“A Minha Versão do Amor”, Richard J. Lewis, 2010

A Minha Versão do Amor

A Minha Versão do Amor

O filme “A Minha Versão do Amor” não é mais uma comédia romântica caça níquel como o bobo título sugere. Título horroroso por sinal. Prefira o original, “Barney’s Version”. O filme aqui exige mais do espectador que a maioria enquadrada nesse gênero. Gênero esse que a distribuidora por aqui quis assumir pra atrair mais público.

Dirigido por Richard J. Lewis, conhecido diretor de seriados de televisão como CSI , “A Minha Versão do Amor” conta a historia de Barney Panofsky (Paul Giamatti), um total anti-heroi, fanfarrão, passional, arrogante, ácido, além de sortudo e chato.Ou seja, um personagem mais comum e real que a maioria que o cinema nos apresenta.

Sua historia é contada a partir das recordações de Barney, que está por votla de seus 60 anos. Apresentando em seu roteiro elipses temporais, conseguindo com isso, dar uma enxugada ao que realmente interessa. Sendo assim, o pouco mais de 2 horas do filme passam sem cansar o espectador.

Barney é fiel aos amigos mais que as suas esposas. Elas, as esposas, durante sua vida foram três. Cada uma por um motivo diferente, e somente uma delas por amor. Amor incondicional, mas cheio de falhas, como o bom ser humano que Barney é.

Sua historia de vida passa entre a comédia e o drama. Cheia de erros e acertos pessoais e morais, e isso torna o roteiro de Michael Konyves, baseado no Best seller canadense “Barney’s Version” do escritor Mordecai Richler, genial. Torna o personagem mais próximo do que podemos chamar de “humano”.

Esse é realmente o forte do roteiro, a humanidade do personagem. O fato do filme estar entre o drama e a comédia, e manter esse equilíbrio de forma inteligente e eficaz o enriquece ainda mais. Sobre tudo isso, uma pitada de suspense e policial, com a investigação de um assassinado com Barney como principal suspeito. Não, o filme não se torna confuso, pelo contrário, são informações que só acrescentam a personalidade de Barney.

Ótimos e rápidos diálogos, aparentemente comuns, em especial de Barney com seu pai Izzy, com os quais, o espectador pode se identificar inúmeras vezes, tanto de um lado (do Barney) quanto do outro. O “lugar comum” aqui é muito bem trabalhado.

O roteiro é o que poderíamos classificar como verborrágico, porém nunca se fala mais que o necessário. Há o ponto certo entre o que a imagem deve falar, e a palavra. Pode-se identificar um pouco de Woody Allen na referência do roteiro e até do próprio personagem com suas paranóias.

Ora odioso, ora apaixonante, quem dá vida a Barney Panofsky, é o extraordinário ator Paul Giamatti, vencedor do Globo de Ouro por esse papel, Giamatti é um ator de formação refinada, mestre em artes dramáticas na Universidade de Yale nos EUA, e agora parece que realmente chegou sua vez em Hollywood. Os olhares, o tom certo da ironia, o sarcasmo, a paixão com que se entrega Giamatti aqui, surpreende. Soma-se a Giamatti as aparições de Dustin Hoffman, (Izzy Panofsky, pai de Barney) e também Rosamund Pike, como sua esposa Miriam.

Quem vai assistir esperando uma “historia de amor” com o clichê do final feliz pode se decepcionar, ou não (como diria Caetano). O filme é seguro e coerente com a historia de seu personagem. Com momentos fortes e tocantes, e acima de tudo, momentos humanos, que se aproximam do que podemos chamar de real.

Barney é um ser passional e apaixonado, cheio de vulnerabilidades, e isso lhe causa uma série de problemas na sua vida. Falar somente da história aqui é muito difícil, pois sua imagem é muito importante e curiosa. Não há como separar o personagem do “fio” da historia. Nesse caso aqui, não é o destino que chama que o chama para historia, é justamente o contrário, Barney chama o destino pra ele.

Curioso como o roteiro nos coloca em uma situação onde é difícil de julgar suas atitudes quando conhecemos sua historia de vida. Mas facilmente “julgável” quando escolhemos algumas de suas ações isoladamente. Mais uma vez, como na vida real, não se pode ser muito pragmáticos nos julgamentos.

Outro bom acerto do filme é a música de Pasquale Catalano, compositor italiano responsável por trilhas sonoras de filmes como “O Primeiro que Disse” e “As Consequências do Amor”. Catalano realiza uma trilha emocionante, mas não melancólica, casando perfeitamente com o clima oferecido pelo filme.

A fotografia de Guy Dufaux (de “Invasões Bárbaras” e “A Era da Inocência”) é correta. Porém, vejo aqui que o roteiro, cheio de elipses, realizado em dois tempos diferentes, pudessem oferecer uma liberdade maior para se brincar com a luz, com a cartela de cores. Senti um pouco de falta disso.

Uma ótima frase pra se sintetizar a vida de Barney Panofsky está no filme, “A vida real, ela é feita de pequenas coisas… minutos, horas, tarefas, rotinas e isso tem que bastar”. A partir dessa frase, cabe ao espectador analisar e se questionar sobre o que é o “final feliz” na vida do personagem. Se é que o “final feliz” é o que realmente importa.

Jair Santana

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