“Além da Vida”, Clint Eastwood, 2010

Além da Vida

“Além da Vida” do diretor Clint Eastwood, diretor de “Menina de Ouro” e Gran Torino”, filmes altamente críticos ao mesmo tempo que muito sensíveis, parece ter errado a mão nesse filme.

Com uma vasta cinematografia, Clint tem crescido muito como diretor, em especial de 2003 em diante, quando realizou o forte “Sobre Meninos e Lobos”.

Aos 82 e em plena atividade, o diretor realiza “Além da Vida”, um filme sobre pessoas e suas relações com a morte. Quando perguntado se teria trabalhado o tema em função da sua idade e de ter encontrado sua espiritualidade, o diretor afirma que poderia ter feito esse trabalho ao 30 anos, pois sempre se interessou pelo tema.

O tema realmente é interessante, a morte, e como as pessoas lidam com ela, inclusive por quem sobreviveu a uma experiência de voltar da morte. Porém, a forma como o filme é conduzido é morna, sem grandes reviravoltas ou ondulações na historia.

Espera-se um pouco mais, de um diretor como Clint Eastwood, e ainda mais pela espetacular sequência inicial do filme. Forte, tensa, e muito bem realizada, com a sequência de um Tsunami.

A historia dos três personagens principais vai acontecendo em paralelo, e o encontro dos três é previsível até demais. Espera-se, que esse encontro aconteça como algo mais forte, mais grandioso, mas isso não acontece. Tudo é muito linear, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. A emoção em si, está no que já aconteceu, a relação com a morte

Existe o momento de crítica, como era de se espera em um filme de Clint Eastwood, nas três situações. Em dois deles, como as pessoas querem tirar proveito e ganhar dinheiro com o desespero das pessoas em perder alguém querido. No terceiro caso, como se é discriminado e desacreditado por passar por uma experiência mais espiritual.

 

O roteiro de Peter Morgan é fraco, os personagens são bem apresentados, mas a partir daí, parece que Morgan não sabe bem como aproximar e contar um pouco mais da historia dos personagens, e o filme acaba tendo uma barriga nas suas 2 horas e 9 minutos. Um tempo muito mal utilizado.

Diferente de outro diretor que entrelaça personagens diferentes em suas historias, o mexicano Alejandro González Iñárritu cria tensões até suas historias se encontrarem, o roteiro de Morgan parece não decolar. Frio, mantendo o espectador distante de todos os personagens. O que causa maior apatia é a historia do menino Marcus (vivido pelos gêmeos George e Frankie McLaren ), e ao confrontar os personagens até então distantes, não apresenta nada de novo, e nem nada muito empolgante acontece.

A direção de Clint é boa, sua direção de atores é excelente, o que parece ser uma característica de atores que se tornam diretores. Mas o roteiro oferece pouco para que o diretor aproveite mais de seus atores, a não ser em alguns poucos momentos.

A interpretação de Matt Damonn como George Lonegan é introspectiva e densa. O personagem nunca extravasa seus sentimentos, mas também não há um momento implosão, como acontece com Brian Geraghty (Owen Eldridge) em “Guerra ao Terror”. E sinto falta desse momento. O personagem não parece ser frio, mas sua maior demonstração de emoção é feita através de uma carta ao seu irmão. George então se torna inverossímil ao que o filme apresenta.

A fotografia de Tom Stern é bonita e bem realizada. O fotografo é o braço direito do diretor, e Stern trabalhou com Clint também em “A Troca” e “Invictus”.

No mais, “Além da Vida” é um filme que pode emocionar, principalmente aos religiosos que crêem em vida após a morte, ou qualquer um que passou pela situação de perder alguém querido. Logo, o filme pode ter um grande número de espectadores, mas como cinema, decepciona.

A mão segura de Clint ajudou o filme a crescer mais do que ele seria na mão de um diretor menos experiente, mas ainda assim, é seu trabalho mais fraco dos últimos anos, e por pouco não escapa de ser um melodrama tipo filme b.

Jair Santana

“O Curioso Caso de Benjamin Button”, Alexandre Desplat

Filme: O Curioso Caso de Benjamin Button
Diretor: David Fincher
Ano: 2008
Música: A New Life
Compositor: Alexandre Desplat
Trilha Sonora: Alexandre Desplat

“A Rede Social”, David Fincher, 2010

A Rede Social

A Rede Social

“A Rede Social”, filme do diretor David Fincher, é de roteiro de Aaron Sorkin, baseado no livro de “Bilionários por Acaso, A Criação do Facebook“, de Ben Mezrich, escrito a partir do ponto de vista do brasileiro Eduardo Saverin.

Este não é o melhor filme de Fincher, diretor de “Clube da Luta”O Curioso Caso de Benjamin Button, mas é com certeza o filme que lhe dará alguns dos principais prêmios do cinema do ano.

“A Rede Socail” é sobre um assunto muito contemporâneo, muito atual. O Facebook. Talvez o maior fenômeno de um site de relacionamento on line desde a criação da internet na década de 70. Mais que sobre “o que é” o site, o filme é sobre seu processo de criação, ou seja, “como se chegou até o Facebook”.

Mark Zuckerberg, é interpretado muito bem por Jesse Eisenberg,  que utiza em sua interpreração o mínimo de expressões no rosto e um tom de voz que parece nunca mudar. Agrega com isso uma arrogância quase inata ao personagem,  um rapaz com dificuldade de relacionamento, tanto amoroso como de amizades.

Seu único amigo, é o brasileiro Daniel Saverin, um colega estudante de Havard. Sua pretensa namorada o abandona na primeira, e fantástica, sequência do filme, em que 3 ou 4 minutos, passamos a conhecer exatamente como é a linha de pensamento e como se comporta o estranho Zuckerberg.

Mas o personagem principal do filme não é somente um curioso anti-herói. É talvez, a síntese de uma juventude. É só mais um, que passaria por cima de tudo e todos, é só mais um, que para conseguir notoriedade e dinheiro, derrubaria amigos, se uniria a inescrupulosos e por aí vai. Não é tão distante da maioria dos jovens que querem conseguir “chegar lá” o quanto antes. A famosa geração Y, nascidas a partir dos anos 80.

Então vamos acompanhar quem foi o Mark Zuckerberg do filme. Ele era um jovem muito inteligente quando se falava em técnica. Após levar um fora da namorada, cria em uma rede interna em Harvard, um programa comparativo entre as estudantes da universidade. Em apenas uma madrugada, o acesso é tanto, que faz com que a rede caia.

Pela primeira vez, ele se torna popular para alguns estudantes. É convidado então por dois irmãos de Havard, que são milionários, a criar uma rede social entre estudantes de universidades. Está aí a semente do Facebook. Daniel Saverin, seu amigo, único amigo, investe então o dinheiro inicial para que ele possa se dedicar a criação desse programa e se associa a ele. Mark então em vez de trabalhar para os dois estudantes, passa a trabalhar pra si, e some do alcance dos que o contrataram.

Roubar idéias não é algo novo. E roubando idéias, Mark Zuckerberg se tornou bilionário e virou ídolo da geração Y. Mas pelo Mark Zuckerberg que aparece no filme, e pelo que se nota em entrevistas, ficou rico e continua solitário. Seus amigos? São virtuais, assim como o seu dinheiro. O Facebook hoje é o site mais acessado do mundo, e está avaliado em mais de 50 bilhões de dólares.

Se encantará e se identificará com o filme principalmente aqueles que fazem parte desse mundo virtual, e mais ainda aos que acreditam nele. Aos que acreditam que as relações virtuais, são tão importantes ou palpáveis quanto as reais. Aos que acreditam na sensação de poder que internet pode criar.

O roteiro de Aaron Sorkin caminha entre o genial e o confuso. É ágil, genial em sintetizar situações em uma ou duas frases, como é a cena em que a ex-namorada de Daniel Saverin briga com ele por que estava marcado “solteiro” no seu perfil do Facebook., e as vezes confuso, por querer contar detalhe técnicos de algumas situações menos relevantes. Também não é um roteiro inovador. Pelo contrário, é até tradicional em seu formato. O herói está em um lugar comum, quando é chamado para o mundo especial, enfrenta problemas, e termina como uma nova pessoa. Sem grandes reviravoltas, sem grandes surpresas. Nada de novo.

A fotografia é de Jeff Cronenweth, que já havia trabalhado com Fincher em “Clube da Luta”. É funcional, tem uma texttura anos noventa, um pouco lavada, mas nada surpreendente. Não tem um grande diálogo com o filme. Até mesmo por que tudo se inicia em 2003.

A trilha sonosa de Trent Reznor é um ponto importante do filme. Presente desde sua primeira cena, a música dá o clima tenso e uma densidade as cenas que ficariam em lugar comum sem ela.

A direção de Fincher é segura. Ele prova mais uma vez ser um ótimo diretor de atores, a participação de Justin Tinberlake como Sean Parker criador do Napster é execelante, chega a roubar a cena. Ótima também é a participação de Andrew Garfiel interpretando Daniel Sevarin. Elenco bem escolhido é boa parte de um filme.

Mas Fincher erra em outros pontos. Diálogos e edição rápidos demais, e historias com muitos detalhes, não contribuem para o envolvimento do espectador no filme. Pelo contrario, acaba fazendo o filme parecer corrido demais, afastando o espectador da historia. Com toda certeza, não é seu melhor trabalho como diretor.

A verdade é que “A Rede Social” é um filme datado. É contemporâneo, como já foi citado, mas ao contrário do que acontece com grandes filmes, não terá interesse para as próximas gerações, ainda mais se o Facebook fracassar em alguns anos como aconteceu com Orkut. Algo que chama muito atenção do filme são as questões autorais na internet, ainda não solucionadas.

Se “A Rede Social” realmente é o filme do ano de 2010, teríamos que afirmar, que 2010 foi um ano sem grandes filmes e que logo será esquecido. O que não é fato. Foi um ano de bons filmes sim, o que se precisa mudar, é a linha de pensamento das grandes premiações.

Jair Santana

“127 Horas”, A. R. Rahman

Filme: 127 Horas
Diretor: Danny Boyle
Ano: 2010
Música: The Canyon
Compositor: A. R. Rahman
Trilha Sonora: A. R. Rahman

“Abutres”, Pablo Tropero, 2010

Abutres

Abutres

“Abutres”, de Pablo Tropero, diretor de filmes como “Família Rodante” e “Leonera”, seja talvez o filme mais crítico de sua carreira. O filme trata do sistema de seguros de trânsito na Argentina. Os “abutres” no caso, são os advogados especializados em abordar as vítimas e as famílias das vítimas de acidentes de trânsitos oferecendo seus serviços, mas com o intuito real de arrancar um bom dinheiro das seguradoras, e evidente, não repassar o real valor às vítimas.

Como “Leonera”, “Abutres” é um filme forte, de cenas fortes, aqui, Tropero foi mais contundente, apresenta um filme violento, crítico, não só com o esquema securitário argentino, mas também, em sua trama paralela, com o sistema de saúde.

Os personagens principais, Sosa, interpretado pelo mais popular ator do cinema argentino, Ricardo Darin (de “O Filho da Noiva” e “O Segredo dos Seus Olhos”), e Luján, mais um ótimo trabalho de Martina Gusman, que foi protagonista de “Leonera”, não são o que poderíamos chamar de personagens carismáticos. Sosa é um anti-heroi, ele é um desses abutres que circundam hospitais atrás de vítimas de acidentes. Luján é uma médica dedicada, que se droga para agüentar sua rotina puxada de trabalho exigida pelo seu diretor.

O filme tem um bom roteiro, mas sua apresentação inicial é mal realizada. Se demora um pouco para entrar no filme, as informações de apresentação são um tanto confusas, mas depois desse momento, o roteiro decola e o espectador se envolve mais com os personagens. Essa apresentação porém é de extrema importância para pegar o espectador.

“Abutres” é um thriller policial violento, que não fica só na violência por si só, assim como acontece em “Tropa de Elite”, denuncia através da ficção, uma situação real que acontece dentro do “sistema”. Palavra para definir o modo de governo, organizacional, que é muito utilizada no “Tropa de Elite”. Mesmo que inicialmente, Pablo Tropero, tenha declarado em entrevistas que “Abutres” seria acima de tudo uma historia de amor, essa premissa inicial, ficou em segundo plano, mesmo que não tenha ficado menos importante. O foco principal é a denúncia, o sistema falido.

Tropero tem um tipo direção que se aproxima de David Cronenberg em “Crash – Estranhos Prazeres”, mas esse é o tipo de filmagem de Tropero, a fotografia, do fotógrafo Julián Apezteguia, nunca é limpa demais, muita câmera na mão e um cenário estilo mais realista.

Se percebe uma coerencia na carreira de Tropeiro, que tem crescido como diretor, e chamado atenção não só na Argentina, mas no mundo, (a distribuição por exemplo é da Walt Disney Studios Motion Pictures na Argentina e Paris Filmes – Brasil) com seu cinema visceral e ao mesmo tempo intimista.

Jair Santana

“A Rede Social”, Trent Reznor

Filme: A Rede Social
Diretor: David Fincher
Ano: 2010
Música: Hand Covers Bruise
Compositor: Trent Reznor
Trilha Sonora:Trent Reznor