“Cortina de Fumaça”, Rodrigo Mac Niven, 2010

Cartaz "Cortina de Fumaça"

“Cortina de Fumaça” é o primeiro longa documentário do diretor Rodrigo Mac Niven, produzido na produtora carioca TVA2, antes porém, também com produção da TVA2, já havia dirigido o documentário média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”,  que está sendo exibido na GNT.

Rodrigo é jornalista, diretor de curtas e publicidade, além de fotógrafo, editor e finalizador de vídeos. Em seu primeiro documentário, selecionado para Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro em 2010, Rodrigo foi acima de tudo ousado. Trabalhou um assunto aparentemente batido, porém, por uma nova perspectiva, com um novo olhar, levantando questões, alfinetando moralismos e preconceitos.

O filme “Cortina de Fumaça” é assim. Um tapa em velhos conceitos. O documentário analisa a política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição de determinadas práticas relacionadas a algumas substâncias, e a partir daí, vai em busca de cientistas, médicos, políticos, antropólogos, enfim, de alguns dos maiores estudiosos sobre o assunto no mundo.

A liberdade vista no filme é talvez seu maior atributo, e aí talvez tenha um ponto determinante. O filme é acima de tudo autoral. Um projeto pessoal, como ele mesmo coloca em sua narração em off no inicio do filme, e outra, foi totalmente independente, sem lei de incentivo fiscal, sem nem uma grande empresa patrocinadora por trás, esse é um projeto de diretor, realizado pela TVA2, produtora a qual é sócio e pela J.R. Mac Niven Produções, empresa ligada também a sua família.

Dificilmente um filme, com essa liberdade de opinião teria apoio governamental e mesmo de grandes empresas.Lembramos que, até o filme “Cheiro do Ralo” de Heitor Dhalia, mesmo contando com o popular ator Selton Melo no elenco, teve problema em conseguir patrocínio em função da temática do filme, que trazia um “anti-herói”, bem distante do que qualquer empresa quer envolver seu nome.

Voltando ao “Cortina de Fumaça”, além da visível liberdade, percebe-se um excelente trabalho de pesquisa. Observamos isso, pela ótima seleção de entrevistados. Entre esses 34 entrevistados, estão o ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva, o criminalista Nilo Batista entre inúmeros outros grandes nomes.

Estaremos diante do Michael Moore brasileiro? Bom, acredito que se o diretor americano assistir ao filme vai com certeza ter certa identificação com o diretor brasileiro. Pelo tema, e por sua busca de uma verdade em que acredita. Porém, temos uma diferença, e até apontaria como uma falta do filme brasileiro. A entrevista de opiniões diversificadas. Claro, devemos partir da premissa, que toda obra tem uma opinião a apresentar, que nem uma é neutra. Mas, é importante levantarmos questões, e termos os dois lados no mesmo trabalho.

Acaba que de certa forma, o filme se torna tendencioso ao olhar do espectador, mesmo que as entrevistas, contem com opiniões de pessoas sérias dos mais diversos setores da sociedade.Ao mesmo tempo, podemos então colocar uma segunda questão. Essa segunda opinião que falta ao filme, é a opinião que nos é bombardeada todos os dias na grande mídia, e o diretor apresenta, por mais que de maneira sutil, essa opinião em alguns comerciais que vão para a televisão com discurso anti-drogas. A esse discurso, fica claro, a falta fundamentação. E aí está o grande diferencial. No filme, suas opiniões, são fundamentadas.

O trabalho de câmera e edição do filme são outros dois pontos fortes do filme. A fotografia é bem realizada, mas nunca tenta roubar mais atenção que as entrevistas ou do próprio tema. As externas nas várias cidades do mundo, focando principalmente as pessoas na rua, são como se depois de cada entrevista, estivéssemos vendo como nos, como a sociedade é manipulada e, nos sentimos como o próprio diretor, que em pequenas cenas aparece olhando o comportamento das pessoas de longe. O filme, a fotografia, parece fazer com que nós, nos olhássemos.

A edição é ágil, tem boas e bem colocadas sequências externas, vai e volta em vários entrevistados, mas é clara, não confunde o espectador. Mesmo um filme com grande número de entrevistados, aqui diferente do que aconteceu em “Dzi Croquetes” dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o seu formato não fica careta, não cai no tradicional, no formato jornalístico por exemplo. Alguns detalhes fazem a diferença na finalização.

Dificilmente um filme como “Cortina de Fumaça” conseguirá distribuição, ou pelo menos uma boa distribuição. O seu tema é incômodo, verdadeiro demais, questionador demais para um cinema popular que a maioria dos distribuidores quer investir. Mas sua carreira não está só aí. Esse com certeza será um filme de carreira muito longa e será usado no futuro, como referência de debate ao tema.

Sendo assim, podemos afirmar que “Cortina de Fumaça” é um filme essencial. Um filme para ser visto por pais, filhos, por mestres e alunos, por eleitores e políticos. Um filme que acima de tudo, levanta questões, faz pensar, e você leva pra casa e fica com ele durante dias. E depois de tudo isso, ele aguça ainda mais sua curiosidade a respeito do tema.

São cada vez mais raros os filmes assim, e “Cortina de Fumaça” é um desses raros filmes, que precisa ser visto pelo maior número de pessoas possível, justamente para se questionar preconceitos, amarras sociais, é um filme que precisa ser pensado

Jair Santana

“Vips”, Toniko Melo, 2011

Vip's - Cartaz

Vip's - Cartaz

“Vips”, é o filme de estreia do diretor Toniko Melo, baseado no livro de Mariana Caltabiano, “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso”, e conta a história de Marcelo Rocha, um simplório golpista, que consegue, com sua ousadia e personalidade atormentada, enganar de traficantes, policiais e a high society brasileira.

Impossível não lembrar de “Prenda-me se for Capaz” de Spielberg, com alguns golpes de Marcelo. Mas as histórias são bem diferentes e a aproximação entre os personagens de Wagner Moura e Leonardo DiCaprio param na facilidade que os dois possuíam de serem rápidos e convincentes em suas mentiras.

O Marcelo Rocha do filme é um personagem carismático e em certos momentos, até ingênuo. Quem dá vida a esse personagem é Wagner Moura, em mais um grande trabalho. Impressionante a capacidade de transformação do ator apenas com seu olhar.

Confesso que em alguns momentos iniciais senti certo exagero eufórico na interpretação do personagem, mas temos também que lembrar que o mesmo ator, o Wagner, interpreta Marcelo Rocha desde sua adolescência, e os adolescentes são inexplicavelmente, eufóricos. Mas ainda assim, ainda que coerente, chega a me incomodar.

Ao contrario do que já se falou em algumas críticas, pessoalmente acho que o personagem Marcelo Rocha, mais interessante ainda por dar golpes com certa ingenuidade. Não para simplesmente ficar rico, ou chegar a algum lugar, o mais curioso é justamente isso. Nem ele mesmo sabe onde quer chegar. Ele vive tão profundamente a mentira, que confunde a sua realidade com a do próprio personagem que cria.

Entre as virtudes do filme, que são muitas, está a fotografia de Mauro Pinheiro Jr, em mais um grande trabalho. Mauro é responsável por belas fotografias em filmes como “As Melhores Coisas do Mundo” e “A Casa de Alice” entre inúmeros outros, e aqui realiza mais uma fortografia acertadíssima. As cenas de vôo em especial são muito bem realizadas, também as sequências noturnas como a do “voo kamikaze” são ótimas, nada se perde na fotografia dele. Juntando tudo isso a boa decupagem de Toniko Melo, o filme fica visualmente encantador.

A música é outro grande acerto. Por sinal, a música é parte diegética do filme. Muito presente. Tem função fundamental no “contar a história”. O responsável pela trilha é Antônio Pinto, que na minha opinião é, juntamente com Jacques Morelembaum, os dois melhores compositores de trilhas sonoras do país.

Mas um bom filme precisa principalmente de duas coisas. Um bom roteiro e boas interpretações. E aí temos o trabalho de Bráulio Mantovani, roteirista de “Cidade de Deus” e o estreante em roteiro de longa metragem Thiago Dottori. O roteiro é claro, de fácil compreensão, sem barrigas. Conta no tempo certo o que precisa ser contato só com imagens, e pra isso usa algumas “brincadeiras” bem sutis durante o filme, e com falas quando realmente é necessário ser falado. É um roteiro bem equilibrado nesse sentido.

O elenco é encabeçado pelo ótimo Wagner Moura, mas também conta com coadjuvantes maravilhosos. O diretor e sua produtora de elenco, Cecília Homem de Melo, escalaram um elenco excepcional. Wagner Moura (Marcelo), Gisele Fróes (Sílvia) e Jorge D’Elia (o Patrão) ganharam o prêmio no Festival do Rio por suas interpretações. As premiações apenas refletem como o conjunto de todo elenco do filme funciona muito bem.

“Vips” diverte, mas é também um filme crítico sem arrogância, não crítico moralmente falando, pelo contrário, um outro acerto do filme é não julgar seu personagem. O filme é crítico a algo maior, ao comportamento da sociedade e não de uma única ação. O roteiro é cheio de metáforas e consegue equilibrar bem a ação e tensão do filme, com o humor.

A historia, claro, dramatizada para a ficção, é simples e muito envolvente. Da maneira como a historia é contada pelo diretor somado ao carisma de Wagner Moura, é impossível não se envolver e torcer pelo anti-heroi Marcelo.

O tipo de narrativa é muito fácil de se agradar o grande público. Esse fato é comprovado por “Vips” ser a melhor estreia do final de semana no país segundo dados do portal FilmeB.

Provavelmente não será o filme candidato pelo Brasil ao próximo Oscar (outros bem menos merecedores já foram), ou ainda um filme ovacionado pelo cinéfilos mais cabeças. Mas podemos afirmar sim, que “Vips” é um filme muito bem realizado, na verdade, um conjunto de boas realizações, com ótimos momentos, e com certeza será um dos grandes filmes brasileiros do ano.

Jair Santana

“Como Esquecer”, Malu Martino, 2010

Como Esquecer

Como Esquecer

“Como Esquecer”, filme de Malu Martino, adaptado do livro homônimo de Myriam Campello, é um filme mediano, que tem  de melhor, fugir do óbvio e da repetida formula do cinema realizado no Brasil.

Pra começar, o cinema brasileiro tem realizado em sua grande maioria comédias e filmes sobre pobreza e violência. “Como Esquecer” é um drama intimista sobre perdas e diferentes maneiras de se lidar com isso.

O fio condutor da historia é Julia (Ana Paula Arósio), que depois de uma relação de 10 anos, é abandonada pela namorada e passa a sofrer profundamente por esse término de sua relação. Paralelamente temos seu melhor amigo Hugo (Murilo Rosa) que, mesmo vivendo também uma situação de perda, seu namorado faleceu a pouco tempo, tenta ajudar sua amiga a superar esse momento, e também Lisa (Natália Lage) que é amiga de
Hugo e vai dividir a casa com os dois depois de ser abandonada pelo namorado ao ficar grávida.

Até aí, temos uma sequência de desgraças e pessoas amarguradas. Mas o filme não trata disso. Perdas, temos a todo tempo. Perdas, e também ganhos, que dependendo da situação, não conseguimos enxergar.

Curiosa a cena em que Lisa chora desesperada no quarto, quando Julia, sempre se achando a pessoa mais desgraçada do mundo e só olhando pra si, percebe que outras pessoas tem problemas também e também sofrem.

A historia do filme é boa, mas o roteiro peca muito ao não confiar na imagem, e exagerar na quantidade de offs, explicando a todo momento, o que só bastava a imagem para explicar. O exagero é tão grande, que em certo momento existem dois offs. Na verdade, o primeiro não poderia ser classificado como off mas funciona como um, Julia falando em cena e explicando pra ela mesma o que está fazendo, e um segundo em cima dessa explicação, como se fosse o pensamento dela.

 

 

Outro problema é mais técnico. A fotografia erra muito, e várias vezes. Apesar de uma decupagem bonita, e a opção de se manter sempre um clima mais cinzento durante o período de tristeza, a luz com sombras fortes, inclusive nas externas, chegam mesmo a incomodar. Percebe-se a artificialidade da luz muito claramente. A boa luz, você não percebe de onde vem, e as sombras não são exageradas (pelo menos nas externas) ou então justificadas.

Um ponto forte do filme são as boas interpretações. Ana Paula Arósio está muito bem no papel. Vemos ela longe do glamour que a TV sempre lhe agrega. E ela segura muito bem seu personagem, que podemos classificar como uma anti-heroina, pois ela é grosseira e nada carismática. Mas vemos seu amigo Hugo colocar em várias conversas como ela é solidária com todos, sempre tentando ajudar os outros. A diretora resolveu colocar essa outra Julia somente em histórias  contadas e em poucos momentos no vídeo de sua viagem com a antiga namorada,. Alí Julia é uma pessoa sorridente e brincalhos, e sua namorada Antônia, nunca aparece.

A opção de Antônia nunca aparecer é acertadíssima. Assim, não ficamos sabendo de um outro lado da historia, e o espectador passa a não fazer julgamentos e não se preocupar com o porque o término, mas sim, com o lidar com a situação da separação.

Problemas técnicos e algumas falhas na direção não tiram o valor do filme, em retratar sem clichês caricatos um grupo de amigos, gays e não gays, suas relações entre si e com seus amores. Afinal, o amor é algo que todos podem viver. Ana Paula Arósio em uma entrevista declarou que “ser gay, era só uma das coisas que fazia parte da vida de Julia”, e está corretíssima em sua afirmação. O filme não é sobre isso.

A música do filme de Bia Paes Leme é bem realizada. A decupagem de cenas são muito bem selecionadas e o elenco é acertadíssimo. O sol, só aparece com a virada na vida de julia. Isso é muito simbólico e colocado de maneira natural.

“Como Esquecer” é um filme atual, de facil indentifcação de jovens de 20,30 e 40 anos, que tem amigos, que vivem amores e decepções amorosas, que sairam da casa dos pais para dividir sua vida com amigos. Apesar de problemas no roteiro, em não se assumir como o cinema que é, a historia é interessante e universal. O filme não chega a ser ruim, mas é claro o potencial que tem, pra ser muito mais do que se apresenta.

Jair Santana

“Cabeça a Prêmio”, Marco Ricca, 2010

Cabeça a Prêmio

Cabeça a Prêmio

Impossível não lembrar de Alejandro González-Iñárritu quando assistismos “Cabeça a Prêmio”, primeiro longa metragem do até então ator,  Marco Ricca. E isso não é um desmerecimento, de modo algum.

Se percebe essa referência no roteiro,  sem um personagem central, que lembra os entrelaços de personagens dos roteiros de Arriaga, nos planos escolhidos por Ricca, no ambiente que decidiu filmar, inóspito, nada atraente, e também na trilha, que lembra muito, as músicas de Gustavo Santaolalla, que como Arriaga, é parceiro de Iñárritu desde de “Amores Brutos” em 2000.

A historia se passa em uma região de fronteira não muito especificada, com fazendeiros, traficantes, matadores profissionais, enfim, tudo que faz parte desse mundo que Ricca resolveu retratar.  Diferente de Arriaga, o roteiro de Felipe Braga e do próprio Marco Ricca, baseado em um livro de Marçal Aquino, é linear, criando assim uma identidade própria para o modo de se contar a história.

Além de Iñárritu, percebe-se outra forte referência de Marco Ricca. O diretor brasileiro Beto Brant, que em “Os Matadores” trabalhou um tema semelhante em região de fronteira, em roteiro também de Marçal Aquino,  e com quem Ricca trabalhou em dois filmes, “O Invasor”, considerado por muitos o melhor filmes da retomada, e “Crime Delicado”.

Historias de amor, perseguições, tensão.  Ricca consegue levar bem ao espectador o que propõe, mas ao meio do filme, parece perder o rítimo. O filme parece criar uma certa barriga e nada acontece até a filha do fazendeiro Miro (Fúlvio Stefanini), a bela jovem Elaine ( Alice Braga) e seu amtante, o piloto da fazenda Denis (Daniel Hendler),  fugirem da fazenda. Mas isso, acontece no terço final do filme.

Interessante observar, como mesmo em meio a matadores, a violências físicas e psicológicas fortes, poucas cenas de violência são realmente presenciadas pelo espectador. Que parece ser preparado a cada sequência, para algo a mais no final. E realmente somos. Tudo corre para algo meio tragédia grega. As soluções para todos os problemas, amorosos ou não,  como o próprio trailer anúncia, se resolvem com uma única sentença.

 

 

O filme é cheio de qualidades, mas diria que a maior delas é sem sombra de dúvida as interpretações. Ricca se mostra como um excelente diretor de atores. Isso tem se mostrado um ponto em comum entre os diretores que arriscam a direção como  vemos em  “A Festa da Menina Morta” de Matheus Nachtergaele, e “Feliz Natal” de Selton Melo.

Todo elenco tem seu momento, todos estão em ótimas performances, mas impossível não destacar três deles, por seus papeis. Eduardo Moscóvis como um matador introspectivo e aparentemente confuso quanto a sua profissão. Otávio Muller como Abilio, em seu melhor papel. Otávio faz um homossexual frustrado, preso com sua sexualidade em uma região que não dá essa homossexualidade como algo facilmente aceito. Otávio não é caricato, apresenta uma interpretação leve, sensível ao mesmo tempo que muito firme. Merecedor de prêmios com toda certeza. E ainda, Ana Braga, como Jussara a esposa do fazendeiro. Apesar de personagem com menor participação, o papel é denso, pesado, e ela segura com uma grande verdade. Porém todos estão, como já falado, em ótimas atuações.

O filme ainda apresenta outros muitos acertos, entre eles a música de Eduardo Queiroz, a bela fotografia de José Roberto Eliezer (de “Nina” e “O Cheiro do Ralo”) que realiza uma fotografia correta, realista, sem grandes firulas, e é também a correta e verdadeira  direção de arte de Luiz Roque.

Marco Ricca, acerta em seu primeiro trabalho como diretor. E deixa a promessa de se tornar um grande. “Cabeça a Prêmio” com toda certeza não será a maior bilheteria do ano, nem mesmo será eleito como um filme para representar o Brasil no Oscar, por não ser um filme fácil, mas entra para o hall dos melhores filmes brasileiros do ano.

Jair Santana

“Nosso Lar”, Wagner de Assis, 2010

 

Nosso Lar

Nosso Lar

O diretor, de A Cartomante, e roteirista Wagner de Assis (“Xuxa Requebra” e “Xuxa e os Duendes 1 e 2) chega com seu segundo como diretor com “Nosso Lar”. Vale ressaltar, que para o segu segundo filme, é um projeto bem corajoso, bem ousado. O filme mais caro já produzido no país até hoj, 20 milhões de reais, perde apenas para “Lula – O Filho do Brasil” orçado em 15 milhões. “Nosso Lar” é baseado no best seller de Chico Xavier, o mais famoso espírita brasileiro, e aos que acreditam, psicografado pelo espírito de André Luis, o personagem principal da trama.

O filme conta a história de André Luis, um médico no início na década de 30, que é um homem muito materialista ligado a status, posição social, que vem a falecer logo no início do filme. Então, aí sim começa sua historia. Baseado na doutrina espírita, o filme conta como é feita essa passagem, da vida para o outro lado.

A historia em sí é curiosa, o livro (que não lí) pode ser realmente bem interessante, mas o  filme tem um grave, um gravíssimo problema. O roteiro. Sem dramaturgia.  Apesar do diretor ser antes de tudo um roteirista, o filme peca por diálogos superficiais e excesso de didatismo, cheio de frases feitas, que até podem (eu disse que podem) funcionar na literatura, mas não saindo da boca de um ator.  Talvez faltasse um personagem na equipe de roteiro chamado “dialoguista”. A adaptação do livro para o cinema é pobre e mal realizada.

Somando-se ao problema de roteiro está a interpretação, ou melhor, a falta dela principalmente do elenco principal. Renato Prieto e Fernando Alves Pinto não convencem em seus papeís, talvez por falta de direção. Contudo, o roteiro já não colabora e falas não o ajudam a estar a vontade,  e com isso o filme perde muito.

E por último, pelo menos o que considero o último grande problema do filme. A edição,  careta, sem ousadias, parece apresentar o mesmo didatismo do roteiro. O intercalar o personagem principal em vida ,  e vida pós desencarnado por exemplo, nos afasta do personagem principal. Não há envolvimento, e chega a cortar o clima de boas situações

O diretor peca também na direção quando tenta explicar com off o que as imagens já estão mostrando. Algo muito comum em telenovelas. A primeira parte, no lugar identificado como umbral, o diretor insiste em nos mostrar e explicar tudo que está acontecendo. Cinema não é isso. Ou você mostra, ou você explica, fala, conta.

 

 

Mas o filme não é só problemas não. A mal escolha do elenco principal, compensou com um elenco de coadjuvantes maravilhoso. Em especial Selma Egrei, a mãe do personagem principal, temos ainda Paulo Goulart, e sub aproveitada Chica Xavier. Não entendi a opção do diretor em sub aproveitar o melhor elenco.

A direção de arte está muito boa, os efeitos visuais do filme são bons, mas não maravilhoso como muitos tem comentado. O umbral, é muito mais bem produzido que a cidade “Nosso Lar” por exemplo. Na cidade, com construções inspiradas na arquitetura de Oscar Niemeyer, você percebe certa superficialidade, e uma frieza (como Brasilia) que em alguns momentos chega a incomodar, pois alí deveria ser um lugar feliz e bom para se “viver”. Os efeitos visuais foram realizados por uma empresa canadense que realizou os efeitos de filmes como “A Fonte da Vida”e “Anjos da Noite – A Rebelião”.

O diretor peca em muitos momentos, mas percebe-se um cuidado com a decupagem do filme. Ele realmente estuda movimentos, posicionamentos mais trabalhados, e isso ajudou a fotografia de Ueli Steiger, de “10.000 A.C” a realizar um bom trabalho.

A música de Philipe Glass, o compositor americano que já compôs trilhas pra filmes como “Notas de um Escândalo”e “Sonho de Cassandra”,  não decola. Se esperou muito de sua música para esse filme, mas a trilha caiu em lugar comum, tão comum que você nem lembra dela ao sair do cinema. O que realmente foi uma pena, pois uma boa música melhoraria algumas cenas dramáticas do filme. Mesmo que não savasse, ajudaria.

Quanto a historia, não foge muito ao moralismo cristão-ocidental-conservador de sempre, mas ainda assim o filme emociona, principalmente se você tiver alguma identificação com a doutrina espírita. Não há surpresas, o roteiro é clássico, apesar de mau trabalhado. O herói começa de um jeito, e há sua transformação no decorrer da historia, e ele chega ao fim com uma nova pessoa, mais maduro, mais forte.

Não acho que como filme, seja um material realmente relevante. Mas acredito, que também como cinema nacional, tenha seu valor, que é o de levar pessoas que não estão acostumadas, a sair de casa pra assistir o filme nacional na tela grande. E só esse mérito, já deve ser congratulado. Outro seria, que há sim possibilidade de se realizar outras temáticas no cinema nacional para grande público, que não seja violência e comédias bobas.

Jair Santana

“Reflexões de um Liquidificador”, André Klotzel, 2010

Reflexões de um Liquidificador

André Klotzel, diretor paulistano, tem uma carreira com filmes de sucesso de público e crítica, e vencedor de vários prêmios, além de filmes exibidos em Cannes, Festival de Berlin, entre outros festivais pelo mundo. Apesar de uma bela carreira, ainda é um diretor de nome não tão conhecido pelo grande público. (Veja entrevista com o diretor aqui)

É diretor de filmes de sucesso como “A Marvada Carne”, filme de 1986, e “Memórias Póstumas”, de 2002. Agora, apenas oito anos depois, o diretor estreia seu novo trabalho, mais uma vez, um ótimo filme, “Reflexões de um Liquidificador“.

O filme é uma comédia de humor negro, onde uma pacata senhora, a dona Euvira, vivída com grande verdade por Ana Lúcia Torre, é uma mulher humilde, casada, e após o conserto do liquidificador, ele começa a conversar com ela. Somando-se isso, seu marido some, após uma semana ela vai na polícia, e então entra no filme o investigador de polícia Fuinha, outra ótima interpretação para o filme, do ator Aramis Trindade. Começa então a procura pela solução sobre oque aconteceu com Onofre, o marido de dona Euvira, que passa a ser a principal supeita do invertigador Fuinha.

O ótimo roteiro é de Antonio José de Souza, a direção e produção de André Klotzel. Concentrando essas duas funções, André consegue deixar o filme com um tom mais altoral. “Reflexões de um Liquidificador” é despretensioso, com ótima decupagem de cenas e com muitos acertos. O maior deles talvez esteja na seleção do elenco. Do principais personagens com Ana Lúcia Torre, em sua primeira protagonista no cinema e Selton Melo na voz do liquidificador até os personagens secundários.

Os dois dão o tom certo ao filme, além do mérito dos dois, vemos que o diretor é um ótimo diretor de elenco. Os atores coadjuvantes como Aramis Trindade, Fabiula Nascimento e Marcos Cesana (falecido em maios desse ano antes do lançamento do filme) também estão ótimos em seus personagens. O acerto de escolher bons atores, e com rostos menos televisivos, nos oferece maior verdade. Nos convence mais.

Impossível não comparar “Reflexões de um Liquidificador” com outro grande filme brasileiro, “Durval Discos” de Anna Muylaert, pela grande virada do roteiro, Ambos, saem de uma historia em um lugar comum, um universo tranquilo e pacato, para uma realidade mais absurda e inusitada. Mas suas comparações param por aí. O “Reflexões…” não é uma cópia do “Durval Discos”.

Mas os acertos não param por aí, a direção de arte e figurino por exemplo são muito bem cuidados, a fotografia idem, e oque também chama atenção a ótima música de Mário Manga. Trilha sonora por sinal é um setor que ainda temos acertado pouco, mas temos melhorado devagar e cada vez mais. Parabéns para ótima trilha do filme, meio melancólica, ao mesmo mesmo tempo muito bem humorada.

“Reflexões de um Liquidificador” é ótimo, Tem rápidos e inteligentes 80 minutos, que divertem, surpreendem e nos deixam torcendo para André Klotzel não demore mais 8 anos para nos presentear com seu próximo filme.

Jair Santana

“Dzi Croquettes”, Raphael Alvarez / Tatiana Issa, 2009

Dzi Croquettes

Dzi Croquettes

“Dzi Croquettes”, longa metragem de estreia dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, resgata a historia de um dos mais importantes grupo de teatro na década de 70 no país. O grupo, com

o mesmo nome título do filme “Dzi Croquettes”, foi um acontecimento na historia cultural do Brasil, que hoje, é muito pouco comentado, muito pouco lembrado.

Tatiana Issa acima de tudo, faz um papel importantíssimo aqui, o resgate quase que pessoal dessa história. Seu pai, trabalhou com os Dzis, ou melhor, foi um dos Dzis durante alguns anos, e Tatiana fez esse trabalho, juntamente com Raphael Alvarez, como uma grande homenagem e resgate a memória de seu pai, e do país.

Em meio da ditadura militar, cheia de tanta sensura e conservadorismo, surge no Rio de Janeiro, até então, a capital cultural do país, o grupo Dzi Croquettes. Um grupo de teatro de homens que se travestiam de mulher, para contar piadas, cantar, dançar, experimentar. Logo o grupo virou uma coqueluxe entre o meio intelectual da cidade, todos queriam assistir os Dzis, e eles se tornaram referências de toda uma geração.

Depois do Rio, partiram para São Paulo, onde também fizeram muito sucesso, e foi assim até a sensura se meter em seu trabalho. Mas depois, o grupo foi para Londres, Paris, onde também fizeram sucesso. Até quase chegar na Broadway, onde não chegaram, por que a maioria dos integrantes, preferiu voltar para o Brasil. Por saudade. Rômantico, mas real. Eles não eram homens de negócio, eram acima de tudo, artistas, simplesmente.

Nomes como Paulo Tovar, Lennie Dale e Jorge Fernando, fizeram parte dos Dzis. E depoimentos emocionados se dizem influenciados por eles, como Claudia Raia, Pedro Cardoso, Miguel Falabela, Cesar Camargo Mariano, Marília Pêra, as Frenéticas, que assumidamente dizem ter tentado ser as “Dzi Croquettes” versão feminina, e ainda um grande e emocionante depoimento de Liza Minelli, e muitos outros grandes nomes da cultura brasileira.

Narrativa construida de forma correta, Situando o espectador para a época do grupo, apresentando os principais acontecimentos históricos da época da formação dos Dzis, . Depois então a narração continua sua historia contada de forma cronológica.

O filme tem um ritimo careta. Sua montagem é careta, seu formato peca por ser mais televisivo que cinematográfico. Pouca ousadia, mas percebe-se um cuidado no trabalho. Não é pouco ousado ou “careta” por preguiça, mas talvez, por inexperiência dos diretores.

A música em alguns momentos empolga, dá vontade de dançar, em outro, ela atrapalha, passando em cima de depoimentos, ou pelo menos interferindo demais neles.

Porém, com todos os problemas técnicos, e até concetuais do filme, ele não perde o encanto, não perde o valor, vale o ingresso.

Jair Santana