“Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, Beto Brant e Renato Ciasca, 2011

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

“Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios” é o novo trabalho de Beto Brant e Renato Ciasca, com roteiro de Marçal Aquino, que trabalharam em parceria também em “O Amor Segundo B. Shianberg”.

“Eu Receberia…” indiscutivelmente é o melhor trabalho de Brant desde “O Invasor” em 2002. Entre os dois trabalhos, houve filmes que se distanciaram uma pouco tanto do público quanto da crítica, como “Cão Sem Dono” e “Crime Delicado”, e mesmo mantendo a qualidade, nada foi comparável ao maravilhoso “O Invasor”, considerado por muitos o melhor filme da retomada.

Mas parece que o “Eu Receberia…” traz de volta o vigor do cinema de Brant, que ao lado de Renato Ciasca realizam um dos trabalhos mais marcantes do ano.

Na historia é focada em Lavínia, interpretada por Camila Pitanga, que sai do Rio de Janeiro, onde vivia como prostituta, para ser a esposa do pastor Ernani (Zécarlos Machado) em uma pequena cidade no interior do Pará, que convive com conflitos de terra. Na cidade, Lavínia se envolve com um fotógrafo que acaba de chegar na região, Cauby (Gustavo Machado), e acaba vivendo uma grande e tórrida paixão, criando o triangulo amoroso que vai ser o fio condutor da historia.

O filme se utiliza de uma narração não linear, cheia de pequenas elipses temporais que podem chegar a incomodar um pouco alguns espectadores. Mas essas elipses dão um certo charme a narração, um mistério a personagem Lavínia e a toda trama. Nada é muito mastigado, obrigando o espectador a pensar mais em cada personagem.

Lavínia é uma mulher que se divide então entre a alma e o corpo. Sua alma parece pertencer ao marido Ernani. E seu corpo arde de paixão pelo amante Cauby. E Lavínia é a personificação desse conflito entre o carnal e o espiritual, religioso

Ao mesmo tempo, nem uma das historias, nem a de Lavínia e Ernani, nem a de Lavínia com Cauby exclui o amor. São relações diferentes, mas sim, em cada uma delas existe o amor, e isso fica provado na insistência e na entrega de cada um a sua musa.

Esse conflito interno da personagem é interpretado com uma entrega pela atriz Camila Pitanga que chega a impressionar. Vencedora, merecidamente, do prêmio de melhor atriz no Festival do Rio de 2011, Camila parece possuída pela personagem, que toma conta do seu corpo, seu olhar, de sua alma.

Camila é um raro tipo de atriz muito versátil. Pode tanto interpretar uma mulher comum, e esconder um pouco sua enorme beleza, como pode mostrar-se como um mulherão, uma mulher fatal, com seu rosto fino e suas belas formas. E o melhor, é que ela aprendeu a utilizar essa versatilidade como poucas.

A fotografia de Lula Araújo é correta, bons planos, boa luz, mas nunca roubando a cena, fazendo melhor, casando muito bem a boa luz natural que a região oferece nas várias externas do filme.

O roteiro de Marçal Aqui, Brant e Ciasca, é envolvente, bem contado, enxuto. Baseado no livro homônimo de Marçal, o roteiro resolve excluir a maioria dos personagens secundários para se concentrar no triangulo amoroso. Um acerto total para o filme.

Os diretores escolheram acompanhar seus personagens aproximando-os sempre do espectador. Na maioria das vezes nunca sabemos mais que os próprios personagens em cena. Os fatos são revelados ao espectador ao mesmo tempo que para os personagens.

Outro ponto forte do filme é a participação de Gero Camilo como o jornalista local Viktor Laurence, que parece um tipo de “grilo falante” do fotógrafo Cauby. Viktor é o único personagem importante fora do triangulo amoroso, e é o causador do grande estopim da trama. Viktor é um personagem delicioso, sarcástico, inteligente e dúbio. Nunca sabemos se herói ou vilão. Podemos dizer que, é um jornalista.

O lugar da trama é o interior do Pará, mas poderia ser qualquer lugar onde a lei, não depende muito da polícia, ou a ordem local simplesmente difere dos grandes centros urbanos. Na verdade, fica parecendo que o lugar é o que menos importa.

Jair Santana

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