“Entre os Muros da Escola”, Laurent Cantet, 2007

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Entre os Muros da Escola

O filme tem roteiro e direção de Laurent Cantet, baseado no livro homônimo de François Bégaudeau, que interpreta o professor François Marin do filme, esse filme de baixo orçamento, foi um sucesso de público (2 milhões só na França) e crítica na França e por onde tem passado.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes “Entre os Muros da Escola” nos coloca dentro de uma sala de aula, que representa a síntese da França atual.

O filme conta historia de um professor, François Marin, que da aula a turmas do ensino médio em uma escola do subúrbio de Paris, mostrando sua relação com os alunos, a luta por ensinar algo a eles, seu o dia a dia de sua sala de aula, os conflitos, as dificuldades, as relações dos alunos entre eles e com os professores.

A sala de aula é repleta de estudantes das mais variadas origens, com os mais diferentes interesses, enquanto François, de origem francesa, vindo de um ensino iluminista, quer ensinar literatura e artes ocidentais, seus alunos buscam outras coisas e muitas vezes não sabem o que é.

Assim é a França, mais que isso, a Europa de hoje, com forte problema de identidade, já retratado em vários filmes recentes, como em “Do Outro Lado” de Fatih Akin. A não aceitação de novas culturas, o conflito do velho com o novo, tudo isso, é colocado no filme.

François Bégaudeau, o autor do livro, que é um dos personagens no filme, o professor, é também professor na vida real. Os alunos do filme são em sua maioria, alunos de escolas francesas do subúrbio de Paris.

A maioria dos personagens, principalmente os alunos, tem o mesmo nome na vida real. O personagem principal, o professor, François Marin por exemplo é na vida real o professor François Bégaudeau, onde só muda o sobrenome. Com algumas exceções como o Souleymane que na vida real tem o nome de Franck Kelta e a maioria dos professores.

A historia de Souleymane é por sinal uma das mais interessantes. Seu personagem é irritante, brigão, indisciplinado, aparentemente até perigoso. Mas depois, percebemos que ele não somente isso, mas é também um bom filho, responsável por muita coisa em casa, tem uma familia unida, mas o conflito entre a cultura dentro de casa, a de fora, e falta de identificação com as duas talvez o deixe perturbado, negando tudo que chega até ele.

O filme, apesar de ser uma ficção, é quase realizado como um documentário, com tamanha verdade pela qual é filmado. Não só por nos colocar diante de verdadeiros alunos, professores, por nos colocar dentro de uma escola real e não de um cenário, mas pelo formato, pela segurança da direção, pela fotografia que é realizada no filme, com câmera na mão, com uma decupagem forte, com um tempo certo para cada cena.

“Entre os Muros da Escola” é um filme mais que francês, e sim mundial. Nosso mundo está com uma educação atrasada ( o Brasil então..), careta, sem perspectivas de melhoras, mesmo que o autor diga que seu livro não é negativo, é isso que vemos alí.

A cena em que uma aluna de François chega a ele, depois de ter passado o ano na sua turma, e diz: “Eu não aprendi nada esse ano. Nada me interessou e nada me interessa. Não quero ser nada quando crescer”, é um cena assustadoramente verdadeira.

O que fazer pra chamar atenção de uma criança assim? Como dentro do formato escolar de hoje, chamar essa garotinha e fazer com ela se interesse por alguma coisa?

Saí chocado do cinema. Saí extasiado com tamanha inteligência e sutiliza no roteiro. Sai maravilhado com o cinema ali me apresentado. Saí pensando. Pensar, é a melhor coisa que um filme pode nos proporcionar. Quando levamos ele pra casa, dormimos com ele, e ele não vai embora…fica por dias nos fazendo companhia.

Jair Santana