Entrevista com Rodrigo Mac Niven

Rodrigo Mac Niven, é um diretor, digamos quase que estreante. Formado em jornalismo, Rodrigo também estudou cinema na Califórnia, e ao voltar trabalhou em várias produtoras cariocas principalmente trabalhando com vídeo-jornalismo. Seu primeiro curta é “A festa”, exibido em alguns festivais pelo país, posteriormente abriu sua própria produtora, a TVA2 Produções com a sócia e produtora executiva Mariana Genescá.

Já na TVA2, onde trabalha com publicidade, institucionais e projetos da própria produtora, realizou o média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”, exibido recentemente no canal GNT. “Cortina de Fumaça” é seu primeiro longa metragem. Produção totalmente independente, Rodrigo não esperou financiamento das leis de incentivo fiscal para realizar seu projeto. É um filme totalmente autoral, produção TVA2 Produções e J.R. Mac Niven Produções, uma segunda produtora ligada também a sua família.

“Cortina de Fumaça” é um filme polêmico, levantando um debate a política de drogas, entrevistando alguns dos mais respeitados especialistas no Brasil e no mundo. O filme que estreou no Festival Internacional do Rio em 2010, já foi convidado para seleção oficial de diversos festivais nacionais e internacionais, como Festival de Tiradentes, Festival de Cinema Brasileiro em Milão, Brazilian Film Festival of New York,Festival du Cinema Brasilien de Paris, Brazilian Film Festival of London, Cine Fest Brasil Buenos Aires e continua recebendo convites para inúmeros outros festivais.

Rodrigo está buscando caminhos para exibição do “Cortina de Fumaça” no grande circuito no Brasil, entre esses caminhos, também busca meios alternativos de exibição como parcerias com salas de cinema e mesmo mobilização via internet, e para isso brevemente criará um blog para movimentar essa mobilização, e com isso, criar meios para que consiga exibir seus filmes sem estar preso a nas “garras dos executivos burocratas” como ele classificou, e ainda com isso, abrindo caminhos parta outros diretores também exibirem seus filmes.

Costumo comparar o olhar questionador dos filmes de Rodrigo com certa proximidade com o estilo do documentarista americano Michael Moore. Sempre abordando assuntos incômodos a olhar da sociedade comum, de governos e fazendo seu público repensar seus conceitos.

Na entrevista concedia por email, Rodrigo fala mais diretamente sobre o seu processo de trabalho para se chegar ao “Cortina de Fumaça”, e avisa que já trabalha em novo projeto também autoral e continuando sua linha de trabalho, também questionador.

ENTREVISTA
JairSantana: Em primeiro lugar, algo que me chamou atenção foi a liberdade com que foi abordado o tema. O filme é totalmente independente. Não se vê lei de incentivo fiscal ou alguma grande empresa patrocinando. É um filme autoral acima de tudo. Inicialmente você chegou a pensar em captar dinheiro através de leis para produção do filme ou desde o inicio você descartou essa idéia?
RodrigoMacNiven: Confesso que pensei nisso mas rapidamente abandonei a ideia. Não vou entrar aqui na questão dos processos de incentivo que o Brasil inventou para fomentar o cinema e a produção e que acabou atravancando essa mesma produção. Fazer um filme que já está pago… esquisito. Mais esquisito ainda são os mecanismos de seleção dos temas… quem escolhe é uma mesa diretora de uma grande corporação que tem seus interesses próprios. Mas aqui não é palanque para falarmos sobre isso… mas justamente por isso e pelo tema do filme ser extremamente polêmico é que abandonei a ideia de onter qualquer “ajuda” do governo.

Jair: Como foi o processo de produção do filme para viabilizar sua realização? E há quanto tempo está trabalhando nesse projeto?
Rodrigo: O projeto demorou dois anos desde o inicio das pesquisas até a finalização e exibição no Festival de Cinema do Rio, ano passado. A viabilidade se deu muito pelo fato de eu ser sócio- diretor de uma produtora, podendo, assim, utilizar sua estrutura de câmera, edição e finalização. A produção propriamente dita foi feita por mim mesmo. Muitos emails e telefonemas…rs

Jair: É aparente no filme um trabalho de pesquisa muito grande para se chegar aos nomes que você chegou. Como foi isso? Como aconteceu a pesquisa, como se iniciou o processo para esse tema tão polêmico? O filme abre um debate muito interessante, mas como foi que você chegou até lá?
Rodrigo: O tema sempre interessou, mas eu nunca tinha mergulhado em pesquisas. Até o dia em que li uma livro chamado MACONHA, do jornalista Denis Russo, então editor especial da revista Superinteressante. Depois que li esse livro e constatei minha total ignorância sobre o assunto, tinha certeza que precisava fazer esse filme.
Aí foi um ano lendo MUITO, pesquisando, falando com pessoas… até a hora quando decidi parar de “estudar” o tema e começar a gravar.

Jair: Senti falta de uma abordagem a quem questionasse a idéia central do filme, o que seria interessante para abrir mais o debate. Isso foi proposital, houve entrevistados que ficaram de fora?
Rodrigo: A ideia sempre foi ENRIQUECER a discussão e não defender nenhum ponto de vista. Pra isso, pensei num debate de idéias. Tudo mudou quando me deparei com uma quantidade gigantesca de informações novas sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Quem já ouviu falar em sistema endocanabinóide? Que o nosso cérebro produz “sua própria maconha”? Independente da minha opinião, ou da opinião de qualquer outra pessoa, isso é ciência, não está em discussão. Ela pode avançar e mudar amanhã, mas hoje é o que já se sabe. Isso é INFORMAÇÃO. Como você pode construir um debate honesto sem saber disso? Esse é apenas um exemplo. Quase tudo que é discutido no filme é novidade. Foi novidade pra mim e certamente será para todos que assistirem. Quando percebi isso, resolvi que não haveria espaço para debate, mas sim para INFORMAÇÃO, elemento fundamental para ENRIQUECER o debate, o que sempre foi o objetivo do filme.

Jair: Não acha que o filme, apresentando opinião em um só sentido fica tendencioso?
Rodrigo: O filme não apresenta quase nenhuma opinião. Opinião é diferente de ciência, fatos baseados em pesquisas. O que se vê são informações nunca (quase nunca) antes ditas. É natural que as pessoas se choquem… como se chocaram quando o primeiro “maluco” falou que a terra não era plana, ou quando o sol é que era o centro do universo, ou quando questionou a escravidão, o direito de voto pelas mulheres, o direito dos homossexuais… a lista é grande. Hoje, a “droga” é o mal… como foram as bruxas. Caramba, o Iluminismo já foi faz tempo e tem gente ainda na escuridão.

Jair: Tem medo de ser acusado de fazer apologia? Por mais que os entrevistados sejam pesquisadores e estudiosos reconhecidos.
Rodrigo: Discutir um assunto de forma honesta, levando em consideração fatos científicos não pode ser apologia. Aliás, apologia, pra mim, é censura mascarada de “boas intenções”. Exemplo clássico do “lobo vestido de cordeiro”. Quem vai dizer o que posso ou não conversar na mesa de bar? Assim acontece nos regimes totalitários. Na raiz está a ideia de apologia, que na verdade, traduzindo honestamente, é proibir alguém de falar sobre determinado assunto. Isso, pra mim, é censura e ponto. Deixe que as pessoas “censurem” as coisas naturalmente. Isso acontece a todo momento quando escolhemos que livros iremos ler, que programas veremos na TV, etc.

Jair: O filme tem entrevistados muito importantes. Tanto nacionais como internacionais. Pensa em carreira internacional para o filme?
Rodrigo: Já está tendo. Estamos em vários festivais fora do Brasil. Vale acompanhar pelo site http://www.cortinadefumaca.com

Jair: O filme vai de frente a muita coisa que a mídia e os governos informam. Acha que pode ter uma boa carreira internacional ou encontrar mesmo que indiretamente de um dos dois lados algum tipo de censura? Você se preparou pra isso?
Rodrigo: Não acho que vai rolar censura justamente porque são entrevistados de peso, de muita credibilidade. Isso fez toda a diferença.

Jair: Falando da parte técnica do filme. Quem foi a equipe que viajou com você?
Rodrigo: Todas as gravações fora do Brasil foram feitas por mim. Fui sozinho. Trabalhei muito tempo dessa forma em produtoras e me capacitei para isso.
No Brasil, como tenho a produtora, contei com equipe maior…maior assim… 2 a 3 pessoas. rs

Jair: A fotografia é muito bem realizada. O som idem. Não identifiquei problema de som em momento algum, algo ainda um tanto comum no cinema brasileiro E algumas tomadas externas, em especial no Rio de Janeiro, e vê as favelas de uma maneira jamais mostrada. Dá para se ter uma dimensão do mundo de favelas que cercam o Rio, como eu nunca tinha visto. Elas parecem grandes ondas sobre a cidade. E a edição e finalização são suas?

Rodrigo: Edição e finalização também. Adoro editar, é onde o filme se materializa como obra completa. A finalização de cor eu fui buscar fora da minha produtora.Jair: “Cortina de Fumaça” foi selecionado para o Festival do Rio, que é o festival de maior visibilidade do país, e teve algumas exibições em São Paulo em um cinema independente. Existe distribuidor interessado ou algum contato já com distribuidora? Ou está difícil essa distribuição por causa do tema do filme?
Distribuição é complicado… estamos trabalhando nisso, buscando alternativas. Acho que o tema não é um problema, muito pelo contrário, tendo em vista o “naipe” dos entrevistados. Mas como o filme foi independente, precisamos de parceiros que percebam a potencilaidade do filme, que vem arrancado aplausos calorosos em todas as exibições nos festivais e em exibições pontuais que estamos fazendo.Jair: Como pensa nessa distribuição? Penso que esse filme é essencial para um debate aberto sobre o tema. Existe algum plano que facilite o acesso do público ao filme?
Por enquanto não. Queremos colocar no “circuito tradicional” para chamar a atenção do grande público e da mídia. Isso é fundamental para o debate do assunto.

Jair: E a comparação ao Michael Moore? Um documentarista polêmico e ousado. Como tem recebido isso? Vai manter a mesma linha em seus próximos trabalhos? Já pensa em um novo projeto?
Rodrigo: A comparação é inevitável e tomo isso como um elogio. Ele me inspirou a fazer docs assim. Confesso que não curto muito os docs contemplativos da pobreza, miséria ou loucura dos desafortunados. Prefiro fazer pensar para evoluirmos como sociedade. Sim, já iniciei outro projeto… também independente e questionador.

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Entrevista com Toniko Melo

Toniko Melo

Toniko Melo começou a carreira na produtora Olhar Eletrônico, onde atuou como diretor, câmera e montador de programas para a televisão, documentários e videoclipes de artistas consagrados como Legião Urbana, Blitz e Caetano Veloso. Em  89 passou a atuar como diretor de filmes publicitários e, em 93, começou a trabalhar na produtora O2 Filmes. Como diretor de publicidade, já recebeu prêmios importantes, alguns deles em premiações internacionais como o festival Ojo de America, em Buenos Aires, e o Festival de Cannes de Publicidade. Em 2008 dirigiu episódios da série “Som & Fúria” para TV Globo, com produção da O2 Filmes e direção geral de Fernando Meirelles. “Vips”, seu primeiro longa-metragem, foi vencedor de quatro troféus no Festival do Rio de 2010, entre ele o de melhor filme do festival.
Apaixonado por cinema como costuma se identificar, tem como alguns de seus diretores preferidos Terence Malick e Paul Thomas Anderson. Identifica que o  cinema brasileiro está vivendo um ótimo momento, “A cinematografia brasileira amadureceu, tomou coragem, criou cumplicidade com o público”, afirmou em conversa com o site “Cinema com Rapadura”.
Entrei em contato com o diretor para conversarmos um pouco sobre seu filme, “VIPs”, e também para conhecer um pouco mais de sua história, sua carreira, a  do filme, os projetos que estão por vir . O diretor também comentou  sobre o sistema de produção de cinema no Brasil,  e como muitos outros diretores brasileiros, colocou em cheque a atual forma dessa produção.

Jair: Antes de mais nada eu queria conhecer o diretor Toniko Melo. Esse é seu primeiro longa metragem, e chega com grande força no cinema. Em vários sentidos, com uma equipe forte, com boa publicidade, e como cinema forte propriamente dito. Essa é sua primeira experiência com cinema? Já dirigiu curtas ou trabalhou em outras áreas do cinema? Li que dirigiu capítulos da série “Som e Fúria” é isso? Sei que você vem da publicidade, mas qual sua relação com cinema até antes do filme?

Toniko Melo: Comecei a apaixonar por cinema quando fui expulso da escola em 1973 e fiquei por 6 meses vendo filmes na Tv da sessão da tarde até o fim da sessão coruja. rs
Mas também sou filho de pais muito cultos. Minha família era de editores e escritores. Por causa do meu tio José Olympio, que deu nome a uma das editoras mais importantes desse pais, era comum receber para almoçar na casa dos meus pais escritores como Guimarães Rosa, ver meu pai de papo no telefone com o Sergio Buarque de Holanda, Helio Silva etc. Eu até podia escrever cartas para o Carlos Drumond de Andrade.
De lá para cá, passei filmes de surf, fiz super 8 e estudei: estudei muito! Quando o, também iniciante, Fernando Meirelles me convidou para ajuda-lo a fazer seu 1º documentário “Garotos do Subúrbio”, em 1982, entrei no mundo intelectual e profissional do Cinema, ao mesmo tempo. E é onde estou até hoje. Fiz mais de 30 documentários antes de começar a fazer publicidade nos anos 90, onde, depois que comecei, fiz uma ótima carreira, tanto que ganhei 7 vezes o Premio Profissionais do Ano da Rede Globo, entre outros.

Jair: “Visp’s” é baseado no livro da Mariana Caltabiano que é sobre a historia do Marcelo Nascimento da Rocha e seus golpes. Mas nem tudo do filme é a história do Marcelo. Claro, existe a dramatização, mas foram criadas muitas histórias irreais pra se construir o personagem. Essa mistura, do que aconteceu, com algo muito fora da realidade do Marcelo, e ainda assim, continuar usando o nome dele não pode prejudicar a credibilidade do livro ou o próprio filme, já que os dois são “vendidos” como a história do famoso farsante?

Toniko Melo: Fique atento: no filme o personagem que o Wagner faz se chama apenas Marcelo da Rocha (um único sobrenome). E o livro nasceu depois do filme ter sido pensado como tal. Além disso, quem tenta “vender” a história do farsante que está preso, como sendo a do filme não somos nós: muito pelo contrário! O tempo todo tento proteger a imagem da família do Marcelo verdadeiro e a dele também. “VIPs – Quem Você Quer Que Ele Seja?” é uma obra de ficção: está por escrito nos créditos do filme. Só não vê, quem não quer ver.

Jair: O filme é tenso, tem muita ação, ao mesmo tempo é bem humorado, e mantêm certa leveza. O personagem Marcelo é um anti-heroi carismático e o filme não faz um juízo moral do personagem. Como foi essa escolha de contar a historia de um homem que está preso hoje (como falei o nome dele foi usado), e fazer ele um querido do publico. Torcemos por ele, rimos com ele, até de suas mentiras, inclusive pra polícia.

Toniko Melo: Só há essa cumplicidade com o personagem do filme porque não estamos contando a história do Marcelo que está preso. É uma ficção, onde controlamos o que queríamos contar.

Jair: Algo que me chamou atenção foi a escolha do elenco. Temos Wagner Moura, que é um excelente ator e de grande apelo popular. Mas ao redor, temos excelentes atores, como a maravilhosa Arieta Corrêa, vencedora de inúmeros prêmios Shell, ainda Gisele Fróes e até mesmo o argentino Jorge D’Elia, que são ótimos, mas sem esse apelo comercial que Wagner possui. Como foi essa escolha? Isso funciona bem no filme porque todos eles estão no mesmo nível de interpretação. Mas essa escolha, foi para os olhares ficarem mais para a historia central que é conduzida por Wagner, pra não pesar em escolhas de “caras conhecidas”, enfim, teve algum motivo especial?

Toniko Melo: Cuido do casting não com olhares “comerciais”, mas sim com o potencial de cada ator ou atriz para desempenhar determinado personagem. Por isso os testes demoraram 8 meses! Os prêmios do Fest Rio para dois dos atores coadjuvantes, provam que eu estava certo.

 

Jair: Além do elenco, uma parte pouco conhecida do grande público também é de se chamar atenção. A equipe do filme é de primeiríssima linha. Nomes como Bráulio Montovani, Mauro Pinheiro Jr, Cecília Homem de Melo, Antonio Pinto, nomes do primeiro escalão do cinema brasileiro. Como foi para reunir essa equipe em seu primeiro filme? Foi muito difícil? Claro teve Fernando Meirelles como produtor, e isso ajuda muito, mas ainda assim queria que você comentasse sobre isso. Até mesmo porque, com essa equipe, o elenco, e o filme em si, parece visualmente caro também.

Toniko Melo: Todos são amigos de longa data. Apenas escolhi os mais talentosos e que tinham agenda para aquele momento. Haviam outros que estavam fazendo grandes filmes. Sou muito feliz por isso.

Jair: A carreira do filme está apenas começando. Já é o grande vencedor do Festival do Rio que talvez seja a maior vitrine do cinema nacional. Como está a carreira do filme também fora do país? Pensam em trabalhar isso de maneira mais forte?

Toniko Melo: Gostaria muito que o filme fosse exibido em circuito comercial na Argentina, pois admiro muito a cinematografia que vem sendo feita lá há muitos anos. E gostaria muito que o Festival de Cannes ouvisse o Walter Salles, quando ele disse que “O VIPs é uma obra única na Cinematografia brasileira.”

Jair: Toniko, esse foi só o primeiro filme. E já alcançou um grande sucesso, de público e de grande parte dos críticos. Está trabalhando nele a quantos anos? Já tem outro projeto engatilhado? O sucesso desse filme, já ajudou em algum ponto a agilizar o próximo?

Toniko Melo: VIPs completa 9 anos agora em março. É uma loucura. Falta muito para poder se dizer que ele é um sucesso de público: fez apenas cerca de 150 mil pessoas até esse exato momento. Para um filme que custou 7 milhões de reais de dinheiro “bom”, isso ainda é muito pouco. Infelizmente, não me deram o direito de participar dos direitos autorais do meu próprio filme, por isso torço apenas que a história que eu quis contar crie uma cumplicidade importante com o maior número de pessoas do meu pais.
Tenho 3 bons projetos para realizar, mas não tenho, até agora, nenhuma produtora com “vaga” para mim, pois estão todas no limite máximo da ANCINE. Para o atual modelo de produção de cinema, para um diretor como eu, o Brasil se tornou um lugar onde ou você é dono de uma produtora, ou você é obrigado a buscar países onde um diretor tem seu ganha pão no patamar de algo digno e, principalmente, onde os seus direitos autorais sejam respeitados.

Entrevista com Domingos Oliveira

Domingos de Oliveira

Domingos de Olveira

Domingos Oliveira, é carioca, formado em engenharia mas nunca trabalhou na área. Após se envolver com teatro amador nunca mais deixou o mundo artístico. Hoje é dramaturgo, diretor, roteirista, podemos afirmar que é um artista completo. Um dos mais respeitados  do país. Com seus mais de 70 anos, é bastante atuante, em 2010 lançou um filme, duas peças, alguns contos, tem um blog na revista Bravo!, tem um espetáculo de música e muito mais.

Bairrista (ao mesmo tempo que universal), é muito mais conhecido no Rio que em São Paulo, pelo menos para o grande público. Seus filmes retratam muito o mundo em que vive. A boêmia e o mundo artístico carioca. Uma vez, marcamos uma reunião onde eu queria lhe apresentar a proposta de um projeto. Ele marcou no escritório em uma quinta a tarde. Na quarta me ligou dizendo, ”Jair, podemos marcar na quinta a noite?”, respondi que sim logicamente, e ele continuou”Podemos marcar em um bar. Na Academia da Cachaça ali perto do Teatro do Leblon? Fica mais informal né”. Fiquei feliz com aquela proposta na verdade. Eu iria conversar com um dos meus ídolos, em um bar, tomando cachaça. Muito mais descontraído que em um escritório.

Conversa vai, conversa vem, falamos da vida, do cinema, e falando sobre roteiros, Domingos  deu de presente o “pulo do gato” para novos roteirista: “Escrevam sobre o que vocês conhecem. O que vocês sabem. Não queiram escrever sobre aquilo que vocês acham. Escrevam sobre aquilo que vocês tem intimidade. Pois aí, o roteiro de vocês será verdadeiro”. Nada mais certo que isso. E assim são os roteiros de Domingos. Sobre o que ele conhece bem. A boêmia carioca, o baixo Leblon,  amores, família, sobre arte e artistas . Relações humanas como ele  gosta de colocar.

Mas não foi aí a entrevista. Criei um blog, com o nome de um grupo de cinema que eu fazia parte no Rio. Além das minhas opiniões sobre filmes que assisto também queria algumas entrevistas. Domingos foi a terceira dessas entrevistas (antes conversei com Laís Bodanzky e André Klotzel). Mandei um email e marquei uma conversa por telefone com Domingos,  já que agora eu estava em São Paulo e ele no Rio de Janeiro.

Conversei aproximadamente uma hora com Domingos. Ele não determinou tempo, nem limitou assunto. Confesso que eu estava nervoso, mas foi diminuindo ao passar do tempo. Domingos  e eu riamos de algumas coisas, e me pareceu sem graça quando afirmei que ele era um dos mais respeitados artistas do país. Sua humildade, ou melhor, simplicidade talvez, tenha feito com que ele meio que desconversado do assunto. Peguei alguns dos pontos mais importantes e transcrevi aqui.

JairS:  Você filmou “Carreiras” em ordem de roteiro, e parece que “Juventude” também. Você prefere filmar assim que por uma ordem técnica? Assim não é mais complicado?

Domingos: O filme é como uma casa de tijolos. Tem que se construir em uma ordem. Na verdade, filmar em ordem técnica é uma teoria técnica. Eu sempre tento filmar na ordem do roteiro em respeito aos atores. Tenho raiva das ditaduras dos técnicos. Da luz que demora duas, três horas pra montar. E a minha inspiração onde fica? E os atores? Eu brigo muito com a técnica, me preocupo bem mais com os atores que a técnica do filme.

JairS: Em seus trabalhos como em sua vida, sempre existe uma musa, uma grande mulher que lhe inspira. Pelo menos na maioria deles. Não lembro de saber do Domingos solteiro por muito tempo. Acho que isso, que essa relação sua com sua esposa, agora com a Priscila, já foi com a Leila Diniz, enfim, acha que se elas não existissem na sua vida, seu trabalho seria diferente?

Domingos: A paixão é necessária pra todo trabalho. E preciso estar saudável pra se trabalhar e estar apaixonado é estar saudável. Sim, a vida sem paixão é um grande tédio. Tudo é paixão, sexo como dizia Freud. Na política, as relações, tudo. Freud tinha razão. Paixão é loucura, ela te coloca em contato direto com Deus. Eu preciso da paixão pra me colocar em movimento. Sou um apaixonado

JairS: Domingos, você escreve contos, livros, roteiro pra cinema, teatro, atua, dirige,  canta, produz, atua em várias vertentes, enfim. Uma vez li que cantar era algo que estava te dando muito prazer. Um dos teus aniversários fizestes um grande karaokê inclusive. Mas tem uma, dentre todas essas atividades que te identificas mais? Que se você pudesse, se classificaria?

Domingos: Acima de tudo sou escritor. Esse é o meu barato, ser escritor. Meu papel mais importante na arte é ser autor. Tudo que eu faço é em função de ser autor. Todo artista acha que arte é uma atividade de auto-ajuda. A melhor coisa do mundo é saber que você tem uma alma, e melhor ainda é saber que você pode melhorá-la, e a arte serve pra isso.Para melhorar a alma.  E eu melhoro a minha escrevendo primeiramente.

JairS: Durante um tempo se achou que você era contra o Cinema Novo. Que o pessoal do Cinema Novo não gostava de você e vice versa. Qual a verdade nisso? Você nunca participou do movimento,  que é considerado o mais importante movimento do cinema brasileiro e  que foi contemporâneo  a você. O Cinema Novo acabou, e seu estilo, continua o mesmo, desde “Todas as Mulheres do Mundo”. Seu estilo, seu foco sempre foram relações humanas acima de tudo.


Domingos:
Não tenho nada contra o cinema novo. pelo contrario. Acho um movimento importantíssimo. E afinal, tem gente do cinema novo aí até hoje. Achava eles muito criativos, e fizeram o cinema exemplo disso, dessa criatividade. Mas era ruim de dramaturgia. E eles eram muito políticos, e eu pessoalmente acho a política suja, chata. Isso é só um detalhe, bobagem. Gosto de escrever sobre relações humanas, sempre gostei. O povo de direita, a imprensa de direita é que me colocava contra o cinema novo, contra o Glauber, mas eu adorava o Glauber. Sempre tive muito boa relação com ele. Teve até aquele episódio que eu encontrei ele no banheiro depois da estreia de “Terra em Transe” e o abracei emocionado o parabenizando pelo filme.

JairS: E o B.O.A.A. (Baixo Orçamento e Alto Astral)? Foi um movimento, foi uma crítica, uma brincadeira. Eu realizei um filme com o B.O.A.A. Coloquei nos créditos em homenagem a você. O BOAA acabou?

Domingos: O B.O.A.A. não morreu, é algo que criei para realizar cinema. Algo pessoal mesmo.  Já lutei muito por isso mas tive uma reação muito negativa. Só se quer pagar o filme pelo projeto, de se escolher na subjetividade, e eu sou a favor de mais do que o projeto, sou a favor do filme, da arte em geral. De alto orçamento, de baixo orçamento, sou a favor da realização. O B.O.A.A. foi a idéia que tive de realizar e posteriormente capitar recursos para se pagar aquela equipe. Com filme pronto, por todos terem trabalhado a valores mínimos ou até nem isso, somente como colaboradores, algo meio como uma cooperativa. Mas não deu certo. Não quiseram, não aceitam pagar depois de o filme pronto. Prefere-se julgar pelo projeto que pelo próprio filme.

JairS: Domingos, você é um dos mais respeitados artistas brasileiros. Pode não  ser tão conhecido pelo grande público, mas qualquer um adoraria trabalhar com você. Lí que mesmo pra você é difícil conseguir patrocínio para seus trabalhos. Que muitas vezes você precisa ir até o diretor de marketing com um global, como foi o caso do filme “Todo Mundo Tem Seus Problemas Sexuais” que você ia com o Pedro Cardoso visitar o marketing. Mesmo com toda sua historia na arte brasileira, porque acha que isso acontece?

Domingos: Eu não sou famoso. Ninguém é famoso no Brasil. Eu sou um cara simples, sou respeitado no meio eu sei, mas sou muito simples. Quando você vai atrás de patrocínio as empresas acham que a gente quer tirar dinheiro deles, que queremos ficar rico com o patrocínio deles, mas eu insisto. Não sou rico, nunca fiquei rico com algum trabalho meu. Pelo contrário, eu até já perdi dinheiro. E eu continuo fazendo, tenho sempre 10 projetos nas mãos. Muita gente tem inveja de mim sabe, porque sou muito livre. E realizo e realizo e realizo. Com dinheiro ou sem dinheiro. E isso incomoda muita gente.

JairS: E sua relação com os atores. Muitos adorariam trabalhar com você,  atuando em seus filmes, suas peças, acho que trabalhariam até de graça.  Qualquer ator toparia. Mas você na maioria prefere trabalhar com atores menos conhecidos. Já trabalhou com muito dos grandes e mais conhecidos, mas não é o usual. Trabalha com bons atores, mas dificilmente pega um ator, digamos, Global. Como é essa relação sua com a escolha do elenco.

Domingos: Ator adora fazer cinema porque acha que vai terminar em Hollywood. Mas teatro ninguém quer fazer, o público é restrito e paga pouco. Ninguém fica famoso com teatro. E nem fica rico. Essa é a relação.

Entrevista com André Klotzel

André Klotzel, é diretor paulistano formado em cinema na USP, já trabalhou na Boca do Lixo, com diretores como Nelson Pereira dos Santos, e em meio a curtas e longa metragens foi diretor de filmes como “A Marvada Carne”(1986), sucesso de público e crítica, o filme foi vencedor de quase todos os Kikitos em Gramado, 10 ao todo, incluindo direção, filme pelo juri oficial e popular, entes muitos outros, visto por mais de 1.2 milhões de espectadores no país, e em uma época que antecede a moda do cinema brasileiro lá fora, o filme foi vendido pra mais de 15 países e convidado a 22 Festivais Internacionais. Depois André dirigiu alguns curtas e os longas “Capitalismo Selvagem” (1993) e Memórias Póstumas”(2001), e ainda o recente “Reflexões de um Liquidificador”, o principal assunto na entrevista que ele concede aqui.

A entrevista foi uma conversa leve e descontraída. O diretor mostrava muita segurança, objetividade e simpatia nas respostas. Ficou mais claro ainda, o lado autoral de seu trabalho. Ele sabia, comentava sempre sendo muito claro, cada mínimo detalhe de toda preparação, de todos os pontos de seu filme.

JairS: Como você chegou ao roteiro. “Reflexões de um Liquidificador” é o primeiro filme que vejo que você não aparece envolvido no roteiro.
André Klotzel: Sim realmente, esse é o primeiro roteiro que não é me envolvi diretamente. O roteiro era de um amigo, que queria me mostrar. Eu lí o roteiro e rolou uma empatia. Conversamos, mexemos no roteiro, 6, 7, 10 vezes até chegar onde chegou. Ele mexeu no roteiro mas através de muitas conversas entre nos dois.
E sim, esse é o primeiro roteiro que filme, que a ideia não partiu de mim. Não lembro de nem um outro amigo meu , nem outro caso parecido, que o roteiro tenha vindo dessa maneira. Sendo que desde o inicio estou envolvido no projeto. Bateu uma química, uma empatia forte pelo roteiro.
O roteiro, tem que me desafiar, e essa empatia tem que realmente ser forte, essa química tem que ser forte, pois um filme, esse roteiro, eu terei que conviver por um longo período de tempo. Desde sua primeira versão, até a filmagem, montagem, lançamento, todos os festivais, enfim…. é muito tempo de convivência.

JairS: Vejo seu cinema também como um cinema bem autoral. Geralmente além da direção, você também é roteirista, e produtor. Aqui, você também novamente produtor. Isso é opção, para se ter liberdade dessa realização ou mais uma necessidade de não encontrar um produtor que fosse parceiro no projeto, ou mesmo que topassem por ser um roteiro ousado?
André Klotzel: Bom, comecei no cinema como produtor. Meu primeiro trabalho foi como na “Boca do Lixo”, depois fiz assistência de direção do Nelson Pereira dos Santos em “A Estrada da Vida”. Na verdade estou muito confortável como produtor, mas claro que seria muito mais confortável eu ter um produtor. Porém, eu mesmo sendo o produtor, tenho mais liberdade artítica evidentemente, mas é claro que isso tem um preço a se pagar.
Sou o produtor, porém,  me associei a algumas pessoas durante as filmagens para ficar focado na direção. Trabalhei com os produtores Rui Pires e André Montenegro da Aurora Filmes, e assim, durante as filmagens eu não sabia de nada relativo a dinheiro. Só saberia se tivesse algum problema, oque não chegou a acontecer. Durante as filmagens, fui somente diretor, não assinei cheque nem um.Realmente me desliguei do meu lado produtor.
Depois, a função de produtor volta novamente, e tenho que cuidar da carreira do filme, do lançamento, mas isso anda lado a lado com a função de diretor também.

JairS: Como funcionou a escolha do elenco? O Selton por exemplo que é o ator mais popular do elenco só se utiliza a voz, ao mesmo tempo temos a Ana Lucia Torre, que pode não ter o mesmo apelo popular, mas é uma atriz de uma carreira maravilhosa, e ainda nomes como Aramis Trindade e Fabiula Nascimento, que também são menos conhecidos do grande público porém, até mesmo por isso, dão uma verdade maior ao filme. Como se chegou a esse elenco?
André Klotzel: Bom, antes de mais nada, eu como diretor, não me sentiria bem por usar como critério de escolha do elenco, o marketing do filme. Minha postura é ter os atores no filme, que realmente tem que ser. E eu sinceramente acho que acertei. To muito satistfeito com o elenco do filme. E a boa escolha do elenco é metade do trabalho para se ter um bom filme.Para se chegar a esse elenco, não precisei fazer testes. Não acho que se precisa sempre. Já fiz testes, mas quando fiz, era porque não tinha visto nada dos atores. No caso desse filmes em específico (Reflexões de um Liquidificador”) eu já conhecia os atores, então o teste seria uma situação meio superfificial até.

JairS: Outra coisa que me chamou atenção no filme foi o casamento do lado mais técnico do filme. Direção de arte, fotografia, música, tudo, som, tudo é muito bem realizado, muito bem casado com a proposta do filme de ficar sem grandiosismos aqui ou alí.
André Klotzel: A proposta do filme é justamente essa, de nada se sobressair demais a outra. Tudo é uma coisa limpa. O menos é mais. Trabalhar sempre em função do roteiro, da historia do filme.. Nada de se gritar muito, a leveza é muito mais valorizada. Nada de muitas sombras, de música muito alta e etc. O mais importante, repito, é a historia. Pensar no que é preciso e o que pode ser superfulo.

JairS: Vemos na sua carreira um espaço um pouco longo entre um curta e outro, mas também uma série curtas também. Muito veêm o curta apenas como um passo, um meio de se chegar a um longa metragem. Como é sua relação com o curta e longa metragem?
André Klotzel: O que me chama atenção é um bom roteiro. Eu gosto de realizar curtas e longas, vejo os dois apenas como gêneros diferentes, linguagens diferentes. O problema é que não dá pra se viver de curta metragem hoje. Na verdade viver de longa metragem também é bem dificil, os projetos levam tempo, mas apesar de também ser dificil, ainda é mais possível se viver de longa. É preciso de realizar projetos paralelos para se sobreviver de cinema. E voltando aos curtas, eu não me sentiria a vontade de concorrê a prêmios de editais com curtametragistas, com diretores iniciantes, pois já sou um diretor de longa, e acho que seria uma concorrência injusta, visto a historia que já tenho.

JairS: Pra finalizar, como está a carreira do “Reflexões de um Liquidificador”? Seu lançamento nas outras capitais do país já esta toda fechada, ou ainda vai ser estudado. Visto que vejo que alguns lançamentos demoram, e as vezes nem chegam a sair do circuito Rio-São Paulo, a não ser em festivais.
André Klotzel: Bom, não tem nada fechado. O lançamento paulista por exemplo é meio que experimentaç. Vários preços, algumas sessões com pocket shows, e eu gostaria muito de repetir esse tipo de lançamento no restante do país, mas vai depender de como é aceito aqui. A verdade, é que o filme depende de sua continuidade de público, então é a partir do que acontecer aqui, que vamos planejar o restante.

Entrevista com Laís Bodanzky

Laís Bodanzky

Laís Bodanzky

Laís Botansky é diretora e roteirista paulistana, que esteve a frente de projetos de ficção, como o premiado “O Bicho de Sete Cabeças” e o documentário “Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil”.  Escreveu junto com o marido o também roteirista Luiz Bolognesi o roteiro de “Chega de Saudade”, filme que também dirigiu.

Laís junto com seu marido são sócios da produtora Buriti Filmes, e levam a frente o projeto “Cine Tela Brasil”, um projeto social que leva o cinema por cidades brasileiras onde não existem salas de cinema

Nessa entrevista conversa de seu ultimo filme,  “As Melhores Coisas do Mundo”. A entrevista foi uma conversa com uma diretora sempre muito humilde, bem humorada e muito segura de seu trabalho.  Laís concedeu essa entrevista muito feliz com o resultado e a repercussão e o sucesso de público e crítica que tem tido o seu filme. Reafirmando sempre que esse sucesso cabe não só a ela, mas a toda equipe envolvida no filme.

JairS: Algo que me chamou muita atenção foi o roteiro inteligente e profundo. As situações são fortes, o filme aborda temas como drogas, homossexualidade e, mesmo assim, os diálogos não filosofam ou dão lição de moral. Pelo contrário, eles são reais. Deve ter sido muito dificil construir um roteiro com tanta profundidade e ainda se conter nos diálogos. Como foi essa preparação? Como se deu essa construção?

Laís Bodanzky: Interessante você colocar isso. O roteiro veio com todas as informações necessárias para os atores, para eles mesmos colocarem essas informações da maneira deles. Então eles trazem com seus diálogos as informações do roteirista. Assim as coisas fluiam melhor, mais naturalmente. A Gabriela, que interpreta a Carol, e o Francisco Miguez, o Mano, por exemplo, contribuíram muito. Eles têm uma forma, uma maneira própria de se expressar e muitas vezes os subestimamos. Vamos pelas aparências. O próprio Pedro, personagem do Fiuk, é um outro exemplo disso.

JairS: Como foi ter os nomes mais famosos do elenco em papéis menores. Não menos importantes, pelo contrário, Paulo Vilhena e Caio Blat tem fundamental importância, mas suas participações são menores. Queria que você comentasse um pouco da importância desses personagens e como eles foram pensados.

Laís Bodanzky: Bom, claro que os adolescentes tem os adultos como referências. E aqueles são os adultos mais próximos deles. A escola, por exemplo. Grande parte do filme se passa lá, porque é onde o adolescente vive grande parte do seu tempo. E tanto Marcelo, personagem do Paulinho Vilhena, como o Artur, personagem do Caio Blat, foram colocados para dar referência a eles. O filme, desde o inicio, foi pensado para o elenco principal ser os adolescentes, pois seria sobre o universo deles. Já o elenco adulto veio a partir disso. Pensamos muito em trazer parceiros, amigos, e conversamos para que tivesse muita generosidade por parte deles. E eles foram muito generosos sempre.

JairS: Algumas críticas tem sido feita ao filme com relação a escolha do elenco. Ao ator A ou B. Como você tem recebido isso? Você sentiu preconceito por parte da crítica por causa da escolha do elenco?

Laís Bodanzky: Eu não ligo para críticas preconceituosas. Houve preconceito com o Rodrigo Santoro na época do “Bicho de 7 Cabeças” também. O Fiuk, por exemplo, está na Malhação pelo filme e não o contrário. As Melhores Coisas do Mundo foi filmado um ano antes, a produção de Malhação procurou ele por saber que estava no filme. O longa foi um processo de três anos até o lançamento. Fizemos testes. O trabalho de ator num filme é muito importante, de toda equipe, e eu tenho mega orgulho do meu elenco, tenho muito carinho por todos eles. Da Denise, Fiuk, Paulinho, tenho muito carinho por todos.

JairS: Não vemos divulgação do filme na TV, por exemplo, e sinto que tem sido muito mano-a-mano, que você tem utilizado muito a internet também. Isso veio em função da linguagem do filme. Nele os jovens utilizam muito o mundo virtual. Isso é algo específico desse filme ou é algo que você pretende levar adiante, para outros trabalhos?

Laís Bodanzky: A utilização da internet hoje é algo inevitável. Veio pra ficar. Os mais velhos usam também, mas os jovens se utilizam disso de uma maneira extraordinária. Ninguém mais vai até o computador, ele deixou de ser um lugar, as pessoas vão até o Orkut, Twitter e Facebook, o lugar passou a ser esses sites de relacionamento. Criei o Twitter depois de realizado o filme, por meio de um rapaz que fez parte da pesquisa e hoje estou meio viciada nisso. A internet possibilitou recuperar algo que só era possível no teatro, que é o contato direto com o público. Então as pessoas saem da sessão e ficam twittando e eu fico pensando quando vou dormir à meia noite, esperar mais um pouco porque tem uma sessão saindo aquela hora e as pessoas estão chegando em casa…é uma loucura.

JairS: O filme, apesar de se passar em São Paulo, tem uma temática e uma abordagem universal. Fico curioso para saber como está sendo a recepção dele lá fora. Pois acho que temos nos equivocado em algumas escolhas de filme quando se seleciona um brasileiro pra representar o país no Oscar, por exemplo. O mercado lá fora tem recebido bem o filme? Ele já foi exibido ou está se pensando nessa carreira internacional para “As Melhores Coisas do Mundo”?

Laís Bodanzky: O filme não foi até agora exibido lá fora. Ele foi pensado para o público brasileiro. Sempre penso no meu filme para o Brasil, para o brasileiro. O público aqui se permite mais chorar quando tem que chorar, rir quando tem que rir, diferente do público europeu, por exemplo, que é mais racional e menos emocional. O filme foi feito pra brasileiro ver. Claro, já estamos pensando e conversando sobre exibições lá fora. A Gullane tem esses contatos e está cuidando disso e esperamos, assim como “Bicho de 7 Cabeças” e o “Chega de Saudade” tiveram, que o “Melhores Coisas do Mundo” tenha uma boa recepção. Nem um deles foi um blockbuster, mas foram bem aceitos pelo público e pela crítica.

JairS: Algo que me chamou muita atenção foi a equipe do filme. Você conseguiu o “filé” do cinema brasileiro. Nomes como Daniel Rezende, Mauro Pinheiro Jr, enfim, tantos outros nomes que são top no cinema. Como foi conseguir essa equipe? Como foi reunir esse povo para seu filme?

Laís Bodanzky: Reunir essa equipe foi realmente demais. Eles são realmente o filé, em todos os sentidos. Foi ótimo trabalhar com eles. Daniel Rezende, Cassio Amarante, Mauro Pinheiro Jr, Luiz Bolognesi, tem também Alessandro Laroca, Armando Torres Jr, Louis Robim, que as pessoas, o público em geral não conhece, não sabem quem são, mas EU sei, e sei o quanto são bons. São os técnicos que quase não aparecem e são muito importantes pro filme. A Gullane foi muito responsável por isso, porque conseguiu um orçamento legal pro filme. Falo lá na Gullane, que eles me acostumaram mal. Como eu vou realizar um próximo trabalho sem eles?