“Cortina de Fumaça”, Rodrigo Mac Niven, 2010

Cartaz "Cortina de Fumaça"

“Cortina de Fumaça” é o primeiro longa documentário do diretor Rodrigo Mac Niven, produzido na produtora carioca TVA2, antes porém, também com produção da TVA2, já havia dirigido o documentário média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”,  que está sendo exibido na GNT.

Rodrigo é jornalista, diretor de curtas e publicidade, além de fotógrafo, editor e finalizador de vídeos. Em seu primeiro documentário, selecionado para Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro em 2010, Rodrigo foi acima de tudo ousado. Trabalhou um assunto aparentemente batido, porém, por uma nova perspectiva, com um novo olhar, levantando questões, alfinetando moralismos e preconceitos.

O filme “Cortina de Fumaça” é assim. Um tapa em velhos conceitos. O documentário analisa a política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição de determinadas práticas relacionadas a algumas substâncias, e a partir daí, vai em busca de cientistas, médicos, políticos, antropólogos, enfim, de alguns dos maiores estudiosos sobre o assunto no mundo.

A liberdade vista no filme é talvez seu maior atributo, e aí talvez tenha um ponto determinante. O filme é acima de tudo autoral. Um projeto pessoal, como ele mesmo coloca em sua narração em off no inicio do filme, e outra, foi totalmente independente, sem lei de incentivo fiscal, sem nem uma grande empresa patrocinadora por trás, esse é um projeto de diretor, realizado pela TVA2, produtora a qual é sócio e pela J.R. Mac Niven Produções, empresa ligada também a sua família.

Dificilmente um filme, com essa liberdade de opinião teria apoio governamental e mesmo de grandes empresas.Lembramos que, até o filme “Cheiro do Ralo” de Heitor Dhalia, mesmo contando com o popular ator Selton Melo no elenco, teve problema em conseguir patrocínio em função da temática do filme, que trazia um “anti-herói”, bem distante do que qualquer empresa quer envolver seu nome.

Voltando ao “Cortina de Fumaça”, além da visível liberdade, percebe-se um excelente trabalho de pesquisa. Observamos isso, pela ótima seleção de entrevistados. Entre esses 34 entrevistados, estão o ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva, o criminalista Nilo Batista entre inúmeros outros grandes nomes.

Estaremos diante do Michael Moore brasileiro? Bom, acredito que se o diretor americano assistir ao filme vai com certeza ter certa identificação com o diretor brasileiro. Pelo tema, e por sua busca de uma verdade em que acredita. Porém, temos uma diferença, e até apontaria como uma falta do filme brasileiro. A entrevista de opiniões diversificadas. Claro, devemos partir da premissa, que toda obra tem uma opinião a apresentar, que nem uma é neutra. Mas, é importante levantarmos questões, e termos os dois lados no mesmo trabalho.

Acaba que de certa forma, o filme se torna tendencioso ao olhar do espectador, mesmo que as entrevistas, contem com opiniões de pessoas sérias dos mais diversos setores da sociedade.Ao mesmo tempo, podemos então colocar uma segunda questão. Essa segunda opinião que falta ao filme, é a opinião que nos é bombardeada todos os dias na grande mídia, e o diretor apresenta, por mais que de maneira sutil, essa opinião em alguns comerciais que vão para a televisão com discurso anti-drogas. A esse discurso, fica claro, a falta fundamentação. E aí está o grande diferencial. No filme, suas opiniões, são fundamentadas.

O trabalho de câmera e edição do filme são outros dois pontos fortes do filme. A fotografia é bem realizada, mas nunca tenta roubar mais atenção que as entrevistas ou do próprio tema. As externas nas várias cidades do mundo, focando principalmente as pessoas na rua, são como se depois de cada entrevista, estivéssemos vendo como nos, como a sociedade é manipulada e, nos sentimos como o próprio diretor, que em pequenas cenas aparece olhando o comportamento das pessoas de longe. O filme, a fotografia, parece fazer com que nós, nos olhássemos.

A edição é ágil, tem boas e bem colocadas sequências externas, vai e volta em vários entrevistados, mas é clara, não confunde o espectador. Mesmo um filme com grande número de entrevistados, aqui diferente do que aconteceu em “Dzi Croquetes” dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o seu formato não fica careta, não cai no tradicional, no formato jornalístico por exemplo. Alguns detalhes fazem a diferença na finalização.

Dificilmente um filme como “Cortina de Fumaça” conseguirá distribuição, ou pelo menos uma boa distribuição. O seu tema é incômodo, verdadeiro demais, questionador demais para um cinema popular que a maioria dos distribuidores quer investir. Mas sua carreira não está só aí. Esse com certeza será um filme de carreira muito longa e será usado no futuro, como referência de debate ao tema.

Sendo assim, podemos afirmar que “Cortina de Fumaça” é um filme essencial. Um filme para ser visto por pais, filhos, por mestres e alunos, por eleitores e políticos. Um filme que acima de tudo, levanta questões, faz pensar, e você leva pra casa e fica com ele durante dias. E depois de tudo isso, ele aguça ainda mais sua curiosidade a respeito do tema.

São cada vez mais raros os filmes assim, e “Cortina de Fumaça” é um desses raros filmes, que precisa ser visto pelo maior número de pessoas possível, justamente para se questionar preconceitos, amarras sociais, é um filme que precisa ser pensado

Jair Santana

“Vips”, Toniko Melo, 2011

Vip's - Cartaz

Vip's - Cartaz

“Vips”, é o filme de estreia do diretor Toniko Melo, baseado no livro de Mariana Caltabiano, “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso”, e conta a história de Marcelo Rocha, um simplório golpista, que consegue, com sua ousadia e personalidade atormentada, enganar de traficantes, policiais e a high society brasileira.

Impossível não lembrar de “Prenda-me se for Capaz” de Spielberg, com alguns golpes de Marcelo. Mas as histórias são bem diferentes e a aproximação entre os personagens de Wagner Moura e Leonardo DiCaprio param na facilidade que os dois possuíam de serem rápidos e convincentes em suas mentiras.

O Marcelo Rocha do filme é um personagem carismático e em certos momentos, até ingênuo. Quem dá vida a esse personagem é Wagner Moura, em mais um grande trabalho. Impressionante a capacidade de transformação do ator apenas com seu olhar.

Confesso que em alguns momentos iniciais senti certo exagero eufórico na interpretação do personagem, mas temos também que lembrar que o mesmo ator, o Wagner, interpreta Marcelo Rocha desde sua adolescência, e os adolescentes são inexplicavelmente, eufóricos. Mas ainda assim, ainda que coerente, chega a me incomodar.

Ao contrario do que já se falou em algumas críticas, pessoalmente acho que o personagem Marcelo Rocha, mais interessante ainda por dar golpes com certa ingenuidade. Não para simplesmente ficar rico, ou chegar a algum lugar, o mais curioso é justamente isso. Nem ele mesmo sabe onde quer chegar. Ele vive tão profundamente a mentira, que confunde a sua realidade com a do próprio personagem que cria.

Entre as virtudes do filme, que são muitas, está a fotografia de Mauro Pinheiro Jr, em mais um grande trabalho. Mauro é responsável por belas fotografias em filmes como “As Melhores Coisas do Mundo” e “A Casa de Alice” entre inúmeros outros, e aqui realiza mais uma fortografia acertadíssima. As cenas de vôo em especial são muito bem realizadas, também as sequências noturnas como a do “voo kamikaze” são ótimas, nada se perde na fotografia dele. Juntando tudo isso a boa decupagem de Toniko Melo, o filme fica visualmente encantador.

A música é outro grande acerto. Por sinal, a música é parte diegética do filme. Muito presente. Tem função fundamental no “contar a história”. O responsável pela trilha é Antônio Pinto, que na minha opinião é, juntamente com Jacques Morelembaum, os dois melhores compositores de trilhas sonoras do país.

Mas um bom filme precisa principalmente de duas coisas. Um bom roteiro e boas interpretações. E aí temos o trabalho de Bráulio Mantovani, roteirista de “Cidade de Deus” e o estreante em roteiro de longa metragem Thiago Dottori. O roteiro é claro, de fácil compreensão, sem barrigas. Conta no tempo certo o que precisa ser contato só com imagens, e pra isso usa algumas “brincadeiras” bem sutis durante o filme, e com falas quando realmente é necessário ser falado. É um roteiro bem equilibrado nesse sentido.

O elenco é encabeçado pelo ótimo Wagner Moura, mas também conta com coadjuvantes maravilhosos. O diretor e sua produtora de elenco, Cecília Homem de Melo, escalaram um elenco excepcional. Wagner Moura (Marcelo), Gisele Fróes (Sílvia) e Jorge D’Elia (o Patrão) ganharam o prêmio no Festival do Rio por suas interpretações. As premiações apenas refletem como o conjunto de todo elenco do filme funciona muito bem.

“Vips” diverte, mas é também um filme crítico sem arrogância, não crítico moralmente falando, pelo contrário, um outro acerto do filme é não julgar seu personagem. O filme é crítico a algo maior, ao comportamento da sociedade e não de uma única ação. O roteiro é cheio de metáforas e consegue equilibrar bem a ação e tensão do filme, com o humor.

A historia, claro, dramatizada para a ficção, é simples e muito envolvente. Da maneira como a historia é contada pelo diretor somado ao carisma de Wagner Moura, é impossível não se envolver e torcer pelo anti-heroi Marcelo.

O tipo de narrativa é muito fácil de se agradar o grande público. Esse fato é comprovado por “Vips” ser a melhor estreia do final de semana no país segundo dados do portal FilmeB.

Provavelmente não será o filme candidato pelo Brasil ao próximo Oscar (outros bem menos merecedores já foram), ou ainda um filme ovacionado pelo cinéfilos mais cabeças. Mas podemos afirmar sim, que “Vips” é um filme muito bem realizado, na verdade, um conjunto de boas realizações, com ótimos momentos, e com certeza será um dos grandes filmes brasileiros do ano.

Jair Santana

“Como Esquecer”, Malu Martino, 2010

Como Esquecer

Como Esquecer

“Como Esquecer”, filme de Malu Martino, adaptado do livro homônimo de Myriam Campello, é um filme mediano, que tem  de melhor, fugir do óbvio e da repetida formula do cinema realizado no Brasil.

Pra começar, o cinema brasileiro tem realizado em sua grande maioria comédias e filmes sobre pobreza e violência. “Como Esquecer” é um drama intimista sobre perdas e diferentes maneiras de se lidar com isso.

O fio condutor da historia é Julia (Ana Paula Arósio), que depois de uma relação de 10 anos, é abandonada pela namorada e passa a sofrer profundamente por esse término de sua relação. Paralelamente temos seu melhor amigo Hugo (Murilo Rosa) que, mesmo vivendo também uma situação de perda, seu namorado faleceu a pouco tempo, tenta ajudar sua amiga a superar esse momento, e também Lisa (Natália Lage) que é amiga de
Hugo e vai dividir a casa com os dois depois de ser abandonada pelo namorado ao ficar grávida.

Até aí, temos uma sequência de desgraças e pessoas amarguradas. Mas o filme não trata disso. Perdas, temos a todo tempo. Perdas, e também ganhos, que dependendo da situação, não conseguimos enxergar.

Curiosa a cena em que Lisa chora desesperada no quarto, quando Julia, sempre se achando a pessoa mais desgraçada do mundo e só olhando pra si, percebe que outras pessoas tem problemas também e também sofrem.

A historia do filme é boa, mas o roteiro peca muito ao não confiar na imagem, e exagerar na quantidade de offs, explicando a todo momento, o que só bastava a imagem para explicar. O exagero é tão grande, que em certo momento existem dois offs. Na verdade, o primeiro não poderia ser classificado como off mas funciona como um, Julia falando em cena e explicando pra ela mesma o que está fazendo, e um segundo em cima dessa explicação, como se fosse o pensamento dela.

 

 

Outro problema é mais técnico. A fotografia erra muito, e várias vezes. Apesar de uma decupagem bonita, e a opção de se manter sempre um clima mais cinzento durante o período de tristeza, a luz com sombras fortes, inclusive nas externas, chegam mesmo a incomodar. Percebe-se a artificialidade da luz muito claramente. A boa luz, você não percebe de onde vem, e as sombras não são exageradas (pelo menos nas externas) ou então justificadas.

Um ponto forte do filme são as boas interpretações. Ana Paula Arósio está muito bem no papel. Vemos ela longe do glamour que a TV sempre lhe agrega. E ela segura muito bem seu personagem, que podemos classificar como uma anti-heroina, pois ela é grosseira e nada carismática. Mas vemos seu amigo Hugo colocar em várias conversas como ela é solidária com todos, sempre tentando ajudar os outros. A diretora resolveu colocar essa outra Julia somente em histórias  contadas e em poucos momentos no vídeo de sua viagem com a antiga namorada,. Alí Julia é uma pessoa sorridente e brincalhos, e sua namorada Antônia, nunca aparece.

A opção de Antônia nunca aparecer é acertadíssima. Assim, não ficamos sabendo de um outro lado da historia, e o espectador passa a não fazer julgamentos e não se preocupar com o porque o término, mas sim, com o lidar com a situação da separação.

Problemas técnicos e algumas falhas na direção não tiram o valor do filme, em retratar sem clichês caricatos um grupo de amigos, gays e não gays, suas relações entre si e com seus amores. Afinal, o amor é algo que todos podem viver. Ana Paula Arósio em uma entrevista declarou que “ser gay, era só uma das coisas que fazia parte da vida de Julia”, e está corretíssima em sua afirmação. O filme não é sobre isso.

A música do filme de Bia Paes Leme é bem realizada. A decupagem de cenas são muito bem selecionadas e o elenco é acertadíssimo. O sol, só aparece com a virada na vida de julia. Isso é muito simbólico e colocado de maneira natural.

“Como Esquecer” é um filme atual, de facil indentifcação de jovens de 20,30 e 40 anos, que tem amigos, que vivem amores e decepções amorosas, que sairam da casa dos pais para dividir sua vida com amigos. Apesar de problemas no roteiro, em não se assumir como o cinema que é, a historia é interessante e universal. O filme não chega a ser ruim, mas é claro o potencial que tem, pra ser muito mais do que se apresenta.

Jair Santana

“Cabeça a Prêmio”, Marco Ricca, 2010

Cabeça a Prêmio

Cabeça a Prêmio

Impossível não lembrar de Alejandro González-Iñárritu quando assistismos “Cabeça a Prêmio”, primeiro longa metragem do até então ator,  Marco Ricca. E isso não é um desmerecimento, de modo algum.

Se percebe essa referência no roteiro,  sem um personagem central, que lembra os entrelaços de personagens dos roteiros de Arriaga, nos planos escolhidos por Ricca, no ambiente que decidiu filmar, inóspito, nada atraente, e também na trilha, que lembra muito, as músicas de Gustavo Santaolalla, que como Arriaga, é parceiro de Iñárritu desde de “Amores Brutos” em 2000.

A historia se passa em uma região de fronteira não muito especificada, com fazendeiros, traficantes, matadores profissionais, enfim, tudo que faz parte desse mundo que Ricca resolveu retratar.  Diferente de Arriaga, o roteiro de Felipe Braga e do próprio Marco Ricca, baseado em um livro de Marçal Aquino, é linear, criando assim uma identidade própria para o modo de se contar a história.

Além de Iñárritu, percebe-se outra forte referência de Marco Ricca. O diretor brasileiro Beto Brant, que em “Os Matadores” trabalhou um tema semelhante em região de fronteira, em roteiro também de Marçal Aquino,  e com quem Ricca trabalhou em dois filmes, “O Invasor”, considerado por muitos o melhor filmes da retomada, e “Crime Delicado”.

Historias de amor, perseguições, tensão.  Ricca consegue levar bem ao espectador o que propõe, mas ao meio do filme, parece perder o rítimo. O filme parece criar uma certa barriga e nada acontece até a filha do fazendeiro Miro (Fúlvio Stefanini), a bela jovem Elaine ( Alice Braga) e seu amtante, o piloto da fazenda Denis (Daniel Hendler),  fugirem da fazenda. Mas isso, acontece no terço final do filme.

Interessante observar, como mesmo em meio a matadores, a violências físicas e psicológicas fortes, poucas cenas de violência são realmente presenciadas pelo espectador. Que parece ser preparado a cada sequência, para algo a mais no final. E realmente somos. Tudo corre para algo meio tragédia grega. As soluções para todos os problemas, amorosos ou não,  como o próprio trailer anúncia, se resolvem com uma única sentença.

 

 

O filme é cheio de qualidades, mas diria que a maior delas é sem sombra de dúvida as interpretações. Ricca se mostra como um excelente diretor de atores. Isso tem se mostrado um ponto em comum entre os diretores que arriscam a direção como  vemos em  “A Festa da Menina Morta” de Matheus Nachtergaele, e “Feliz Natal” de Selton Melo.

Todo elenco tem seu momento, todos estão em ótimas performances, mas impossível não destacar três deles, por seus papeis. Eduardo Moscóvis como um matador introspectivo e aparentemente confuso quanto a sua profissão. Otávio Muller como Abilio, em seu melhor papel. Otávio faz um homossexual frustrado, preso com sua sexualidade em uma região que não dá essa homossexualidade como algo facilmente aceito. Otávio não é caricato, apresenta uma interpretação leve, sensível ao mesmo tempo que muito firme. Merecedor de prêmios com toda certeza. E ainda, Ana Braga, como Jussara a esposa do fazendeiro. Apesar de personagem com menor participação, o papel é denso, pesado, e ela segura com uma grande verdade. Porém todos estão, como já falado, em ótimas atuações.

O filme ainda apresenta outros muitos acertos, entre eles a música de Eduardo Queiroz, a bela fotografia de José Roberto Eliezer (de “Nina” e “O Cheiro do Ralo”) que realiza uma fotografia correta, realista, sem grandes firulas, e é também a correta e verdadeira  direção de arte de Luiz Roque.

Marco Ricca, acerta em seu primeiro trabalho como diretor. E deixa a promessa de se tornar um grande. “Cabeça a Prêmio” com toda certeza não será a maior bilheteria do ano, nem mesmo será eleito como um filme para representar o Brasil no Oscar, por não ser um filme fácil, mas entra para o hall dos melhores filmes brasileiros do ano.

Jair Santana

“Nosso Lar”, Wagner de Assis, 2010

 

Nosso Lar

Nosso Lar

O diretor, de A Cartomante, e roteirista Wagner de Assis (“Xuxa Requebra” e “Xuxa e os Duendes 1 e 2) chega com seu segundo como diretor com “Nosso Lar”. Vale ressaltar, que para o segu segundo filme, é um projeto bem corajoso, bem ousado. O filme mais caro já produzido no país até hoj, 20 milhões de reais, perde apenas para “Lula – O Filho do Brasil” orçado em 15 milhões. “Nosso Lar” é baseado no best seller de Chico Xavier, o mais famoso espírita brasileiro, e aos que acreditam, psicografado pelo espírito de André Luis, o personagem principal da trama.

O filme conta a história de André Luis, um médico no início na década de 30, que é um homem muito materialista ligado a status, posição social, que vem a falecer logo no início do filme. Então, aí sim começa sua historia. Baseado na doutrina espírita, o filme conta como é feita essa passagem, da vida para o outro lado.

A historia em sí é curiosa, o livro (que não lí) pode ser realmente bem interessante, mas o  filme tem um grave, um gravíssimo problema. O roteiro. Sem dramaturgia.  Apesar do diretor ser antes de tudo um roteirista, o filme peca por diálogos superficiais e excesso de didatismo, cheio de frases feitas, que até podem (eu disse que podem) funcionar na literatura, mas não saindo da boca de um ator.  Talvez faltasse um personagem na equipe de roteiro chamado “dialoguista”. A adaptação do livro para o cinema é pobre e mal realizada.

Somando-se ao problema de roteiro está a interpretação, ou melhor, a falta dela principalmente do elenco principal. Renato Prieto e Fernando Alves Pinto não convencem em seus papeís, talvez por falta de direção. Contudo, o roteiro já não colabora e falas não o ajudam a estar a vontade,  e com isso o filme perde muito.

E por último, pelo menos o que considero o último grande problema do filme. A edição,  careta, sem ousadias, parece apresentar o mesmo didatismo do roteiro. O intercalar o personagem principal em vida ,  e vida pós desencarnado por exemplo, nos afasta do personagem principal. Não há envolvimento, e chega a cortar o clima de boas situações

O diretor peca também na direção quando tenta explicar com off o que as imagens já estão mostrando. Algo muito comum em telenovelas. A primeira parte, no lugar identificado como umbral, o diretor insiste em nos mostrar e explicar tudo que está acontecendo. Cinema não é isso. Ou você mostra, ou você explica, fala, conta.

 

 

Mas o filme não é só problemas não. A mal escolha do elenco principal, compensou com um elenco de coadjuvantes maravilhoso. Em especial Selma Egrei, a mãe do personagem principal, temos ainda Paulo Goulart, e sub aproveitada Chica Xavier. Não entendi a opção do diretor em sub aproveitar o melhor elenco.

A direção de arte está muito boa, os efeitos visuais do filme são bons, mas não maravilhoso como muitos tem comentado. O umbral, é muito mais bem produzido que a cidade “Nosso Lar” por exemplo. Na cidade, com construções inspiradas na arquitetura de Oscar Niemeyer, você percebe certa superficialidade, e uma frieza (como Brasilia) que em alguns momentos chega a incomodar, pois alí deveria ser um lugar feliz e bom para se “viver”. Os efeitos visuais foram realizados por uma empresa canadense que realizou os efeitos de filmes como “A Fonte da Vida”e “Anjos da Noite – A Rebelião”.

O diretor peca em muitos momentos, mas percebe-se um cuidado com a decupagem do filme. Ele realmente estuda movimentos, posicionamentos mais trabalhados, e isso ajudou a fotografia de Ueli Steiger, de “10.000 A.C” a realizar um bom trabalho.

A música de Philipe Glass, o compositor americano que já compôs trilhas pra filmes como “Notas de um Escândalo”e “Sonho de Cassandra”,  não decola. Se esperou muito de sua música para esse filme, mas a trilha caiu em lugar comum, tão comum que você nem lembra dela ao sair do cinema. O que realmente foi uma pena, pois uma boa música melhoraria algumas cenas dramáticas do filme. Mesmo que não savasse, ajudaria.

Quanto a historia, não foge muito ao moralismo cristão-ocidental-conservador de sempre, mas ainda assim o filme emociona, principalmente se você tiver alguma identificação com a doutrina espírita. Não há surpresas, o roteiro é clássico, apesar de mau trabalhado. O herói começa de um jeito, e há sua transformação no decorrer da historia, e ele chega ao fim com uma nova pessoa, mais maduro, mais forte.

Não acho que como filme, seja um material realmente relevante. Mas acredito, que também como cinema nacional, tenha seu valor, que é o de levar pessoas que não estão acostumadas, a sair de casa pra assistir o filme nacional na tela grande. E só esse mérito, já deve ser congratulado. Outro seria, que há sim possibilidade de se realizar outras temáticas no cinema nacional para grande público, que não seja violência e comédias bobas.

Jair Santana

“Reflexões de um Liquidificador”, André Klotzel, 2010

Reflexões de um Liquidificador

André Klotzel, diretor paulistano, tem uma carreira com filmes de sucesso de público e crítica, e vencedor de vários prêmios, além de filmes exibidos em Cannes, Festival de Berlin, entre outros festivais pelo mundo. Apesar de uma bela carreira, ainda é um diretor de nome não tão conhecido pelo grande público. (Veja entrevista com o diretor aqui)

É diretor de filmes de sucesso como “A Marvada Carne”, filme de 1986, e “Memórias Póstumas”, de 2002. Agora, apenas oito anos depois, o diretor estreia seu novo trabalho, mais uma vez, um ótimo filme, “Reflexões de um Liquidificador“.

O filme é uma comédia de humor negro, onde uma pacata senhora, a dona Euvira, vivída com grande verdade por Ana Lúcia Torre, é uma mulher humilde, casada, e após o conserto do liquidificador, ele começa a conversar com ela. Somando-se isso, seu marido some, após uma semana ela vai na polícia, e então entra no filme o investigador de polícia Fuinha, outra ótima interpretação para o filme, do ator Aramis Trindade. Começa então a procura pela solução sobre oque aconteceu com Onofre, o marido de dona Euvira, que passa a ser a principal supeita do invertigador Fuinha.

O ótimo roteiro é de Antonio José de Souza, a direção e produção de André Klotzel. Concentrando essas duas funções, André consegue deixar o filme com um tom mais altoral. “Reflexões de um Liquidificador” é despretensioso, com ótima decupagem de cenas e com muitos acertos. O maior deles talvez esteja na seleção do elenco. Do principais personagens com Ana Lúcia Torre, em sua primeira protagonista no cinema e Selton Melo na voz do liquidificador até os personagens secundários.

Os dois dão o tom certo ao filme, além do mérito dos dois, vemos que o diretor é um ótimo diretor de elenco. Os atores coadjuvantes como Aramis Trindade, Fabiula Nascimento e Marcos Cesana (falecido em maios desse ano antes do lançamento do filme) também estão ótimos em seus personagens. O acerto de escolher bons atores, e com rostos menos televisivos, nos oferece maior verdade. Nos convence mais.

Impossível não comparar “Reflexões de um Liquidificador” com outro grande filme brasileiro, “Durval Discos” de Anna Muylaert, pela grande virada do roteiro, Ambos, saem de uma historia em um lugar comum, um universo tranquilo e pacato, para uma realidade mais absurda e inusitada. Mas suas comparações param por aí. O “Reflexões…” não é uma cópia do “Durval Discos”.

Mas os acertos não param por aí, a direção de arte e figurino por exemplo são muito bem cuidados, a fotografia idem, e oque também chama atenção a ótima música de Mário Manga. Trilha sonora por sinal é um setor que ainda temos acertado pouco, mas temos melhorado devagar e cada vez mais. Parabéns para ótima trilha do filme, meio melancólica, ao mesmo mesmo tempo muito bem humorada.

“Reflexões de um Liquidificador” é ótimo, Tem rápidos e inteligentes 80 minutos, que divertem, surpreendem e nos deixam torcendo para André Klotzel não demore mais 8 anos para nos presentear com seu próximo filme.

Jair Santana

“Dzi Croquettes”, Raphael Alvarez / Tatiana Issa, 2009

Dzi Croquettes

Dzi Croquettes

“Dzi Croquettes”, longa metragem de estreia dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, resgata a historia de um dos mais importantes grupo de teatro na década de 70 no país. O grupo, com

o mesmo nome título do filme “Dzi Croquettes”, foi um acontecimento na historia cultural do Brasil, que hoje, é muito pouco comentado, muito pouco lembrado.

Tatiana Issa acima de tudo, faz um papel importantíssimo aqui, o resgate quase que pessoal dessa história. Seu pai, trabalhou com os Dzis, ou melhor, foi um dos Dzis durante alguns anos, e Tatiana fez esse trabalho, juntamente com Raphael Alvarez, como uma grande homenagem e resgate a memória de seu pai, e do país.

Em meio da ditadura militar, cheia de tanta sensura e conservadorismo, surge no Rio de Janeiro, até então, a capital cultural do país, o grupo Dzi Croquettes. Um grupo de teatro de homens que se travestiam de mulher, para contar piadas, cantar, dançar, experimentar. Logo o grupo virou uma coqueluxe entre o meio intelectual da cidade, todos queriam assistir os Dzis, e eles se tornaram referências de toda uma geração.

Depois do Rio, partiram para São Paulo, onde também fizeram muito sucesso, e foi assim até a sensura se meter em seu trabalho. Mas depois, o grupo foi para Londres, Paris, onde também fizeram sucesso. Até quase chegar na Broadway, onde não chegaram, por que a maioria dos integrantes, preferiu voltar para o Brasil. Por saudade. Rômantico, mas real. Eles não eram homens de negócio, eram acima de tudo, artistas, simplesmente.

Nomes como Paulo Tovar, Lennie Dale e Jorge Fernando, fizeram parte dos Dzis. E depoimentos emocionados se dizem influenciados por eles, como Claudia Raia, Pedro Cardoso, Miguel Falabela, Cesar Camargo Mariano, Marília Pêra, as Frenéticas, que assumidamente dizem ter tentado ser as “Dzi Croquettes” versão feminina, e ainda um grande e emocionante depoimento de Liza Minelli, e muitos outros grandes nomes da cultura brasileira.

Narrativa construida de forma correta, Situando o espectador para a época do grupo, apresentando os principais acontecimentos históricos da época da formação dos Dzis, . Depois então a narração continua sua historia contada de forma cronológica.

O filme tem um ritimo careta. Sua montagem é careta, seu formato peca por ser mais televisivo que cinematográfico. Pouca ousadia, mas percebe-se um cuidado no trabalho. Não é pouco ousado ou “careta” por preguiça, mas talvez, por inexperiência dos diretores.

A música em alguns momentos empolga, dá vontade de dançar, em outro, ela atrapalha, passando em cima de depoimentos, ou pelo menos interferindo demais neles.

Porém, com todos os problemas técnicos, e até concetuais do filme, ele não perde o encanto, não perde o valor, vale o ingresso.

Jair Santana

“Meu Nome é Dindi”, Bruno Safadi, 2008

Meu Nome é Dindi

O longa metragem de estreia do diretor de curtas Bruno Safadi, me gerou expectativa e decepção. “Meu Nome é Dindi”, é curiosamente filmado em planos sequências, com baixíssimo orçamento, Bruno é acima de tudo um realizador, um guerreiro. O filme ganhou prêmio de melhor filme do Festival de Tiradentes.

“Meu nome é Dindi” narra a historia de Dindi, uma jovem dona de quitanda, que está à beira da falência. Ao lutar por sua sobrevivência ela é perseguida por um perigoso agiota e por um misterioso senhor.
A premissa do filme é ótima, mas o roteiro se perde totalmente do meio pro final do filme, e os 85 de filme ficam intermináveis.

A velha historia de querer tornar o nú e cru em poético, misturar realidade e fantasia, misturar passado e presente numa só cena. Nada disso é errado, quando bem realizado. Mas aqui é tudo muito confuso e desconexo.

Filme ousado demais pra um primeiro filme. Bruno é diretor e roteirista do filme. Totalmente autoral, e isso é bom, mas aqui essa autoralidade é mais um experimentalismo. O elenco está ótimo, bem dirigido, mas os diálogos do roteiro não ajudam.

Somamos isso a uns erros de cortes e uma fotografia escura e simplória, mesmo sendo o diretor de fotografia o  ótimo Lula Carvalho,  fotógrafo premiado e filho de um dos mais respeitados diretores de fotografia do país, Walter Carvalho.

A crítica procura justificar o filme pela historia de Bruno como assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos e Julio Bressane, por isso o filme de Bruno é meio cinema novo. Não concordo. O “Cinema Novo” é contextualizasido historicamente em sua época, e naquela época tinha uma razão de existência. Mesmo que eu particularmente discorde de muita coisa do cinema novo.

“Meu nome é Dindi” começa bem, se perde e não chega a lugar nem um. Infelizmente. Pois mesmo com vários équivocos, Bruno Safadi parece ser um diretor que quer buscar sua identidade artística.

Jair Santana

“Entreatos”, João Moreira Salles. 2004

Entreatos

Inquestionávelmente,  “Entreatos” é mais um ótimo documentário de João Moreira Salles, que ja provou saber conduzir esse estilo de filme, com filmes como “Nelson Freire” e “Santiago”. O que fica aparente também, é que parece um filme quase que encomendado pelo próprio Lula.

O filme mostra os ultimos dois meses, ou melhor, os ultimos 40 dias do Lula antes de ser presidente do Brasil, ou seja, a disputa já estava bem definida quando o João chegou pra filmar. Como havia possíbilidade dele ganhar no primeiro turno, as filmagens foram adiantadas

Apesar das autorizações prévias, a equipe ainda tinha que negociar diariamente nova autorização para as filmagens. Dificil acreditar que isso não aconteceria. Logo, temos apenas imagens que não comprometem a imagem do Lula, dificil acreitar que a liberdade seria tanta, que não precisariam ter uma acessoria de imprensa que “filtrariam” as imagens depois. Mesmo que o João diga o contrário, como ele já disse.

O filme vende a imagem de um Lula, boa gente, simples, brincalhão (a melhor de todas é ele fingindo falar no telefone com o Bush), amigo, sensivel, enfim, quem não gostaria de um lider com todas essas qualidades? O filme chega, justamente em um momento do governo Lula, que se esta passando por uma crise de aceitação principalmente entre os intelectuais que os apoiaram, e o filme atinge justamente a que público?

“Entreatos” tem como proposta a mais pura das propostas de um documentário: A observação. Em nem um momento há um entrevistador que pergunte algo ao Lula, em nem um momento há interferência em qualquer atividade que o Lula esteja fazendo por parte da equipe, mas também não é um “Big Brother”, onde se pode até esquecer de está sendo filmado por não vêr a câmera. A consciência disso é muito clara, a equipe é grande ( sete pessoas entre tecnicos e direção), o Lula sabia o tempo todo e também era lembrado o tempo todo, pela presença dessa equipe. Logo, o que vemos alí, é uma interpretação de como o Lula gosta de ser visto.

Muito delicada a situação do diretor, em filmar um governante, durante sua reta final para a vitoria, e lançar o filme enquanto esse governante se encontra no poder. Dificil acreditar na autênticidade do filme, quando observamos o momento de sua realização.

O personagem popular que vemos, é encantador. O real carisma de Lula é incontestável. A fortaleza que o cerca também é incontestável. A cena em que José Dirceu questiona a existencia da equipe e os expulsa da sala é muito emblemática e coloca a força que esse outro personagem tem na vida política de Lula. Não é o candidato que expulsa, mas sim seu “braço direito”.

Concluindo, o filme é bom sim, tem um fotografia maravilhosa, em especial a ultima cena é fantástica, o olhar do documentárista se afasta, depois de acompanhar por 40 dias aquele personagem, e o entrega nas mãos da mídia e do povo. Mas a intimidade criada entre os dois não se repetirar com toda aquela multidão de câmeras e flashs. O único olho que registrou tudo, foi o “nosso”, através do diretor.

Jair Santana

“As Melhores Coisas do Mundo”, Lais Bondanzky, 2010

As Melhores Coisas do Mundo

“As Melhores Coisas do Mundo”, filme da extraordinária diretora Lais Bondanzky, prova que um filme sobre adolescentes, ou quase pré-adolecestes, pode sim, ser inteligente, emocionante e acima de tudo sensível.

O filme com roteiro do também espetácular Luiz Bolognesi, baseado em série de livros de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto é autêntico, original, ousado e pé no chão, somado a sensíbilidade de uma diretora intimista, corajosa e segura, resulta num dos filmes mais espetaculares filmes sobre adolescentes já realizados. E não somente na historia do cimema brasileiro.

O que há de tão espetacular assim? A simplicidade e a coerência como são tratados as situações colocadas no filme.

O roteiro é tão inteligente que não precisa utilizar palavras inteligentes para nos convencer disso. Os diálogos, em sua maioria de adolescentes, são bobos, cheio de gírias e superficialidades.  Aparentemente pelo menos. Aquelas do tipo “Você sgosta dele? Vacilo, Nada haver”, sem muitas explicações ou profundidade no que é dito. Se tornando assim, mais real e verossímil ao universo retratado.

A inteligência não está estampada nos diálogos, e sim nas situações, na coerência e no comportamento dos personagens retratados.. O que torna esse diálogos mais inteligentes ainda por serem mais próximos do real.

Mano, interpretado por Francisco Miguez com uma verdade impar, é um adolescente de 15 anos, cheio tão normal que é impossível não se identificar com ele. Ele gosta da menina mais bonita do colégio, tem amigos cheios de falhas, professores legais, outros chatos, pais que não se dão bem, amigos, é tudo tão usual que poderia ser um filme bem fraco.

Mas aí é que está a genialidade do roteiro e da direção. Transformar a simplicidade em algo superior e tocante. O diálogo mais inteligente do filme, vem de dois adultos, acadêmicos totalmente coerente ao universo apresentado pelo filme.

Finalmente o cinema brasileiro retrada adolescentes classe média sem precisar falar da relação deles com a marginalidade, ainda que sendo crítico e realista. Finalmente o cinema brasileiro simplesmente, retrata a classe média. Não, os adolescentes alí retratados não são santos, pelo contrário, falamos aqui de uma juventude muitas vezes, preconceituosa, dissímulada e cruel. Mesmo o heroi do filme, o Mano, logo no início ataca, talvez só pra se sentir em grupo, alguem que enxerga como diferente, e em outro momento, é esse alguem, que enxerga ele como alguem tão igual, que é a única pessoa que se aproxima para mostrar solidariedade.

Igualmente acontece com seu irmão Pedro (Fiuk), que hostiliza o namorado de seu pai, e é o mesmo que mais se aproxima dele, mesmo que virtualmente, e acaba por ser o responsável por salvar sua vida. Essa aproximação de antagonistas é realizado com total coerência, sem forçação, fluindo naturalmente como tudo no filme.

A decupagem do filme é incrível. Por mais minimalista que seja, e por mais colados que fiquemos ao personagem Mano, os planos abertos de Lais Bondanzky nos dá folego e nos situa do universo desse personagem. A segurança de sua direção é marcante.

Algums momentos do filme são marcantes e vale ressaltar. Como a relação de adimiração da aluna Carol (Gabriela Rocha) pelo professor Artur, interpretado por Caio Blat, ou da relação meio que como terapia de Mano como professor de violão, Marcelo, no pequeno, mas ótimo papel de Paulo Vilhena e também o momento da catarze da mãe com Mano na cozinha, na cena do ovo, que já chega se tornando um clássico. Denise Fraga dá um show, de explosão interna de seus sentimentos.

Um filme visceral, apaixonante, entregue como o momento de vida retratado aqui. Nos tira boas rizadas e algumas lágrimas também, e conciliar isso em um filme só, é bem dificil.

Tecnicamente também o filme é impecável, desde o figurino atual e nada exagerado de Caia Guimarães, a fotografia de Mauro Pinheiro Jr, que vem se tornando o novo queridinho da fotografia no cinema nacional, pelos seus ótimos trabalhos realizados, a edição de Daniel Rezende, indicado ao Oscar por  “Cidade de Deus“,  é agil e jovem como filme, e claro o elenco, em sua maioria jovens não atores, mas também não podemos deixar de citar a experiência no elenco de Denise Fraga e Zé Carlos Machado ´como mãe e pai do personagem Mano.

Por sinal, maravilhosa a escolha da direta pelo elenco, e em espcial de Denise Fraga que em em sua maioria é lembrada para interpretar papéis cômicos. Aqui, ela prova mais uma vez que não é uma comendiante, e sim, acima de tudo, uma ótima atriz.

“As Melhores Coisas do Mundo” arrisco a dizer, sem exitar, que ja se coloca como um dos melhores filmes do ano. Lais Bondanzky, não só por esse filme, mas juntamente com ele os filmes “Bicho de Sete Cabeças” e “Chega de Saudade”, prova que é uma das mais promissoras e autorais diretoras brasileiras.

Jair Santana

“Lula, O Filho do Brasil”, Fábio Barreto, 2010

Lula, O Filho do Brasil

O filme mais caro exclusivamente brasileiro já realizado no país, contando parte da história de um dos personagens mais curiosos, ambíguos e carismáticos da historia recente do país. Luis Inácio Lula da Silva, o presidente Lula. Que ainda vivo e ainda no governo, tem sua historia, dramatizada para o cinema.

Fábio Barreto foi o diretor que tirou o Brasil do longo período longe do Oscar, com o seu “Quatrilho” em 1995, o Brasil voltou a ter um filme concorrendo a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro na mais popular premiação do cinema. Agora, o diretor pretende novamente chegar lá, e dessa vez, levar o prêmio. Sua pretenção é clara, na maneira com que conduz o filme. Técnicamente super bem realizado, apesar de achar a fotografia de Gustavo Hadba equivocada.

Lula, O Filho do Brasil” é um filme altamente tendensioso, apelativo, e até oportunista. Mas isso tudo, só os brasileiros podem identificar de primeira. Enquanto nos EUA a onda de filmes sobre o então presidente Bush era crítico, aqui, os filmes costumam ser mais tendenciosos, ainda mais se tratando de uma figura como Lula, que tem altissima aprovação popular. Assim foi com o documentário “Entreatos” de João Moreira Salles, e assim é agora com a ficção “Lula, O Filho do Brasil”, transformando o presidente no mais forte heroi do cinema brasileiro da historia.

O roteiro é de Daniel Tendler, Denise Paraná e Fernando Bonassi, baseado em livro de Denise Paraná. Conta a historia de Luis, que logo depois se torna Lula, o garoto nordestino, que teve sua infância no interior do nordeste vivenciando todos os problemas que a seca pode trazer para as familias que alí vivem. A desestrutura familiar, a fome, a esperança de encontrar uma vida melhor em outro lugar.

O roteiro se pega muito a relação de Lula interpretado por três atores, na infância por Felipe Falanga, adolescente por Guilherme Tortolio e adulto por Rui Ricardo Diaz. Interpretações corretas mas nada surpreendentes, com sua mãe Lindu, que é interpretada grandiozamente por Glória Pires. Glória segura a personagem numa tragetória de 35 anos da historia do filme. Seu corpo, sua voz, seu olhar levam a força e a fraqueza que esse personagem pede.


O filme tem muitas imagens de arquivo que se misturam com imagens criadas para o filme, e diferente do que aconteceu com “Milk” do Gus Van Sant, onde as imagens se misturavam, aqui Gustavo Hadba, o diretor de fotografia do filme, não assume isso e a diferença entre as imagens acaba nos distanciando do que poderia nos aproximar daquela verdade. O filme não convence, a historia, por culpa da fotografia, parece querer nos enganar. Uma hora imagens granuladas, outras corretas demais. A não singularidade das imagens acaba prejudicando e muito o que estamos vendo.

O maior acerto do filme, juntamente com Gloria Pires para o elenco, é sem dúvida nem uma a trilha sonora de Antonio Pinto e Jacques Morelembaum. Nota 10. É envolvente, emocionante, grandiosa. Responsáveis pela também espetacular trilha sonora de “Central do Brasil” de Walter Salles, os dois músicos são com toda certeza são os melhores “trilheiros” que temos por essas bandas. Desde os primeiros momentos no interior do nordeste, ao crescimento de Lula como lider sindical, a música dita os momentos mais emocionantes do filme e nos emociona, mesmo que não concordemos com o discurso assumido pelo diretor com relação ao personagem. A música é o que há de mais forte e convincente no filme.

A direção de Fábio Barreto é segura, correta, mas algo no roteiro que parece segurar a mão do diretor. Frases feitas em demasia, não deixam o filme parecenatural. Nos afasta do personagem. Prejudica o desenrolar do filme. Algo parecido aconteceu com “Cazuza” de Daniel Filho. O Brasil ainda não sabe humanizar seus herois no cinema.

Independente das opiniões políticas, quanto filme, “Lula, O Filho do Brasil” promete arrastar um bom público pro cinema, Pois é muito bem produzido, e apesar de algumas falhas (roteiro e fotografia) ele envolve. Até mesmo pelo tema que foca, a relação entre mãe e filho.

Jair Santana

“Se Nada Mais Der Certo”, José Eduardo Belmonte, 2009

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Se Nada Mais Der Certo

“Se Nada Mais Der Certo”, ultimo trabalho do diretor José Eduardo Belmonte, diretor de “A Concepção. Belmonte nos apresenta um filme pessimista, porém realista, sobre a historia de um jornalista decadente e idealista, uma mãe viciada e seu filho, um taxista amargurado pelo suicídio do pai, e uma traficante bissexual, que habitam a região da Rua Augusta em São Paulo.

Região da boêmia decadente de São Paulo, a região da Augusta é cercada por tipos como os acima descritos, e também putas, clubers, baladeiros, rockeiros, travestis, skinheads, enfim, seres curiosos, decadentes e fortes, convivendo, as vezes forçadamente em um mesmo local. Pois aparentemente é uma região democrática.

“Se Nada Mais Der Certo”
filosofa, mesmo que seja assumidamente uma filosofia de botequim, questiona, mesmo que sem realmente querer encontrar as melhores respostas, e denuncia, mesmo que nada se resolva, o mundo podre que cerca essas pessoas. Sem parecer didático ou presunçoso. Apenas mostra, conta, nos coloca no mundo daqueles personagens.

Mas ainda assim, no meio de toda essa podridão, parece haver uma luz no fim do túnel. Existe uma certa melancolia, uma busca pela família inexistente, uma certa lealdade entre os personagens que nos move a torcer por aquela escória. Mesmo quando nos pegamos a torcer pelo lado errado.

Como uma de suas principais qualidades, filme traz boas interpretações de todos os protagonistas. Cauã Reymond, João Miguel, Caroline Abras e Luiza Mariane passam uma forte realidade à seus personagens.

O diretor nos cola ao personagem principal, Leo, e sua narração nos dá um clima mais intimista, passeando por seus pensamentos. Leo, veio como um presente para Cauã, que segura muito bem seu personagem, um tipo diferente dos que costuma representar.

A fotografia de André Lavenére é muito bem realizada. Granulada e suja, com muita câmera na mão, casa perfeitamente com a linguagem documental do filme.

O roteiro é uma crítica social forte, mas é também uma crítica a certos modos de vida. E também nos deixa uma pergunta. E se nada mais der certo pra você, existe um “plano b”?

Infelizmente, a música tema e a seleção de temas para trilha sonora, de Zepedro Gollo, é fraca não ajuda a criar climas que ajudariam o filme a crescer mais ainda.

“Se Nada Mais Der Certo” é o tipo de filme nacional que não agradará ao grande público. Pois não tem final redondinho e feliz, na verdade, tem um final aberto, algo que não costuma ser recorrente no cinema brasileiro.

Por isso mesmo é um filme que não pode deixar de ser assistido. Um filme de ação inteligente, crítico, mais próximos de nossa realidade que os gangsters e terroristas de filmes americanos.

Vencedor do Festival do Rio e do Cine Ceará com o prêmio de Melhor Filme Ficção, “Se Nada Mais Der Certo” é o verdadeiro cinema nacional, aquele cinema nacional que vem assumindo uma identidade própria, não tentando copiar o formato americano.

Jair Santana

“À Deriva”, Heitor Dhalia, 2009

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À Deriva

Sem desmerecer seus filmes anteriores, os ótimos “Nina” e “Cheiro do Ralo”,  Heitor Dhalia com seu “À Deriva” chega a sua fase de cinematografia adulta. Com um drama familiar forte e uma estética moderna, acompanhando propostas cinematográficas como de “O Casamento de Rachel” , de Jonathan Demme por exemplo.

No filme,  de roteiro do próprio Dhalia, conta a historia de Felipa, uma garota de 14 anos, durante as férias na praia, passando por seus dilemas amorosos e acima de tudo, enfrentando um drama familiar forte. O conflito amoroso entre seus pais.

“À Deriva” tem esse nome talvez, por nem um de seus personagens terem rédia da própria vida. Suas vidas estão diretamente ligadas um no outro para definir o caminho da própria que irão tomar. Os membros de uma familia acabam quase sempre se comportando assim. Nem uma decisão é tomada exclusivamente por sua própria vontade. Você é impossíbilitado de fazer algo porque tem pais, porque tem filhos, porque é casado, enfim, milhões de fatores que o deixam à deriva.

Interessante observar a descrição do livro que Mathias (Vicent Cassel) diz estar escrevendo durante o filme, onde descreve um triangulo amoroso, e a posição desses personagens é como estar em um lugar desconhecido. “Os três estarão onde jamais estiveram, é um mundo novo para eles”. Essa  talvez seja a sínteze de todo o filme. A familia chegará à um lugar onde jamais estivere até o fim daquele verão.

Todos os personagens principais, irão terminar o filme diferentes de como os conhecemos no incio. Eles tomarão decisões no momento final, que independem um do outro, então a partir dessas decisões,  irão a um lugar desconhecido, onde jamais estiveram.

Heitor Dhália mais uma vez, realiza um filme inteligente, e agora, sai da comédia de costumes, do sarcasmo, do surrealismo, do humor negro e chega ao mais próximo possível do realismo dramático, intimista e adulto.

“À Deriva” apresenta ainda uma trilha fabulosa de Antonio Pinto, interpretações memoráveis, principalmente do casal central Vicent Cassel e Débora Bloch, ela em especial dá um show com uma interpretação forte e sutil. Há ainda a fotografia granulada de Ricardo Della Rosa, nos remete mais ainda a temporalidade do filme no início dos anos 80.

Heitor Dhália, mesmo com fortes críticas aos seus dois primeiros filmes, já havia conquistado seu público, agora parece conquistar a crítica, e constrói uma forte cinematografia. “À Deriva” é um filme emocionante, atual e acima de tudo, universal.

Jair Santana

“Apenas o Fim”, Matheus Souza, 2008

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Apenas o Fim

Matheus Souza, apesar de sua pouca idade, nos mostra um filme cheio de referências, clássicas e populares, que vão de Bergman, Wood Allen a Pokemon e Britney Spears.

O premiado e conceituado diretor Domingos de Oliveira (“Todas as Mulheres do Mundo”, “Feminices”, “Juventude”), após assistir seu filme no Festival do Rio declarou: “Esse garoto poderia ser meu filho”. Talvez por, assim como Domingos, Matheus realiza um cinema de roteiro e altamente autoral.

A historia se passa no campus da PUC – Rio, no período diegético de um hora (recheada de flashbacks), onde um casal conversa sobre o futuro e o fim inesperado de seu relacionamento, motivado pela viagem de um dos personagens.

Antônio (Gregório Duvivíer) e a sua namorada (Érika Mader) passam o filme discutindo a relação, relembrando historias, encontrando amigos. Coisas do cotidiano, coisas simples, e por isso mesmo, tão geniais. Poucas assuntos são mais geniais que debater o simples com tanta riqueza e sensibilidade.

O filme veio como uma grande surpresa, arrebatando o público, atraindo jovens ao cinema, com a proximidade de referências e vocabulário, há também o interesse do público mais velho, como o próprio Domingos de Oliveira no auge de seus 73 anos,  pela inteligência do roteiro, pela forma conceitual do filme (meio nouvelle vague), com luz natural, andando no meio de cenários reais, além do ótimo trabalho de atores e edição por exemplo.

 

Outro elemento que chama atenção positiva ao filme é a música de Pedro Carneiro, que é leve e ao mesmo tempo obtém uma emoção que cai bem ao momento. Sem ser melodramática, sem aparecer mais que o filme, mas casando perfeitamente com o momento de angustia, mudança e transição dos personagens.

O filme claro, tem limitação de produção, realizado com equipamentos, parte emprestado da própria PUC – Rio e parte com apoio da MAICO LUZ (empresa que sempre apóia filmes independentes no Rio de Janeiro), “Apenas o Fim” apresenta problemas no áudio, e se percebe uma certa limitação criativa por falta de verba, mas nada que consiga comprometer nem de longe o filme.

Em um período em que as distribuidoras buscam super produções e apenas grandes lançamentos, o Grupo Estação dá uma dentro em nos trazer “Apenas o Fim”, mesmo com uma limitada campanha de lançamento.

Jair Santana

“A Festa da Menina Morta”, Matheus Nachtergaele, 2008

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A Festa da Menina Morta

Acumulando prêmios de direção, atuação, roteiro e fotografia, “A Festa da Menina Morta”, filme de estreia de Matheus Nachtergaele como diretor, chega aos cinema. “A Festa da Menina Morta” é um filme ousado e inovador em sua forma de nos contar uma historia sem medos, e com a cara do Brasil

A premissa do roteiro, de autoria de Matheus juntamente com Hilton Lacerda, foi tirado de uma festa real, que ocorre no interior do Amazonas. Dentro dessa premissa, se criou essa ficção, no qual ele mesmo na apresentação do filme definiu, que “não era um filme para se entender, pois nada era muito óbvio. Era um filme para sentir”

Em um primeiro momento, o filme se apresenta um tanto confuso, e até perdido se o roteiro não nos pega de primeira. Porém, também nos apresenta inúmeras qualidades.

Mateus trabalhou com incontáveis diretores de cinema, teatro e tv. Inteligente como é, tirou de sua experiência como ator, diferentes trabalhos de direção de atores. E seu filme apresenta um trabalho de direção de atores impressionante. Essa talvez, a maior qualidade do filme.

Estão presentes em seu filme nomes como Daniel de Oliveira, Jackson Antunes, Dira Paes, Juliano Cazarré, e mais todos os não atores que trabalharam no filme apresentam um trabalho de interpretação impecável. Só por essa questão o filme já valeria o ingresso, porém as qualidades não param por aí.

O diretor optou em realizar seu filme, na cidade de Barcelos, no Amazonas. aproveitando pessoas da própria cidade para trabalhar em seu filme. Para isso, levou a Manaus por exemplo, professores de teatro e atores do Rio e São Paulo para ministrarem workshops de interpretação para esse atores estreantes.

O filme é curiosamente todo trabalhado em planos sequências. A fim de se passar mais realismo, nos deixar mais próximos dos personagens. Mas essa opção, acabou em certos momentos prejudicando a fotografia. Algumas vezes, mesmo em cenas diurnas, o contraste das sombras, escurecem demais as cenas. O já conceituado diretor de fotografia Lula Carvalho, acaba não acertando a mão dessa vez, mesmo assim, a fotografia do filme ganhou prêmios no Festival de Los Angeles e de Gramado.

Percebe-se no filme de Matheus a aproximação do cinema visceral e dilacerante de Cláudio Assis. Na fotografia, nos planos, na própria historia que é narrada. Matheus e Claudio Assis se aproximam pela semsibilidade,  crítica e pela vontade de narrar historias ricas que poderiam, de alguma maneira, acontecer ao nosso lado e passar despercebida.

Matheus, ousado como sempre foi, coloca, talvez pela primeira vez no cinema brasileiro, um incesto gay, entre pai e filho, personagens de Daniel de Oliveira e Jackson Antunes, são os protagonizam esse incesto. Os dois atores, apresentam um trabalho impressionante.

Curioso perceber que essa relação entre os dois,só é claramente comentada pelo personagem da mãe, interpretada por Kassia Kiss, que faz Santinho (Daniel de Oliveira) perceber, que tipo de relação existe entre ele e seu pai (Jackson Antunes).

Matheus Nachtergaele em seu primeiro filme apresenta acima de tudo, um cinema independente e autoral, onde mais interessado de realizar um cinema que divirta e conquiste um grande número de soma em bilheteria, seu cinema quer fazer sentir e pensar.

Jair Santana