“A SEITA DO GATO PRETO”, de Marcello Gabbay

Gato Preto

Gato Preto

Com o avanço da informática os homens parecem ter redescoberto a mágica precisão e o poder das ciências exatas. Sendo o computador e seus programas baseados em códigos e sistemas numéricos, na informática, tudo é números.

Aconteceu que dia desses ví um anúncio espantoso que chamou minha atenção de maneira especial. Um grupo de cientistas brasileiros, do Norte do país havia desenvolvido um software capaz de revelar a data e hora exatas da morte de qualquer pessoa. Com base nos dados pessoais e datas da vida, o computador podia montar uma função aritmética que tem como resultado o momento da morte. Não me perguntem como, mas os resultados e testes que estes cientistas haviam revelado eram assombrosos.

A empresa autora do software acabou adquirindo o efeito de uma seita religiosa entre os adeptos e crentes do programa, causando certo reboliço na região. Seu símbolo, um gato preto cujo rabo dava a volta em seu corpo formando um desenho circular ao seu redor, passou a aparecer em vidros de automóveis, postes, e folhetos pelas ruas das principais cidades do Brasil. Várias filiais foram instaladas, sendo uma delas em Belém. Uma modesta casa de altos e baixos no final de uma alameda da Avenida Almirante Barroso podia ser facilmente identificada pela placa com o imenso gato preto. No interior da casa, instalações simples porém dispostas do que de mais moderno havia em informática.

Para saber a data de sua morte, bastava preencher um cadastro on line com alguns dados de sua vida e voala!: A data e hora de sua morte impressas num laudo em papel couchê com o maldito gato preto timbrado embaixo. Certo dia, não me contive e fui até o local. Minha intenção era de simplesmente ‘espiar’ o que se passava ali e a quantidade de pessoas que estariam interessadas no assunto.

Logo na entrada, uma mulher gorda de semblante simpático e amigo era a recepcionista do local. Além dela apenas dois homens, cada um por volta dos 30 anos de idade, operavam os comutadores preenchendo os dados. Todos se vestiam de branco com batas sobre a roupa, assim como cientistas. Na hora em que fui, não havia quase ninguém, e estupefato pela aura mórbida do local, não prestei atenção enquanto a recepcionista gorda me inscrevia na fila de atendimento. Ela foi me pedindo os documentos pessoais: Carteira de identidade, C.P.F, estas coisas. Desatento entreguei-lhe a carteira e quando dei por mim, percebi que meu cadastro estava quase completo. Foi aí que tomei um grande susto! Não queria dar prosseguimento àquela loucura. Pedi que parassem, expliquei-lhes que passava por ali apenas por curiosidade, mas os ‘cientistas’ insistiram em digitar fervorosamente os dados enquanto as equações mortuárias tomavam forma na tela do computador.

Peguei minha carteira e sai correndo dali, que eles soubessem a data de minha morte, tudo bem, mas eu não queria contar os dias de minha vida. Já estava no meio da alameda quando a mulher gorda gritou o meu nome. Chamou-me pelo nome!! De forma íntima e preocupada! Não resisti à mórbida curiosidade, e sem que pudesse controlar minhas ações, virei-me e peguei de suas mãos, o maldito laudo com o gato preto impresso embaixo. Foi quando tive a péssima notícia que já estava muito bem estampada nos olhos esbugalhados e piedosos da gorda recepcionista: Minha morte viria naquele mesmo dia, em apenas seis horas…

Restavam-me seis horas de vida apenas para realizar uma infinidade sonhos e planos. Rever pessoas de quem sentia saudades, conhecer pessoas que eu admirava ou imaginava existirem. Comprar o carro dos meus sonhos, casar com a mulher que eu amava, Ter filhos, netos, conhecer a Europa, a Ásia, o Rio de Janeiro. Tudo que eu imaginara para mim, em apenas seis horas…

Por alguns minutos o desespero tomou conta de mim. Mas logo decidi, calmamente, que deverei dedicar estes últimos momentos a viver o que pudesse. Decididamente, não contaria a ninguém a triste notícia, assim evitaria perda de tempo com choros e lamentos, o tempo era agora, mais do que nunca, valioso para mim. Segui para casa e despedi-me dos objetos e lembranças que jamais veria de novo. As músicas, livros, fotografias e filmes que deixaria para sempre no mundo dos vivos. Fui à praça que tanto amava caminhar e dizer adeus às árvores, bancos, pássaros, lagos e à calçada.

Antes de tomar o laudo do ‘gato preto’, tinha programado para aquela noite ir a uma festa com minha namorada. Já era de tarde e como era mesmo impossível fazer tudo o que eu queria, decidi ir logo à esta festa, assim poderíamos aproveitar juntos aquela que seria minha última noite. Apanhei minha garota em sua casa e fomos dançar, beber, e namorar bastante; por um instante esqueci de meu trágico destino que se aproximava, dançamos tanto que quando dei por mim já era bem tarde!!

-“Depressa!!!!! Vamos embora, por favor, sim?” Sai puxando minha namorada pelo braço, queria que houvesse tempo para uma última noite de amor, não poderia partir sem isso! Mas já era tarde, quando coloquei a chave do carro na maçaneta da porta, meu telefone celular ‘berrou’ um bip muito estranho e contínuo, como um alarme bem alto.

Bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip

Puxei o aparelho do bolso e olhei no visor que também piscava nervosamente. QUE SUSTO!!!!! Era o gato preto! Maldito!! Por meio segundo imaginei que sofreríamos um terrível acidente de carro. Rezei para que não acontecesse nada com minha garota. Um milhão de dúvidas pipocaram em minha mente: Será que sentirei muita dor? O que existe após a morte? Nunca mais verei ninguém que conheci nesta vida? Ai meu Deus!!??

O telefone ainda bipava, apertei então o botão do aparelho e o gato preto sumiu da tela, em seu lugar, apareceu a seguinte inscrição:

Marcelo
*1940 + 1971

Foi aí que um enorme alívio invadiu meu corpo como um cobertor no frio! Meu nome é Marcelo, mas não nasci em 1940, e nós não estamos em 1971. Não sou eu, houve um terrível engano! Que alívio, meu Deus, que alívio senti naquela hora. Foi quando entrei no carro e sentei-me no banco ao lado de minha garota que me olhava docemente; agora vou aproveitar bem mais a vida. Afinal, tenho apenas vinte e poucos anos, ainda viverei pelo menos mais sessenta!

Foi quando a terrível conclusão chegou na minha cabeça como um nó que se desata, ou melhor, como a resposta secreta de uma equação mórbida como aquela que a Seita inventou para descobrir a data da morte. Neste instante um gato preto cruzou pela frente do carro, ainda parado, e fisgou os olhos amarelos e bem acesos em minha direção. Tudo ficou claro.

-“Meu Deus, Este Marcelo cujas datas de nascimento e morte aparecem em meu celular morreu aos 31 anos de idade!!!!! Então essa é a notícia. Morrerei aos 31??????????????…

Marcello Gabbay é músico e mestrando em Comunicação e Cultura na UFRJ

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“Ao menos ainda temos a Lua” – de Marcelo de Andrade

Lua

Lua

Pegaram o vagão da pós-modernidade e chacoalharam forte. E, no meio de fragmentos, messias, correrias, Internet, pastores e saudades, alguém gritou que, já que não podia fazer o metrô a um real, pelo menos que o fosse rosa com pompom.

Em meio à enxurrada conservadora sobre nosso governo, dito, de esquerda, o Bolinha achou que poderia ser Jesus Cristo e tentou a multiplicação das ONGs. Mas se a maioria da imprensa é conservadora, ao menos ainda não é burra, a despeito da unanimidade que credita às suas “opiniões”. Acharam o fio da meada e num puxão só derrubaram o pré-candidato messias. Então, o garotinho Jesus olhou para o período da vida de Cristo que a bíblia omite e resolver virar Gandhi. Pobre ilusão de um político que, fisicamente, está mais para Ganesha (o deus elefante hindu).

Decretou greve de fome e expôs o ridículo de nossa sociedade moderna construída em pleno arcaísmo coronelista. O presidente operário se enrola no aparelhismo de um partido que sempre quis ser trotskista (e, por isso mesmo, caiu no stalinismo). O ex-presidente que loteou o país e comprou deputados para conseguir sua reeleição é o patrono da democracia. A burguesia conservadora paulista acha que vai conseguir votos chorando a morte do catolicismo aristocrático na política. E o ex-governador messias resolve que a Índia é aqui, achando que um povo em greve de fome forçada vai elegê-lo caso perca alguns quilos. Será que ele acha mesmo que acreditamos nessa história de que, logo ele, vai fechar a boca? Além de subestimar a inteligência alheia, aposto que come escondido uns bombons que ganhou das ONGs na Páscoa.

Resta ligar a TV ou ler um jornal e ser obrigado a ter contato com a esquizofrenia jaboriana ou com as bobagens apocalípticas do gordo. Isso me faz pensar no período de miséria intelectual em que vivemos. Faz procurar algum alento que só vem quando lembramos da greve de fome, tendo certeza que ao menos esse messias não ressuscitará no terceiro dia.

Enquanto isso, em um país etéreo, um índio revolucionário resolve que pode enfrentar o Tio Sam com esperança, gás e flechas. Seus amigos ditadores morrem de rir, lhe dão tapinhas nas costas e o presidente operário suja nove dedos de petróleo. Se as coisas continuarem como estão e o governo francês mantiver o sonho de ser, ao mesmo tempo, democracia social e neoliberal, periga a Torre Eiffel sumir em chamas e, então, nem Paris teremos mais.

Bem fez o astronauta que, às custas de impostos pagos por um povo em greve de fome, pode plantar feijões no espaço. Só não entendi porque ele voltou. Eu estou de partida pra Lua para plantar não feijões, mas batatas. Valei-me, São Jorge!

Marcelo de Andrade
Marcelo é Historiador, Roteirista e Contista.

“Os Estatudos do Homem” – Thiago de Mello

https://i1.wp.com/i264.photobucket.com/albums/ii191/jairsantana/e0ffea48cb16ebca944cf0d0f8864a81_3.jpgAmadeu Thiago de Mello nasceu na pequenina cidade de Barreirinha, Amazonas, quase na fronteira do Pará, em 1926. “Não fui profetizado. Aconteci.” Aos 25 anos, deixou o curso de medicina para seguir a carreira literária, estreando com o livro de poemas Silêncio e Palavra.

Rapidamente reconhecido, começou a participar do círculo dos intelectuais da época, convivendo com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Adido Cultural da Embaixada do Brasil no Chile, nos anos 60, teve longa amizade com Pablo Neruda.

O golpe de 64 no Brasil decretou seu exílio e esteve em países sul-americanos – Argentina e Chile – e na Europa – Portugal, França e Alemanha. Só em 78 voltou ao país, tendo sua obra poética, publicada pela Civilização Brasileira e exaltada como denúncia contra a opressão. Sua obra mais polêmica é “Os Estatutos do Homem”, direitos e deveres líricos, peça antológica que corre o mundo em sucessivas edições estrangeiras, escrita e publicada em 1964.

Da sua bibliografia constam, ainda, A Canção do Amor Armado, Mormaço na Floresta, Num Campo de Margaridas, De uma Vez por Todas e Campo de Milagres. Tradutor, é responsável por versões para a língua portuguesa de T.S. Eliot, Ernesto Cardenal, Cesar Vallejo, Nicolás Guillén, Eliseo Diego e Pablo Neruda.

No livro mais recentemente publicado, “De Uma Vez Por Todas”, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

Conheço pouco ou quase nada do Thiago de Mello. Mas “Os Estatutos do Homem” é poema realmente abençoado. Transcrevo aqui abaixo, para quem não conhece.

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

“Instantes”, de Nadine Stair

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.

 Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério. 

Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria  mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.  

Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos imaginários. 

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos – não percas o agora.  

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve. 

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera a continuaria assim até o fim do outono. 

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

Da escritora americana Nadine Stair, e falsamente, a algum tempo no Brasil, atribuído a Jorge Luis Borges, poeta argentino

“SHITAKE É SHITAKE E PRONTO!”, de Marcello Gabbay e Michele Campos

Rio de Janeiro, terra de gente chique, granfina, não é pra qualquer mané. Num final de tarde típico de julho, carioca gosta de tirar do armário aquela jaqueta jeans, bota três camisas e faz o maior drama por causa de 19 graus Celsius. Imagina então paraense no inverninho do Rio, o drama é triplicado, o caboclo veste quaro camisas, duas cuecas, meião grosso e ainda põe um gorrinho “Hang loose”. Ridículo!!!

Foi neste contexto que três paraenses e um carioca, loucos pelo friozinho foram atrás de um happy hour tipicamente fluminense. Caminhando pela Lagoa – que luxo! – a procura de um drink, uma musiquinha ambiente, quem sabe um Coltrane, um Miles Davis, ou simplesmente Jobim. Estávamos eu, minha senhoura Michele, e nossos queridos correligionários Jair Santana e Ricardo de Amaral Pereira Góes, duas expoentes figuras da sociedade carioca, artistas de vanguarda. Caminhávamos pela calçada gélida quando de repente. Voalá!!! Um lugar agradável, arejado, de muito bom gosto. Um barzinho ma beira da Lagoa, cardápio seleto, coisa para poucos.
Acomodados numa mesa privilegiada, inicio de uma noite estava perfeita, momento ideal para o tão desejado drink.

– Garçom! Por favor!
– Pois não?

Pedimos umas bebidas quentes para espantar o friozinho. Depois de uns vinte minutos, deu-nos aquela vontade de beliscar uns canapés, talvez escargot, alguma coisinha leve, menos fondue porque duas noites antes havíamos tido experiências desagradáveis com queijo, carne e cebola, muita cebola. Olhando no cardápio, Michele despertou um estranho desejo por chitake, sim shitake, bonito nome, meio oriental, talvez uma espécie de chiclete japonês, sei lá. Esse era o problema, ninguém sabia o que diabos era shitake!!

– Garçom! Por favor! Você poderia nos explicar como é este prato. Shitake?
– Shitake? Ããã… É Shitake com queijo, torradas, molho…
– Sim, mas o que é shitake?
– Shitake? Ããã… É Chitake com queijo, torradas, molho…
– Moço, eu já entendi. Eu só queria saber o que é o shitake! – Michele já perdia a paciência.
– Bem, Ããã… É Shitake com queijo, torradas, molho…

Todos começaram a se aborrecer, mas temos que compreender a posição do garçom, que se perguntava, que cavalheiros são esses que não conhecem chitake? Que estirpe é esta?!

– Moço, vou perguntar mais uma vez. Eu sei que vem chitake , queijo, molho, mas eu quero saber o que é o chitake é uma carne, um tipo de legume, o que? Neste momento o garçom abriu um sorriso aliviado e exclamou:
– Aaaaah! Entendi!!! A senhora que saber o que é chitake, não é?
– É!
– Bem, chitake é chitake, queijo é queijo, torrada é torrada e molho é…
– Você só pode estar tirando sarro da gente, né? – Irritou-se Jair – Isso é uma palhaçada!!! – Ele lançou o guardanapo longe!!!
– Moço, pelo amor de Deus, o que é o chitake, uma planta, uma erva, excremento de unicórnio, testículos de hiena, o que é o SHI-TA-KE???
– Aaaaah!!! Entendi!!! Bem, chitake é chitake, queijo é quei…
– Ah não! Chega!!! Chame o gerente dessa pocilga! Agora! – Jair estava disposto a providenciar a demissão do atrevido, mal educado, assanhado, saliente… O garçom!!!
O gerente se aproxima com toda a calma do mundo, curva-se e pergunta?
– Posso ajuda-los?
– Nós perguntamos àquele garçom o que é chitake, ele ficou de palhaçada, parece que esta tirando sarro de nós e…
– Perdoem-me, mas os senhores não conhecem chitake?!
– Sim, mas o seu garçom é um grosso, estúpido e…
– Um minuto, por favor – O gerente retornou à postura ereta e com o nariz bem empinado bateu palmas duas vezes. Rapidamente dois gigantes, dois Manuel-Pinto-da-Silva’s humanos se aproximaram e enchotaram agente com mesa e tudo. O gerente afoito e descabelado berrou de dentro:
– Só me apareçam aqui quando tiverem categoria e classe para saborear um bom chitake. IGNORANTES!!!! FAVELADOS!!! Vão comer hot dog de picadinho, plebe escrota!!
Ficamos pasmos, arrasados pela alta sociedade carioca. Amanhã em todos os bons jornais do país nossa foto estaria estampada. Na sarjeta, como mendigos!!!
– Mas peraí, não tem paparazzis aqui, ninguém nos viu. Que alívio!!! – Exclamei.

A noite acabou e fizemos um pacto de sangue. Ninguém revelaria este acontecimento ultrajante, humilhante jamais! Cortamos os punhos com palito de dentes e cerramos o juramento, isso enquanto saboreávamos um delicioso e fino hot dog de picadinho com bastante maionese e batata palha. Foda-se o Shitake! Somos cafonas, isto é conosco sim. E que nos deixem em paz!

Marcello Gabbay é mestrando em Comunicação e Cultura  na UFRJ e Músico

Michele Campos é Mestranda em Artes Cênicas na UFRJ e Atirz

“ZIZI, O UFÓLOGO”, de Marcello Gabbay

Esta história tem como personagem um grande homem. Sebastião Miranda, o Seu Zizi , uma mente brilhante, um contador de estórias. Mistura ficção com realidade em fábulas e lendas. Seu Zizi poderia receber um prêmio por ser uma fábrica viva de lendas e causos na Amazônia. Graças a pessoas como ele a cultura popular oral mantém-se não só viva, mas renovada. Em Colares não há um cidadão que não conheça o Seu Zizi, aquele que lutou com o Saci, que viu discos voadores, que recebeu navegantes americanos em cruzada de guerra, e que trouxe a nado, no peito, cada um dos canhões de ferro que ornamentam a orla da praia. Um brasileiro, um cavalheiro, um caboclo amazônico, uma lenda viva. E se eu fosse você não duvidada das palavras de Zizi…

Colares é uma ilha localizada no nordeste do Estado do Pará, mais conhecida pelos freqüentes casos de aparição de OVNI’s. Nos anos 70 muita gente que vivia na ilha presenciou a visita de discos voadores e diversos casos de contato com seres extraterrestres. Muitas mulheres colarienses, atacadas por raios emitidos das naves, apresentaram queimaduras idênticas, em forma diagonal com duas leves perfurações no peito esquerdo. Acredita-se que os alienígenas extraíam amostras do tecido humano para análise ou qualquer outro fim fantástico.

O caso foi tão sério que uma base de observação do Exército brasileiro foi instalada na ilha por volta de 1973. Nesta época, uma das figuras mais expressivas da cidade, Senhor Zizi Miranda, também foi testemunha do fenômeno. Na verdade o Seu Zizi presenciou uma das mais arrepiantes aparições de discos voadores em Colares. Conta ele que num fim de tarde de 1973 ou 1974, uma nave foi vista flutuando sobre a praia, longe no horizonte. Aos poucos a população foi percebendo o objeto formando um aglomerado de gente ao longo da orla. Imediatamente a base militar ali instalada pôs-se a fotografar e registrar o evento. Como se percebesse que todos a observavam, a nave piscou e toda a luz da cidade apagou. Um breu total, rádios, lâmpadas e postes, tudo apagado! Em seguida a nave partiu, como uma flecha, desaparecendo no céu.

Há alguns meses atrás, mais de 30 anos depois da “invasão alienígena” em Colares, uma importante emissora de TV procurou diversas pessoas que vivam na ilha em 1973 para produzir um documentário sobre os discos voadores. Sem dúvida o Seu Zizi era peça fundamental neste quebra-cabeça extraterrestre. Não demorou muito para uma equipe de reportagem procura-lo em Belém, onde vive hoje no alto de seu 90 anos. Com muito prazer Seu Zizi marcou uma data e hora para receber os repórteres. Como testemunha ocular do fato alienígena, ele enriqueceria muito o documentário.

No dia e hora combinados a equipe de filmagem tocou o interfone no apartamento de Seu Zizi, autorizados a subir, trouxeram nas costas quilos de equipamentos. Câmeras, tripés, microfones, malas e malas de cabos, spots de luz, suportes de aço, foram umas três viagens no elevador apertado do prédio. Enquanto os técnicos descarregavam e montavam o improvisado set de filmagem na sala de estar, Seu Zizi, dispôs-se a introduzir a história para o repórter que o iria entrevistar. O jovem perguntou:

– Sr. Zizi, por favor, me conte com detalhes como e quando o senhor se deparou pela primeira vez com um disco voador?
Ele, endireitando-se na poltrona, respondeu:
– Olha rapaz, vou te contar, a história foi o seguinte. Eu estava caminhando pela praia, quando, de repente, me apareceu um Saci querendo brigar comigo. Ele veio com toda força, com os dois pés no meu peito, aí eu cerrei os punhos e…
Desconfiado, o repórter interrompeu:
– Seu Zizi, um Saci?!
– Sim! – Confirmou Seu Zizi.
– Mas com dois pés?!
– Ele era aleijado!! – Retrucou Zizi.
O rapaz coçou a cabeça e, revoltado, ordenou à equipe:
– Guardem tudo!! Vamos embora, é tudo lorota!!!

Marcello Gabbay