“Cortina de Fumaça”, Rodrigo Mac Niven, 2010

Cartaz "Cortina de Fumaça"

“Cortina de Fumaça” é o primeiro longa documentário do diretor Rodrigo Mac Niven, produzido na produtora carioca TVA2, antes porém, também com produção da TVA2, já havia dirigido o documentário média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”,  que está sendo exibido na GNT.

Rodrigo é jornalista, diretor de curtas e publicidade, além de fotógrafo, editor e finalizador de vídeos. Em seu primeiro documentário, selecionado para Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro em 2010, Rodrigo foi acima de tudo ousado. Trabalhou um assunto aparentemente batido, porém, por uma nova perspectiva, com um novo olhar, levantando questões, alfinetando moralismos e preconceitos.

O filme “Cortina de Fumaça” é assim. Um tapa em velhos conceitos. O documentário analisa a política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição de determinadas práticas relacionadas a algumas substâncias, e a partir daí, vai em busca de cientistas, médicos, políticos, antropólogos, enfim, de alguns dos maiores estudiosos sobre o assunto no mundo.

A liberdade vista no filme é talvez seu maior atributo, e aí talvez tenha um ponto determinante. O filme é acima de tudo autoral. Um projeto pessoal, como ele mesmo coloca em sua narração em off no inicio do filme, e outra, foi totalmente independente, sem lei de incentivo fiscal, sem nem uma grande empresa patrocinadora por trás, esse é um projeto de diretor, realizado pela TVA2, produtora a qual é sócio e pela J.R. Mac Niven Produções, empresa ligada também a sua família.

Dificilmente um filme, com essa liberdade de opinião teria apoio governamental e mesmo de grandes empresas.Lembramos que, até o filme “Cheiro do Ralo” de Heitor Dhalia, mesmo contando com o popular ator Selton Melo no elenco, teve problema em conseguir patrocínio em função da temática do filme, que trazia um “anti-herói”, bem distante do que qualquer empresa quer envolver seu nome.

Voltando ao “Cortina de Fumaça”, além da visível liberdade, percebe-se um excelente trabalho de pesquisa. Observamos isso, pela ótima seleção de entrevistados. Entre esses 34 entrevistados, estão o ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva, o criminalista Nilo Batista entre inúmeros outros grandes nomes.

Estaremos diante do Michael Moore brasileiro? Bom, acredito que se o diretor americano assistir ao filme vai com certeza ter certa identificação com o diretor brasileiro. Pelo tema, e por sua busca de uma verdade em que acredita. Porém, temos uma diferença, e até apontaria como uma falta do filme brasileiro. A entrevista de opiniões diversificadas. Claro, devemos partir da premissa, que toda obra tem uma opinião a apresentar, que nem uma é neutra. Mas, é importante levantarmos questões, e termos os dois lados no mesmo trabalho.

Acaba que de certa forma, o filme se torna tendencioso ao olhar do espectador, mesmo que as entrevistas, contem com opiniões de pessoas sérias dos mais diversos setores da sociedade.Ao mesmo tempo, podemos então colocar uma segunda questão. Essa segunda opinião que falta ao filme, é a opinião que nos é bombardeada todos os dias na grande mídia, e o diretor apresenta, por mais que de maneira sutil, essa opinião em alguns comerciais que vão para a televisão com discurso anti-drogas. A esse discurso, fica claro, a falta fundamentação. E aí está o grande diferencial. No filme, suas opiniões, são fundamentadas.

O trabalho de câmera e edição do filme são outros dois pontos fortes do filme. A fotografia é bem realizada, mas nunca tenta roubar mais atenção que as entrevistas ou do próprio tema. As externas nas várias cidades do mundo, focando principalmente as pessoas na rua, são como se depois de cada entrevista, estivéssemos vendo como nos, como a sociedade é manipulada e, nos sentimos como o próprio diretor, que em pequenas cenas aparece olhando o comportamento das pessoas de longe. O filme, a fotografia, parece fazer com que nós, nos olhássemos.

A edição é ágil, tem boas e bem colocadas sequências externas, vai e volta em vários entrevistados, mas é clara, não confunde o espectador. Mesmo um filme com grande número de entrevistados, aqui diferente do que aconteceu em “Dzi Croquetes” dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o seu formato não fica careta, não cai no tradicional, no formato jornalístico por exemplo. Alguns detalhes fazem a diferença na finalização.

Dificilmente um filme como “Cortina de Fumaça” conseguirá distribuição, ou pelo menos uma boa distribuição. O seu tema é incômodo, verdadeiro demais, questionador demais para um cinema popular que a maioria dos distribuidores quer investir. Mas sua carreira não está só aí. Esse com certeza será um filme de carreira muito longa e será usado no futuro, como referência de debate ao tema.

Sendo assim, podemos afirmar que “Cortina de Fumaça” é um filme essencial. Um filme para ser visto por pais, filhos, por mestres e alunos, por eleitores e políticos. Um filme que acima de tudo, levanta questões, faz pensar, e você leva pra casa e fica com ele durante dias. E depois de tudo isso, ele aguça ainda mais sua curiosidade a respeito do tema.

São cada vez mais raros os filmes assim, e “Cortina de Fumaça” é um desses raros filmes, que precisa ser visto pelo maior número de pessoas possível, justamente para se questionar preconceitos, amarras sociais, é um filme que precisa ser pensado

Jair Santana

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4 Respostas

  1. Assisti a entrevista do programa Roberto D’avila e gostei muito do que ouvi. Como faço para ter acesso ao filme?

  2. O diretor tem viajado com o filme pelo país. Acredito que ainda não existe comercialização em dvd, mas isso não demora a acontecer.

  3. Vi a entrevista do Rodrigo no prgrama do Roberto D’avila, gostei muito, gostaria de saber, como faço para ter acesso ao Filme?
    tem como adquirir o DVD em algum site, ou outra forma qualquer?

  4. A reportagem que assisti, deu a mim uma força ainda maior para ver, como se move o mudo com o envolvimento das drogas.
    Sou um adicto em recuperação, e luto com todas as armas legais,para ajudar todo aquele que se encontra na ilusão do uso das drogas.

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