Hebemus Papam, Nanni Moretti, 2011

Habemus Papam cartaz

Habemus Papam cartaz

“Hebemus Papam”, filme do cineasta italiano Nanni Moretti, diretor de filmes como “Caos Calmo” e “O Quarto do Filho”, nos conta a historia da escolha mais mítica da igreja, do Papa, e por fim, o Papa, que se recusa a ser Papa. Sim, ao contrário do imaginário popular, no filme de Moretti não há disputa entre os cardeais, e sim o medo de ser escolhido.

Logo no início do filme, durante o conclave na Capela Sistina, vemos o clero escolhendo o nome do próximo Papa, e ouvimos seus pensamentos dizendo “Eu não Senhor, eu não”, em cada um dos membros ali presentes.

E assim caminha o filme de Nanni Moretti, mostrando o quanto são humanos os sagrados e míticos rituais da Igreja Católica, o quanto é humano também, a Vossa Santidade, o Papa.

Moretti coloca, por que não dizer, em debate, o sagrado e o profano, o divino e o humano, em seu filme que podemos então colocar, que se situa entre o drama e a comédia.

Em meio a crise de depressão de um Papa, que em sua juventude gostaria de ser ator, e que literalmente foge do personagem que seria o mais importante de sua vida, o clero chama um psicólogo ateu, para cuidar ajudar esse Papa.

Em uma sessão nada convencional, onde todo clero está presente, o psicólogo vivido por Nanni Moretti tenta conversar com o Papa sobre o porque de sua recusa a assumir o papado, e questiona sua fé.

Embora proibido pela Igreja, em meio a tantos escândalos de pedofilia e corrupção, as críticas de Nanni Morreti são sobretudo sobre o homem, e não a Igreja Católica em si. O diretor enfatiza com o filme, que por mais “divina” que seja a escolha ou a condição de um Papa, todos ali, são acima de qualquer coisa, seres humanos, com todas as angustias e sofrimentos que um homem possa ter.

Com o Papa andando como um homem comum em meio a cidade, um soldado toma seu lugar no quarto, para que o clero fique mais tranqüilo, com a suposta presença de Vossa Santidade. Isso resulta em ótimas cenas sobre o sentimento de se ter um “líder” mesmo que invisível, mesmo que ausente.

A escolha do Papa é esperada pelo mundo todo, o jornalista narra sua escolha como quem narra um grande espetáculo, uma multidão do mundo todo aguarda seu pronunciamento, se mente para o povo não se sentir órfão até que consigam convencer o Papa de tomar posse. Nada mais humano que uma mentira, por mais boa intenção que ela tenha.

Em todo momento, mesmo sem Papa, mesmo sem um líder, o nome do filme se faz justificar, então temos “Habemus Papam”, que ironicamente em latim significa “Temos Papa”.

As críticas e as piadas em torno da Igreja e todo seu mito, são muito menos contundentes do que se esperaria de um diretor como Moretti. Mas ele foi ainda mais feliz, em transformar um tema que realmente poderia ser pesado, porém clichê, em uma comédia deliciosa, e não por isso menos crítica e verdadeira.

Interpretando o Papa, temos Michel Piccoli, um grande e experiente ator que já trabalhou com nomes como Godard, Alain Resnais, Jean Renoir e era um dos preferidos atores de Luis Buñuel. Piccoli dá certa leveza e a humanidade necessária ao personagem. Você até consegue o ver como Papa alí, mas acima de tudo, acredita em seus medos e suas angustias.

Nanni Moretti por sua vez, faz um personagem que se aproxima muito dele mesmo. Um ateu culto e questionador sobre essa política da Igreja. Moretti é um questionador, da política italiana, da igreja, da sociedade de um modo geral.

A fotografia de Alessandro Pesci, que já havia trabalhado com Moretti em “Caos Calmo” é correta, limpa e agradável aos olhos, mesmo nos mostrando toda aquela poluição visual da riqueza e ostentação contida nos palácios da Igreja Católica.

“Habemus Papam” mais que um filme autoral de Moretti, é filme inteligente, mas nada presunçoso, sem arrogância, pelo contrário, é leve, fácil e gostoso de se ver. Um jogo de personagens e situações nunca antes imaginados.

Nanni Moretti está construindo uma filmografia politizada, critica, e também atemporal. Seus filmes ficarão, seu mais antigos filmes continuam atual, sua visão de mundo é libertária, sensível e humana. E esse é o grande charme de seus personagens, de suas historias.

Jair Santana

“Copacabana”, Marc Fitoussi, 2010

"Copacabana" Cartaz

Apesar do nome, no filme francês “Copacabana”, não se verá uma cena sequer da praia e nem mesmo de qualquer parte do Brasil. E apesar disso, o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, se fez muito presente em todo filme. Seja na trilha sonora toda composta de músicas brasileiras, seja no sonho da personagem principal de conhecer o Brasil.

“Copacabana” é sexto filme de Marc Fitoussi, diretor francês que com esse trabalho, conseguiu sua maior projeção de público e crítica, participando da Semana da Critica do Festival de Cannes e na mostra Panorama Mundial do Festival do Rio.

O roteiro conta a historia de Babou (Isabelle Ruppert), uma mulher, digamos fora do comum. Sem emprego fixo, espontânea, alegre e solteira, Babbou leva uma vida fora dos padrões convencionais. É mãe de Esmeral (Lolita Chammah), que é totalmente avesso e contra o comportamento da mãe. Por esse motivo, Esmeralda não a convida para seu casamento, com medo que ela a embarace na frente de todos.

O filme poderia se concentrar, para o bem ou para o mal, somente nessa relação mãe e filha, mas vai para outro lado. Tenta captar o passo a passo na vida de Babbou. E o espectador passa a se apaixonar por esse personagem, digamos, “louquinho”. E essa relação mãe e filha, é apenas parte de sua historia.

Babbou tem o grande sonho de conhecer o Brasil, “Adoro a música brasileira. Esse país sempre me fascinou” afirma ela em determinado momento. Seu objetivo é guardar dinheiro para realização desse sonho. Ela consegue um emprego como vendedora de apartamentos “time-sharing” em Ostende, uma espécie de balneário da Bélgica, e se muda pra lá.

Curioso observar, as tomadas aéreas naquela cinzenta praia, ao som de músicas brasileiras, como samba e MPB, como se fossem as praias cariocas, como Copacabana por exemplo.

A câmera cola em Babbou. Em mais de 90% do filme, Isabele Huppert está presente em frente as câmeras interpretando a deliciosa Babbou. Estabanada, avessa a obedecer normas, o que lhe causa problemas no trabalho, e também a relacionamentos mais sérios. Ela é até certo ponto, ingênua, mesmo quando magoa seu parceiro por exemplo, é impossível ficar com raiva de Babbou.

O Brasil do sonho da personagem é o Brasil do imaginário gringo. É o país da bossa nova e do samba que estão presentes na trilha sonora. Sempre alegre, o Brasil das mulatas, dos amantes latinos. É o Brasil que não existe, ou melhor, que existe somente nos sonhos. Por isso mesmo, muito bem usado, a imagem do país não sai do cartão postal.

No final do filme, Babbou tem contato com um grupo de samba brasileiro, cheio de mulatas, penas, e pouca roupa, que vai se apresentar na festa de casamento da filha.

Como grande parte dos gringos, Babbou se encanta e dança desengonçadamente entre os sambistas e mulatas. É o ápice desse Brasil “exótico” presente na cabeça dos gringos

O que poderia ser perigoso, o fato de ter a personagem em quase todas as cenas do filme, acaba por se tornar uma das melhores coisas e “Copacabana”. Isabelle Huppert está mais uma vez maravilhosamente bem. Leve, a vontade, Babbou é bem diferente da maioria de seus personagens. Huppert é ganhadora de 2 prêmios de melhor atriz em Cannes e tem recorde de indicação ao Cesar, o maior prêmio do cinema francês.

A curiosidade aqui fica por conta de Isabelle contracenar com Lollita Chammah, mãe e filha na ficção, são mãe e filha na vida real. Essa foi a primeira vez que as duas trabalham juntas.

A fotografia é da experiente fotógrafa Hélène Louvart, que recentemente trabalhou com Win Wenders em “Pina”. Em “Copacabana” a fotografia é comportada, sem grandes firulas, sem grandes momentos. Correta, mas comportada. Sinto falta de uma certa ousadia, ou mesmo planos mais trabalhados.

A trilha sonora é composta somente de músicas brasileira, que vai de “Canto de Ossanha” interpretado por Astrud Gilberto, passando por “Partido Alto” do Chico Buarque, e também o som de Jorge Ben ou de Marcos Valle. É delicioso e curioso ouvir essas músicas totalmente atreladas ao cinema francês.

“Copacabana” é uma comédia divertida, com uma pitada de drama, mas acima de tudo uma comédia. Serve para repensarmos conceitos de vida, conceitos de felicidade e nos questionarmos quanto ao temos como “correto”. Babbou foge disso, vai contra todos os padrões, e mesmo assim, consegue a sua maneira ser uma mulher feliz.

Jair Santana

“Reencontrando a Felicidade”, John Cameron Mitchel, 2011

Reencontrando a Felicidade

Reencontrando a Felicidade

“Reencontrando a Felicidade” é o terceiro longa do já cultuado diretor John Cameron Mitchell. Seus primeiros trabalhos, “Hedwig”“Shortbus”, são bem diferentes e mais, digamos, undergrounds que “Reencontrando a Felicidade”.

O roteiro é de David Lindsay-Abaire, baseado em roteiro de sua própria peça, vencedora de vários prêmios na Broadway, incluindo o de Cynthia Nixon (a Miranda de Sex and the City 2), que ganhou um prêmio Tony, espécie de Oscar do teatro americano, por seu papel de mãe em luto, personagem de Kidman no filme, que pelo personagem concorreu ao Oscar.

Basicamente, “Reencontrando a Felicidade” é um filme sobre perdas. Talvez, a pior delas que a perda de um filho. Porém, diferente do que se pode imaginar de um filme com essa temática, o filho não faz parte fisicamente do filme. Não temos contato diretamente com ele, pois a historia começa após oito meses a morte de Danny, o filho casal Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), que até então, levavam uma vida que se pode chamar de “perfeita”.

O mergulho no drama dos dois é apresentado lentamente, Danny quase não é apresentado fisicamente ao espectador, exceto em uma cena que não dura mais que alguns poucos segundos em um vídeo de Howie, talvez para fechar ao espectador, a real existência de Danny na vida dos dois. Essa presença é percebida principalmente pelo quarto, pelos desenhos, brinquedos, roupas, em cada detalhe da casa, da vida cotidiana dos dois.

A grande diferença do modo de lidar com essa perda é que o foco principal do filme. Trabalhar essa ausência ou simplesmente tentar apagar as lembranças? É possível apagar?

Enquanto Becca tenta apagar tudo que remeta ao filho e a época feliz que eles viveram e que não voltará mais, Howiw tenta lembrar com carinho e lidar com a perda tentando voltar a sua vida normal.

Pela historia, o filme teria tudo para ser um grande melodrama, cheio de clichês piegas e manipuladores. Mas não, “Reencontrando a Felicidade” vai em caminho contrário a isso. Justamente esse ponto torna o filme mais interessante que a grande maioria sobre o assunto.

Porém isso não torna o filme menos denso e menos triste. Mesmo sem ver a criança, nos envolvemos com o drama do casal, a historia vai sendo apresentada devagar, e na mesma velocidade vamos nos envolvendo, e cada vez mais vamos conhecendo os fatos.

Interessante em certo momento observar, a ida de Becca ao antigo emprego, que abandonou quando perdeu o filho. Após oito meses as coisas mudaram. Alguns colegas não estão mais por lá, outros foram promovidos, ou seja, as coisas continuaram, a vida continuou, ao contrário da personagem que ficou congelada, parada desde então.

A produção do filme é da própria Nikole Kidman, por se interessar na historia, sem mesmo chegar a assistir a peça na Broadway. Marcou um encontro com David Lindsay e seu produtor para comprar os direitos da peça. Esse interesse pelo papel foi muito feliz. Nicole concorreu ao Oscar, Globo de Ouro e vários outros prêmios pelo mundo. É o melhor personagem de Nicole desde Grace de “Dogville”.

Outro destaque no filme é a participação da experiente atriz Diane Wiest como Nat, mãe de Becca. A personagem passou por um problema parecido, e perdeu um filho, por outro motivo. Diane só não chega a roubar a cena porque Nicole está igualmente bem no papel. Diane também concorreu a vários prêmios. Esse é mais um grande personagem dessa talentosa atriz. Seus momentos no filme são fortes e fundamentais.

A direção de Mitchel veio a partir de uma historia pessoal sua, pois aos 14 anos Mitchel perdeu um irmão de apenas 10 anos, e sua família não conseguiu superar completamente esse perda até hoje. Talvez daí a delicadeza e a sensibilidade no tratamento do tema.

A fotografia de Frank G. DeMarco também é um ponto positivo no filme. Predomina o ocre, o sépia, principalmente em cenas na casa, como em fotos antigas, remetendo sempre a lembranças, ao passado. Frank já havia trabalhado antes com Mitchel em “Shortbus”.

A música de Anton Sanko é de grande sensibilidade, melancólica mas não demasiadamente triste. Anton equilibra bem cordas e o suave toque do piano para demonstrar o atual cotidiano arrastado do casal. A trilha sonora é um ponto forte do filme.

“Reencontrando a Felicidade”, é mais um acerto na carreira de John Cameron Mitchell, mais um acerto na carreira de Nicole Kidman e todos os envolvidos. Um filme belo, atemporal, de sensível, que não teve a repercussão que merecia, que não teve o público que merecia, mas que como todo bom filme, pode ser descoberto e redescoberto por qualquer um a qualquer tempo.

Jair Santana

“Ricky”, François Ozon, 2009

Cartaz de "Ricky"

Cartaz de "Ricky"

A principal afirmação que podemos fazer sobre “Ricky”, filme do diretor francês François Ozon, é que é, apesar do tom realista, o filme não passa de uma grande e bonita fábula.

Algo cabe ao espectador nesse filme. Estar livre, estar de peito aberto ao que o diretor lhe propões, e a partir daí, mergulhar no filme. Podemos dizer, que é difícil até, classificar o filme em algum gênero se o quisermos fazer.

A clima do filme é de extremo naturalismo. Ainda no prólogo do filme, Kate chora copiosamente para assistente social, falando que não consegue criar o filho, pois ele chora demasiadamente. Então voltamos alguns meses antes, para conhecermos a história.

Kate é uma mãe solteira, cria sua filha Lisa sozinha, mas já na primeira cena, percebemos que a há uma inversão de responsabilidades. Lisa, apesar de pouca idade, aproximadamente 7 ou 8 anos, é quem acorda a mãe para o trabalho, faz o café da manhã, como se a dona da casa realmente fosse Lisa.

Kate trabalha em uma fábrica, tem uma vida medíocre, sem perspectivas. Conhece Paco, quando esse começa a trabalhar na fábrica também. Os dois tem um envolvimento impulsivo, e logo Kate engravida.

O filho de Paco e Kate é Ricky. A criança é o motivo da virada de 180° que o filme dá. Como é motivo de virada na vida daquela familia. Mas aqui, Ricky é uma criança mais que especial. Ricky vai colocar em jogo a confiança da família, a união familiar, e mais que colocar em jogo, vai ser também o grande motivo de aproximação desse núcleo familiar.

Essa virada do filme pode causar estranhamento em alguns espectadores. Ozon passeia entre momentos engraçados e sequências mais fortes e emocionantes, como quando Lisa espera pela mãe sozinha até a noite em frente a escola.

Paco entra rapidamente na vida de Kate e Lisa. Com a chegada de Ricky as coisas ficam mais difíceis, por causa do horário de trabalho, o pouco dinheiro. Algumas marcas roxas em Ricky fazem com que Kate questione Paco sobre seu comportamento quando ele está sozinho com o filho. Paco não suporta a desconfiança e sai de casa.

Kate e Lisa passam sozinhas a cuidar de Ricky, Lisa começa a ter ciúmes de toda atenção, que inclusive é exigida com que ela dê a Ricky, e com isso, novos situações vão surgindo, novas tensões familiares aparecem, inclusive a tentativa de retorno de Paco.

Algumas situações são colocadas, mas sem que seja dada muito importância a elas, como a reação da sociedade a anomalia de Ricky. E isso não é o mais importante. Como a sociedade se comporta é o que menos importa. O importante ali, é como a família se comporta. O retorno de Kate a sua função de mãe por exemplo.

A cena de Kate no lago, lembra uma espécie de batismo, de renascimento dessa família, que passa a se reestrutura como uma família a partir dalí.

“Ricky” é um convite ousado que Ozon faz a seu público, que precisa estar aberto a proposta do filme. Um convite inusitado e gostoso. Pois “Ricky” é um filme diferente, inteligente, com tons de um humor sutil, uma outra característica de Ozon, mas ao mesmo tempo uma forte carga dramática existente o tempo todo no filme.

Jair Santana

“A Minha Versão do Amor”, Richard J. Lewis, 2010

A Minha Versão do Amor

A Minha Versão do Amor

O filme “A Minha Versão do Amor” não é mais uma comédia romântica caça níquel como o bobo título sugere. Título horroroso por sinal. Prefira o original, “Barney’s Version”. O filme aqui exige mais do espectador que a maioria enquadrada nesse gênero. Gênero esse que a distribuidora por aqui quis assumir pra atrair mais público.

Dirigido por Richard J. Lewis, conhecido diretor de seriados de televisão como CSI , “A Minha Versão do Amor” conta a historia de Barney Panofsky (Paul Giamatti), um total anti-heroi, fanfarrão, passional, arrogante, ácido, além de sortudo e chato.Ou seja, um personagem mais comum e real que a maioria que o cinema nos apresenta.

Sua historia é contada a partir das recordações de Barney, que está por votla de seus 60 anos. Apresentando em seu roteiro elipses temporais, conseguindo com isso, dar uma enxugada ao que realmente interessa. Sendo assim, o pouco mais de 2 horas do filme passam sem cansar o espectador.

Barney é fiel aos amigos mais que as suas esposas. Elas, as esposas, durante sua vida foram três. Cada uma por um motivo diferente, e somente uma delas por amor. Amor incondicional, mas cheio de falhas, como o bom ser humano que Barney é.

Sua historia de vida passa entre a comédia e o drama. Cheia de erros e acertos pessoais e morais, e isso torna o roteiro de Michael Konyves, baseado no Best seller canadense “Barney’s Version” do escritor Mordecai Richler, genial. Torna o personagem mais próximo do que podemos chamar de “humano”.

Esse é realmente o forte do roteiro, a humanidade do personagem. O fato do filme estar entre o drama e a comédia, e manter esse equilíbrio de forma inteligente e eficaz o enriquece ainda mais. Sobre tudo isso, uma pitada de suspense e policial, com a investigação de um assassinado com Barney como principal suspeito. Não, o filme não se torna confuso, pelo contrário, são informações que só acrescentam a personalidade de Barney.

Ótimos e rápidos diálogos, aparentemente comuns, em especial de Barney com seu pai Izzy, com os quais, o espectador pode se identificar inúmeras vezes, tanto de um lado (do Barney) quanto do outro. O “lugar comum” aqui é muito bem trabalhado.

O roteiro é o que poderíamos classificar como verborrágico, porém nunca se fala mais que o necessário. Há o ponto certo entre o que a imagem deve falar, e a palavra. Pode-se identificar um pouco de Woody Allen na referência do roteiro e até do próprio personagem com suas paranóias.

Ora odioso, ora apaixonante, quem dá vida a Barney Panofsky, é o extraordinário ator Paul Giamatti, vencedor do Globo de Ouro por esse papel, Giamatti é um ator de formação refinada, mestre em artes dramáticas na Universidade de Yale nos EUA, e agora parece que realmente chegou sua vez em Hollywood. Os olhares, o tom certo da ironia, o sarcasmo, a paixão com que se entrega Giamatti aqui, surpreende. Soma-se a Giamatti as aparições de Dustin Hoffman, (Izzy Panofsky, pai de Barney) e também Rosamund Pike, como sua esposa Miriam.

Quem vai assistir esperando uma “historia de amor” com o clichê do final feliz pode se decepcionar, ou não (como diria Caetano). O filme é seguro e coerente com a historia de seu personagem. Com momentos fortes e tocantes, e acima de tudo, momentos humanos, que se aproximam do que podemos chamar de real.

Barney é um ser passional e apaixonado, cheio de vulnerabilidades, e isso lhe causa uma série de problemas na sua vida. Falar somente da história aqui é muito difícil, pois sua imagem é muito importante e curiosa. Não há como separar o personagem do “fio” da historia. Nesse caso aqui, não é o destino que chama que o chama para historia, é justamente o contrário, Barney chama o destino pra ele.

Curioso como o roteiro nos coloca em uma situação onde é difícil de julgar suas atitudes quando conhecemos sua historia de vida. Mas facilmente “julgável” quando escolhemos algumas de suas ações isoladamente. Mais uma vez, como na vida real, não se pode ser muito pragmáticos nos julgamentos.

Outro bom acerto do filme é a música de Pasquale Catalano, compositor italiano responsável por trilhas sonoras de filmes como “O Primeiro que Disse” e “As Consequências do Amor”. Catalano realiza uma trilha emocionante, mas não melancólica, casando perfeitamente com o clima oferecido pelo filme.

A fotografia de Guy Dufaux (de “Invasões Bárbaras” e “A Era da Inocência”) é correta. Porém, vejo aqui que o roteiro, cheio de elipses, realizado em dois tempos diferentes, pudessem oferecer uma liberdade maior para se brincar com a luz, com a cartela de cores. Senti um pouco de falta disso.

Uma ótima frase pra se sintetizar a vida de Barney Panofsky está no filme, “A vida real, ela é feita de pequenas coisas… minutos, horas, tarefas, rotinas e isso tem que bastar”. A partir dessa frase, cabe ao espectador analisar e se questionar sobre o que é o “final feliz” na vida do personagem. Se é que o “final feliz” é o que realmente importa.

Jair Santana

“Rio”, Carlos Saldanha, 2011

Cartaz do filme "Rio"

Carlos Saldanha percorreu um longo e sólido caminho até chegar a direção do filme “Rio”, um dos maiores sucessos de bilheteria de 2011. Começou como produtor de curtas metragens, depois passou a trabalhar com efeitos visuais de filmes como “Um Passe de Mágica” e “Clube da Luta”, até chegar na co-direção de “A Era do Gelo” e “Robôs”. Já em 2006 assumiu a direção da franquia e dirigiu “A Era do Gelo 2” e logo em seguida em 2009 a ultima parte da trilogia, “A Era do Gelo 3”. Mas talvez seja em “Rio” que sentimos que Carlos Saldanha chega a sua maturidade como diretor.

“Rio” apresenta a historia de Blu, uma arara azul, com quase o mesmo do mesmo nome do estúdio onde foi criado, Blue Sky, ramificação de animação da FOX. A arara azul, é uma espécie nativa da mata atlântica brasileira, que se encontra ameaçada de extinção.

Blu (Jesse Eisenberg) foi capturado ainda jovem por contrabandistas de aves, e acabou, por acidente, caindo em uma pequena cidade no frio estado de Minnesota nos EUA, aos cuidados da jovem Linda (Leslie Mann ), com quem tem uma forte relação de amor e confiança.

Blu é encontrado por um ornitólogo (biológo que se dedica ao estudo das aves), Túlio (Rodrigo Santoro), que tenta convencer Linda a levar Blu para o Brasil para que ele possa encontrar uma fêmea de sua espécie com a finalidade de perpetuar sua espécie.

Como bom roteiro clássico que é, Linda e Blu apresentam uma certa negação a sair do seu lugar comum e partir para o mundo especial, mas lógicamente acaba indo para o Rio de Janeiro, para que Blu encontre com Jade (Anne Hathaway) e viva sua esperada aventura.

O roteiro é de Don Rhymer, de “Vovó Zona 1,2 e 3” e “Ta Dando Onda”. Roteiro clássico, sem novidades, com clichês e final previsível. Sim, mas com tudo isso, ainda é um roteiro com uma boa mensagem, do cuidado com a preservação de animais em extinção, com bons personagens e com muitas tiradas engraçadas. Mais que isso, com um humor, que apresenta certa leveza e consegue agradar crianças, e também com uma inteligência que consegue agradar aos adultos.

Apesar de muitos críticos esquecerem, devemos lembrar que acima de tudo, “Rio” é uma animação, diferente de “Wall-E” de Andrew Stanton e “O Mágico” de Sylvain Chomet, que são animações adultas. “Rio” é sim, acima de tudo um filme infantil, por isso, alguns clichês, como o final feliz, são necessários para que as crianças não saiam frustradas do cinema.

E o interessante no filme é justamente, que “Rio”, consegue manter uma ingenuidade e sutileza dos filmes infantis, sem ser um filme bobo e aleatório, conseguindo agradar, e muito, os adultos também.

Visualmente, Carlos Saldanha conseguiu construir um filme rico, belo, cheio de detalhes reais de seu cenário inspirador. Construiu um Rio de Janeiro apaixonante, mesmo sem esconder a pobreza das favelas. Mesmo que seja tudo com sua liberdade poética e um visual romantizado, a favela, a pobreza, presente no personagem do garotinho, e a marginalidade, nos personagens que traficam as aves, estão presentes no filme. Está tudo ali, bom e o ruim Rio de Janeiro.

Um Rio de Janeiro com liberdade poética claro, onde se pula de asa delta na Gávea e se passeia ao redor do Cristo Redentor. Mas não se pode procurar verossimilhança espacial em um filme, ainda mais em uma animação. Criticar esse ponto, já seria um exagero quase que patológico.

Muitos críticos brasileiros reclamaram dos clichês apresentados no filme, como se no Rio, os cariocas vivessem em função do carnaval ou falassem inglês fluentemente. Talvez, o problema seja realmente dos críticos, por esquecerem primeiro, que o filme, não é brasileiro, e por ser realizado por um estúdio americano e voltado para o mercado internacional, logicamente será falado em inglês. E segundo, o Rio de Janeiro, próximo ao carnaval, vive sim, em função da festa. Mas talvez, pra se entender isso, tenha que se viver no Rio de Janeiro por algum tempo, para se ter a visão do que representa o carnaval para a cidade e para o carioca. Carnaval esse, que começa sua preparação, festas e ensaios, no segundo semestre do ano anterior, com pessoas vivendo plenamente o carnaval, mesmo já próximo do natal por exemplo. Mas não vamos aqui, continuar dissertando sobre a ignorância de alguns críticos.

Temos sim que entender, o objetivo do filme, para que público ele foi feito, qual sua mensagem, e se ele consegue não subestimar, levar a mensagem, e agradar seu público. E isso, “Rio” já mostrou que tem feito.

Não podemos deixar de falar de dois pontos importantes do filme. O elenco selecionado para dar voz aos personagens. Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, Rodrigo Santoro, Leslie Mann e ainda participações especiais, como a brincadeira de Saldanha de convidar a cantora Bebel Gilberto para dar vo a desafinada tucana Eva. Elenco de primeira linha. Eisenberg e Anne Hathaway como Blu e Jade respectivamente, estão excelentes, dando com suas interpretações, personalidades fortes aos personagens.

Outro ponto forte é a música, assinada por John Powell, Sérgio Mendes e Will i.am. A mistura do samba e da música brasileira com o pop americano talvez nunca tenha sido tão bem realizado. Ali, a presença de Sérgio Mendes foi essencial para esse resultado. A trilha sonora do filme é um personagem a mais. Tanto as canções com o a trilha incidental, casam perfeitamente com o clima do filme.

“Rio” já é um grande sucesso de público, com crítica dividida, mas sem muitos ataques ao filme, com certeza é um trabalho de ótimos atributos, que vem a firmar a carreira de Carlos Saldanha como um dos mais fortes nomes da animação mundial.

Jair Santana

“Em um Mundo Melhor”, Susanne Bier, 2010

Em um Mundo Melhor

Susanne Bier é uma diretora promissora da Dinamarca, sua breve carreira, de apensas 5 filmes, tem chamado atenção do mundo. Seu recente trabalho,“Em um Mundo Melhor”, já é o segundo filme de sua carreira que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O primeiro foi em 2007, “Depois do Casamento”, que perdeu para o alemão “A Vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck .

O filme é o grande Vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 2011. É um filme tenso, forte e acima de tudo sensível. Ele provoca o espectador e faz pensar em seu senso de justiça e suas reações.

“Em um Mundo Melhor” conta a historia Christian ( William Johnk Nielsen), um garoto que acaba de perder a mãe e se muda com o pai de Londres para casa de sua avó em uma pequena cidade da Dinamarca, e lá, faz amizade com Elias (Markus Ryggard), uma garoto da sua sala que sofre bullying dos colegas maiores.

Paralela a historia de Chris e Elias estão a de seus país, os de Elias, Anton ( Mikael Persbrandt) e Marianne ( Trine Dyrholm), que vivem um processo de separação, e de Claus ( Ulrich Thomsen), pai de Chris que é acusado pelo garoto de desistir da mãe e deixá-la morrer de câncer.

Esse paralelo é muito mais forte entre Anton e Chris. Estes sim, poderíamos dizer que são os personagens antagônicos do filme. Logo que chega na escola, Chris vê seu amigo sendo agredido e também se torna vítima dos causadores do bullying. No dia seguinte, prepara uma vingança ao principal de seus agressores. Por outro lado, Anton, pais de Elias é um médico voluntário em um país na África, e convive com outros tipos de violência, em um país em meio a uma guerra civil, onde o chefe da milícia local é violento e sádico.

Sem um tom moralista, mas sim provocador, o roteiro de Anders Thomas Jensen ( “Depois do Casamento” e “A Duquesa”) nos mostra reações adversas ao contato com a violência. A velha máxima de “violência gera violência” se apresenta de uma maneira sutil, porém forte.

Em um certo momento do filme, Anton é agredido por um homem em frente aos seus filhos e de Chris, porém não reage. Ao ser questionado por seu filho Elias sobre sua não reação, responde apenas que o agressor é um idiota, e que “é assim que as guerras começam”. Sim, pode ser, mas isso não fica por aí.

Anders e Susanne usam dois microcosmos, o acampamento em meio a guerra civil e a própria escola, para mostrar, que o que vale para nossa vida pessoal, vale para um macrocosmo também. O número de pessoas pode ser menor, o grau de violência pode ser menor, mas a premissa é a mesma. A violência e a resposta a violência.

A falta de comunicação, a intolerância, a xenofobia, o preconceito, gera situações violentas, inesperadas e até incontroláveis. Situações como ir além do que se planejou com as suas ações, ou mais ainda, por perder alguém querido.

As atuações são maravilhosas. Susanne Bier mostra ser uma ótima diretora de atores. A tensão do filme é impressionante. Os dois garotos, Christian ( William Johnk Nielsen) e Elias (Markus Ryggard) seguram os personagens com uma densidade, e ao mesmo uma inocência conveniente a suas idades. São interpretações incríveis, principalmente de William Johnk Nielsen, sempre fechado, inseguro mas ao mesmo tempo que querendo parecer forte.

Todos os personagens principais estão muito bem e são muito bem construídos. Destaque para Anton (Mikael Persbrandt), pai de Elias, o médico voluntário, que convive com um tipo de violência mais elevado, e sempre mantêm a calma, a serenidade, o equilíbrio. Quando não suporta mais guardar esse equilíbrio, explode sem pensar nas conseqüências de seu ato, e se questiona depois de sua reação, mesmo sem uma palavra, se fecha para conviver com as conseqüências do que fez.

Uma das sequencias mais fortes do filme, é quando Anton volta a ser agredido em frente a seus filhos e ao amigo do filho, e não reage, fica inerte, com um rosto sem expressão, apático. A cena é muito provocadora, questionadora e por que não dizer, revoltante.

A chave da questão, a chave do filme é essa. Até onde é válida uma reação violenta a uma atitude violenta. A resposta não é fácil e não vem fácil. A vontade da reação, da vingança, está presente em todos nós.

A fotografia de Morten Soborg não apresenta grandes firulas. É simplória mas muito bem realizada. Talvez fria como a Dinamarca, é esse o tom que predomina. A luz fria. Mesmo na África tudo é meio, digamos assim, “nublado”. Sem grandes sombras, sem luz estourada. Muito funcional ao que o filme apresenta.

Outro grande destaque é para a música de Johan Söderqvist, muito presente em boa parte do filme, conversando diegéticamente o tempo todo com as ações apresentadas. É também por conta da trilha que a tensão e a emoção do filme crescem. Johan Söderqvist é responsável por trilha de filmes como “Coisas que Perdemos pelo Caminho” também de Susanne Bier e a belíssima trilha de “Deixa Ela Entrar” de Tomas Alfredson.

“Em um Mundo Melhor” é desses filmes universais, que apesar de ocorrer na Dinamarca, poderia ocorrer do seu lado. Essa é a vantagem de se usar o micro para se falar algo maior. É também um filme diferente do estilo da maioria dos filmes americanos, onde tudo é muito explicado. Aqui o silêncio é tão importante quanto cada palavra. As ações silenciosas, o olhar, tudo é parte da diegese do filme e tem que ser pensado.

Jair Santana

“Além da Vida”, Clint Eastwood, 2010

Além da Vida

“Além da Vida” do diretor Clint Eastwood, diretor de “Menina de Ouro” e Gran Torino”, filmes altamente críticos ao mesmo tempo que muito sensíveis, parece ter errado a mão nesse filme.

Com uma vasta cinematografia, Clint tem crescido muito como diretor, em especial de 2003 em diante, quando realizou o forte “Sobre Meninos e Lobos”.

Aos 82 e em plena atividade, o diretor realiza “Além da Vida”, um filme sobre pessoas e suas relações com a morte. Quando perguntado se teria trabalhado o tema em função da sua idade e de ter encontrado sua espiritualidade, o diretor afirma que poderia ter feito esse trabalho ao 30 anos, pois sempre se interessou pelo tema.

O tema realmente é interessante, a morte, e como as pessoas lidam com ela, inclusive por quem sobreviveu a uma experiência de voltar da morte. Porém, a forma como o filme é conduzido é morna, sem grandes reviravoltas ou ondulações na historia.

Espera-se um pouco mais, de um diretor como Clint Eastwood, e ainda mais pela espetacular sequência inicial do filme. Forte, tensa, e muito bem realizada, com a sequência de um Tsunami.

A historia dos três personagens principais vai acontecendo em paralelo, e o encontro dos três é previsível até demais. Espera-se, que esse encontro aconteça como algo mais forte, mais grandioso, mas isso não acontece. Tudo é muito linear, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. A emoção em si, está no que já aconteceu, a relação com a morte

Existe o momento de crítica, como era de se espera em um filme de Clint Eastwood, nas três situações. Em dois deles, como as pessoas querem tirar proveito e ganhar dinheiro com o desespero das pessoas em perder alguém querido. No terceiro caso, como se é discriminado e desacreditado por passar por uma experiência mais espiritual.

 

O roteiro de Peter Morgan é fraco, os personagens são bem apresentados, mas a partir daí, parece que Morgan não sabe bem como aproximar e contar um pouco mais da historia dos personagens, e o filme acaba tendo uma barriga nas suas 2 horas e 9 minutos. Um tempo muito mal utilizado.

Diferente de outro diretor que entrelaça personagens diferentes em suas historias, o mexicano Alejandro González Iñárritu cria tensões até suas historias se encontrarem, o roteiro de Morgan parece não decolar. Frio, mantendo o espectador distante de todos os personagens. O que causa maior apatia é a historia do menino Marcus (vivido pelos gêmeos George e Frankie McLaren ), e ao confrontar os personagens até então distantes, não apresenta nada de novo, e nem nada muito empolgante acontece.

A direção de Clint é boa, sua direção de atores é excelente, o que parece ser uma característica de atores que se tornam diretores. Mas o roteiro oferece pouco para que o diretor aproveite mais de seus atores, a não ser em alguns poucos momentos.

A interpretação de Matt Damonn como George Lonegan é introspectiva e densa. O personagem nunca extravasa seus sentimentos, mas também não há um momento implosão, como acontece com Brian Geraghty (Owen Eldridge) em “Guerra ao Terror”. E sinto falta desse momento. O personagem não parece ser frio, mas sua maior demonstração de emoção é feita através de uma carta ao seu irmão. George então se torna inverossímil ao que o filme apresenta.

A fotografia de Tom Stern é bonita e bem realizada. O fotografo é o braço direito do diretor, e Stern trabalhou com Clint também em “A Troca” e “Invictus”.

No mais, “Além da Vida” é um filme que pode emocionar, principalmente aos religiosos que crêem em vida após a morte, ou qualquer um que passou pela situação de perder alguém querido. Logo, o filme pode ter um grande número de espectadores, mas como cinema, decepciona.

A mão segura de Clint ajudou o filme a crescer mais do que ele seria na mão de um diretor menos experiente, mas ainda assim, é seu trabalho mais fraco dos últimos anos, e por pouco não escapa de ser um melodrama tipo filme b.

Jair Santana

“A Rede Social”, David Fincher, 2010

A Rede Social

A Rede Social

“A Rede Social”, filme do diretor David Fincher, é de roteiro de Aaron Sorkin, baseado no livro de “Bilionários por Acaso, A Criação do Facebook“, de Ben Mezrich, escrito a partir do ponto de vista do brasileiro Eduardo Saverin.

Este não é o melhor filme de Fincher, diretor de “Clube da Luta”O Curioso Caso de Benjamin Button, mas é com certeza o filme que lhe dará alguns dos principais prêmios do cinema do ano.

“A Rede Socail” é sobre um assunto muito contemporâneo, muito atual. O Facebook. Talvez o maior fenômeno de um site de relacionamento on line desde a criação da internet na década de 70. Mais que sobre “o que é” o site, o filme é sobre seu processo de criação, ou seja, “como se chegou até o Facebook”.

Mark Zuckerberg, é interpretado muito bem por Jesse Eisenberg,  que utiza em sua interpreração o mínimo de expressões no rosto e um tom de voz que parece nunca mudar. Agrega com isso uma arrogância quase inata ao personagem,  um rapaz com dificuldade de relacionamento, tanto amoroso como de amizades.

Seu único amigo, é o brasileiro Daniel Saverin, um colega estudante de Havard. Sua pretensa namorada o abandona na primeira, e fantástica, sequência do filme, em que 3 ou 4 minutos, passamos a conhecer exatamente como é a linha de pensamento e como se comporta o estranho Zuckerberg.

Mas o personagem principal do filme não é somente um curioso anti-herói. É talvez, a síntese de uma juventude. É só mais um, que passaria por cima de tudo e todos, é só mais um, que para conseguir notoriedade e dinheiro, derrubaria amigos, se uniria a inescrupulosos e por aí vai. Não é tão distante da maioria dos jovens que querem conseguir “chegar lá” o quanto antes. A famosa geração Y, nascidas a partir dos anos 80.

Então vamos acompanhar quem foi o Mark Zuckerberg do filme. Ele era um jovem muito inteligente quando se falava em técnica. Após levar um fora da namorada, cria em uma rede interna em Harvard, um programa comparativo entre as estudantes da universidade. Em apenas uma madrugada, o acesso é tanto, que faz com que a rede caia.

Pela primeira vez, ele se torna popular para alguns estudantes. É convidado então por dois irmãos de Havard, que são milionários, a criar uma rede social entre estudantes de universidades. Está aí a semente do Facebook. Daniel Saverin, seu amigo, único amigo, investe então o dinheiro inicial para que ele possa se dedicar a criação desse programa e se associa a ele. Mark então em vez de trabalhar para os dois estudantes, passa a trabalhar pra si, e some do alcance dos que o contrataram.

Roubar idéias não é algo novo. E roubando idéias, Mark Zuckerberg se tornou bilionário e virou ídolo da geração Y. Mas pelo Mark Zuckerberg que aparece no filme, e pelo que se nota em entrevistas, ficou rico e continua solitário. Seus amigos? São virtuais, assim como o seu dinheiro. O Facebook hoje é o site mais acessado do mundo, e está avaliado em mais de 50 bilhões de dólares.

Se encantará e se identificará com o filme principalmente aqueles que fazem parte desse mundo virtual, e mais ainda aos que acreditam nele. Aos que acreditam que as relações virtuais, são tão importantes ou palpáveis quanto as reais. Aos que acreditam na sensação de poder que internet pode criar.

O roteiro de Aaron Sorkin caminha entre o genial e o confuso. É ágil, genial em sintetizar situações em uma ou duas frases, como é a cena em que a ex-namorada de Daniel Saverin briga com ele por que estava marcado “solteiro” no seu perfil do Facebook., e as vezes confuso, por querer contar detalhe técnicos de algumas situações menos relevantes. Também não é um roteiro inovador. Pelo contrário, é até tradicional em seu formato. O herói está em um lugar comum, quando é chamado para o mundo especial, enfrenta problemas, e termina como uma nova pessoa. Sem grandes reviravoltas, sem grandes surpresas. Nada de novo.

A fotografia é de Jeff Cronenweth, que já havia trabalhado com Fincher em “Clube da Luta”. É funcional, tem uma texttura anos noventa, um pouco lavada, mas nada surpreendente. Não tem um grande diálogo com o filme. Até mesmo por que tudo se inicia em 2003.

A trilha sonosa de Trent Reznor é um ponto importante do filme. Presente desde sua primeira cena, a música dá o clima tenso e uma densidade as cenas que ficariam em lugar comum sem ela.

A direção de Fincher é segura. Ele prova mais uma vez ser um ótimo diretor de atores, a participação de Justin Tinberlake como Sean Parker criador do Napster é execelante, chega a roubar a cena. Ótima também é a participação de Andrew Garfiel interpretando Daniel Sevarin. Elenco bem escolhido é boa parte de um filme.

Mas Fincher erra em outros pontos. Diálogos e edição rápidos demais, e historias com muitos detalhes, não contribuem para o envolvimento do espectador no filme. Pelo contrario, acaba fazendo o filme parecer corrido demais, afastando o espectador da historia. Com toda certeza, não é seu melhor trabalho como diretor.

A verdade é que “A Rede Social” é um filme datado. É contemporâneo, como já foi citado, mas ao contrário do que acontece com grandes filmes, não terá interesse para as próximas gerações, ainda mais se o Facebook fracassar em alguns anos como aconteceu com Orkut. Algo que chama muito atenção do filme são as questões autorais na internet, ainda não solucionadas.

Se “A Rede Social” realmente é o filme do ano de 2010, teríamos que afirmar, que 2010 foi um ano sem grandes filmes e que logo será esquecido. O que não é fato. Foi um ano de bons filmes sim, o que se precisa mudar, é a linha de pensamento das grandes premiações.

Jair Santana

“Abutres”, Pablo Tropero, 2010

Abutres

Abutres

“Abutres”, de Pablo Tropero, diretor de filmes como “Família Rodante” e “Leonera”, seja talvez o filme mais crítico de sua carreira. O filme trata do sistema de seguros de trânsito na Argentina. Os “abutres” no caso, são os advogados especializados em abordar as vítimas e as famílias das vítimas de acidentes de trânsitos oferecendo seus serviços, mas com o intuito real de arrancar um bom dinheiro das seguradoras, e evidente, não repassar o real valor às vítimas.

Como “Leonera”, “Abutres” é um filme forte, de cenas fortes, aqui, Tropero foi mais contundente, apresenta um filme violento, crítico, não só com o esquema securitário argentino, mas também, em sua trama paralela, com o sistema de saúde.

Os personagens principais, Sosa, interpretado pelo mais popular ator do cinema argentino, Ricardo Darin (de “O Filho da Noiva” e “O Segredo dos Seus Olhos”), e Luján, mais um ótimo trabalho de Martina Gusman, que foi protagonista de “Leonera”, não são o que poderíamos chamar de personagens carismáticos. Sosa é um anti-heroi, ele é um desses abutres que circundam hospitais atrás de vítimas de acidentes. Luján é uma médica dedicada, que se droga para agüentar sua rotina puxada de trabalho exigida pelo seu diretor.

O filme tem um bom roteiro, mas sua apresentação inicial é mal realizada. Se demora um pouco para entrar no filme, as informações de apresentação são um tanto confusas, mas depois desse momento, o roteiro decola e o espectador se envolve mais com os personagens. Essa apresentação porém é de extrema importância para pegar o espectador.

“Abutres” é um thriller policial violento, que não fica só na violência por si só, assim como acontece em “Tropa de Elite”, denuncia através da ficção, uma situação real que acontece dentro do “sistema”. Palavra para definir o modo de governo, organizacional, que é muito utilizada no “Tropa de Elite”. Mesmo que inicialmente, Pablo Tropero, tenha declarado em entrevistas que “Abutres” seria acima de tudo uma historia de amor, essa premissa inicial, ficou em segundo plano, mesmo que não tenha ficado menos importante. O foco principal é a denúncia, o sistema falido.

Tropero tem um tipo direção que se aproxima de David Cronenberg em “Crash – Estranhos Prazeres”, mas esse é o tipo de filmagem de Tropero, a fotografia, do fotógrafo Julián Apezteguia, nunca é limpa demais, muita câmera na mão e um cenário estilo mais realista.

Se percebe uma coerencia na carreira de Tropeiro, que tem crescido como diretor, e chamado atenção não só na Argentina, mas no mundo, (a distribuição por exemplo é da Walt Disney Studios Motion Pictures na Argentina e Paris Filmes – Brasil) com seu cinema visceral e ao mesmo tempo intimista.

Jair Santana

“Enterrado Vivo”, Rodrigo Cortés, 2010

Enterrado Vivo

Rodrigo Cortés é um jovem diretor, produtor, editor e roteirista espanhol, diretor de “Concursante”, filme não lançado no Brasil, que crítica as taxas que os governos cobram sobre tudo que se ganha, inclusive prêmios. Agora em seu segundo longa, “Enterrado Vivo”, Rodrigo se utiliza de um thriller claustrofóbico, para continuar criticando ao sistema, dessa vez, mais especificamente, aos EUA.

Aqui, temos Paul Conroy (Ryan Reynolds), um motorista de caminhão de uma empresa americana, trabalhando no Iraque  na entrega de suprimentos. Quando seu comboio é atacado, Paul é atingido e acorda num caixão  enterrado em algum ponto da área de conflito. O filme porém inicia-se, ousadamente, depois desses acontecimentos. A primeira imagem, ou melhor, o primeiro contato diegético do filme do filme com o espectador, é a partir do momento em que Paul acorda dentro de uma caixa enterrado nesse local não especificado.

O espectador então vai conhecendo através do próprio Paul, sua historia. Dentro da caixa, inicialmente o personagem tem somente um celular, um isqueiro e uma garrafa de bebida, a partir daí cria-se toda a ação diegética do filme. Poucas vezes o cinema foi tão ousado em limitar esse espaço como é o cinema realizado por Rodrigo Cortés.

Tivemos alguns filmes,  como “Festim Diabólico” de Alfred Hitchcock, que se passava todo em um apartamento, e “12 Homens e uma Sentença” de Sidney Lumet, todo filmado em uma sala onde jurados votavam o resultado de um julgamento. Dois mestres do cinema, que conseguiram realizar dois ótimos filmes com essa limitação desafiadora.

Aqui, Rodrigo Cortés, um diretor novo, que ainda não se pode chamar de “mestre”, realiza com igual maestria, um projeto ainda mais ousado. Uma locação ínfima, um único ator e uma situação, que definitivamente, vai afastar os mais sensíveis, ou como diria Ana Maria Bahiana “pessoas impressionáveis”, do cinema.

O diretor consegue deixar o espectador tão preso quanto o personagem de Ryan. As primeiras sensações que vêem a cabeça são claustrofobia, prisão, falta de ar. A limitação de espaço é realmente claustrofobia como nunca tinha visto antes no cinema. Tivemos a Noiva (Uma Thurman) de “Kill Bill – 2”  de Quentin Tarantino, que foi enterrada viva, porém, ali, uma historia mais fantasiosa ao estilo Tarantino, a Noiva, em um passe “de mágica”, graças aos ensinamentos de seu mestre consegue rapidamente se livrar da situação.

Em “Enterrado Vivo”, o diretor prefere realizar um filme, digamos, mais realista. Seu tempo é escasso, seu desespero é aparente, sua capacidade de reação é super limitada. Paul não tem muito que fazer a não ser pedir ajuda externa, e aí, começa um segundo ponto do filme muito forte. A incompreensão de todos os que estão lá fora, para lidar com a situação.

Paul sabe que está enterrado não a “7 palmos” como se costuma falar, mas de uma altura razoável para conseguir sinal do celular, chega até a ouvir o mundo lá fora, mas nada é certo, e ele está fragilizado pela situação.

Seja sua cunhada, o atendimento de emergência da polícia, o FBI, a telefonista, enfim, ninguém consegue se comunicar de maneira razoável com o protagonista. A crítica ao sistema de atendimento é contundente. Paul, desesperado querendo salvar sua vida, e do outro lado, não há pessoas, e sim atendentes “robotizados”, mergulhados em burocracias e normas, que não conseguem pensar além do que sua função lhe cabe.

Dentro dessa burocracia, Paul cai em uma cilada, de ser desligado de tudo que possa ser responsável por ele estar ali. Inclusive a empresa de transportes em que trabalha. A manipulação de informações, da empresa, do governo, tudo conspira para que Paul seja só mais um nome logo esquecido.

Parece não haver esperança, mas o personagem luta o tempo todo por sua sobrevivência. Até o espectador tende querer desistir, mas não o herói. Do celular, liga para todos os lugares possíveis, ele sabe que seu tempo é limitado. Fora isso, ainda há seus sequestradores do lado de fora, fazendo exigências pelo celular.

Foi uma ótima oportunidade para o ator Ryan Reynolds trabalhar não um “galã”, mas um personagem rico, forte,  e acima de tudo denso. Seu bom trabalho de ator foi essencial para o êxito do filme. Seu desespero, sua lágrima, o seu debater dentro do caixão deixa o espectador tão desesperado quando o personagem se sente.

A câmera de Eduard Grau, diretor de fotografia de “Direito de Amar” de Tom Ford, mostra mais um ótimo trabalho. Diferente do filme de Tom Ford, onde cada cena parecida um editorial de moda, Grau aqui se vê limitado para uma fotografia mais rabiscada, tanto de espaço quanto de elementos de luz, e dentro dessa realidade, o diretor de fotografia realiza um ótimo trabalho.

O roteiro de Chris Sparling consegue apresentar bem o personagem (dá até pra imaginar como era sua vida fora do caixão), e também consegue prender o espectador. Foge da formula do roteiro clássico que o cinema americano nos acostumou e consegue se afastar de clichês. Confesso que até eu torci por algum clichê em momentos de maior aflição. Chis Sparling chegou a apresentar o roteiro a grandes estúdios mas nem um quis bancar a idéia.

Rodado em aproximadamente 15 dias de filmagem, sua produção custou apenas 3 milhões de dólares, o filme é uma produção Espanha/França e EUA. Tem conquistado fãs por mostras e festivais que passa. Fez um grande sucesso de público no Festival de Sundance, onde foi comprado por 3,5 milhões pela distribuidora Lionsgate, e tem feito uma boa carreira de público e crítica, pro tamanho que teve seu lançamento, tanto nos EUA como agora no Brasil, onde foi lançado pela Califórnia Filmes.

“Enterrado Vivo” é um filme difícil, por tudo que foi falado, principalmente pelas sensações que nos provoca. Mas acima de tudo, é um cinema ousado, inovador, crítico e que tenta fugir do óbvio. E por isso mesmo, é um filme que merece ser visto.

Jair Santana

“Contracorrente”, Javier Fuentes-León, 2010

Contracorriente

Contracorriente

“Contracorrente”, é o longa metragem de estréia do diretor peruano Javier Fuentes-León, o filme foi vencedor do prêmio na escolha do público no Festival de Sundance, e também levou  prêmios no Festival de San Sebastian e de Melhor Filme do Festival Mix Brasil de 2010.

“Contracorrente” conta a historia do pescador Miguel (Cristian Mercado), casado com Mariela (Tatiana Astengo), e vive um triangulo amoroso conflituoso com o artista plástico Santiago (Manolo Cardona) em uma isolada vila de pescadores.

O filme conta com esses três personagens muito bem construídos e complexos. Mesmo com alguns clichês, o roteiro é sensível, porém foge do piegas, e apesar de tradicional, é bem elaborado.

Pelo universo preconceituoso e extremamente masculino que vivem Miguel e Santiago, é impossível não comparar o filme com “Brokeback Mountain” e “Pecado da Carne”. E ao comparar, percebemos algumas semelhanças entre os personagens, como o de um deles ter mais certeza do que o outro sobre a segurança de sua paixão, enquanto o outro, vive a paixão conflituosa  entre a esposa e o amante. É importante também observarmos o grande contraponto entre os filmes. A esposa desse triangulo amoroso nos três casos.

Diferente da mulher americana de “Brokeback” e da judia de “Pecado da Carne”, a mulher latina de “Contracorrente” reage e luta pelo seu marido. Faz questão de saber o que acontece, e chega a abandoná-lo enquanto não sente nele a segurança de o ter por completo.

Outro ponto interessante entre os três filme é que, os três apresentam um espaço isolado (só dos amantes) para seus encontros amorosos. Seja a montanha de Brokeback, o quarto dos fundos de um açougue e no terceiro, uma praia mais isolada na ilha de pescadores.

Em “Contracorrente”, um ponto importante é que, assim como Aaron Fleishman (Zohar Strauss) em “Pecado da Carne”, Miguel, o pescador, é alguém muito respeitado em sua comunidade. E Santiago, o artista, é filho da região, mas mora na cidade grande e vai ao lugar para aproveitar a casa de praia. Ele tem a antipatia de todos da região, por desconfiarem de sua homossexualidade.

Miguel tem certeza de sua condição homossexual, mas insiste em não aceitar. Ama sua esposa, que espera um filho seu, mas seu desejo é mesmo por Santiago. E esse confito é um ponto alto do filme.

Numa cidade onde as convenções sociais ainda são mais fortes que a liberdade individual, quebrar essas convenções é assumir riscos de isolamento. E para alguém como Miguel, totalmente introduzido e de certa forma, dependente dessa comunidade, assumir essa luta em prol de sua liberdade, de sua paixão, é muito difícil.

Aí está um ponto importante no filme. A luta que ele prega contra a comunidade, mas antes de tudo, contra si mesmo. Quebrar convenções é quebrar com sua historia e seus costumes mais enraizados. E não quebrar, é se tolir, é não amar, não viver como realmente quer, é ser prisioneiro de si mesmo. Esse conflito é muito bem colocado pelo diretor, que é também roteirista do filme, e muito bem representado por Cristian Mercado.

Em determinado momento, o filme dá uma virada inesperada, por mais que seu final desde o inicio,  seja um pouco previsível, esse ponto de virada faz toda diferença no filme. Fugindo do realismo para um mundo fantástico.

O filme não chega a ser pesado. A dosagem certa de humor, dramas e romance, fazem com que “Contracorriente” seja um filme equilibrado, sem levar às lágrimas, mas também mantendo a questão com seriedade e firmeza.

A fotografia de Mauricio Vidal é muito bem realizada. A opção de se filmar numa cidade de praia, essencialmente com tomadas diurnas poderia dificultar a fotografia, e aqui, isso não acontece. A fotografia é segura, com sombras certas e paisagens que nunca roubam a cena, nunca tiram o olhar dos atores em foco, apesar das belas locações na costa do Peru. O som também é muito bem utilizado, o som do mar e do vento, sempre presentes nunca avançam mais do que deveriam, não atrapalhando o áudio dos atores..

A escolha do elenco também é super correta. Os três protagonistas, assim como os coadjuvantes escolhidos pelo diretor, parecem pessoas comuns, que realmente pertencem aquele lugar. Nada de galãs e mulheres muito belas, mas sim, pessoas reais. Nada soa artificial, tudo é muito orgânico.

“Contracorriente” apresenta boa historia com a segurança de um diretor experiente, um cinema latino questionador, que sabe realizar um bom cinema dentro da sua realidade de vida  e sem grandes orçamentos.

Jair Santana

“Rosa Morena”, Carlos Oliveira, 2010

Rosa Morena

Rosa Morena

Rosa Morena, produção Brasil/Dinamarca, é o filme de estreia do diretor brasileiro Carlos Oliveira. E já em seu primeiro filme, de roteiro também seu com Morten Kirkskov,  Carlos apresenta uma direção segura e um estilo de filme que não é comum por aqui.

Rosa Morena é um drama denso, realista e acima de tudo emocionante. Thomas é um homossexual dinamarques, que por essa condição, em seu país não pôde adotar uma criança. Vem então ao Brasil, onde tem um velho amigo, Jacob, em busca desse filho adotivo. Até aí temos o velho clichê do europeu rico que vai aos paises pobres em busca de filhos adotivos. Mas os clichês param por aí.

Não mais disposto a esperar pelos tramites legais da adoção, Thomas busca seu objetivo querendo “comprar” um filho. Aí já temos um primeiro questionamento. O fato de se comprar uma criança de uma mãe, mesmo em dificuldade é correto? O filme porém não para por ai, assim como Thomas busca comprar, existe os que querem ganhar em cima desse interesse, fazendo disso, como é frisado em certa altura do filme, um grande negócio.

Thomas tenta uma primeira vez, se aproximando de uma mãe humilde e fazendo uma proposta.Porém não é bem vinda. A esposa de Jacob, interpretada pela ótima Viviane Pasmanter, trabalha com comunidades carentes e conhece uma mulher grávida que tem interesse no “negócio”. Thomas conhece e se aproxima da mãe e de sua familia. Passa então a conviver, conhecer e até se envolver com ela. Essa aproximação acaba trazendo problemas e tensão.

O filme tem vários acertos. O roteiro muito bem escrito, a direção de fotografia Philippe Kress é muito bem realizada. Interessante notar como é muito mais um estilo europeu que brasileiro. O olhar da periferia, da pobreza é diferente de como é retratado nos filmes brasileiros. Pois como o diretor salientou, o Brasil que vemos alí é a partir da visão de um europeu.

A escolha do elenco também é um ponto certo. Rostos menos conhecidos e o ótimo roteiro dá naturalidade as interpretações. Você acredita em cada personagem. Viviane Pasmanter é o rosto mais conhecido, e ainda assim, não é um rosto óbvio. O filme não se vende pelo elenco famoso e sim pela questão que coloca.

Ainda temos trilha sonora. Algo que ainda é um problema na maiorida dos filmes brasileiros, aqui é outro dos pontos mais fortes. O responsável é o compositor dinamarques Frithjof Toksvig, desconhecido por aqui, mas em seu país é um compositor bem requisitado para trilhas de cinema, séries e comerciais.

“Rosa Morena” é um filme que questiona, mas não julga. Faz melhor. Nos coloca situações para que o espectador avalie, pense, se questione. E também chama atenção tanto para a lentidão na justiça para uma adoção (existem mais de 80 mil crianças orfãs no Brasil), para também o quanto é “facil” burlar a lei e conseguir esse filho por outras vias. Mais que certo ou errado, o filme nos apresenta uma realidade muito particular dessa situação, questionando mas não colocando um ponto final.

Cinema brasileiro com um outro e novo olhar. O jovem diretor Carlos Oliveira, que hoje vive na Dinamarca, trás uma autênticidade ao cinema brasileiro que vemos pouco. O cinema que por aqui costuma se resumir a comédias e filmes de ação, encontra nesse drama um debate sobre questõres muito próximas a nossa realidade. E aí é a grande chave do filme.

“Rosa Morena” não é um filme sobre favela, sobre pobreza, é sobre relações humanas e busca de um sonho. O quanto custa buscar o seu sonho e até onde podemos ir por eles.

Jair Santana

“Dois Irmãos”, Daniel Burman, 2010

Dois Irmãos

Dois Irmãos

O novo filme do jovem diretor argentino Daniel Burman, de “O Abraço Partido” e “Ninho Vazio”, é mais um ótimo filme de uma bela filmografia. “Dois Irmãos” pode ser um filme crítico, inteligente mas também não deixa de ser um filme humano e bem humorado.

Susana (Graciela Borges, de “O Pântano”) é uma perua egocêntrica e valoriza o próprio sucesso acima de tudo. Por esse motivo, deixou exclusivamente a cargo do irmão Marcos (Antonio Gasalla), um homossexual enrustido e omisso, que tem a tarefa de cuidar da mãe. Quando esta morre, Marcos se vê solteiro aos 64 anos e sem grandes realizações profissionais e sem grandes perspectivas. Ao ser levado por Susana a sair do próprio apartamento onde sempre morou com a mãe em Buenos Aires, ele vai buscar asilo em um vilarejo no Uruguai. Lá, ingressa em um grupo de teatro, desenvolve amizades, se apaixona pelo diretor e assim recupera a vontade de viver.

Os irmãos protagonistas, são meio que uma sintese do argentino atual. Susana, mesmo que de um modo exagerado, é uma mulher sofisticada mas decadente, cheia de artimanhas para manter certa aparencia ela mantem um certo ár de superiodade. Seu contraponto, o irmão Marcos é ao mesmo tempo que mais equilibrado, tambem mais conformado com o rumo que sua vida tem tomado. Ao ponto de permitir que em uma das falcatruas da irmã, abandone sua casa para viver em um vilarejo no Uruguai.

Susana não se cala. seja onde estiver, ela não para de falar, pro irmão, vizinhos, ou um corretor que acabou de conhecer, sempre contanto vantagens de uma vida que não é a sua. Marcos, mais ouve que fala. Se mantem sempre obtuso a quase tudo que acontece. Mesmo em sua mais brusca reação, Marcos nada fala. Se isola, mas não fala nada.

O filme tem vários acertos, roteiro, direção, mas talvez o maior deles seja mesmo a escolha e direção de atores. Graciela e Antonio estão ótimos, dão o tom certo de verdade e graciosidade nos seus personagens. Soma-se as ótimas interpretações, o ótimo roteiro, baseado em livro de Diego Dubcovsky, é agil, com ótimas tiradas, e mesmo com dramas familiares e finaceiros, o humor é permanente.

“Dois Irmãos” não é o melhor filme do ano e nem arrebatará multidões para o cinema. Mas é um filme leve, acessível e inteligente que terá seu público. Uma aula de cinema dos nossos hermanos. Enquanto o cinema brasileiro, com raras exceções, tenta imitar o cinema americano, o argentino cria sua própria identidade, caminhando para um cinema humano, inteligente, simples e não por isso um cinema menor. Temos muito que aprender com eles.

Jair Santana

“A Origem”, Christopher Nolan, 2010

A Origem

A Origem

Quando se achava que as boas historias de ficção ciêntica estavam fadadas a filmagens de livros e contos de Philip K. Dick e Izaac Asimov, temos então um ótimo roteiro de ficção original de Christopher Nolan, com seu filme “A Origem”, que era o mais aguardado filme do ano.

Entre os bons filmes de ficção, sim, temos “Matrix”, que arrebatou público e crítica, que surpreendeu, encantou, mas que também se perdeu em suas continuações.Então chega Nolan, com uma história, que podemos até dizer que usa referências de Matrix, quando se fala em uma realidade paralela e a forma como é coloda, mas não, não vá esperando a mesma colocação, realização, afirmação, não vá esperando um outro “Matrix“.

“A Origem” consegue ser superior em vários pontos. Por mais ficção, por mais “viagem” que sejá o roteiro de Nolan, ele nos permite essa viagem por pura e simplesmente se utilizar de um espaço onde tudo pode. Os nossos sonhos. Neles, podemos voar, matar, morrer, e até criar cidades inteiras, e mesmo estar ao lado de pessoas que já se foram. Nos sonhos, como já afirmei, tudo pode. E é aí que Nolan acerta em cheio.

A historia, é complicada, pelo menos inicialmente. Não há como negar. Mas o roteiro de Nolan é também um clássico. Sabe aquela historia do “grande assalto”, que parece que já vimos em algum lugar? Pois é, é um pouco assim também. Mas então o roteiro nos prêmia com uma novata, a Adiadne, vivida por Ellen Page, que não conhece a estrutura e aprende, junto com o espectador, tudo que que acontece na “viagem” do roteirista.

O diretor, Christopher Nolan, rege o filme com maestria. Realmente, sua filmografia (Amnésia, Batman – Beggins, Batman-O Cavaleiro das Trevas ) tem provado que já pode ser colocado como um dos maiores diretores de sua geração. Ainda mais quando falamos, de um diretor essencialmente Hollywoodiano, podemos afirmar que sim, pode existir vida inteligente nos “blockbusters”.

Assim foi falado quando vimos Batman, tanto o Beggins quando o Cavaleiro das Trevas, e o mesmo repetimos agora. Nolan consegue agradar o público médio, e sim, o que espera um cinema acima da média.

Todos grandes efeitos visuais de seu filme de nada seviriam sem o roteiro bem amarrado, sem as interpretações grandiosas de seus atores. Outro ponto forte em seus filmes, é a direção de atores. Leonardo Di Caprio está aqui em um de seus melhores papeis, Marion Cotillard aparece menos do que gostariamos, mas sempre rouba a cena pra ela em suas aparições, temos ainda Ellen Page e Joseph Gordon Levitt com interpretações inesquecíveis. E mais um presente, Michael Caine, que mesmo com um pequeno personagem, mais uma vez, nos presenteia com sua presença forte e em um personagem pequeno, mas de grande importancia no filme.

Realmente, o elenco é um dos pontos mais fortes do filme. E é aí a grande sacada de Nolan, ao se preocupar essencialmente no roteiro, mesmo em um filme para o grande público. E ainda, com um elenco bem trabalhado, bem afinado, é meio caminho andado para filme de sucesso.

Porém as qualidades do filme não param por aí. Roteiro, como já foi citado, e os efeitos visuais que impressionam. São, apesar como em um sonho, são trabalhados para realmente acreditarmos neles. Parece que realmente vemos uma grande cidade se acabando com o vento, ou um trem passando no meio da cidade, ou qualquer coisa que o diretor nos coloca. Ele convence.

Então chegamos a mais um ponto, que aqui, foi fundamental para o clima do filme. Ou porque não falar de climax, que dura um terço do filme. O rítmo do filme, já alucinante, durante o ”grande golpe” é elevado ao quadrado. E a música de Hans Zimmer casado com as imagens de Nolan deixam nosso coração apertado, acelerado, enfim, nos deixam extasiados. Mais uma grande trilha sonora desse que é um Alemão, que hoje radicado nos EUA, é um dos melhores e mais solicitados compositores de Hollywood.

E mais uma vez, temos aqui, em “A Origem”, um cinema, por mais blockbuster que seja, é um cinema de autor. Nolan é além de roteirista e diretor, produtor de seu filme. O que lhe dá total comando em sua obra. Citando então o grande crítico  Luiz Carlos Mertem eu comemoro com ele “E viva o cinemão de autor”

“A Origem” é um desses filmes, que assistimos e levamos pra casa. Pensamos, conversamos sobre ele, e ele passa semanas nos fazendo companhia. É um desses filmes que nos deixa extasiados no cinema, que dá vontade de rever, e logo, ainda no cinema. Pois o bom cinema é assim. E a experiência de um bom filme, em uma boa sala de cinema é insubistituível.

Jair Santana