“A Época da Inocência” – Elmer Bernstein

Filme:“A Época da Inocência”
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 1993
Música: Van Der Luydens
Composição: Elmer Bernstein
Trilha Sonora do Filme: Elmer Bernstein

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“Copacabana”, Marc Fitoussi, 2010

"Copacabana" Cartaz

Apesar do nome, no filme francês “Copacabana”, não se verá uma cena sequer da praia e nem mesmo de qualquer parte do Brasil. E apesar disso, o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, se fez muito presente em todo filme. Seja na trilha sonora toda composta de músicas brasileiras, seja no sonho da personagem principal de conhecer o Brasil.

“Copacabana” é sexto filme de Marc Fitoussi, diretor francês que com esse trabalho, conseguiu sua maior projeção de público e crítica, participando da Semana da Critica do Festival de Cannes e na mostra Panorama Mundial do Festival do Rio.

O roteiro conta a historia de Babou (Isabelle Ruppert), uma mulher, digamos fora do comum. Sem emprego fixo, espontânea, alegre e solteira, Babbou leva uma vida fora dos padrões convencionais. É mãe de Esmeral (Lolita Chammah), que é totalmente avesso e contra o comportamento da mãe. Por esse motivo, Esmeralda não a convida para seu casamento, com medo que ela a embarace na frente de todos.

O filme poderia se concentrar, para o bem ou para o mal, somente nessa relação mãe e filha, mas vai para outro lado. Tenta captar o passo a passo na vida de Babbou. E o espectador passa a se apaixonar por esse personagem, digamos, “louquinho”. E essa relação mãe e filha, é apenas parte de sua historia.

Babbou tem o grande sonho de conhecer o Brasil, “Adoro a música brasileira. Esse país sempre me fascinou” afirma ela em determinado momento. Seu objetivo é guardar dinheiro para realização desse sonho. Ela consegue um emprego como vendedora de apartamentos “time-sharing” em Ostende, uma espécie de balneário da Bélgica, e se muda pra lá.

Curioso observar, as tomadas aéreas naquela cinzenta praia, ao som de músicas brasileiras, como samba e MPB, como se fossem as praias cariocas, como Copacabana por exemplo.

A câmera cola em Babbou. Em mais de 90% do filme, Isabele Huppert está presente em frente as câmeras interpretando a deliciosa Babbou. Estabanada, avessa a obedecer normas, o que lhe causa problemas no trabalho, e também a relacionamentos mais sérios. Ela é até certo ponto, ingênua, mesmo quando magoa seu parceiro por exemplo, é impossível ficar com raiva de Babbou.

O Brasil do sonho da personagem é o Brasil do imaginário gringo. É o país da bossa nova e do samba que estão presentes na trilha sonora. Sempre alegre, o Brasil das mulatas, dos amantes latinos. É o Brasil que não existe, ou melhor, que existe somente nos sonhos. Por isso mesmo, muito bem usado, a imagem do país não sai do cartão postal.

No final do filme, Babbou tem contato com um grupo de samba brasileiro, cheio de mulatas, penas, e pouca roupa, que vai se apresentar na festa de casamento da filha.

Como grande parte dos gringos, Babbou se encanta e dança desengonçadamente entre os sambistas e mulatas. É o ápice desse Brasil “exótico” presente na cabeça dos gringos

O que poderia ser perigoso, o fato de ter a personagem em quase todas as cenas do filme, acaba por se tornar uma das melhores coisas e “Copacabana”. Isabelle Huppert está mais uma vez maravilhosamente bem. Leve, a vontade, Babbou é bem diferente da maioria de seus personagens. Huppert é ganhadora de 2 prêmios de melhor atriz em Cannes e tem recorde de indicação ao Cesar, o maior prêmio do cinema francês.

A curiosidade aqui fica por conta de Isabelle contracenar com Lollita Chammah, mãe e filha na ficção, são mãe e filha na vida real. Essa foi a primeira vez que as duas trabalham juntas.

A fotografia é da experiente fotógrafa Hélène Louvart, que recentemente trabalhou com Win Wenders em “Pina”. Em “Copacabana” a fotografia é comportada, sem grandes firulas, sem grandes momentos. Correta, mas comportada. Sinto falta de uma certa ousadia, ou mesmo planos mais trabalhados.

A trilha sonora é composta somente de músicas brasileira, que vai de “Canto de Ossanha” interpretado por Astrud Gilberto, passando por “Partido Alto” do Chico Buarque, e também o som de Jorge Ben ou de Marcos Valle. É delicioso e curioso ouvir essas músicas totalmente atreladas ao cinema francês.

“Copacabana” é uma comédia divertida, com uma pitada de drama, mas acima de tudo uma comédia. Serve para repensarmos conceitos de vida, conceitos de felicidade e nos questionarmos quanto ao temos como “correto”. Babbou foge disso, vai contra todos os padrões, e mesmo assim, consegue a sua maneira ser uma mulher feliz.

Jair Santana

“Potiche – A Mulher Troféu”, Philippe Rombi, 2010

Filme: “Potiche – A Mulher Troféu”
Diretor: François Ozon
Ano: 2010
Música: Potiche Theme
Composição: Philippe Rombi
Trilha Sonora do Filme: Philippe Rombi

 

“Laços”, Flávia Lacerda, 2008

O curta metragem “Laços” foi vencedor do concurso internacional “Project Direct” do Youtube, e como prêmio, a diretora ganhou US$ 5.000 e participou do Festival de Sundance em 2008, o principal festival de cinema independente nos Estados Unidos.

“Laços” surgiu do interesse dos amigos Clarice Falcão e Célio Porto no concurso. Clarice é  filha da roteirista Adriana e do dirfetor da TV Globo João Falcão.

Clarice pediu à mãe que escrevesse um roteiro e ela e Célio chamaram Flávia Lacerda, que já tinha sido assistente de direção de João Falcão, e Felipe Reinheimer fez a fotografia.

Participam como atores Clarice, Célio Porto e Jô Abdu. A música foi composta especialmente por Clarice, e o arranjo foi feito por Ricco Viana, que é responsável por toda a trilha.

Com duração de 6 minutos e 43 segundos, “Laços” conta a história do encontro entre uma garota cujo pai acabou de morrer e um garoto misterioso, na rua. Utilizando uma câmera AG-DVX100, as filmagens duraram um dia e foram realizadas no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. A produção custou R$ 1.500, gastos principalmente na parte de edição e alimentação da equipe.

Adriana Falcão ficou surpresa com a vitória. principalmente porque, entre os outros 19 finalistas (o curta venceu produções dos EUA, que ficaram com os segundo e terceiro lugares, Canadá, Espanha, Itália, França e Reino Unido), a maioria tinha uma qualidade técnica maior e foi filmada em película, em vez de em formato digital. “Quando vi os outros filmes, senti um profissionalismo muito maior”,  diz ela.

Filme: Laços
Direção: Flávia Lacerda
Roteiro: Adriana Falcão
Fotografia e Câmera: Felipe Reinheimer
Téc. de Som: Aloysio Compasso
Edição: Rodrigo Lima
Trilha Sonora: Ricco Viana
Música: “Australia”, composição e voz Clarice Falcão
Produtores: Adriana Falcão, Felipe Reinheimer, Clarice Falcão, Célio Porto e Jô Abdu
Elenco: Clarice Falcão, Célio Porto e Jô Abdu

“Reencontrando a Felicidade”, John Cameron Mitchel, 2011

Reencontrando a Felicidade

Reencontrando a Felicidade

“Reencontrando a Felicidade” é o terceiro longa do já cultuado diretor John Cameron Mitchell. Seus primeiros trabalhos, “Hedwig”“Shortbus”, são bem diferentes e mais, digamos, undergrounds que “Reencontrando a Felicidade”.

O roteiro é de David Lindsay-Abaire, baseado em roteiro de sua própria peça, vencedora de vários prêmios na Broadway, incluindo o de Cynthia Nixon (a Miranda de Sex and the City 2), que ganhou um prêmio Tony, espécie de Oscar do teatro americano, por seu papel de mãe em luto, personagem de Kidman no filme, que pelo personagem concorreu ao Oscar.

Basicamente, “Reencontrando a Felicidade” é um filme sobre perdas. Talvez, a pior delas que a perda de um filho. Porém, diferente do que se pode imaginar de um filme com essa temática, o filho não faz parte fisicamente do filme. Não temos contato diretamente com ele, pois a historia começa após oito meses a morte de Danny, o filho casal Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), que até então, levavam uma vida que se pode chamar de “perfeita”.

O mergulho no drama dos dois é apresentado lentamente, Danny quase não é apresentado fisicamente ao espectador, exceto em uma cena que não dura mais que alguns poucos segundos em um vídeo de Howie, talvez para fechar ao espectador, a real existência de Danny na vida dos dois. Essa presença é percebida principalmente pelo quarto, pelos desenhos, brinquedos, roupas, em cada detalhe da casa, da vida cotidiana dos dois.

A grande diferença do modo de lidar com essa perda é que o foco principal do filme. Trabalhar essa ausência ou simplesmente tentar apagar as lembranças? É possível apagar?

Enquanto Becca tenta apagar tudo que remeta ao filho e a época feliz que eles viveram e que não voltará mais, Howiw tenta lembrar com carinho e lidar com a perda tentando voltar a sua vida normal.

Pela historia, o filme teria tudo para ser um grande melodrama, cheio de clichês piegas e manipuladores. Mas não, “Reencontrando a Felicidade” vai em caminho contrário a isso. Justamente esse ponto torna o filme mais interessante que a grande maioria sobre o assunto.

Porém isso não torna o filme menos denso e menos triste. Mesmo sem ver a criança, nos envolvemos com o drama do casal, a historia vai sendo apresentada devagar, e na mesma velocidade vamos nos envolvendo, e cada vez mais vamos conhecendo os fatos.

Interessante em certo momento observar, a ida de Becca ao antigo emprego, que abandonou quando perdeu o filho. Após oito meses as coisas mudaram. Alguns colegas não estão mais por lá, outros foram promovidos, ou seja, as coisas continuaram, a vida continuou, ao contrário da personagem que ficou congelada, parada desde então.

A produção do filme é da própria Nikole Kidman, por se interessar na historia, sem mesmo chegar a assistir a peça na Broadway. Marcou um encontro com David Lindsay e seu produtor para comprar os direitos da peça. Esse interesse pelo papel foi muito feliz. Nicole concorreu ao Oscar, Globo de Ouro e vários outros prêmios pelo mundo. É o melhor personagem de Nicole desde Grace de “Dogville”.

Outro destaque no filme é a participação da experiente atriz Diane Wiest como Nat, mãe de Becca. A personagem passou por um problema parecido, e perdeu um filho, por outro motivo. Diane só não chega a roubar a cena porque Nicole está igualmente bem no papel. Diane também concorreu a vários prêmios. Esse é mais um grande personagem dessa talentosa atriz. Seus momentos no filme são fortes e fundamentais.

A direção de Mitchel veio a partir de uma historia pessoal sua, pois aos 14 anos Mitchel perdeu um irmão de apenas 10 anos, e sua família não conseguiu superar completamente esse perda até hoje. Talvez daí a delicadeza e a sensibilidade no tratamento do tema.

A fotografia de Frank G. DeMarco também é um ponto positivo no filme. Predomina o ocre, o sépia, principalmente em cenas na casa, como em fotos antigas, remetendo sempre a lembranças, ao passado. Frank já havia trabalhado antes com Mitchel em “Shortbus”.

A música de Anton Sanko é de grande sensibilidade, melancólica mas não demasiadamente triste. Anton equilibra bem cordas e o suave toque do piano para demonstrar o atual cotidiano arrastado do casal. A trilha sonora é um ponto forte do filme.

“Reencontrando a Felicidade”, é mais um acerto na carreira de John Cameron Mitchell, mais um acerto na carreira de Nicole Kidman e todos os envolvidos. Um filme belo, atemporal, de sensível, que não teve a repercussão que merecia, que não teve o público que merecia, mas que como todo bom filme, pode ser descoberto e redescoberto por qualquer um a qualquer tempo.

Jair Santana

“Ricky”, François Ozon, 2009

Cartaz de "Ricky"

Cartaz de "Ricky"

A principal afirmação que podemos fazer sobre “Ricky”, filme do diretor francês François Ozon, é que é, apesar do tom realista, o filme não passa de uma grande e bonita fábula.

Algo cabe ao espectador nesse filme. Estar livre, estar de peito aberto ao que o diretor lhe propões, e a partir daí, mergulhar no filme. Podemos dizer, que é difícil até, classificar o filme em algum gênero se o quisermos fazer.

A clima do filme é de extremo naturalismo. Ainda no prólogo do filme, Kate chora copiosamente para assistente social, falando que não consegue criar o filho, pois ele chora demasiadamente. Então voltamos alguns meses antes, para conhecermos a história.

Kate é uma mãe solteira, cria sua filha Lisa sozinha, mas já na primeira cena, percebemos que a há uma inversão de responsabilidades. Lisa, apesar de pouca idade, aproximadamente 7 ou 8 anos, é quem acorda a mãe para o trabalho, faz o café da manhã, como se a dona da casa realmente fosse Lisa.

Kate trabalha em uma fábrica, tem uma vida medíocre, sem perspectivas. Conhece Paco, quando esse começa a trabalhar na fábrica também. Os dois tem um envolvimento impulsivo, e logo Kate engravida.

O filho de Paco e Kate é Ricky. A criança é o motivo da virada de 180° que o filme dá. Como é motivo de virada na vida daquela familia. Mas aqui, Ricky é uma criança mais que especial. Ricky vai colocar em jogo a confiança da família, a união familiar, e mais que colocar em jogo, vai ser também o grande motivo de aproximação desse núcleo familiar.

Essa virada do filme pode causar estranhamento em alguns espectadores. Ozon passeia entre momentos engraçados e sequências mais fortes e emocionantes, como quando Lisa espera pela mãe sozinha até a noite em frente a escola.

Paco entra rapidamente na vida de Kate e Lisa. Com a chegada de Ricky as coisas ficam mais difíceis, por causa do horário de trabalho, o pouco dinheiro. Algumas marcas roxas em Ricky fazem com que Kate questione Paco sobre seu comportamento quando ele está sozinho com o filho. Paco não suporta a desconfiança e sai de casa.

Kate e Lisa passam sozinhas a cuidar de Ricky, Lisa começa a ter ciúmes de toda atenção, que inclusive é exigida com que ela dê a Ricky, e com isso, novos situações vão surgindo, novas tensões familiares aparecem, inclusive a tentativa de retorno de Paco.

Algumas situações são colocadas, mas sem que seja dada muito importância a elas, como a reação da sociedade a anomalia de Ricky. E isso não é o mais importante. Como a sociedade se comporta é o que menos importa. O importante ali, é como a família se comporta. O retorno de Kate a sua função de mãe por exemplo.

A cena de Kate no lago, lembra uma espécie de batismo, de renascimento dessa família, que passa a se reestrutura como uma família a partir dalí.

“Ricky” é um convite ousado que Ozon faz a seu público, que precisa estar aberto a proposta do filme. Um convite inusitado e gostoso. Pois “Ricky” é um filme diferente, inteligente, com tons de um humor sutil, uma outra característica de Ozon, mas ao mesmo tempo uma forte carga dramática existente o tempo todo no filme.

Jair Santana