Entrevista com Rodrigo Mac Niven

Rodrigo Mac Niven, é um diretor, digamos quase que estreante. Formado em jornalismo, Rodrigo também estudou cinema na Califórnia, e ao voltar trabalhou em várias produtoras cariocas principalmente trabalhando com vídeo-jornalismo. Seu primeiro curta é “A festa”, exibido em alguns festivais pelo país, posteriormente abriu sua própria produtora, a TVA2 Produções com a sócia e produtora executiva Mariana Genescá.

Já na TVA2, onde trabalha com publicidade, institucionais e projetos da própria produtora, realizou o média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”, exibido recentemente no canal GNT. “Cortina de Fumaça” é seu primeiro longa metragem. Produção totalmente independente, Rodrigo não esperou financiamento das leis de incentivo fiscal para realizar seu projeto. É um filme totalmente autoral, produção TVA2 Produções e J.R. Mac Niven Produções, uma segunda produtora ligada também a sua família.

“Cortina de Fumaça” é um filme polêmico, levantando um debate a política de drogas, entrevistando alguns dos mais respeitados especialistas no Brasil e no mundo. O filme que estreou no Festival Internacional do Rio em 2010, já foi convidado para seleção oficial de diversos festivais nacionais e internacionais, como Festival de Tiradentes, Festival de Cinema Brasileiro em Milão, Brazilian Film Festival of New York,Festival du Cinema Brasilien de Paris, Brazilian Film Festival of London, Cine Fest Brasil Buenos Aires e continua recebendo convites para inúmeros outros festivais.

Rodrigo está buscando caminhos para exibição do “Cortina de Fumaça” no grande circuito no Brasil, entre esses caminhos, também busca meios alternativos de exibição como parcerias com salas de cinema e mesmo mobilização via internet, e para isso brevemente criará um blog para movimentar essa mobilização, e com isso, criar meios para que consiga exibir seus filmes sem estar preso a nas “garras dos executivos burocratas” como ele classificou, e ainda com isso, abrindo caminhos parta outros diretores também exibirem seus filmes.

Costumo comparar o olhar questionador dos filmes de Rodrigo com certa proximidade com o estilo do documentarista americano Michael Moore. Sempre abordando assuntos incômodos a olhar da sociedade comum, de governos e fazendo seu público repensar seus conceitos.

Na entrevista concedia por email, Rodrigo fala mais diretamente sobre o seu processo de trabalho para se chegar ao “Cortina de Fumaça”, e avisa que já trabalha em novo projeto também autoral e continuando sua linha de trabalho, também questionador.

ENTREVISTA
JairSantana: Em primeiro lugar, algo que me chamou atenção foi a liberdade com que foi abordado o tema. O filme é totalmente independente. Não se vê lei de incentivo fiscal ou alguma grande empresa patrocinando. É um filme autoral acima de tudo. Inicialmente você chegou a pensar em captar dinheiro através de leis para produção do filme ou desde o inicio você descartou essa idéia?
RodrigoMacNiven: Confesso que pensei nisso mas rapidamente abandonei a ideia. Não vou entrar aqui na questão dos processos de incentivo que o Brasil inventou para fomentar o cinema e a produção e que acabou atravancando essa mesma produção. Fazer um filme que já está pago… esquisito. Mais esquisito ainda são os mecanismos de seleção dos temas… quem escolhe é uma mesa diretora de uma grande corporação que tem seus interesses próprios. Mas aqui não é palanque para falarmos sobre isso… mas justamente por isso e pelo tema do filme ser extremamente polêmico é que abandonei a ideia de onter qualquer “ajuda” do governo.

Jair: Como foi o processo de produção do filme para viabilizar sua realização? E há quanto tempo está trabalhando nesse projeto?
Rodrigo: O projeto demorou dois anos desde o inicio das pesquisas até a finalização e exibição no Festival de Cinema do Rio, ano passado. A viabilidade se deu muito pelo fato de eu ser sócio- diretor de uma produtora, podendo, assim, utilizar sua estrutura de câmera, edição e finalização. A produção propriamente dita foi feita por mim mesmo. Muitos emails e telefonemas…rs

Jair: É aparente no filme um trabalho de pesquisa muito grande para se chegar aos nomes que você chegou. Como foi isso? Como aconteceu a pesquisa, como se iniciou o processo para esse tema tão polêmico? O filme abre um debate muito interessante, mas como foi que você chegou até lá?
Rodrigo: O tema sempre interessou, mas eu nunca tinha mergulhado em pesquisas. Até o dia em que li uma livro chamado MACONHA, do jornalista Denis Russo, então editor especial da revista Superinteressante. Depois que li esse livro e constatei minha total ignorância sobre o assunto, tinha certeza que precisava fazer esse filme.
Aí foi um ano lendo MUITO, pesquisando, falando com pessoas… até a hora quando decidi parar de “estudar” o tema e começar a gravar.

Jair: Senti falta de uma abordagem a quem questionasse a idéia central do filme, o que seria interessante para abrir mais o debate. Isso foi proposital, houve entrevistados que ficaram de fora?
Rodrigo: A ideia sempre foi ENRIQUECER a discussão e não defender nenhum ponto de vista. Pra isso, pensei num debate de idéias. Tudo mudou quando me deparei com uma quantidade gigantesca de informações novas sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Quem já ouviu falar em sistema endocanabinóide? Que o nosso cérebro produz “sua própria maconha”? Independente da minha opinião, ou da opinião de qualquer outra pessoa, isso é ciência, não está em discussão. Ela pode avançar e mudar amanhã, mas hoje é o que já se sabe. Isso é INFORMAÇÃO. Como você pode construir um debate honesto sem saber disso? Esse é apenas um exemplo. Quase tudo que é discutido no filme é novidade. Foi novidade pra mim e certamente será para todos que assistirem. Quando percebi isso, resolvi que não haveria espaço para debate, mas sim para INFORMAÇÃO, elemento fundamental para ENRIQUECER o debate, o que sempre foi o objetivo do filme.

Jair: Não acha que o filme, apresentando opinião em um só sentido fica tendencioso?
Rodrigo: O filme não apresenta quase nenhuma opinião. Opinião é diferente de ciência, fatos baseados em pesquisas. O que se vê são informações nunca (quase nunca) antes ditas. É natural que as pessoas se choquem… como se chocaram quando o primeiro “maluco” falou que a terra não era plana, ou quando o sol é que era o centro do universo, ou quando questionou a escravidão, o direito de voto pelas mulheres, o direito dos homossexuais… a lista é grande. Hoje, a “droga” é o mal… como foram as bruxas. Caramba, o Iluminismo já foi faz tempo e tem gente ainda na escuridão.

Jair: Tem medo de ser acusado de fazer apologia? Por mais que os entrevistados sejam pesquisadores e estudiosos reconhecidos.
Rodrigo: Discutir um assunto de forma honesta, levando em consideração fatos científicos não pode ser apologia. Aliás, apologia, pra mim, é censura mascarada de “boas intenções”. Exemplo clássico do “lobo vestido de cordeiro”. Quem vai dizer o que posso ou não conversar na mesa de bar? Assim acontece nos regimes totalitários. Na raiz está a ideia de apologia, que na verdade, traduzindo honestamente, é proibir alguém de falar sobre determinado assunto. Isso, pra mim, é censura e ponto. Deixe que as pessoas “censurem” as coisas naturalmente. Isso acontece a todo momento quando escolhemos que livros iremos ler, que programas veremos na TV, etc.

Jair: O filme tem entrevistados muito importantes. Tanto nacionais como internacionais. Pensa em carreira internacional para o filme?
Rodrigo: Já está tendo. Estamos em vários festivais fora do Brasil. Vale acompanhar pelo site http://www.cortinadefumaca.com

Jair: O filme vai de frente a muita coisa que a mídia e os governos informam. Acha que pode ter uma boa carreira internacional ou encontrar mesmo que indiretamente de um dos dois lados algum tipo de censura? Você se preparou pra isso?
Rodrigo: Não acho que vai rolar censura justamente porque são entrevistados de peso, de muita credibilidade. Isso fez toda a diferença.

Jair: Falando da parte técnica do filme. Quem foi a equipe que viajou com você?
Rodrigo: Todas as gravações fora do Brasil foram feitas por mim. Fui sozinho. Trabalhei muito tempo dessa forma em produtoras e me capacitei para isso.
No Brasil, como tenho a produtora, contei com equipe maior…maior assim… 2 a 3 pessoas. rs

Jair: A fotografia é muito bem realizada. O som idem. Não identifiquei problema de som em momento algum, algo ainda um tanto comum no cinema brasileiro E algumas tomadas externas, em especial no Rio de Janeiro, e vê as favelas de uma maneira jamais mostrada. Dá para se ter uma dimensão do mundo de favelas que cercam o Rio, como eu nunca tinha visto. Elas parecem grandes ondas sobre a cidade. E a edição e finalização são suas?

Rodrigo: Edição e finalização também. Adoro editar, é onde o filme se materializa como obra completa. A finalização de cor eu fui buscar fora da minha produtora.Jair: “Cortina de Fumaça” foi selecionado para o Festival do Rio, que é o festival de maior visibilidade do país, e teve algumas exibições em São Paulo em um cinema independente. Existe distribuidor interessado ou algum contato já com distribuidora? Ou está difícil essa distribuição por causa do tema do filme?
Distribuição é complicado… estamos trabalhando nisso, buscando alternativas. Acho que o tema não é um problema, muito pelo contrário, tendo em vista o “naipe” dos entrevistados. Mas como o filme foi independente, precisamos de parceiros que percebam a potencilaidade do filme, que vem arrancado aplausos calorosos em todas as exibições nos festivais e em exibições pontuais que estamos fazendo.Jair: Como pensa nessa distribuição? Penso que esse filme é essencial para um debate aberto sobre o tema. Existe algum plano que facilite o acesso do público ao filme?
Por enquanto não. Queremos colocar no “circuito tradicional” para chamar a atenção do grande público e da mídia. Isso é fundamental para o debate do assunto.

Jair: E a comparação ao Michael Moore? Um documentarista polêmico e ousado. Como tem recebido isso? Vai manter a mesma linha em seus próximos trabalhos? Já pensa em um novo projeto?
Rodrigo: A comparação é inevitável e tomo isso como um elogio. Ele me inspirou a fazer docs assim. Confesso que não curto muito os docs contemplativos da pobreza, miséria ou loucura dos desafortunados. Prefiro fazer pensar para evoluirmos como sociedade. Sim, já iniciei outro projeto… também independente e questionador.

“Melancolia”, Lars Von Trier, 2011

Melancolia

Melancolia cartaz

Difícil falar sobre “Melancolia” sem citar um pouco da obra de Lars Von Trier. Com seus personagens densos, ele é um dos mais primorosos diretores de atores que temos no cinema hoje. Afirmo isso, apontando quatro trabalhos surpreendentes de suas atrizes: Bjork em “Dançando no Escuro”, Charlotte Gainsbourg em “Anticristo”, Nicole Kidman em “Dogville” e Kirsten Dunst no seu recente “Melancolia”. Dessas, três são vencedoras do prêmio de melhor atriz em Cannes.

Em “Melancolia” ele volta a trabalhar com Charlotte Gainsbourg, e pela primeira vez com Kirsten Dunst. Conta a historia de duas irmãs Claire e Justine, Charlotte e Kirsten respectivamente.

Como feito em outros filmes seus, “Melancolia” é dividido em partes. Aqui, em prólogo e dois capítulos. “Justine” e “Clarie”. O equilíbrio, o paradoxo das duas irmãs é a grande questão do filme.

Em um primeiro momento, o casamento de Justine é o grande acontecimento. Tudo filmado lembrando muito “Festa de Família” de Thomas Vinterberg (filme do Dogma 95 do qual Lars fez parte), câmera na mão, a família levantando suas questões ao redor da mesa, a luta do ritual de um casamento perfeito, a exigência de todos pela felicidade de Justine, sem se importarem pelo que realmente está acontecendo no interior da personagem.

Justine é depressiva, e antes mesmo do casamento já dava sinal de sua depressão, está confusa quanto ao que quer, e se deixa levar pelo que pedem dela.

Vamos conhecendo os personagens, entre eles, o forte e milionário John (Kiefer Sutherland ) que foi quem pagou o casamento, sempre seguro e objetivo, o pai (John Rurt) um mulherengo despojado e desapegado, a mãe Gaby (Charlotte Rampling ) uma mulher amarga, fria e ríspida.

Em meio a tudo isso, Justine tem um noivo Jack (Stella Skarsgard) totalmente apaixonado e entregue, fazendo tudo para que ela se sinta feliz, e pedindo, mesmo que sutilmente, que seu futuro seja feliz e duradouro ao seu lado.

Tudo corre para que Justine se adapte a um modo de vida que todos acham que é o “modo feliz de ser”. Ter um marido apaixonado, e que construa uma família feliz, ter um bom emprego com uma carreira brilhante, mas nada daquilo lhe preenche realmente.

Logo, no decorrer de sua historia, ela vai se despindo de todos esses rituais e exigências que lhe fazem. Vai deixando de lado tudo que lhe prende, e se entregando a sua depressão.

Em contraponto, sua irmã Clarie, tem tudo o que se exige para ser feliz. Ela tem um marido apaixonado e rico, uma filho bonito e saudável, sua vida parece totalmente estruturada.

E nesse segundo capítulo, denominado “Clarie”, que Lars trás a ameaça do planeta que vem destruir a terra. E ameaçada, Clarie sente que pode perder tudo que tem, e isso começa a deixá-la nervosa, ansiosa e com medo.

O marido John, é seguro que nada irá acontecer de mais grave. Permanece forte, de certa forma até como grande protetor de sua família. Acredita no que diz a ciência apenas. Mas é também o que se mostra mais covarde quando a ameaça se aproxima.

O forte se revela mais frágil diante do perigo, enquanto o que até então, julgamos mais fraco, se fortalece, se entrega sem desespero ao destino que lhe é confiado. Como na cena em que Justine, deita nua a luz do planeta Melancolia, como quem se entregasse totalmente a ele. Sem medo. Sem nada a temer, nada a perder. Justine representa o lado místico, como quando fala que “apenas sabe” que estamos sozinhos no universo, e quando acabarmos, tudo acaba. Saber como? Não existe um porque, digamos, lógico.

O filme nos coloca o tempo todo entre dilemas, da ciência e do místico, nos questionando sobre a felicidade, a relação que cada um de nos tem com a vida e com a morte. Nos faz lembrar, do pontinho que somos em um universo solitário.

O roteiro também é do próprio Lars Von Trier. É um roteiro bem amarro e até careta no seu formato. Prólogo, apresentação, um desenrolar cronologicamente confortável ao espectador, divisão em capítulos dando um ar literário ao filme. Tudo claro e muito bem realizado.

Lars também tem se mostrando um diretor muito visual. Assim como em “Anticristo”, “Melancolia” tem um trabalho incrível com imagens. O seu diretor de fotografia aqui é o chileno Manuel Alberto Claro, e nunca havia trabalhado com Lars, pode partir daí uma boa parceria. A fotografia é belíssima, mesmo que venha acompanhado de muitos efeitos visuais adicionados na finalização.

A música tema do filme é de Richard Wagner, da ópera “Tristão e Isolda”, que cai perfeitamente no filme. A música é densa, forte e realmente, melancólica. Pra quem não conhece a ópera, a música realmente vai ficar com a “cara” do filme.

Muitos afirmam que o diretor é apelativo e pessimista com seu filme. Apresentando um fim do mundo sem a mínima salvação pra ninguém. Nem ao menos a tentativa.

Mas ao contrário de outros filmes de Lars, e mesmo do que podemos ver na tela, discordo quando se fala que o filme é somente trágico e negativo. Ele nos trás esperança. Não na continuação, não talvez na vida, mas trás uma esperança mais ampla, da de nos entendermos, nos aceitarmos, e aceitarmos o que nos acontece. E essa é a grande questão.

Jair Santana