público ele foi feito, qual sua mensagem, e se ele consegue não subestimar, levar a mensagem, e agradar seu público. E isso, “Rio” já mostrou que tem feito.

Não podemos deixar de falar de dois pontos importantes do filme. O elenco selecionado para dar voz aos personagens. Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, Rodrigo Santoro, Leslie Mann e ainda participações especiais, como a brincadeira de Saldanha de convidar a cantora Bebel Gilberto para dar vo a desafinada tucana Eva. Elenco de primeira linha. Eisenberg e Anne Hathaway como Blu e Jade respectivamente, estão excelentes, dando com suas interpretações, personalidades fortes aos personagens.

Outro ponto forte é a música, assinada por John Powell, Sérgio Mendes e Will i.am. A mistura do samba e da música brasileira com o pop americano talvez nunca tenha sido tão bem realizado. Ali, a presença de Sérgio Mendes foi essencial para esse resultado. A trilha sonora do filme é um personagem a mais. Tanto as canções com o a trilha incidental, casam perfeitamente com o clima do filme.

“Rio” já é um grande sucesso de público, com crítica dividida, mas sem muitos ataques ao filme, com certeza é um trabalho de ótimos atributos, que vem a firmar a carreira de Carlos Saldanha como um dos mais fortes nomes da animação mundial.

Jair Santana

“Casamento de Rachel”, Jonathan Demme, 2008

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Casamento de Rachel

O novo filme de Jonathan Demme, é no mínimo diferente de tudo que ele ja fez até então. Um drama familiar, mais estilo “Dogma 95” do cinema americano, contrariando o estilo usual do diretor.

Para nos situarmos, Jonathan Demme é diretor de um dos maiores vencedores do Oscar da historia que é “Silêncio dos Inocentes”, um dos poucos filmes da historia do cinema a ganhar os 5 principais prêmios. Demme é também diretor de “Filadélfia” e “Sob Domínio do Mal” por exemplo.

O filme traz no papel principal Anne Hathaway, como Kim, uma ex viciada, que volta pra casa às vésperas do casamento da irmã Rachel, interpretada por Rosemarie DeWitt. Essa reunião familiar levanta questões delicadas, como a morte de um irmão mais novo, a separação dos pais, o próprio relacionamento entre as irmãos Kim e Rachel.

Anne Hathaway realmente dá um show de interpretação, mas está sendo superestimada pela crítica americana. Recebeu indicação ao Oscar de melhor atriz, perdeu para Kate Winslet em “O Leitor”. Um show também dá Debra Winger, na pele de Abby, mãe de Kim e Rachel.

Na verdade, a interpretação de Anne Hathaway lhe rendeu não só a indicação ao Oscar, mas ainda do Globo de Ouro , que também difouc com Kate Winslet, e na Independent Spirit Awards. O roteiro também foi indicado na Independent Spirit Award como melhor roteiro de estreia.

O filme fala de uma mãe louca, uma filha patricinha, um pai ausente, uma segunda filha viciada e um filho morto em um acidente de carro que a irmã viciada dirigia, e todos conflitos que podem surgir a partir daí. Um forte drama familiar, cheio de pendencias, acertos de conta, sentimentos ocultos.

Em síntese, o filme coloca que as famílias têm problemas sim, se amam sim, e tem que aprender a conviver com tudo isso, e não simplesmente tentar colocar pra baixo do tapete. Em um determinado momento, tudo vem a tona.

Filmado com câmera na mão, luz o mais naturalista possível, edição rápida, o filme busca características mais de documentários que de ficção. Parecendo por vezes, um vídeo de família simplesmente. Essa aproximação dá uma aproximação personagem-espectador que fortalece a dramaticidade do filme.

Jair Santana