“Laços”, Flávia Lacerda, 2008

O curta metragem “Laços” foi vencedor do concurso internacional “Project Direct” do Youtube, e como prêmio, a diretora ganhou US$ 5.000 e participou do Festival de Sundance em 2008, o principal festival de cinema independente nos Estados Unidos.

“Laços” surgiu do interesse dos amigos Clarice Falcão e Célio Porto no concurso. Clarice é  filha da roteirista Adriana e do dirfetor da TV Globo João Falcão.

Clarice pediu à mãe que escrevesse um roteiro e ela e Célio chamaram Flávia Lacerda, que já tinha sido assistente de direção de João Falcão, e Felipe Reinheimer fez a fotografia.

Participam como atores Clarice, Célio Porto e Jô Abdu. A música foi composta especialmente por Clarice, e o arranjo foi feito por Ricco Viana, que é responsável por toda a trilha.

Com duração de 6 minutos e 43 segundos, “Laços” conta a história do encontro entre uma garota cujo pai acabou de morrer e um garoto misterioso, na rua. Utilizando uma câmera AG-DVX100, as filmagens duraram um dia e foram realizadas no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. A produção custou R$ 1.500, gastos principalmente na parte de edição e alimentação da equipe.

Adriana Falcão ficou surpresa com a vitória. principalmente porque, entre os outros 19 finalistas (o curta venceu produções dos EUA, que ficaram com os segundo e terceiro lugares, Canadá, Espanha, Itália, França e Reino Unido), a maioria tinha uma qualidade técnica maior e foi filmada em película, em vez de em formato digital. “Quando vi os outros filmes, senti um profissionalismo muito maior”,  diz ela.

Filme: Laços
Direção: Flávia Lacerda
Roteiro: Adriana Falcão
Fotografia e Câmera: Felipe Reinheimer
Téc. de Som: Aloysio Compasso
Edição: Rodrigo Lima
Trilha Sonora: Ricco Viana
Música: “Australia”, composição e voz Clarice Falcão
Produtores: Adriana Falcão, Felipe Reinheimer, Clarice Falcão, Célio Porto e Jô Abdu
Elenco: Clarice Falcão, Célio Porto e Jô Abdu

“Reencontrando a Felicidade”, John Cameron Mitchel, 2011

Reencontrando a Felicidade

Reencontrando a Felicidade

“Reencontrando a Felicidade” é o terceiro longa do já cultuado diretor John Cameron Mitchell. Seus primeiros trabalhos, “Hedwig”“Shortbus”, são bem diferentes e mais, digamos, undergrounds que “Reencontrando a Felicidade”.

O roteiro é de David Lindsay-Abaire, baseado em roteiro de sua própria peça, vencedora de vários prêmios na Broadway, incluindo o de Cynthia Nixon (a Miranda de Sex and the City 2), que ganhou um prêmio Tony, espécie de Oscar do teatro americano, por seu papel de mãe em luto, personagem de Kidman no filme, que pelo personagem concorreu ao Oscar.

Basicamente, “Reencontrando a Felicidade” é um filme sobre perdas. Talvez, a pior delas que a perda de um filho. Porém, diferente do que se pode imaginar de um filme com essa temática, o filho não faz parte fisicamente do filme. Não temos contato diretamente com ele, pois a historia começa após oito meses a morte de Danny, o filho casal Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), que até então, levavam uma vida que se pode chamar de “perfeita”.

O mergulho no drama dos dois é apresentado lentamente, Danny quase não é apresentado fisicamente ao espectador, exceto em uma cena que não dura mais que alguns poucos segundos em um vídeo de Howie, talvez para fechar ao espectador, a real existência de Danny na vida dos dois. Essa presença é percebida principalmente pelo quarto, pelos desenhos, brinquedos, roupas, em cada detalhe da casa, da vida cotidiana dos dois.

A grande diferença do modo de lidar com essa perda é que o foco principal do filme. Trabalhar essa ausência ou simplesmente tentar apagar as lembranças? É possível apagar?

Enquanto Becca tenta apagar tudo que remeta ao filho e a época feliz que eles viveram e que não voltará mais, Howiw tenta lembrar com carinho e lidar com a perda tentando voltar a sua vida normal.

Pela historia, o filme teria tudo para ser um grande melodrama, cheio de clichês piegas e manipuladores. Mas não, “Reencontrando a Felicidade” vai em caminho contrário a isso. Justamente esse ponto torna o filme mais interessante que a grande maioria sobre o assunto.

Porém isso não torna o filme menos denso e menos triste. Mesmo sem ver a criança, nos envolvemos com o drama do casal, a historia vai sendo apresentada devagar, e na mesma velocidade vamos nos envolvendo, e cada vez mais vamos conhecendo os fatos.

Interessante em certo momento observar, a ida de Becca ao antigo emprego, que abandonou quando perdeu o filho. Após oito meses as coisas mudaram. Alguns colegas não estão mais por lá, outros foram promovidos, ou seja, as coisas continuaram, a vida continuou, ao contrário da personagem que ficou congelada, parada desde então.

A produção do filme é da própria Nikole Kidman, por se interessar na historia, sem mesmo chegar a assistir a peça na Broadway. Marcou um encontro com David Lindsay e seu produtor para comprar os direitos da peça. Esse interesse pelo papel foi muito feliz. Nicole concorreu ao Oscar, Globo de Ouro e vários outros prêmios pelo mundo. É o melhor personagem de Nicole desde Grace de “Dogville”.

Outro destaque no filme é a participação da experiente atriz Diane Wiest como Nat, mãe de Becca. A personagem passou por um problema parecido, e perdeu um filho, por outro motivo. Diane só não chega a roubar a cena porque Nicole está igualmente bem no papel. Diane também concorreu a vários prêmios. Esse é mais um grande personagem dessa talentosa atriz. Seus momentos no filme são fortes e fundamentais.

A direção de Mitchel veio a partir de uma historia pessoal sua, pois aos 14 anos Mitchel perdeu um irmão de apenas 10 anos, e sua família não conseguiu superar completamente esse perda até hoje. Talvez daí a delicadeza e a sensibilidade no tratamento do tema.

A fotografia de Frank G. DeMarco também é um ponto positivo no filme. Predomina o ocre, o sépia, principalmente em cenas na casa, como em fotos antigas, remetendo sempre a lembranças, ao passado. Frank já havia trabalhado antes com Mitchel em “Shortbus”.

A música de Anton Sanko é de grande sensibilidade, melancólica mas não demasiadamente triste. Anton equilibra bem cordas e o suave toque do piano para demonstrar o atual cotidiano arrastado do casal. A trilha sonora é um ponto forte do filme.

“Reencontrando a Felicidade”, é mais um acerto na carreira de John Cameron Mitchell, mais um acerto na carreira de Nicole Kidman e todos os envolvidos. Um filme belo, atemporal, de sensível, que não teve a repercussão que merecia, que não teve o público que merecia, mas que como todo bom filme, pode ser descoberto e redescoberto por qualquer um a qualquer tempo.

Jair Santana

“Ricky”, François Ozon, 2009

Cartaz de "Ricky"

Cartaz de "Ricky"

A principal afirmação que podemos fazer sobre “Ricky”, filme do diretor francês François Ozon, é que é, apesar do tom realista, o filme não passa de uma grande e bonita fábula.

Algo cabe ao espectador nesse filme. Estar livre, estar de peito aberto ao que o diretor lhe propões, e a partir daí, mergulhar no filme. Podemos dizer, que é difícil até, classificar o filme em algum gênero se o quisermos fazer.

A clima do filme é de extremo naturalismo. Ainda no prólogo do filme, Kate chora copiosamente para assistente social, falando que não consegue criar o filho, pois ele chora demasiadamente. Então voltamos alguns meses antes, para conhecermos a história.

Kate é uma mãe solteira, cria sua filha Lisa sozinha, mas já na primeira cena, percebemos que a há uma inversão de responsabilidades. Lisa, apesar de pouca idade, aproximadamente 7 ou 8 anos, é quem acorda a mãe para o trabalho, faz o café da manhã, como se a dona da casa realmente fosse Lisa.

Kate trabalha em uma fábrica, tem uma vida medíocre, sem perspectivas. Conhece Paco, quando esse começa a trabalhar na fábrica também. Os dois tem um envolvimento impulsivo, e logo Kate engravida.

O filho de Paco e Kate é Ricky. A criança é o motivo da virada de 180° que o filme dá. Como é motivo de virada na vida daquela familia. Mas aqui, Ricky é uma criança mais que especial. Ricky vai colocar em jogo a confiança da família, a união familiar, e mais que colocar em jogo, vai ser também o grande motivo de aproximação desse núcleo familiar.

Essa virada do filme pode causar estranhamento em alguns espectadores. Ozon passeia entre momentos engraçados e sequências mais fortes e emocionantes, como quando Lisa espera pela mãe sozinha até a noite em frente a escola.

Paco entra rapidamente na vida de Kate e Lisa. Com a chegada de Ricky as coisas ficam mais difíceis, por causa do horário de trabalho, o pouco dinheiro. Algumas marcas roxas em Ricky fazem com que Kate questione Paco sobre seu comportamento quando ele está sozinho com o filho. Paco não suporta a desconfiança e sai de casa.

Kate e Lisa passam sozinhas a cuidar de Ricky, Lisa começa a ter ciúmes de toda atenção, que inclusive é exigida com que ela dê a Ricky, e com isso, novos situações vão surgindo, novas tensões familiares aparecem, inclusive a tentativa de retorno de Paco.

Algumas situações são colocadas, mas sem que seja dada muito importância a elas, como a reação da sociedade a anomalia de Ricky. E isso não é o mais importante. Como a sociedade se comporta é o que menos importa. O importante ali, é como a família se comporta. O retorno de Kate a sua função de mãe por exemplo.

A cena de Kate no lago, lembra uma espécie de batismo, de renascimento dessa família, que passa a se reestrutura como uma família a partir dalí.

“Ricky” é um convite ousado que Ozon faz a seu público, que precisa estar aberto a proposta do filme. Um convite inusitado e gostoso. Pois “Ricky” é um filme diferente, inteligente, com tons de um humor sutil, uma outra característica de Ozon, mas ao mesmo tempo uma forte carga dramática existente o tempo todo no filme.

Jair Santana

“O Clã das Adagas Voadoras”, Shigeru Umebayashi

Filme: O Clã das Adagas Voadoras
Diretor: Zhang Yimou
Ano: 2004
Música: Lovers Flower Garden
Composição: Shigeru Umebayashi
Trilha Sonora do Filme: Shigeru Umebayashi

“A Minha Versão do Amor”, Richard J. Lewis, 2010

A Minha Versão do Amor

A Minha Versão do Amor

O filme “A Minha Versão do Amor” não é mais uma comédia romântica caça níquel como o bobo título sugere. Título horroroso por sinal. Prefira o original, “Barney’s Version”. O filme aqui exige mais do espectador que a maioria enquadrada nesse gênero. Gênero esse que a distribuidora por aqui quis assumir pra atrair mais público.

Dirigido por Richard J. Lewis, conhecido diretor de seriados de televisão como CSI , “A Minha Versão do Amor” conta a historia de Barney Panofsky (Paul Giamatti), um total anti-heroi, fanfarrão, passional, arrogante, ácido, além de sortudo e chato.Ou seja, um personagem mais comum e real que a maioria que o cinema nos apresenta.

Sua historia é contada a partir das recordações de Barney, que está por votla de seus 60 anos. Apresentando em seu roteiro elipses temporais, conseguindo com isso, dar uma enxugada ao que realmente interessa. Sendo assim, o pouco mais de 2 horas do filme passam sem cansar o espectador.

Barney é fiel aos amigos mais que as suas esposas. Elas, as esposas, durante sua vida foram três. Cada uma por um motivo diferente, e somente uma delas por amor. Amor incondicional, mas cheio de falhas, como o bom ser humano que Barney é.

Sua historia de vida passa entre a comédia e o drama. Cheia de erros e acertos pessoais e morais, e isso torna o roteiro de Michael Konyves, baseado no Best seller canadense “Barney’s Version” do escritor Mordecai Richler, genial. Torna o personagem mais próximo do que podemos chamar de “humano”.

Esse é realmente o forte do roteiro, a humanidade do personagem. O fato do filme estar entre o drama e a comédia, e manter esse equilíbrio de forma inteligente e eficaz o enriquece ainda mais. Sobre tudo isso, uma pitada de suspense e policial, com a investigação de um assassinado com Barney como principal suspeito. Não, o filme não se torna confuso, pelo contrário, são informações que só acrescentam a personalidade de Barney.

Ótimos e rápidos diálogos, aparentemente comuns, em especial de Barney com seu pai Izzy, com os quais, o espectador pode se identificar inúmeras vezes, tanto de um lado (do Barney) quanto do outro. O “lugar comum” aqui é muito bem trabalhado.

O roteiro é o que poderíamos classificar como verborrágico, porém nunca se fala mais que o necessário. Há o ponto certo entre o que a imagem deve falar, e a palavra. Pode-se identificar um pouco de Woody Allen na referência do roteiro e até do próprio personagem com suas paranóias.

Ora odioso, ora apaixonante, quem dá vida a Barney Panofsky, é o extraordinário ator Paul Giamatti, vencedor do Globo de Ouro por esse papel, Giamatti é um ator de formação refinada, mestre em artes dramáticas na Universidade de Yale nos EUA, e agora parece que realmente chegou sua vez em Hollywood. Os olhares, o tom certo da ironia, o sarcasmo, a paixão com que se entrega Giamatti aqui, surpreende. Soma-se a Giamatti as aparições de Dustin Hoffman, (Izzy Panofsky, pai de Barney) e também Rosamund Pike, como sua esposa Miriam.

Quem vai assistir esperando uma “historia de amor” com o clichê do final feliz pode se decepcionar, ou não (como diria Caetano). O filme é seguro e coerente com a historia de seu personagem. Com momentos fortes e tocantes, e acima de tudo, momentos humanos, que se aproximam do que podemos chamar de real.

Barney é um ser passional e apaixonado, cheio de vulnerabilidades, e isso lhe causa uma série de problemas na sua vida. Falar somente da história aqui é muito difícil, pois sua imagem é muito importante e curiosa. Não há como separar o personagem do “fio” da historia. Nesse caso aqui, não é o destino que chama que o chama para historia, é justamente o contrário, Barney chama o destino pra ele.

Curioso como o roteiro nos coloca em uma situação onde é difícil de julgar suas atitudes quando conhecemos sua historia de vida. Mas facilmente “julgável” quando escolhemos algumas de suas ações isoladamente. Mais uma vez, como na vida real, não se pode ser muito pragmáticos nos julgamentos.

Outro bom acerto do filme é a música de Pasquale Catalano, compositor italiano responsável por trilhas sonoras de filmes como “O Primeiro que Disse” e “As Consequências do Amor”. Catalano realiza uma trilha emocionante, mas não melancólica, casando perfeitamente com o clima oferecido pelo filme.

A fotografia de Guy Dufaux (de “Invasões Bárbaras” e “A Era da Inocência”) é correta. Porém, vejo aqui que o roteiro, cheio de elipses, realizado em dois tempos diferentes, pudessem oferecer uma liberdade maior para se brincar com a luz, com a cartela de cores. Senti um pouco de falta disso.

Uma ótima frase pra se sintetizar a vida de Barney Panofsky está no filme, “A vida real, ela é feita de pequenas coisas… minutos, horas, tarefas, rotinas e isso tem que bastar”. A partir dessa frase, cabe ao espectador analisar e se questionar sobre o que é o “final feliz” na vida do personagem. Se é que o “final feliz” é o que realmente importa.

Jair Santana

“Barry Lyndon”, Leonardo Rosenman

Filme: Barry Lyndon
Diretor: Stanley Kubrick
Ano: 1975
Música: Theme Sarabande
Composição: Leonardo Rosenman
Trilha Sonora do Filme: Leonardo Rosenman

“2046 – Os Segredos do Amor”, Peer Raben e Shigeru Umebayashi

Filme: 2046 – Os Segredos do Amor
Diretor: Wong Kar-Wai
Ano: 2004
Música: Polonaise
Composição: Peer Raben e Shigeru Umebayashi
Trilha Sonora do Filme: Peer Raben e Shigeru Umebayashi

“Rio”, Carlos Saldanha, 2011

Cartaz do filme "Rio"

Carlos Saldanha percorreu um longo e sólido caminho até chegar a direção do filme “Rio”, um dos maiores sucessos de bilheteria de 2011. Começou como produtor de curtas metragens, depois passou a trabalhar com efeitos visuais de filmes como “Um Passe de Mágica” e “Clube da Luta”, até chegar na co-direção de “A Era do Gelo” e “Robôs”. Já em 2006 assumiu a direção da franquia e dirigiu “A Era do Gelo 2” e logo em seguida em 2009 a ultima parte da trilogia, “A Era do Gelo 3”. Mas talvez seja em “Rio” que sentimos que Carlos Saldanha chega a sua maturidade como diretor.

“Rio” apresenta a historia de Blu, uma arara azul, com quase o mesmo do mesmo nome do estúdio onde foi criado, Blue Sky, ramificação de animação da FOX. A arara azul, é uma espécie nativa da mata atlântica brasileira, que se encontra ameaçada de extinção.

Blu (Jesse Eisenberg) foi capturado ainda jovem por contrabandistas de aves, e acabou, por acidente, caindo em uma pequena cidade no frio estado de Minnesota nos EUA, aos cuidados da jovem Linda (Leslie Mann ), com quem tem uma forte relação de amor e confiança.

Blu é encontrado por um ornitólogo (biológo que se dedica ao estudo das aves), Túlio (Rodrigo Santoro), que tenta convencer Linda a levar Blu para o Brasil para que ele possa encontrar uma fêmea de sua espécie com a finalidade de perpetuar sua espécie.

Como bom roteiro clássico que é, Linda e Blu apresentam uma certa negação a sair do seu lugar comum e partir para o mundo especial, mas lógicamente acaba indo para o Rio de Janeiro, para que Blu encontre com Jade (Anne Hathaway) e viva sua esperada aventura.

O roteiro é de Don Rhymer, de “Vovó Zona 1,2 e 3” e “Ta Dando Onda”. Roteiro clássico, sem novidades, com clichês e final previsível. Sim, mas com tudo isso, ainda é um roteiro com uma boa mensagem, do cuidado com a preservação de animais em extinção, com bons personagens e com muitas tiradas engraçadas. Mais que isso, com um humor, que apresenta certa leveza e consegue agradar crianças, e também com uma inteligência que consegue agradar aos adultos.

Apesar de muitos críticos esquecerem, devemos lembrar que acima de tudo, “Rio” é uma animação, diferente de “Wall-E” de Andrew Stanton e “O Mágico” de Sylvain Chomet, que são animações adultas. “Rio” é sim, acima de tudo um filme infantil, por isso, alguns clichês, como o final feliz, são necessários para que as crianças não saiam frustradas do cinema.

E o interessante no filme é justamente, que “Rio”, consegue manter uma ingenuidade e sutileza dos filmes infantis, sem ser um filme bobo e aleatório, conseguindo agradar, e muito, os adultos também.

Visualmente, Carlos Saldanha conseguiu construir um filme rico, belo, cheio de detalhes reais de seu cenário inspirador. Construiu um Rio de Janeiro apaixonante, mesmo sem esconder a pobreza das favelas. Mesmo que seja tudo com sua liberdade poética e um visual romantizado, a favela, a pobreza, presente no personagem do garotinho, e a marginalidade, nos personagens que traficam as aves, estão presentes no filme. Está tudo ali, bom e o ruim Rio de Janeiro.

Um Rio de Janeiro com liberdade poética claro, onde se pula de asa delta na Gávea e se passeia ao redor do Cristo Redentor. Mas não se pode procurar verossimilhança espacial em um filme, ainda mais em uma animação. Criticar esse ponto, já seria um exagero quase que patológico.

Muitos críticos brasileiros reclamaram dos clichês apresentados no filme, como se no Rio, os cariocas vivessem em função do carnaval ou falassem inglês fluentemente. Talvez, o problema seja realmente dos críticos, por esquecerem primeiro, que o filme, não é brasileiro, e por ser realizado por um estúdio americano e voltado para o mercado internacional, logicamente será falado em inglês. E segundo, o Rio de Janeiro, próximo ao carnaval, vive sim, em função da festa. Mas talvez, pra se entender isso, tenha que se viver no Rio de Janeiro por algum tempo, para se ter a visão do que representa o carnaval para a cidade e para o carioca. Carnaval esse, que começa sua preparação, festas e ensaios, no segundo semestre do ano anterior, com pessoas vivendo plenamente o carnaval, mesmo já próximo do natal por exemplo. Mas não vamos aqui, continuar dissertando sobre a ignorância de alguns críticos.

Temos sim que entender, o objetivo do filme, para que público ele foi feito, qual sua mensagem, e se ele consegue não subestimar, levar a mensagem, e agradar seu público. E isso, “Rio” já mostrou que tem feito.

Não podemos deixar de falar de dois pontos importantes do filme. O elenco selecionado para dar voz aos personagens. Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, Rodrigo Santoro, Leslie Mann e ainda participações especiais, como a brincadeira de Saldanha de convidar a cantora Bebel Gilberto para dar vo a desafinada tucana Eva. Elenco de primeira linha. Eisenberg e Anne Hathaway como Blu e Jade respectivamente, estão excelentes, dando com suas interpretações, personalidades fortes aos personagens.

Outro ponto forte é a música, assinada por John Powell, Sérgio Mendes e Will i.am. A mistura do samba e da música brasileira com o pop americano talvez nunca tenha sido tão bem realizado. Ali, a presença de Sérgio Mendes foi essencial para esse resultado. A trilha sonora do filme é um personagem a mais. Tanto as canções com o a trilha incidental, casam perfeitamente com o clima do filme.

“Rio” já é um grande sucesso de público, com crítica dividida, mas sem muitos ataques ao filme, com certeza é um trabalho de ótimos atributos, que vem a firmar a carreira de Carlos Saldanha como um dos mais fortes nomes da animação mundial.

Jair Santana

Entrevista com Toniko Melo

Toniko Melo

Toniko Melo começou a carreira na produtora Olhar Eletrônico, onde atuou como diretor, câmera e montador de programas para a televisão, documentários e videoclipes de artistas consagrados como Legião Urbana, Blitz e Caetano Veloso. Em  89 passou a atuar como diretor de filmes publicitários e, em 93, começou a trabalhar na produtora O2 Filmes. Como diretor de publicidade, já recebeu prêmios importantes, alguns deles em premiações internacionais como o festival Ojo de America, em Buenos Aires, e o Festival de Cannes de Publicidade. Em 2008 dirigiu episódios da série “Som & Fúria” para TV Globo, com produção da O2 Filmes e direção geral de Fernando Meirelles. “Vips”, seu primeiro longa-metragem, foi vencedor de quatro troféus no Festival do Rio de 2010, entre ele o de melhor filme do festival.
Apaixonado por cinema como costuma se identificar, tem como alguns de seus diretores preferidos Terence Malick e Paul Thomas Anderson. Identifica que o  cinema brasileiro está vivendo um ótimo momento, “A cinematografia brasileira amadureceu, tomou coragem, criou cumplicidade com o público”, afirmou em conversa com o site “Cinema com Rapadura”.
Entrei em contato com o diretor para conversarmos um pouco sobre seu filme, “VIPs”, e também para conhecer um pouco mais de sua história, sua carreira, a  do filme, os projetos que estão por vir . O diretor também comentou  sobre o sistema de produção de cinema no Brasil,  e como muitos outros diretores brasileiros, colocou em cheque a atual forma dessa produção.

Jair: Antes de mais nada eu queria conhecer o diretor Toniko Melo. Esse é seu primeiro longa metragem, e chega com grande força no cinema. Em vários sentidos, com uma equipe forte, com boa publicidade, e como cinema forte propriamente dito. Essa é sua primeira experiência com cinema? Já dirigiu curtas ou trabalhou em outras áreas do cinema? Li que dirigiu capítulos da série “Som e Fúria” é isso? Sei que você vem da publicidade, mas qual sua relação com cinema até antes do filme?

Toniko Melo: Comecei a apaixonar por cinema quando fui expulso da escola em 1973 e fiquei por 6 meses vendo filmes na Tv da sessão da tarde até o fim da sessão coruja. rs
Mas também sou filho de pais muito cultos. Minha família era de editores e escritores. Por causa do meu tio José Olympio, que deu nome a uma das editoras mais importantes desse pais, era comum receber para almoçar na casa dos meus pais escritores como Guimarães Rosa, ver meu pai de papo no telefone com o Sergio Buarque de Holanda, Helio Silva etc. Eu até podia escrever cartas para o Carlos Drumond de Andrade.
De lá para cá, passei filmes de surf, fiz super 8 e estudei: estudei muito! Quando o, também iniciante, Fernando Meirelles me convidou para ajuda-lo a fazer seu 1º documentário “Garotos do Subúrbio”, em 1982, entrei no mundo intelectual e profissional do Cinema, ao mesmo tempo. E é onde estou até hoje. Fiz mais de 30 documentários antes de começar a fazer publicidade nos anos 90, onde, depois que comecei, fiz uma ótima carreira, tanto que ganhei 7 vezes o Premio Profissionais do Ano da Rede Globo, entre outros.

Jair: “Visp’s” é baseado no livro da Mariana Caltabiano que é sobre a historia do Marcelo Nascimento da Rocha e seus golpes. Mas nem tudo do filme é a história do Marcelo. Claro, existe a dramatização, mas foram criadas muitas histórias irreais pra se construir o personagem. Essa mistura, do que aconteceu, com algo muito fora da realidade do Marcelo, e ainda assim, continuar usando o nome dele não pode prejudicar a credibilidade do livro ou o próprio filme, já que os dois são “vendidos” como a história do famoso farsante?

Toniko Melo: Fique atento: no filme o personagem que o Wagner faz se chama apenas Marcelo da Rocha (um único sobrenome). E o livro nasceu depois do filme ter sido pensado como tal. Além disso, quem tenta “vender” a história do farsante que está preso, como sendo a do filme não somos nós: muito pelo contrário! O tempo todo tento proteger a imagem da família do Marcelo verdadeiro e a dele também. “VIPs – Quem Você Quer Que Ele Seja?” é uma obra de ficção: está por escrito nos créditos do filme. Só não vê, quem não quer ver.

Jair: O filme é tenso, tem muita ação, ao mesmo tempo é bem humorado, e mantêm certa leveza. O personagem Marcelo é um anti-heroi carismático e o filme não faz um juízo moral do personagem. Como foi essa escolha de contar a historia de um homem que está preso hoje (como falei o nome dele foi usado), e fazer ele um querido do publico. Torcemos por ele, rimos com ele, até de suas mentiras, inclusive pra polícia.

Toniko Melo: Só há essa cumplicidade com o personagem do filme porque não estamos contando a história do Marcelo que está preso. É uma ficção, onde controlamos o que queríamos contar.

Jair: Algo que me chamou atenção foi a escolha do elenco. Temos Wagner Moura, que é um excelente ator e de grande apelo popular. Mas ao redor, temos excelentes atores, como a maravilhosa Arieta Corrêa, vencedora de inúmeros prêmios Shell, ainda Gisele Fróes e até mesmo o argentino Jorge D’Elia, que são ótimos, mas sem esse apelo comercial que Wagner possui. Como foi essa escolha? Isso funciona bem no filme porque todos eles estão no mesmo nível de interpretação. Mas essa escolha, foi para os olhares ficarem mais para a historia central que é conduzida por Wagner, pra não pesar em escolhas de “caras conhecidas”, enfim, teve algum motivo especial?

Toniko Melo: Cuido do casting não com olhares “comerciais”, mas sim com o potencial de cada ator ou atriz para desempenhar determinado personagem. Por isso os testes demoraram 8 meses! Os prêmios do Fest Rio para dois dos atores coadjuvantes, provam que eu estava certo.

 

Jair: Além do elenco, uma parte pouco conhecida do grande público também é de se chamar atenção. A equipe do filme é de primeiríssima linha. Nomes como Bráulio Montovani, Mauro Pinheiro Jr, Cecília Homem de Melo, Antonio Pinto, nomes do primeiro escalão do cinema brasileiro. Como foi para reunir essa equipe em seu primeiro filme? Foi muito difícil? Claro teve Fernando Meirelles como produtor, e isso ajuda muito, mas ainda assim queria que você comentasse sobre isso. Até mesmo porque, com essa equipe, o elenco, e o filme em si, parece visualmente caro também.

Toniko Melo: Todos são amigos de longa data. Apenas escolhi os mais talentosos e que tinham agenda para aquele momento. Haviam outros que estavam fazendo grandes filmes. Sou muito feliz por isso.

Jair: A carreira do filme está apenas começando. Já é o grande vencedor do Festival do Rio que talvez seja a maior vitrine do cinema nacional. Como está a carreira do filme também fora do país? Pensam em trabalhar isso de maneira mais forte?

Toniko Melo: Gostaria muito que o filme fosse exibido em circuito comercial na Argentina, pois admiro muito a cinematografia que vem sendo feita lá há muitos anos. E gostaria muito que o Festival de Cannes ouvisse o Walter Salles, quando ele disse que “O VIPs é uma obra única na Cinematografia brasileira.”

Jair: Toniko, esse foi só o primeiro filme. E já alcançou um grande sucesso, de público e de grande parte dos críticos. Está trabalhando nele a quantos anos? Já tem outro projeto engatilhado? O sucesso desse filme, já ajudou em algum ponto a agilizar o próximo?

Toniko Melo: VIPs completa 9 anos agora em março. É uma loucura. Falta muito para poder se dizer que ele é um sucesso de público: fez apenas cerca de 150 mil pessoas até esse exato momento. Para um filme que custou 7 milhões de reais de dinheiro “bom”, isso ainda é muito pouco. Infelizmente, não me deram o direito de participar dos direitos autorais do meu próprio filme, por isso torço apenas que a história que eu quis contar crie uma cumplicidade importante com o maior número de pessoas do meu pais.
Tenho 3 bons projetos para realizar, mas não tenho, até agora, nenhuma produtora com “vaga” para mim, pois estão todas no limite máximo da ANCINE. Para o atual modelo de produção de cinema, para um diretor como eu, o Brasil se tornou um lugar onde ou você é dono de uma produtora, ou você é obrigado a buscar países onde um diretor tem seu ganha pão no patamar de algo digno e, principalmente, onde os seus direitos autorais sejam respeitados.

“Cortina de Fumaça”, Rodrigo Mac Niven, 2010

Cartaz "Cortina de Fumaça"

“Cortina de Fumaça” é o primeiro longa documentário do diretor Rodrigo Mac Niven, produzido na produtora carioca TVA2, antes porém, também com produção da TVA2, já havia dirigido o documentário média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”,  que está sendo exibido na GNT.

Rodrigo é jornalista, diretor de curtas e publicidade, além de fotógrafo, editor e finalizador de vídeos. Em seu primeiro documentário, selecionado para Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro em 2010, Rodrigo foi acima de tudo ousado. Trabalhou um assunto aparentemente batido, porém, por uma nova perspectiva, com um novo olhar, levantando questões, alfinetando moralismos e preconceitos.

O filme “Cortina de Fumaça” é assim. Um tapa em velhos conceitos. O documentário analisa a política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição de determinadas práticas relacionadas a algumas substâncias, e a partir daí, vai em busca de cientistas, médicos, políticos, antropólogos, enfim, de alguns dos maiores estudiosos sobre o assunto no mundo.

A liberdade vista no filme é talvez seu maior atributo, e aí talvez tenha um ponto determinante. O filme é acima de tudo autoral. Um projeto pessoal, como ele mesmo coloca em sua narração em off no inicio do filme, e outra, foi totalmente independente, sem lei de incentivo fiscal, sem nem uma grande empresa patrocinadora por trás, esse é um projeto de diretor, realizado pela TVA2, produtora a qual é sócio e pela J.R. Mac Niven Produções, empresa ligada também a sua família.

Dificilmente um filme, com essa liberdade de opinião teria apoio governamental e mesmo de grandes empresas.Lembramos que, até o filme “Cheiro do Ralo” de Heitor Dhalia, mesmo contando com o popular ator Selton Melo no elenco, teve problema em conseguir patrocínio em função da temática do filme, que trazia um “anti-herói”, bem distante do que qualquer empresa quer envolver seu nome.

Voltando ao “Cortina de Fumaça”, além da visível liberdade, percebe-se um excelente trabalho de pesquisa. Observamos isso, pela ótima seleção de entrevistados. Entre esses 34 entrevistados, estão o ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva, o criminalista Nilo Batista entre inúmeros outros grandes nomes.

Estaremos diante do Michael Moore brasileiro? Bom, acredito que se o diretor americano assistir ao filme vai com certeza ter certa identificação com o diretor brasileiro. Pelo tema, e por sua busca de uma verdade em que acredita. Porém, temos uma diferença, e até apontaria como uma falta do filme brasileiro. A entrevista de opiniões diversificadas. Claro, devemos partir da premissa, que toda obra tem uma opinião a apresentar, que nem uma é neutra. Mas, é importante levantarmos questões, e termos os dois lados no mesmo trabalho.

Acaba que de certa forma, o filme se torna tendencioso ao olhar do espectador, mesmo que as entrevistas, contem com opiniões de pessoas sérias dos mais diversos setores da sociedade.Ao mesmo tempo, podemos então colocar uma segunda questão. Essa segunda opinião que falta ao filme, é a opinião que nos é bombardeada todos os dias na grande mídia, e o diretor apresenta, por mais que de maneira sutil, essa opinião em alguns comerciais que vão para a televisão com discurso anti-drogas. A esse discurso, fica claro, a falta fundamentação. E aí está o grande diferencial. No filme, suas opiniões, são fundamentadas.

O trabalho de câmera e edição do filme são outros dois pontos fortes do filme. A fotografia é bem realizada, mas nunca tenta roubar mais atenção que as entrevistas ou do próprio tema. As externas nas várias cidades do mundo, focando principalmente as pessoas na rua, são como se depois de cada entrevista, estivéssemos vendo como nos, como a sociedade é manipulada e, nos sentimos como o próprio diretor, que em pequenas cenas aparece olhando o comportamento das pessoas de longe. O filme, a fotografia, parece fazer com que nós, nos olhássemos.

A edição é ágil, tem boas e bem colocadas sequências externas, vai e volta em vários entrevistados, mas é clara, não confunde o espectador. Mesmo um filme com grande número de entrevistados, aqui diferente do que aconteceu em “Dzi Croquetes” dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o seu formato não fica careta, não cai no tradicional, no formato jornalístico por exemplo. Alguns detalhes fazem a diferença na finalização.

Dificilmente um filme como “Cortina de Fumaça” conseguirá distribuição, ou pelo menos uma boa distribuição. O seu tema é incômodo, verdadeiro demais, questionador demais para um cinema popular que a maioria dos distribuidores quer investir. Mas sua carreira não está só aí. Esse com certeza será um filme de carreira muito longa e será usado no futuro, como referência de debate ao tema.

Sendo assim, podemos afirmar que “Cortina de Fumaça” é um filme essencial. Um filme para ser visto por pais, filhos, por mestres e alunos, por eleitores e políticos. Um filme que acima de tudo, levanta questões, faz pensar, e você leva pra casa e fica com ele durante dias. E depois de tudo isso, ele aguça ainda mais sua curiosidade a respeito do tema.

São cada vez mais raros os filmes assim, e “Cortina de Fumaça” é um desses raros filmes, que precisa ser visto pelo maior número de pessoas possível, justamente para se questionar preconceitos, amarras sociais, é um filme que precisa ser pensado

Jair Santana

“Tron – O Legado”, Daft Punk

Filme: Tron – O Legado
Diretor: Joseph Kosinski
Ano: 2010
Música: End of Line
Composição: Daft Punk
Trilha Sonora: Daft Punk

 

“Em um Mundo Melhor”, Susanne Bier, 2010

Em um Mundo Melhor

Susanne Bier é uma diretora promissora da Dinamarca, sua breve carreira, de apensas 5 filmes, tem chamado atenção do mundo. Seu recente trabalho,“Em um Mundo Melhor”, já é o segundo filme de sua carreira que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O primeiro foi em 2007, “Depois do Casamento”, que perdeu para o alemão “A Vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck .

O filme é o grande Vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 2011. É um filme tenso, forte e acima de tudo sensível. Ele provoca o espectador e faz pensar em seu senso de justiça e suas reações.

“Em um Mundo Melhor” conta a historia Christian ( William Johnk Nielsen), um garoto que acaba de perder a mãe e se muda com o pai de Londres para casa de sua avó em uma pequena cidade da Dinamarca, e lá, faz amizade com Elias (Markus Ryggard), uma garoto da sua sala que sofre bullying dos colegas maiores.

Paralela a historia de Chris e Elias estão a de seus país, os de Elias, Anton ( Mikael Persbrandt) e Marianne ( Trine Dyrholm), que vivem um processo de separação, e de Claus ( Ulrich Thomsen), pai de Chris que é acusado pelo garoto de desistir da mãe e deixá-la morrer de câncer.

Esse paralelo é muito mais forte entre Anton e Chris. Estes sim, poderíamos dizer que são os personagens antagônicos do filme. Logo que chega na escola, Chris vê seu amigo sendo agredido e também se torna vítima dos causadores do bullying. No dia seguinte, prepara uma vingança ao principal de seus agressores. Por outro lado, Anton, pais de Elias é um médico voluntário em um país na África, e convive com outros tipos de violência, em um país em meio a uma guerra civil, onde o chefe da milícia local é violento e sádico.

Sem um tom moralista, mas sim provocador, o roteiro de Anders Thomas Jensen ( “Depois do Casamento” e “A Duquesa”) nos mostra reações adversas ao contato com a violência. A velha máxima de “violência gera violência” se apresenta de uma maneira sutil, porém forte.

Em um certo momento do filme, Anton é agredido por um homem em frente aos seus filhos e de Chris, porém não reage. Ao ser questionado por seu filho Elias sobre sua não reação, responde apenas que o agressor é um idiota, e que “é assim que as guerras começam”. Sim, pode ser, mas isso não fica por aí.

Anders e Susanne usam dois microcosmos, o acampamento em meio a guerra civil e a própria escola, para mostrar, que o que vale para nossa vida pessoal, vale para um macrocosmo também. O número de pessoas pode ser menor, o grau de violência pode ser menor, mas a premissa é a mesma. A violência e a resposta a violência.

A falta de comunicação, a intolerância, a xenofobia, o preconceito, gera situações violentas, inesperadas e até incontroláveis. Situações como ir além do que se planejou com as suas ações, ou mais ainda, por perder alguém querido.

As atuações são maravilhosas. Susanne Bier mostra ser uma ótima diretora de atores. A tensão do filme é impressionante. Os dois garotos, Christian ( William Johnk Nielsen) e Elias (Markus Ryggard) seguram os personagens com uma densidade, e ao mesmo uma inocência conveniente a suas idades. São interpretações incríveis, principalmente de William Johnk Nielsen, sempre fechado, inseguro mas ao mesmo tempo que querendo parecer forte.

Todos os personagens principais estão muito bem e são muito bem construídos. Destaque para Anton (Mikael Persbrandt), pai de Elias, o médico voluntário, que convive com um tipo de violência mais elevado, e sempre mantêm a calma, a serenidade, o equilíbrio. Quando não suporta mais guardar esse equilíbrio, explode sem pensar nas conseqüências de seu ato, e se questiona depois de sua reação, mesmo sem uma palavra, se fecha para conviver com as conseqüências do que fez.

Uma das sequencias mais fortes do filme, é quando Anton volta a ser agredido em frente a seus filhos e ao amigo do filho, e não reage, fica inerte, com um rosto sem expressão, apático. A cena é muito provocadora, questionadora e por que não dizer, revoltante.

A chave da questão, a chave do filme é essa. Até onde é válida uma reação violenta a uma atitude violenta. A resposta não é fácil e não vem fácil. A vontade da reação, da vingança, está presente em todos nós.

A fotografia de Morten Soborg não apresenta grandes firulas. É simplória mas muito bem realizada. Talvez fria como a Dinamarca, é esse o tom que predomina. A luz fria. Mesmo na África tudo é meio, digamos assim, “nublado”. Sem grandes sombras, sem luz estourada. Muito funcional ao que o filme apresenta.

Outro grande destaque é para a música de Johan Söderqvist, muito presente em boa parte do filme, conversando diegéticamente o tempo todo com as ações apresentadas. É também por conta da trilha que a tensão e a emoção do filme crescem. Johan Söderqvist é responsável por trilha de filmes como “Coisas que Perdemos pelo Caminho” também de Susanne Bier e a belíssima trilha de “Deixa Ela Entrar” de Tomas Alfredson.

“Em um Mundo Melhor” é desses filmes universais, que apesar de ocorrer na Dinamarca, poderia ocorrer do seu lado. Essa é a vantagem de se usar o micro para se falar algo maior. É também um filme diferente do estilo da maioria dos filmes americanos, onde tudo é muito explicado. Aqui o silêncio é tão importante quanto cada palavra. As ações silenciosas, o olhar, tudo é parte da diegese do filme e tem que ser pensado.

Jair Santana

“Vips”, Toniko Melo, 2011

Vip's - Cartaz

Vip's - Cartaz

“Vips”, é o filme de estreia do diretor Toniko Melo, baseado no livro de Mariana Caltabiano, “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso”, e conta a história de Marcelo Rocha, um simplório golpista, que consegue, com sua ousadia e personalidade atormentada, enganar de traficantes, policiais e a high society brasileira.

Impossível não lembrar de “Prenda-me se for Capaz” de Spielberg, com alguns golpes de Marcelo. Mas as histórias são bem diferentes e a aproximação entre os personagens de Wagner Moura e Leonardo DiCaprio param na facilidade que os dois possuíam de serem rápidos e convincentes em suas mentiras.

O Marcelo Rocha do filme é um personagem carismático e em certos momentos, até ingênuo. Quem dá vida a esse personagem é Wagner Moura, em mais um grande trabalho. Impressionante a capacidade de transformação do ator apenas com seu olhar.

Confesso que em alguns momentos iniciais senti certo exagero eufórico na interpretação do personagem, mas temos também que lembrar que o mesmo ator, o Wagner, interpreta Marcelo Rocha desde sua adolescência, e os adolescentes são inexplicavelmente, eufóricos. Mas ainda assim, ainda que coerente, chega a me incomodar.

Ao contrario do que já se falou em algumas críticas, pessoalmente acho que o personagem Marcelo Rocha, mais interessante ainda por dar golpes com certa ingenuidade. Não para simplesmente ficar rico, ou chegar a algum lugar, o mais curioso é justamente isso. Nem ele mesmo sabe onde quer chegar. Ele vive tão profundamente a mentira, que confunde a sua realidade com a do próprio personagem que cria.

Entre as virtudes do filme, que são muitas, está a fotografia de Mauro Pinheiro Jr, em mais um grande trabalho. Mauro é responsável por belas fotografias em filmes como “As Melhores Coisas do Mundo” e “A Casa de Alice” entre inúmeros outros, e aqui realiza mais uma fortografia acertadíssima. As cenas de vôo em especial são muito bem realizadas, também as sequências noturnas como a do “voo kamikaze” são ótimas, nada se perde na fotografia dele. Juntando tudo isso a boa decupagem de Toniko Melo, o filme fica visualmente encantador.

A música é outro grande acerto. Por sinal, a música é parte diegética do filme. Muito presente. Tem função fundamental no “contar a história”. O responsável pela trilha é Antônio Pinto, que na minha opinião é, juntamente com Jacques Morelembaum, os dois melhores compositores de trilhas sonoras do país.

Mas um bom filme precisa principalmente de duas coisas. Um bom roteiro e boas interpretações. E aí temos o trabalho de Bráulio Mantovani, roteirista de “Cidade de Deus” e o estreante em roteiro de longa metragem Thiago Dottori. O roteiro é claro, de fácil compreensão, sem barrigas. Conta no tempo certo o que precisa ser contato só com imagens, e pra isso usa algumas “brincadeiras” bem sutis durante o filme, e com falas quando realmente é necessário ser falado. É um roteiro bem equilibrado nesse sentido.

O elenco é encabeçado pelo ótimo Wagner Moura, mas também conta com coadjuvantes maravilhosos. O diretor e sua produtora de elenco, Cecília Homem de Melo, escalaram um elenco excepcional. Wagner Moura (Marcelo), Gisele Fróes (Sílvia) e Jorge D’Elia (o Patrão) ganharam o prêmio no Festival do Rio por suas interpretações. As premiações apenas refletem como o conjunto de todo elenco do filme funciona muito bem.

“Vips” diverte, mas é também um filme crítico sem arrogância, não crítico moralmente falando, pelo contrário, um outro acerto do filme é não julgar seu personagem. O filme é crítico a algo maior, ao comportamento da sociedade e não de uma única ação. O roteiro é cheio de metáforas e consegue equilibrar bem a ação e tensão do filme, com o humor.

A historia, claro, dramatizada para a ficção, é simples e muito envolvente. Da maneira como a historia é contada pelo diretor somado ao carisma de Wagner Moura, é impossível não se envolver e torcer pelo anti-heroi Marcelo.

O tipo de narrativa é muito fácil de se agradar o grande público. Esse fato é comprovado por “Vips” ser a melhor estreia do final de semana no país segundo dados do portal FilmeB.

Provavelmente não será o filme candidato pelo Brasil ao próximo Oscar (outros bem menos merecedores já foram), ou ainda um filme ovacionado pelo cinéfilos mais cabeças. Mas podemos afirmar sim, que “Vips” é um filme muito bem realizado, na verdade, um conjunto de boas realizações, com ótimos momentos, e com certeza será um dos grandes filmes brasileiros do ano.

Jair Santana

“Em um Mundo Melhor”, Johan Söderqvist

Filme: Em um Mundo Melhor
Diretor: Susanne Bier
Ano: 2010
Música: End Title
Composição:Johan Söderqvist
Trilha Sonora: Johan Söderqvist

“Além da Vida”, Clint Eastwood, 2010

Além da Vida

“Além da Vida” do diretor Clint Eastwood, diretor de “Menina de Ouro” e Gran Torino”, filmes altamente críticos ao mesmo tempo que muito sensíveis, parece ter errado a mão nesse filme.

Com uma vasta cinematografia, Clint tem crescido muito como diretor, em especial de 2003 em diante, quando realizou o forte “Sobre Meninos e Lobos”.

Aos 82 e em plena atividade, o diretor realiza “Além da Vida”, um filme sobre pessoas e suas relações com a morte. Quando perguntado se teria trabalhado o tema em função da sua idade e de ter encontrado sua espiritualidade, o diretor afirma que poderia ter feito esse trabalho ao 30 anos, pois sempre se interessou pelo tema.

O tema realmente é interessante, a morte, e como as pessoas lidam com ela, inclusive por quem sobreviveu a uma experiência de voltar da morte. Porém, a forma como o filme é conduzido é morna, sem grandes reviravoltas ou ondulações na historia.

Espera-se um pouco mais, de um diretor como Clint Eastwood, e ainda mais pela espetacular sequência inicial do filme. Forte, tensa, e muito bem realizada, com a sequência de um Tsunami.

A historia dos três personagens principais vai acontecendo em paralelo, e o encontro dos três é previsível até demais. Espera-se, que esse encontro aconteça como algo mais forte, mais grandioso, mas isso não acontece. Tudo é muito linear, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. A emoção em si, está no que já aconteceu, a relação com a morte

Existe o momento de crítica, como era de se espera em um filme de Clint Eastwood, nas três situações. Em dois deles, como as pessoas querem tirar proveito e ganhar dinheiro com o desespero das pessoas em perder alguém querido. No terceiro caso, como se é discriminado e desacreditado por passar por uma experiência mais espiritual.

 

O roteiro de Peter Morgan é fraco, os personagens são bem apresentados, mas a partir daí, parece que Morgan não sabe bem como aproximar e contar um pouco mais da historia dos personagens, e o filme acaba tendo uma barriga nas suas 2 horas e 9 minutos. Um tempo muito mal utilizado.

Diferente de outro diretor que entrelaça personagens diferentes em suas historias, o mexicano Alejandro González Iñárritu cria tensões até suas historias se encontrarem, o roteiro de Morgan parece não decolar. Frio, mantendo o espectador distante de todos os personagens. O que causa maior apatia é a historia do menino Marcus (vivido pelos gêmeos George e Frankie McLaren ), e ao confrontar os personagens até então distantes, não apresenta nada de novo, e nem nada muito empolgante acontece.

A direção de Clint é boa, sua direção de atores é excelente, o que parece ser uma característica de atores que se tornam diretores. Mas o roteiro oferece pouco para que o diretor aproveite mais de seus atores, a não ser em alguns poucos momentos.

A interpretação de Matt Damonn como George Lonegan é introspectiva e densa. O personagem nunca extravasa seus sentimentos, mas também não há um momento implosão, como acontece com Brian Geraghty (Owen Eldridge) em “Guerra ao Terror”. E sinto falta desse momento. O personagem não parece ser frio, mas sua maior demonstração de emoção é feita através de uma carta ao seu irmão. George então se torna inverossímil ao que o filme apresenta.

A fotografia de Tom Stern é bonita e bem realizada. O fotografo é o braço direito do diretor, e Stern trabalhou com Clint também em “A Troca” e “Invictus”.

No mais, “Além da Vida” é um filme que pode emocionar, principalmente aos religiosos que crêem em vida após a morte, ou qualquer um que passou pela situação de perder alguém querido. Logo, o filme pode ter um grande número de espectadores, mas como cinema, decepciona.

A mão segura de Clint ajudou o filme a crescer mais do que ele seria na mão de um diretor menos experiente, mas ainda assim, é seu trabalho mais fraco dos últimos anos, e por pouco não escapa de ser um melodrama tipo filme b.

Jair Santana