“Enterrado Vivo”, Rodrigo Cortés, 2010

Enterrado Vivo

Rodrigo Cortés é um jovem diretor, produtor, editor e roteirista espanhol, diretor de “Concursante”, filme não lançado no Brasil, que crítica as taxas que os governos cobram sobre tudo que se ganha, inclusive prêmios. Agora em seu segundo longa, “Enterrado Vivo”, Rodrigo se utiliza de um thriller claustrofóbico, para continuar criticando ao sistema, dessa vez, mais especificamente, aos EUA.

Aqui, temos Paul Conroy (Ryan Reynolds), um motorista de caminhão de uma empresa americana, trabalhando no Iraque  na entrega de suprimentos. Quando seu comboio é atacado, Paul é atingido e acorda num caixão  enterrado em algum ponto da área de conflito. O filme porém inicia-se, ousadamente, depois desses acontecimentos. A primeira imagem, ou melhor, o primeiro contato diegético do filme do filme com o espectador, é a partir do momento em que Paul acorda dentro de uma caixa enterrado nesse local não especificado.

O espectador então vai conhecendo através do próprio Paul, sua historia. Dentro da caixa, inicialmente o personagem tem somente um celular, um isqueiro e uma garrafa de bebida, a partir daí cria-se toda a ação diegética do filme. Poucas vezes o cinema foi tão ousado em limitar esse espaço como é o cinema realizado por Rodrigo Cortés.

Tivemos alguns filmes,  como “Festim Diabólico” de Alfred Hitchcock, que se passava todo em um apartamento, e “12 Homens e uma Sentença” de Sidney Lumet, todo filmado em uma sala onde jurados votavam o resultado de um julgamento. Dois mestres do cinema, que conseguiram realizar dois ótimos filmes com essa limitação desafiadora.

Aqui, Rodrigo Cortés, um diretor novo, que ainda não se pode chamar de “mestre”, realiza com igual maestria, um projeto ainda mais ousado. Uma locação ínfima, um único ator e uma situação, que definitivamente, vai afastar os mais sensíveis, ou como diria Ana Maria Bahiana “pessoas impressionáveis”, do cinema.

O diretor consegue deixar o espectador tão preso quanto o personagem de Ryan. As primeiras sensações que vêem a cabeça são claustrofobia, prisão, falta de ar. A limitação de espaço é realmente claustrofobia como nunca tinha visto antes no cinema. Tivemos a Noiva (Uma Thurman) de “Kill Bill – 2”  de Quentin Tarantino, que foi enterrada viva, porém, ali, uma historia mais fantasiosa ao estilo Tarantino, a Noiva, em um passe “de mágica”, graças aos ensinamentos de seu mestre consegue rapidamente se livrar da situação.

Em “Enterrado Vivo”, o diretor prefere realizar um filme, digamos, mais realista. Seu tempo é escasso, seu desespero é aparente, sua capacidade de reação é super limitada. Paul não tem muito que fazer a não ser pedir ajuda externa, e aí, começa um segundo ponto do filme muito forte. A incompreensão de todos os que estão lá fora, para lidar com a situação.

Paul sabe que está enterrado não a “7 palmos” como se costuma falar, mas de uma altura razoável para conseguir sinal do celular, chega até a ouvir o mundo lá fora, mas nada é certo, e ele está fragilizado pela situação.

Seja sua cunhada, o atendimento de emergência da polícia, o FBI, a telefonista, enfim, ninguém consegue se comunicar de maneira razoável com o protagonista. A crítica ao sistema de atendimento é contundente. Paul, desesperado querendo salvar sua vida, e do outro lado, não há pessoas, e sim atendentes “robotizados”, mergulhados em burocracias e normas, que não conseguem pensar além do que sua função lhe cabe.

Dentro dessa burocracia, Paul cai em uma cilada, de ser desligado de tudo que possa ser responsável por ele estar ali. Inclusive a empresa de transportes em que trabalha. A manipulação de informações, da empresa, do governo, tudo conspira para que Paul seja só mais um nome logo esquecido.

Parece não haver esperança, mas o personagem luta o tempo todo por sua sobrevivência. Até o espectador tende querer desistir, mas não o herói. Do celular, liga para todos os lugares possíveis, ele sabe que seu tempo é limitado. Fora isso, ainda há seus sequestradores do lado de fora, fazendo exigências pelo celular.

Foi uma ótima oportunidade para o ator Ryan Reynolds trabalhar não um “galã”, mas um personagem rico, forte,  e acima de tudo denso. Seu bom trabalho de ator foi essencial para o êxito do filme. Seu desespero, sua lágrima, o seu debater dentro do caixão deixa o espectador tão desesperado quando o personagem se sente.

A câmera de Eduard Grau, diretor de fotografia de “Direito de Amar” de Tom Ford, mostra mais um ótimo trabalho. Diferente do filme de Tom Ford, onde cada cena parecida um editorial de moda, Grau aqui se vê limitado para uma fotografia mais rabiscada, tanto de espaço quanto de elementos de luz, e dentro dessa realidade, o diretor de fotografia realiza um ótimo trabalho.

O roteiro de Chris Sparling consegue apresentar bem o personagem (dá até pra imaginar como era sua vida fora do caixão), e também consegue prender o espectador. Foge da formula do roteiro clássico que o cinema americano nos acostumou e consegue se afastar de clichês. Confesso que até eu torci por algum clichê em momentos de maior aflição. Chis Sparling chegou a apresentar o roteiro a grandes estúdios mas nem um quis bancar a idéia.

Rodado em aproximadamente 15 dias de filmagem, sua produção custou apenas 3 milhões de dólares, o filme é uma produção Espanha/França e EUA. Tem conquistado fãs por mostras e festivais que passa. Fez um grande sucesso de público no Festival de Sundance, onde foi comprado por 3,5 milhões pela distribuidora Lionsgate, e tem feito uma boa carreira de público e crítica, pro tamanho que teve seu lançamento, tanto nos EUA como agora no Brasil, onde foi lançado pela Califórnia Filmes.

“Enterrado Vivo” é um filme difícil, por tudo que foi falado, principalmente pelas sensações que nos provoca. Mas acima de tudo, é um cinema ousado, inovador, crítico e que tenta fugir do óbvio. E por isso mesmo, é um filme que merece ser visto.

Jair Santana

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Uma resposta

  1. Para quem se entusiasmou com as palavras acima do amigo Jair, o filme é um prato cheio, longe de clichês e do objetivo principal do cinema de entreter o espectador. Confesso que torci por um final feliz…

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