Entrevista com Toniko Melo

Toniko Melo

Toniko Melo começou a carreira na produtora Olhar Eletrônico, onde atuou como diretor, câmera e montador de programas para a televisão, documentários e videoclipes de artistas consagrados como Legião Urbana, Blitz e Caetano Veloso. Em  89 passou a atuar como diretor de filmes publicitários e, em 93, começou a trabalhar na produtora O2 Filmes. Como diretor de publicidade, já recebeu prêmios importantes, alguns deles em premiações internacionais como o festival Ojo de America, em Buenos Aires, e o Festival de Cannes de Publicidade. Em 2008 dirigiu episódios da série “Som & Fúria” para TV Globo, com produção da O2 Filmes e direção geral de Fernando Meirelles. “Vips”, seu primeiro longa-metragem, foi vencedor de quatro troféus no Festival do Rio de 2010, entre ele o de melhor filme do festival.
Apaixonado por cinema como costuma se identificar, tem como alguns de seus diretores preferidos Terence Malick e Paul Thomas Anderson. Identifica que o  cinema brasileiro está vivendo um ótimo momento, “A cinematografia brasileira amadureceu, tomou coragem, criou cumplicidade com o público”, afirmou em conversa com o site “Cinema com Rapadura”.
Entrei em contato com o diretor para conversarmos um pouco sobre seu filme, “VIPs”, e também para conhecer um pouco mais de sua história, sua carreira, a  do filme, os projetos que estão por vir . O diretor também comentou  sobre o sistema de produção de cinema no Brasil,  e como muitos outros diretores brasileiros, colocou em cheque a atual forma dessa produção.

Jair: Antes de mais nada eu queria conhecer o diretor Toniko Melo. Esse é seu primeiro longa metragem, e chega com grande força no cinema. Em vários sentidos, com uma equipe forte, com boa publicidade, e como cinema forte propriamente dito. Essa é sua primeira experiência com cinema? Já dirigiu curtas ou trabalhou em outras áreas do cinema? Li que dirigiu capítulos da série “Som e Fúria” é isso? Sei que você vem da publicidade, mas qual sua relação com cinema até antes do filme?

Toniko Melo: Comecei a apaixonar por cinema quando fui expulso da escola em 1973 e fiquei por 6 meses vendo filmes na Tv da sessão da tarde até o fim da sessão coruja. rs
Mas também sou filho de pais muito cultos. Minha família era de editores e escritores. Por causa do meu tio José Olympio, que deu nome a uma das editoras mais importantes desse pais, era comum receber para almoçar na casa dos meus pais escritores como Guimarães Rosa, ver meu pai de papo no telefone com o Sergio Buarque de Holanda, Helio Silva etc. Eu até podia escrever cartas para o Carlos Drumond de Andrade.
De lá para cá, passei filmes de surf, fiz super 8 e estudei: estudei muito! Quando o, também iniciante, Fernando Meirelles me convidou para ajuda-lo a fazer seu 1º documentário “Garotos do Subúrbio”, em 1982, entrei no mundo intelectual e profissional do Cinema, ao mesmo tempo. E é onde estou até hoje. Fiz mais de 30 documentários antes de começar a fazer publicidade nos anos 90, onde, depois que comecei, fiz uma ótima carreira, tanto que ganhei 7 vezes o Premio Profissionais do Ano da Rede Globo, entre outros.

Jair: “Visp’s” é baseado no livro da Mariana Caltabiano que é sobre a historia do Marcelo Nascimento da Rocha e seus golpes. Mas nem tudo do filme é a história do Marcelo. Claro, existe a dramatização, mas foram criadas muitas histórias irreais pra se construir o personagem. Essa mistura, do que aconteceu, com algo muito fora da realidade do Marcelo, e ainda assim, continuar usando o nome dele não pode prejudicar a credibilidade do livro ou o próprio filme, já que os dois são “vendidos” como a história do famoso farsante?

Toniko Melo: Fique atento: no filme o personagem que o Wagner faz se chama apenas Marcelo da Rocha (um único sobrenome). E o livro nasceu depois do filme ter sido pensado como tal. Além disso, quem tenta “vender” a história do farsante que está preso, como sendo a do filme não somos nós: muito pelo contrário! O tempo todo tento proteger a imagem da família do Marcelo verdadeiro e a dele também. “VIPs – Quem Você Quer Que Ele Seja?” é uma obra de ficção: está por escrito nos créditos do filme. Só não vê, quem não quer ver.

Jair: O filme é tenso, tem muita ação, ao mesmo tempo é bem humorado, e mantêm certa leveza. O personagem Marcelo é um anti-heroi carismático e o filme não faz um juízo moral do personagem. Como foi essa escolha de contar a historia de um homem que está preso hoje (como falei o nome dele foi usado), e fazer ele um querido do publico. Torcemos por ele, rimos com ele, até de suas mentiras, inclusive pra polícia.

Toniko Melo: Só há essa cumplicidade com o personagem do filme porque não estamos contando a história do Marcelo que está preso. É uma ficção, onde controlamos o que queríamos contar.

Jair: Algo que me chamou atenção foi a escolha do elenco. Temos Wagner Moura, que é um excelente ator e de grande apelo popular. Mas ao redor, temos excelentes atores, como a maravilhosa Arieta Corrêa, vencedora de inúmeros prêmios Shell, ainda Gisele Fróes e até mesmo o argentino Jorge D’Elia, que são ótimos, mas sem esse apelo comercial que Wagner possui. Como foi essa escolha? Isso funciona bem no filme porque todos eles estão no mesmo nível de interpretação. Mas essa escolha, foi para os olhares ficarem mais para a historia central que é conduzida por Wagner, pra não pesar em escolhas de “caras conhecidas”, enfim, teve algum motivo especial?

Toniko Melo: Cuido do casting não com olhares “comerciais”, mas sim com o potencial de cada ator ou atriz para desempenhar determinado personagem. Por isso os testes demoraram 8 meses! Os prêmios do Fest Rio para dois dos atores coadjuvantes, provam que eu estava certo.

 

Jair: Além do elenco, uma parte pouco conhecida do grande público também é de se chamar atenção. A equipe do filme é de primeiríssima linha. Nomes como Bráulio Montovani, Mauro Pinheiro Jr, Cecília Homem de Melo, Antonio Pinto, nomes do primeiro escalão do cinema brasileiro. Como foi para reunir essa equipe em seu primeiro filme? Foi muito difícil? Claro teve Fernando Meirelles como produtor, e isso ajuda muito, mas ainda assim queria que você comentasse sobre isso. Até mesmo porque, com essa equipe, o elenco, e o filme em si, parece visualmente caro também.

Toniko Melo: Todos são amigos de longa data. Apenas escolhi os mais talentosos e que tinham agenda para aquele momento. Haviam outros que estavam fazendo grandes filmes. Sou muito feliz por isso.

Jair: A carreira do filme está apenas começando. Já é o grande vencedor do Festival do Rio que talvez seja a maior vitrine do cinema nacional. Como está a carreira do filme também fora do país? Pensam em trabalhar isso de maneira mais forte?

Toniko Melo: Gostaria muito que o filme fosse exibido em circuito comercial na Argentina, pois admiro muito a cinematografia que vem sendo feita lá há muitos anos. E gostaria muito que o Festival de Cannes ouvisse o Walter Salles, quando ele disse que “O VIPs é uma obra única na Cinematografia brasileira.”

Jair: Toniko, esse foi só o primeiro filme. E já alcançou um grande sucesso, de público e de grande parte dos críticos. Está trabalhando nele a quantos anos? Já tem outro projeto engatilhado? O sucesso desse filme, já ajudou em algum ponto a agilizar o próximo?

Toniko Melo: VIPs completa 9 anos agora em março. É uma loucura. Falta muito para poder se dizer que ele é um sucesso de público: fez apenas cerca de 150 mil pessoas até esse exato momento. Para um filme que custou 7 milhões de reais de dinheiro “bom”, isso ainda é muito pouco. Infelizmente, não me deram o direito de participar dos direitos autorais do meu próprio filme, por isso torço apenas que a história que eu quis contar crie uma cumplicidade importante com o maior número de pessoas do meu pais.
Tenho 3 bons projetos para realizar, mas não tenho, até agora, nenhuma produtora com “vaga” para mim, pois estão todas no limite máximo da ANCINE. Para o atual modelo de produção de cinema, para um diretor como eu, o Brasil se tornou um lugar onde ou você é dono de uma produtora, ou você é obrigado a buscar países onde um diretor tem seu ganha pão no patamar de algo digno e, principalmente, onde os seus direitos autorais sejam respeitados.

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2 Respostas

  1. Preciso fazer uma entrevista com Toniko Melo . Como encontrá-lo ?
    Ana Elizabeth Martini (psicanalista)

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