“Melancolia”, Lars Von Trier, 2011

Melancolia

Melancolia cartaz

Difícil falar sobre “Melancolia” sem citar um pouco da obra de Lars Von Trier. Com seus personagens densos, ele é um dos mais primorosos diretores de atores que temos no cinema hoje. Afirmo isso, apontando quatro trabalhos surpreendentes de suas atrizes: Bjork em “Dançando no Escuro”, Charlotte Gainsbourg em “Anticristo”, Nicole Kidman em “Dogville” e Kirsten Dunst no seu recente “Melancolia”. Dessas, três são vencedoras do prêmio de melhor atriz em Cannes.

Em “Melancolia” ele volta a trabalhar com Charlotte Gainsbourg, e pela primeira vez com Kirsten Dunst. Conta a historia de duas irmãs Claire e Justine, Charlotte e Kirsten respectivamente.

Como feito em outros filmes seus, “Melancolia” é dividido em partes. Aqui, em prólogo e dois capítulos. “Justine” e “Clarie”. O equilíbrio, o paradoxo das duas irmãs é a grande questão do filme.

Em um primeiro momento, o casamento de Justine é o grande acontecimento. Tudo filmado lembrando muito “Festa de Família” de Thomas Vinterberg (filme do Dogma 95 do qual Lars fez parte), câmera na mão, a família levantando suas questões ao redor da mesa, a luta do ritual de um casamento perfeito, a exigência de todos pela felicidade de Justine, sem se importarem pelo que realmente está acontecendo no interior da personagem.

Justine é depressiva, e antes mesmo do casamento já dava sinal de sua depressão, está confusa quanto ao que quer, e se deixa levar pelo que pedem dela.

Vamos conhecendo os personagens, entre eles, o forte e milionário John (Kiefer Sutherland ) que foi quem pagou o casamento, sempre seguro e objetivo, o pai (John Rurt) um mulherengo despojado e desapegado, a mãe Gaby (Charlotte Rampling ) uma mulher amarga, fria e ríspida.

Em meio a tudo isso, Justine tem um noivo Jack (Stella Skarsgard) totalmente apaixonado e entregue, fazendo tudo para que ela se sinta feliz, e pedindo, mesmo que sutilmente, que seu futuro seja feliz e duradouro ao seu lado.

Tudo corre para que Justine se adapte a um modo de vida que todos acham que é o “modo feliz de ser”. Ter um marido apaixonado, e que construa uma família feliz, ter um bom emprego com uma carreira brilhante, mas nada daquilo lhe preenche realmente.

Logo, no decorrer de sua historia, ela vai se despindo de todos esses rituais e exigências que lhe fazem. Vai deixando de lado tudo que lhe prende, e se entregando a sua depressão.

Em contraponto, sua irmã Clarie, tem tudo o que se exige para ser feliz. Ela tem um marido apaixonado e rico, uma filho bonito e saudável, sua vida parece totalmente estruturada.

E nesse segundo capítulo, denominado “Clarie”, que Lars trás a ameaça do planeta que vem destruir a terra. E ameaçada, Clarie sente que pode perder tudo que tem, e isso começa a deixá-la nervosa, ansiosa e com medo.

O marido John, é seguro que nada irá acontecer de mais grave. Permanece forte, de certa forma até como grande protetor de sua família. Acredita no que diz a ciência apenas. Mas é também o que se mostra mais covarde quando a ameaça se aproxima.

O forte se revela mais frágil diante do perigo, enquanto o que até então, julgamos mais fraco, se fortalece, se entrega sem desespero ao destino que lhe é confiado. Como na cena em que Justine, deita nua a luz do planeta Melancolia, como quem se entregasse totalmente a ele. Sem medo. Sem nada a temer, nada a perder. Justine representa o lado místico, como quando fala que “apenas sabe” que estamos sozinhos no universo, e quando acabarmos, tudo acaba. Saber como? Não existe um porque, digamos, lógico.

O filme nos coloca o tempo todo entre dilemas, da ciência e do místico, nos questionando sobre a felicidade, a relação que cada um de nos tem com a vida e com a morte. Nos faz lembrar, do pontinho que somos em um universo solitário.

O roteiro também é do próprio Lars Von Trier. É um roteiro bem amarro e até careta no seu formato. Prólogo, apresentação, um desenrolar cronologicamente confortável ao espectador, divisão em capítulos dando um ar literário ao filme. Tudo claro e muito bem realizado.

Lars também tem se mostrando um diretor muito visual. Assim como em “Anticristo”, “Melancolia” tem um trabalho incrível com imagens. O seu diretor de fotografia aqui é o chileno Manuel Alberto Claro, e nunca havia trabalhado com Lars, pode partir daí uma boa parceria. A fotografia é belíssima, mesmo que venha acompanhado de muitos efeitos visuais adicionados na finalização.

A música tema do filme é de Richard Wagner, da ópera “Tristão e Isolda”, que cai perfeitamente no filme. A música é densa, forte e realmente, melancólica. Pra quem não conhece a ópera, a música realmente vai ficar com a “cara” do filme.

Muitos afirmam que o diretor é apelativo e pessimista com seu filme. Apresentando um fim do mundo sem a mínima salvação pra ninguém. Nem ao menos a tentativa.

Mas ao contrário de outros filmes de Lars, e mesmo do que podemos ver na tela, discordo quando se fala que o filme é somente trágico e negativo. Ele nos trás esperança. Não na continuação, não talvez na vida, mas trás uma esperança mais ampla, da de nos entendermos, nos aceitarmos, e aceitarmos o que nos acontece. E essa é a grande questão.

Jair Santana

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