“2046 – Os Segredos do Amor”, Peer Raben e Shigeru Umebayashi

Filme: 2046 – Os Segredos do Amor
Diretor: Wong Kar-Wai
Ano: 2004
Música: Polonaise
Composição: Peer Raben e Shigeru Umebayashi
Trilha Sonora do Filme: Peer Raben e Shigeru Umebayashi

“Rio”, Carlos Saldanha, 2011

Cartaz do filme "Rio"

Carlos Saldanha percorreu um longo e sólido caminho até chegar a direção do filme “Rio”, um dos maiores sucessos de bilheteria de 2011. Começou como produtor de curtas metragens, depois passou a trabalhar com efeitos visuais de filmes como “Um Passe de Mágica” e “Clube da Luta”, até chegar na co-direção de “A Era do Gelo” e “Robôs”. Já em 2006 assumiu a direção da franquia e dirigiu “A Era do Gelo 2” e logo em seguida em 2009 a ultima parte da trilogia, “A Era do Gelo 3”. Mas talvez seja em “Rio” que sentimos que Carlos Saldanha chega a sua maturidade como diretor.

“Rio” apresenta a historia de Blu, uma arara azul, com quase o mesmo do mesmo nome do estúdio onde foi criado, Blue Sky, ramificação de animação da FOX. A arara azul, é uma espécie nativa da mata atlântica brasileira, que se encontra ameaçada de extinção.

Blu (Jesse Eisenberg) foi capturado ainda jovem por contrabandistas de aves, e acabou, por acidente, caindo em uma pequena cidade no frio estado de Minnesota nos EUA, aos cuidados da jovem Linda (Leslie Mann ), com quem tem uma forte relação de amor e confiança.

Blu é encontrado por um ornitólogo (biológo que se dedica ao estudo das aves), Túlio (Rodrigo Santoro), que tenta convencer Linda a levar Blu para o Brasil para que ele possa encontrar uma fêmea de sua espécie com a finalidade de perpetuar sua espécie.

Como bom roteiro clássico que é, Linda e Blu apresentam uma certa negação a sair do seu lugar comum e partir para o mundo especial, mas lógicamente acaba indo para o Rio de Janeiro, para que Blu encontre com Jade (Anne Hathaway) e viva sua esperada aventura.

O roteiro é de Don Rhymer, de “Vovó Zona 1,2 e 3” e “Ta Dando Onda”. Roteiro clássico, sem novidades, com clichês e final previsível. Sim, mas com tudo isso, ainda é um roteiro com uma boa mensagem, do cuidado com a preservação de animais em extinção, com bons personagens e com muitas tiradas engraçadas. Mais que isso, com um humor, que apresenta certa leveza e consegue agradar crianças, e também com uma inteligência que consegue agradar aos adultos.

Apesar de muitos críticos esquecerem, devemos lembrar que acima de tudo, “Rio” é uma animação, diferente de “Wall-E” de Andrew Stanton e “O Mágico” de Sylvain Chomet, que são animações adultas. “Rio” é sim, acima de tudo um filme infantil, por isso, alguns clichês, como o final feliz, são necessários para que as crianças não saiam frustradas do cinema.

E o interessante no filme é justamente, que “Rio”, consegue manter uma ingenuidade e sutileza dos filmes infantis, sem ser um filme bobo e aleatório, conseguindo agradar, e muito, os adultos também.

Visualmente, Carlos Saldanha conseguiu construir um filme rico, belo, cheio de detalhes reais de seu cenário inspirador. Construiu um Rio de Janeiro apaixonante, mesmo sem esconder a pobreza das favelas. Mesmo que seja tudo com sua liberdade poética e um visual romantizado, a favela, a pobreza, presente no personagem do garotinho, e a marginalidade, nos personagens que traficam as aves, estão presentes no filme. Está tudo ali, bom e o ruim Rio de Janeiro.

Um Rio de Janeiro com liberdade poética claro, onde se pula de asa delta na Gávea e se passeia ao redor do Cristo Redentor. Mas não se pode procurar verossimilhança espacial em um filme, ainda mais em uma animação. Criticar esse ponto, já seria um exagero quase que patológico.

Muitos críticos brasileiros reclamaram dos clichês apresentados no filme, como se no Rio, os cariocas vivessem em função do carnaval ou falassem inglês fluentemente. Talvez, o problema seja realmente dos críticos, por esquecerem primeiro, que o filme, não é brasileiro, e por ser realizado por um estúdio americano e voltado para o mercado internacional, logicamente será falado em inglês. E segundo, o Rio de Janeiro, próximo ao carnaval, vive sim, em função da festa. Mas talvez, pra se entender isso, tenha que se viver no Rio de Janeiro por algum tempo, para se ter a visão do que representa o carnaval para a cidade e para o carioca. Carnaval esse, que começa sua preparação, festas e ensaios, no segundo semestre do ano anterior, com pessoas vivendo plenamente o carnaval, mesmo já próximo do natal por exemplo. Mas não vamos aqui, continuar dissertando sobre a ignorância de alguns críticos.

Temos sim que entender, o objetivo do filme, para que público ele foi feito, qual sua mensagem, e se ele consegue não subestimar, levar a mensagem, e agradar seu público. E isso, “Rio” já mostrou que tem feito.

Não podemos deixar de falar de dois pontos importantes do filme. O elenco selecionado para dar voz aos personagens. Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, Rodrigo Santoro, Leslie Mann e ainda participações especiais, como a brincadeira de Saldanha de convidar a cantora Bebel Gilberto para dar vo a desafinada tucana Eva. Elenco de primeira linha. Eisenberg e Anne Hathaway como Blu e Jade respectivamente, estão excelentes, dando com suas interpretações, personalidades fortes aos personagens.

Outro ponto forte é a música, assinada por John Powell, Sérgio Mendes e Will i.am. A mistura do samba e da música brasileira com o pop americano talvez nunca tenha sido tão bem realizado. Ali, a presença de Sérgio Mendes foi essencial para esse resultado. A trilha sonora do filme é um personagem a mais. Tanto as canções com o a trilha incidental, casam perfeitamente com o clima do filme.

“Rio” já é um grande sucesso de público, com crítica dividida, mas sem muitos ataques ao filme, com certeza é um trabalho de ótimos atributos, que vem a firmar a carreira de Carlos Saldanha como um dos mais fortes nomes da animação mundial.

Jair Santana

Entrevista com Toniko Melo

Toniko Melo

Toniko Melo começou a carreira na produtora Olhar Eletrônico, onde atuou como diretor, câmera e montador de programas para a televisão, documentários e videoclipes de artistas consagrados como Legião Urbana, Blitz e Caetano Veloso. Em  89 passou a atuar como diretor de filmes publicitários e, em 93, começou a trabalhar na produtora O2 Filmes. Como diretor de publicidade, já recebeu prêmios importantes, alguns deles em premiações internacionais como o festival Ojo de America, em Buenos Aires, e o Festival de Cannes de Publicidade. Em 2008 dirigiu episódios da série “Som & Fúria” para TV Globo, com produção da O2 Filmes e direção geral de Fernando Meirelles. “Vips”, seu primeiro longa-metragem, foi vencedor de quatro troféus no Festival do Rio de 2010, entre ele o de melhor filme do festival.
Apaixonado por cinema como costuma se identificar, tem como alguns de seus diretores preferidos Terence Malick e Paul Thomas Anderson. Identifica que o  cinema brasileiro está vivendo um ótimo momento, “A cinematografia brasileira amadureceu, tomou coragem, criou cumplicidade com o público”, afirmou em conversa com o site “Cinema com Rapadura”.
Entrei em contato com o diretor para conversarmos um pouco sobre seu filme, “VIPs”, e também para conhecer um pouco mais de sua história, sua carreira, a  do filme, os projetos que estão por vir . O diretor também comentou  sobre o sistema de produção de cinema no Brasil,  e como muitos outros diretores brasileiros, colocou em cheque a atual forma dessa produção.

Jair: Antes de mais nada eu queria conhecer o diretor Toniko Melo. Esse é seu primeiro longa metragem, e chega com grande força no cinema. Em vários sentidos, com uma equipe forte, com boa publicidade, e como cinema forte propriamente dito. Essa é sua primeira experiência com cinema? Já dirigiu curtas ou trabalhou em outras áreas do cinema? Li que dirigiu capítulos da série “Som e Fúria” é isso? Sei que você vem da publicidade, mas qual sua relação com cinema até antes do filme?

Toniko Melo: Comecei a apaixonar por cinema quando fui expulso da escola em 1973 e fiquei por 6 meses vendo filmes na Tv da sessão da tarde até o fim da sessão coruja. rs
Mas também sou filho de pais muito cultos. Minha família era de editores e escritores. Por causa do meu tio José Olympio, que deu nome a uma das editoras mais importantes desse pais, era comum receber para almoçar na casa dos meus pais escritores como Guimarães Rosa, ver meu pai de papo no telefone com o Sergio Buarque de Holanda, Helio Silva etc. Eu até podia escrever cartas para o Carlos Drumond de Andrade.
De lá para cá, passei filmes de surf, fiz super 8 e estudei: estudei muito! Quando o, também iniciante, Fernando Meirelles me convidou para ajuda-lo a fazer seu 1º documentário “Garotos do Subúrbio”, em 1982, entrei no mundo intelectual e profissional do Cinema, ao mesmo tempo. E é onde estou até hoje. Fiz mais de 30 documentários antes de começar a fazer publicidade nos anos 90, onde, depois que comecei, fiz uma ótima carreira, tanto que ganhei 7 vezes o Premio Profissionais do Ano da Rede Globo, entre outros.

Jair: “Visp’s” é baseado no livro da Mariana Caltabiano que é sobre a historia do Marcelo Nascimento da Rocha e seus golpes. Mas nem tudo do filme é a história do Marcelo. Claro, existe a dramatização, mas foram criadas muitas histórias irreais pra se construir o personagem. Essa mistura, do que aconteceu, com algo muito fora da realidade do Marcelo, e ainda assim, continuar usando o nome dele não pode prejudicar a credibilidade do livro ou o próprio filme, já que os dois são “vendidos” como a história do famoso farsante?

Toniko Melo: Fique atento: no filme o personagem que o Wagner faz se chama apenas Marcelo da Rocha (um único sobrenome). E o livro nasceu depois do filme ter sido pensado como tal. Além disso, quem tenta “vender” a história do farsante que está preso, como sendo a do filme não somos nós: muito pelo contrário! O tempo todo tento proteger a imagem da família do Marcelo verdadeiro e a dele também. “VIPs – Quem Você Quer Que Ele Seja?” é uma obra de ficção: está por escrito nos créditos do filme. Só não vê, quem não quer ver.

Jair: O filme é tenso, tem muita ação, ao mesmo tempo é bem humorado, e mantêm certa leveza. O personagem Marcelo é um anti-heroi carismático e o filme não faz um juízo moral do personagem. Como foi essa escolha de contar a historia de um homem que está preso hoje (como falei o nome dele foi usado), e fazer ele um querido do publico. Torcemos por ele, rimos com ele, até de suas mentiras, inclusive pra polícia.

Toniko Melo: Só há essa cumplicidade com o personagem do filme porque não estamos contando a história do Marcelo que está preso. É uma ficção, onde controlamos o que queríamos contar.

Jair: Algo que me chamou atenção foi a escolha do elenco. Temos Wagner Moura, que é um excelente ator e de grande apelo popular. Mas ao redor, temos excelentes atores, como a maravilhosa Arieta Corrêa, vencedora de inúmeros prêmios Shell, ainda Gisele Fróes e até mesmo o argentino Jorge D’Elia, que são ótimos, mas sem esse apelo comercial que Wagner possui. Como foi essa escolha? Isso funciona bem no filme porque todos eles estão no mesmo nível de interpretação. Mas essa escolha, foi para os olhares ficarem mais para a historia central que é conduzida por Wagner, pra não pesar em escolhas de “caras conhecidas”, enfim, teve algum motivo especial?

Toniko Melo: Cuido do casting não com olhares “comerciais”, mas sim com o potencial de cada ator ou atriz para desempenhar determinado personagem. Por isso os testes demoraram 8 meses! Os prêmios do Fest Rio para dois dos atores coadjuvantes, provam que eu estava certo.

 

Jair: Além do elenco, uma parte pouco conhecida do grande público também é de se chamar atenção. A equipe do filme é de primeiríssima linha. Nomes como Bráulio Montovani, Mauro Pinheiro Jr, Cecília Homem de Melo, Antonio Pinto, nomes do primeiro escalão do cinema brasileiro. Como foi para reunir essa equipe em seu primeiro filme? Foi muito difícil? Claro teve Fernando Meirelles como produtor, e isso ajuda muito, mas ainda assim queria que você comentasse sobre isso. Até mesmo porque, com essa equipe, o elenco, e o filme em si, parece visualmente caro também.

Toniko Melo: Todos são amigos de longa data. Apenas escolhi os mais talentosos e que tinham agenda para aquele momento. Haviam outros que estavam fazendo grandes filmes. Sou muito feliz por isso.

Jair: A carreira do filme está apenas começando. Já é o grande vencedor do Festival do Rio que talvez seja a maior vitrine do cinema nacional. Como está a carreira do filme também fora do país? Pensam em trabalhar isso de maneira mais forte?

Toniko Melo: Gostaria muito que o filme fosse exibido em circuito comercial na Argentina, pois admiro muito a cinematografia que vem sendo feita lá há muitos anos. E gostaria muito que o Festival de Cannes ouvisse o Walter Salles, quando ele disse que “O VIPs é uma obra única na Cinematografia brasileira.”

Jair: Toniko, esse foi só o primeiro filme. E já alcançou um grande sucesso, de público e de grande parte dos críticos. Está trabalhando nele a quantos anos? Já tem outro projeto engatilhado? O sucesso desse filme, já ajudou em algum ponto a agilizar o próximo?

Toniko Melo: VIPs completa 9 anos agora em março. É uma loucura. Falta muito para poder se dizer que ele é um sucesso de público: fez apenas cerca de 150 mil pessoas até esse exato momento. Para um filme que custou 7 milhões de reais de dinheiro “bom”, isso ainda é muito pouco. Infelizmente, não me deram o direito de participar dos direitos autorais do meu próprio filme, por isso torço apenas que a história que eu quis contar crie uma cumplicidade importante com o maior número de pessoas do meu pais.
Tenho 3 bons projetos para realizar, mas não tenho, até agora, nenhuma produtora com “vaga” para mim, pois estão todas no limite máximo da ANCINE. Para o atual modelo de produção de cinema, para um diretor como eu, o Brasil se tornou um lugar onde ou você é dono de uma produtora, ou você é obrigado a buscar países onde um diretor tem seu ganha pão no patamar de algo digno e, principalmente, onde os seus direitos autorais sejam respeitados.

“Cortina de Fumaça”, Rodrigo Mac Niven, 2010

Cartaz "Cortina de Fumaça"

“Cortina de Fumaça” é o primeiro longa documentário do diretor Rodrigo Mac Niven, produzido na produtora carioca TVA2, antes porém, também com produção da TVA2, já havia dirigido o documentário média metragem “Ei, you! – O Haiti antes do terremoto”,  que está sendo exibido na GNT.

Rodrigo é jornalista, diretor de curtas e publicidade, além de fotógrafo, editor e finalizador de vídeos. Em seu primeiro documentário, selecionado para Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro em 2010, Rodrigo foi acima de tudo ousado. Trabalhou um assunto aparentemente batido, porém, por uma nova perspectiva, com um novo olhar, levantando questões, alfinetando moralismos e preconceitos.

O filme “Cortina de Fumaça” é assim. Um tapa em velhos conceitos. O documentário analisa a política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição de determinadas práticas relacionadas a algumas substâncias, e a partir daí, vai em busca de cientistas, médicos, políticos, antropólogos, enfim, de alguns dos maiores estudiosos sobre o assunto no mundo.

A liberdade vista no filme é talvez seu maior atributo, e aí talvez tenha um ponto determinante. O filme é acima de tudo autoral. Um projeto pessoal, como ele mesmo coloca em sua narração em off no inicio do filme, e outra, foi totalmente independente, sem lei de incentivo fiscal, sem nem uma grande empresa patrocinadora por trás, esse é um projeto de diretor, realizado pela TVA2, produtora a qual é sócio e pela J.R. Mac Niven Produções, empresa ligada também a sua família.

Dificilmente um filme, com essa liberdade de opinião teria apoio governamental e mesmo de grandes empresas.Lembramos que, até o filme “Cheiro do Ralo” de Heitor Dhalia, mesmo contando com o popular ator Selton Melo no elenco, teve problema em conseguir patrocínio em função da temática do filme, que trazia um “anti-herói”, bem distante do que qualquer empresa quer envolver seu nome.

Voltando ao “Cortina de Fumaça”, além da visível liberdade, percebe-se um excelente trabalho de pesquisa. Observamos isso, pela ótima seleção de entrevistados. Entre esses 34 entrevistados, estão o ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva, o criminalista Nilo Batista entre inúmeros outros grandes nomes.

Estaremos diante do Michael Moore brasileiro? Bom, acredito que se o diretor americano assistir ao filme vai com certeza ter certa identificação com o diretor brasileiro. Pelo tema, e por sua busca de uma verdade em que acredita. Porém, temos uma diferença, e até apontaria como uma falta do filme brasileiro. A entrevista de opiniões diversificadas. Claro, devemos partir da premissa, que toda obra tem uma opinião a apresentar, que nem uma é neutra. Mas, é importante levantarmos questões, e termos os dois lados no mesmo trabalho.

Acaba que de certa forma, o filme se torna tendencioso ao olhar do espectador, mesmo que as entrevistas, contem com opiniões de pessoas sérias dos mais diversos setores da sociedade.Ao mesmo tempo, podemos então colocar uma segunda questão. Essa segunda opinião que falta ao filme, é a opinião que nos é bombardeada todos os dias na grande mídia, e o diretor apresenta, por mais que de maneira sutil, essa opinião em alguns comerciais que vão para a televisão com discurso anti-drogas. A esse discurso, fica claro, a falta fundamentação. E aí está o grande diferencial. No filme, suas opiniões, são fundamentadas.

O trabalho de câmera e edição do filme são outros dois pontos fortes do filme. A fotografia é bem realizada, mas nunca tenta roubar mais atenção que as entrevistas ou do próprio tema. As externas nas várias cidades do mundo, focando principalmente as pessoas na rua, são como se depois de cada entrevista, estivéssemos vendo como nos, como a sociedade é manipulada e, nos sentimos como o próprio diretor, que em pequenas cenas aparece olhando o comportamento das pessoas de longe. O filme, a fotografia, parece fazer com que nós, nos olhássemos.

A edição é ágil, tem boas e bem colocadas sequências externas, vai e volta em vários entrevistados, mas é clara, não confunde o espectador. Mesmo um filme com grande número de entrevistados, aqui diferente do que aconteceu em “Dzi Croquetes” dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o seu formato não fica careta, não cai no tradicional, no formato jornalístico por exemplo. Alguns detalhes fazem a diferença na finalização.

Dificilmente um filme como “Cortina de Fumaça” conseguirá distribuição, ou pelo menos uma boa distribuição. O seu tema é incômodo, verdadeiro demais, questionador demais para um cinema popular que a maioria dos distribuidores quer investir. Mas sua carreira não está só aí. Esse com certeza será um filme de carreira muito longa e será usado no futuro, como referência de debate ao tema.

Sendo assim, podemos afirmar que “Cortina de Fumaça” é um filme essencial. Um filme para ser visto por pais, filhos, por mestres e alunos, por eleitores e políticos. Um filme que acima de tudo, levanta questões, faz pensar, e você leva pra casa e fica com ele durante dias. E depois de tudo isso, ele aguça ainda mais sua curiosidade a respeito do tema.

São cada vez mais raros os filmes assim, e “Cortina de Fumaça” é um desses raros filmes, que precisa ser visto pelo maior número de pessoas possível, justamente para se questionar preconceitos, amarras sociais, é um filme que precisa ser pensado

Jair Santana

“Tron – O Legado”, Daft Punk

Filme: Tron – O Legado
Diretor: Joseph Kosinski
Ano: 2010
Música: End of Line
Composição: Daft Punk
Trilha Sonora: Daft Punk

 

“Em um Mundo Melhor”, Susanne Bier, 2010

Em um Mundo Melhor

Susanne Bier é uma diretora promissora da Dinamarca, sua breve carreira, de apensas 5 filmes, tem chamado atenção do mundo. Seu recente trabalho,“Em um Mundo Melhor”, já é o segundo filme de sua carreira que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O primeiro foi em 2007, “Depois do Casamento”, que perdeu para o alemão “A Vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck .

O filme é o grande Vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 2011. É um filme tenso, forte e acima de tudo sensível. Ele provoca o espectador e faz pensar em seu senso de justiça e suas reações.

“Em um Mundo Melhor” conta a historia Christian ( William Johnk Nielsen), um garoto que acaba de perder a mãe e se muda com o pai de Londres para casa de sua avó em uma pequena cidade da Dinamarca, e lá, faz amizade com Elias (Markus Ryggard), uma garoto da sua sala que sofre bullying dos colegas maiores.

Paralela a historia de Chris e Elias estão a de seus país, os de Elias, Anton ( Mikael Persbrandt) e Marianne ( Trine Dyrholm), que vivem um processo de separação, e de Claus ( Ulrich Thomsen), pai de Chris que é acusado pelo garoto de desistir da mãe e deixá-la morrer de câncer.

Esse paralelo é muito mais forte entre Anton e Chris. Estes sim, poderíamos dizer que são os personagens antagônicos do filme. Logo que chega na escola, Chris vê seu amigo sendo agredido e também se torna vítima dos causadores do bullying. No dia seguinte, prepara uma vingança ao principal de seus agressores. Por outro lado, Anton, pais de Elias é um médico voluntário em um país na África, e convive com outros tipos de violência, em um país em meio a uma guerra civil, onde o chefe da milícia local é violento e sádico.

Sem um tom moralista, mas sim provocador, o roteiro de Anders Thomas Jensen ( “Depois do Casamento” e “A Duquesa”) nos mostra reações adversas ao contato com a violência. A velha máxima de “violência gera violência” se apresenta de uma maneira sutil, porém forte.

Em um certo momento do filme, Anton é agredido por um homem em frente aos seus filhos e de Chris, porém não reage. Ao ser questionado por seu filho Elias sobre sua não reação, responde apenas que o agressor é um idiota, e que “é assim que as guerras começam”. Sim, pode ser, mas isso não fica por aí.

Anders e Susanne usam dois microcosmos, o acampamento em meio a guerra civil e a própria escola, para mostrar, que o que vale para nossa vida pessoal, vale para um macrocosmo também. O número de pessoas pode ser menor, o grau de violência pode ser menor, mas a premissa é a mesma. A violência e a resposta a violência.

A falta de comunicação, a intolerância, a xenofobia, o preconceito, gera situações violentas, inesperadas e até incontroláveis. Situações como ir além do que se planejou com as suas ações, ou mais ainda, por perder alguém querido.

As atuações são maravilhosas. Susanne Bier mostra ser uma ótima diretora de atores. A tensão do filme é impressionante. Os dois garotos, Christian ( William Johnk Nielsen) e Elias (Markus Ryggard) seguram os personagens com uma densidade, e ao mesmo uma inocência conveniente a suas idades. São interpretações incríveis, principalmente de William Johnk Nielsen, sempre fechado, inseguro mas ao mesmo tempo que querendo parecer forte.

Todos os personagens principais estão muito bem e são muito bem construídos. Destaque para Anton (Mikael Persbrandt), pai de Elias, o médico voluntário, que convive com um tipo de violência mais elevado, e sempre mantêm a calma, a serenidade, o equilíbrio. Quando não suporta mais guardar esse equilíbrio, explode sem pensar nas conseqüências de seu ato, e se questiona depois de sua reação, mesmo sem uma palavra, se fecha para conviver com as conseqüências do que fez.

Uma das sequencias mais fortes do filme, é quando Anton volta a ser agredido em frente a seus filhos e ao amigo do filho, e não reage, fica inerte, com um rosto sem expressão, apático. A cena é muito provocadora, questionadora e por que não dizer, revoltante.

A chave da questão, a chave do filme é essa. Até onde é válida uma reação violenta a uma atitude violenta. A resposta não é fácil e não vem fácil. A vontade da reação, da vingança, está presente em todos nós.

A fotografia de Morten Soborg não apresenta grandes firulas. É simplória mas muito bem realizada. Talvez fria como a Dinamarca, é esse o tom que predomina. A luz fria. Mesmo na África tudo é meio, digamos assim, “nublado”. Sem grandes sombras, sem luz estourada. Muito funcional ao que o filme apresenta.

Outro grande destaque é para a música de Johan Söderqvist, muito presente em boa parte do filme, conversando diegéticamente o tempo todo com as ações apresentadas. É também por conta da trilha que a tensão e a emoção do filme crescem. Johan Söderqvist é responsável por trilha de filmes como “Coisas que Perdemos pelo Caminho” também de Susanne Bier e a belíssima trilha de “Deixa Ela Entrar” de Tomas Alfredson.

“Em um Mundo Melhor” é desses filmes universais, que apesar de ocorrer na Dinamarca, poderia ocorrer do seu lado. Essa é a vantagem de se usar o micro para se falar algo maior. É também um filme diferente do estilo da maioria dos filmes americanos, onde tudo é muito explicado. Aqui o silêncio é tão importante quanto cada palavra. As ações silenciosas, o olhar, tudo é parte da diegese do filme e tem que ser pensado.

Jair Santana