“Como Esquecer”, Malu Martino, 2010

Como Esquecer

Como Esquecer

“Como Esquecer”, filme de Malu Martino, adaptado do livro homônimo de Myriam Campello, é um filme mediano, que tem  de melhor, fugir do óbvio e da repetida formula do cinema realizado no Brasil.

Pra começar, o cinema brasileiro tem realizado em sua grande maioria comédias e filmes sobre pobreza e violência. “Como Esquecer” é um drama intimista sobre perdas e diferentes maneiras de se lidar com isso.

O fio condutor da historia é Julia (Ana Paula Arósio), que depois de uma relação de 10 anos, é abandonada pela namorada e passa a sofrer profundamente por esse término de sua relação. Paralelamente temos seu melhor amigo Hugo (Murilo Rosa) que, mesmo vivendo também uma situação de perda, seu namorado faleceu a pouco tempo, tenta ajudar sua amiga a superar esse momento, e também Lisa (Natália Lage) que é amiga de
Hugo e vai dividir a casa com os dois depois de ser abandonada pelo namorado ao ficar grávida.

Até aí, temos uma sequência de desgraças e pessoas amarguradas. Mas o filme não trata disso. Perdas, temos a todo tempo. Perdas, e também ganhos, que dependendo da situação, não conseguimos enxergar.

Curiosa a cena em que Lisa chora desesperada no quarto, quando Julia, sempre se achando a pessoa mais desgraçada do mundo e só olhando pra si, percebe que outras pessoas tem problemas também e também sofrem.

A historia do filme é boa, mas o roteiro peca muito ao não confiar na imagem, e exagerar na quantidade de offs, explicando a todo momento, o que só bastava a imagem para explicar. O exagero é tão grande, que em certo momento existem dois offs. Na verdade, o primeiro não poderia ser classificado como off mas funciona como um, Julia falando em cena e explicando pra ela mesma o que está fazendo, e um segundo em cima dessa explicação, como se fosse o pensamento dela.

 

 

Outro problema é mais técnico. A fotografia erra muito, e várias vezes. Apesar de uma decupagem bonita, e a opção de se manter sempre um clima mais cinzento durante o período de tristeza, a luz com sombras fortes, inclusive nas externas, chegam mesmo a incomodar. Percebe-se a artificialidade da luz muito claramente. A boa luz, você não percebe de onde vem, e as sombras não são exageradas (pelo menos nas externas) ou então justificadas.

Um ponto forte do filme são as boas interpretações. Ana Paula Arósio está muito bem no papel. Vemos ela longe do glamour que a TV sempre lhe agrega. E ela segura muito bem seu personagem, que podemos classificar como uma anti-heroina, pois ela é grosseira e nada carismática. Mas vemos seu amigo Hugo colocar em várias conversas como ela é solidária com todos, sempre tentando ajudar os outros. A diretora resolveu colocar essa outra Julia somente em histórias  contadas e em poucos momentos no vídeo de sua viagem com a antiga namorada,. Alí Julia é uma pessoa sorridente e brincalhos, e sua namorada Antônia, nunca aparece.

A opção de Antônia nunca aparecer é acertadíssima. Assim, não ficamos sabendo de um outro lado da historia, e o espectador passa a não fazer julgamentos e não se preocupar com o porque o término, mas sim, com o lidar com a situação da separação.

Problemas técnicos e algumas falhas na direção não tiram o valor do filme, em retratar sem clichês caricatos um grupo de amigos, gays e não gays, suas relações entre si e com seus amores. Afinal, o amor é algo que todos podem viver. Ana Paula Arósio em uma entrevista declarou que “ser gay, era só uma das coisas que fazia parte da vida de Julia”, e está corretíssima em sua afirmação. O filme não é sobre isso.

A música do filme de Bia Paes Leme é bem realizada. A decupagem de cenas são muito bem selecionadas e o elenco é acertadíssimo. O sol, só aparece com a virada na vida de julia. Isso é muito simbólico e colocado de maneira natural.

“Como Esquecer” é um filme atual, de facil indentifcação de jovens de 20,30 e 40 anos, que tem amigos, que vivem amores e decepções amorosas, que sairam da casa dos pais para dividir sua vida com amigos. Apesar de problemas no roteiro, em não se assumir como o cinema que é, a historia é interessante e universal. O filme não chega a ser ruim, mas é claro o potencial que tem, pra ser muito mais do que se apresenta.

Jair Santana

“Rosa Morena”, Carlos Oliveira, 2010

Rosa Morena

Rosa Morena

Rosa Morena, produção Brasil/Dinamarca, é o filme de estreia do diretor brasileiro Carlos Oliveira. E já em seu primeiro filme, de roteiro também seu com Morten Kirkskov,  Carlos apresenta uma direção segura e um estilo de filme que não é comum por aqui.

Rosa Morena é um drama denso, realista e acima de tudo emocionante. Thomas é um homossexual dinamarques, que por essa condição, em seu país não pôde adotar uma criança. Vem então ao Brasil, onde tem um velho amigo, Jacob, em busca desse filho adotivo. Até aí temos o velho clichê do europeu rico que vai aos paises pobres em busca de filhos adotivos. Mas os clichês param por aí.

Não mais disposto a esperar pelos tramites legais da adoção, Thomas busca seu objetivo querendo “comprar” um filho. Aí já temos um primeiro questionamento. O fato de se comprar uma criança de uma mãe, mesmo em dificuldade é correto? O filme porém não para por ai, assim como Thomas busca comprar, existe os que querem ganhar em cima desse interesse, fazendo disso, como é frisado em certa altura do filme, um grande negócio.

Thomas tenta uma primeira vez, se aproximando de uma mãe humilde e fazendo uma proposta.Porém não é bem vinda. A esposa de Jacob, interpretada pela ótima Viviane Pasmanter, trabalha com comunidades carentes e conhece uma mulher grávida que tem interesse no “negócio”. Thomas conhece e se aproxima da mãe e de sua familia. Passa então a conviver, conhecer e até se envolver com ela. Essa aproximação acaba trazendo problemas e tensão.

O filme tem vários acertos. O roteiro muito bem escrito, a direção de fotografia Philippe Kress é muito bem realizada. Interessante notar como é muito mais um estilo europeu que brasileiro. O olhar da periferia, da pobreza é diferente de como é retratado nos filmes brasileiros. Pois como o diretor salientou, o Brasil que vemos alí é a partir da visão de um europeu.

A escolha do elenco também é um ponto certo. Rostos menos conhecidos e o ótimo roteiro dá naturalidade as interpretações. Você acredita em cada personagem. Viviane Pasmanter é o rosto mais conhecido, e ainda assim, não é um rosto óbvio. O filme não se vende pelo elenco famoso e sim pela questão que coloca.

Ainda temos trilha sonora. Algo que ainda é um problema na maiorida dos filmes brasileiros, aqui é outro dos pontos mais fortes. O responsável é o compositor dinamarques Frithjof Toksvig, desconhecido por aqui, mas em seu país é um compositor bem requisitado para trilhas de cinema, séries e comerciais.

“Rosa Morena” é um filme que questiona, mas não julga. Faz melhor. Nos coloca situações para que o espectador avalie, pense, se questione. E também chama atenção tanto para a lentidão na justiça para uma adoção (existem mais de 80 mil crianças orfãs no Brasil), para também o quanto é “facil” burlar a lei e conseguir esse filho por outras vias. Mais que certo ou errado, o filme nos apresenta uma realidade muito particular dessa situação, questionando mas não colocando um ponto final.

Cinema brasileiro com um outro e novo olhar. O jovem diretor Carlos Oliveira, que hoje vive na Dinamarca, trás uma autênticidade ao cinema brasileiro que vemos pouco. O cinema que por aqui costuma se resumir a comédias e filmes de ação, encontra nesse drama um debate sobre questõres muito próximas a nossa realidade. E aí é a grande chave do filme.

“Rosa Morena” não é um filme sobre favela, sobre pobreza, é sobre relações humanas e busca de um sonho. O quanto custa buscar o seu sonho e até onde podemos ir por eles.

Jair Santana

“Dois Irmãos”, Daniel Burman, 2010

Dois Irmãos

Dois Irmãos

O novo filme do jovem diretor argentino Daniel Burman, de “O Abraço Partido” e “Ninho Vazio”, é mais um ótimo filme de uma bela filmografia. “Dois Irmãos” pode ser um filme crítico, inteligente mas também não deixa de ser um filme humano e bem humorado.

Susana (Graciela Borges, de “O Pântano”) é uma perua egocêntrica e valoriza o próprio sucesso acima de tudo. Por esse motivo, deixou exclusivamente a cargo do irmão Marcos (Antonio Gasalla), um homossexual enrustido e omisso, que tem a tarefa de cuidar da mãe. Quando esta morre, Marcos se vê solteiro aos 64 anos e sem grandes realizações profissionais e sem grandes perspectivas. Ao ser levado por Susana a sair do próprio apartamento onde sempre morou com a mãe em Buenos Aires, ele vai buscar asilo em um vilarejo no Uruguai. Lá, ingressa em um grupo de teatro, desenvolve amizades, se apaixona pelo diretor e assim recupera a vontade de viver.

Os irmãos protagonistas, são meio que uma sintese do argentino atual. Susana, mesmo que de um modo exagerado, é uma mulher sofisticada mas decadente, cheia de artimanhas para manter certa aparencia ela mantem um certo ár de superiodade. Seu contraponto, o irmão Marcos é ao mesmo tempo que mais equilibrado, tambem mais conformado com o rumo que sua vida tem tomado. Ao ponto de permitir que em uma das falcatruas da irmã, abandone sua casa para viver em um vilarejo no Uruguai.

Susana não se cala. seja onde estiver, ela não para de falar, pro irmão, vizinhos, ou um corretor que acabou de conhecer, sempre contanto vantagens de uma vida que não é a sua. Marcos, mais ouve que fala. Se mantem sempre obtuso a quase tudo que acontece. Mesmo em sua mais brusca reação, Marcos nada fala. Se isola, mas não fala nada.

O filme tem vários acertos, roteiro, direção, mas talvez o maior deles seja mesmo a escolha e direção de atores. Graciela e Antonio estão ótimos, dão o tom certo de verdade e graciosidade nos seus personagens. Soma-se as ótimas interpretações, o ótimo roteiro, baseado em livro de Diego Dubcovsky, é agil, com ótimas tiradas, e mesmo com dramas familiares e finaceiros, o humor é permanente.

“Dois Irmãos” não é o melhor filme do ano e nem arrebatará multidões para o cinema. Mas é um filme leve, acessível e inteligente que terá seu público. Uma aula de cinema dos nossos hermanos. Enquanto o cinema brasileiro, com raras exceções, tenta imitar o cinema americano, o argentino cria sua própria identidade, caminhando para um cinema humano, inteligente, simples e não por isso um cinema menor. Temos muito que aprender com eles.

Jair Santana

“Senhor das Armas”, Antonio Pinto

Filme: Senhor das Armas
Diretor: Andrew Niccol
Ano: 2005
Música: Lord of War Theme
Compositor: Antonio Pinto
Trilha Sonora: Antonio Pinto