Entrevista com Domingos Oliveira

Domingos de Oliveira

Domingos de Olveira

Domingos Oliveira, é carioca, formado em engenharia mas nunca trabalhou na área. Após se envolver com teatro amador nunca mais deixou o mundo artístico. Hoje é dramaturgo, diretor, roteirista, podemos afirmar que é um artista completo. Um dos mais respeitados  do país. Com seus mais de 70 anos, é bastante atuante, em 2010 lançou um filme, duas peças, alguns contos, tem um blog na revista Bravo!, tem um espetáculo de música e muito mais.

Bairrista (ao mesmo tempo que universal), é muito mais conhecido no Rio que em São Paulo, pelo menos para o grande público. Seus filmes retratam muito o mundo em que vive. A boêmia e o mundo artístico carioca. Uma vez, marcamos uma reunião onde eu queria lhe apresentar a proposta de um projeto. Ele marcou no escritório em uma quinta a tarde. Na quarta me ligou dizendo, ”Jair, podemos marcar na quinta a noite?”, respondi que sim logicamente, e ele continuou”Podemos marcar em um bar. Na Academia da Cachaça ali perto do Teatro do Leblon? Fica mais informal né”. Fiquei feliz com aquela proposta na verdade. Eu iria conversar com um dos meus ídolos, em um bar, tomando cachaça. Muito mais descontraído que em um escritório.

Conversa vai, conversa vem, falamos da vida, do cinema, e falando sobre roteiros, Domingos  deu de presente o “pulo do gato” para novos roteirista: “Escrevam sobre o que vocês conhecem. O que vocês sabem. Não queiram escrever sobre aquilo que vocês acham. Escrevam sobre aquilo que vocês tem intimidade. Pois aí, o roteiro de vocês será verdadeiro”. Nada mais certo que isso. E assim são os roteiros de Domingos. Sobre o que ele conhece bem. A boêmia carioca, o baixo Leblon,  amores, família, sobre arte e artistas . Relações humanas como ele  gosta de colocar.

Mas não foi aí a entrevista. Criei um blog, com o nome de um grupo de cinema que eu fazia parte no Rio. Além das minhas opiniões sobre filmes que assisto também queria algumas entrevistas. Domingos foi a terceira dessas entrevistas (antes conversei com Laís Bodanzky e André Klotzel). Mandei um email e marquei uma conversa por telefone com Domingos,  já que agora eu estava em São Paulo e ele no Rio de Janeiro.

Conversei aproximadamente uma hora com Domingos. Ele não determinou tempo, nem limitou assunto. Confesso que eu estava nervoso, mas foi diminuindo ao passar do tempo. Domingos  e eu riamos de algumas coisas, e me pareceu sem graça quando afirmei que ele era um dos mais respeitados artistas do país. Sua humildade, ou melhor, simplicidade talvez, tenha feito com que ele meio que desconversado do assunto. Peguei alguns dos pontos mais importantes e transcrevi aqui.

JairS:  Você filmou “Carreiras” em ordem de roteiro, e parece que “Juventude” também. Você prefere filmar assim que por uma ordem técnica? Assim não é mais complicado?

Domingos: O filme é como uma casa de tijolos. Tem que se construir em uma ordem. Na verdade, filmar em ordem técnica é uma teoria técnica. Eu sempre tento filmar na ordem do roteiro em respeito aos atores. Tenho raiva das ditaduras dos técnicos. Da luz que demora duas, três horas pra montar. E a minha inspiração onde fica? E os atores? Eu brigo muito com a técnica, me preocupo bem mais com os atores que a técnica do filme.

JairS: Em seus trabalhos como em sua vida, sempre existe uma musa, uma grande mulher que lhe inspira. Pelo menos na maioria deles. Não lembro de saber do Domingos solteiro por muito tempo. Acho que isso, que essa relação sua com sua esposa, agora com a Priscila, já foi com a Leila Diniz, enfim, acha que se elas não existissem na sua vida, seu trabalho seria diferente?

Domingos: A paixão é necessária pra todo trabalho. E preciso estar saudável pra se trabalhar e estar apaixonado é estar saudável. Sim, a vida sem paixão é um grande tédio. Tudo é paixão, sexo como dizia Freud. Na política, as relações, tudo. Freud tinha razão. Paixão é loucura, ela te coloca em contato direto com Deus. Eu preciso da paixão pra me colocar em movimento. Sou um apaixonado

JairS: Domingos, você escreve contos, livros, roteiro pra cinema, teatro, atua, dirige,  canta, produz, atua em várias vertentes, enfim. Uma vez li que cantar era algo que estava te dando muito prazer. Um dos teus aniversários fizestes um grande karaokê inclusive. Mas tem uma, dentre todas essas atividades que te identificas mais? Que se você pudesse, se classificaria?

Domingos: Acima de tudo sou escritor. Esse é o meu barato, ser escritor. Meu papel mais importante na arte é ser autor. Tudo que eu faço é em função de ser autor. Todo artista acha que arte é uma atividade de auto-ajuda. A melhor coisa do mundo é saber que você tem uma alma, e melhor ainda é saber que você pode melhorá-la, e a arte serve pra isso.Para melhorar a alma.  E eu melhoro a minha escrevendo primeiramente.

JairS: Durante um tempo se achou que você era contra o Cinema Novo. Que o pessoal do Cinema Novo não gostava de você e vice versa. Qual a verdade nisso? Você nunca participou do movimento,  que é considerado o mais importante movimento do cinema brasileiro e  que foi contemporâneo  a você. O Cinema Novo acabou, e seu estilo, continua o mesmo, desde “Todas as Mulheres do Mundo”. Seu estilo, seu foco sempre foram relações humanas acima de tudo.


Domingos:
Não tenho nada contra o cinema novo. pelo contrario. Acho um movimento importantíssimo. E afinal, tem gente do cinema novo aí até hoje. Achava eles muito criativos, e fizeram o cinema exemplo disso, dessa criatividade. Mas era ruim de dramaturgia. E eles eram muito políticos, e eu pessoalmente acho a política suja, chata. Isso é só um detalhe, bobagem. Gosto de escrever sobre relações humanas, sempre gostei. O povo de direita, a imprensa de direita é que me colocava contra o cinema novo, contra o Glauber, mas eu adorava o Glauber. Sempre tive muito boa relação com ele. Teve até aquele episódio que eu encontrei ele no banheiro depois da estreia de “Terra em Transe” e o abracei emocionado o parabenizando pelo filme.

JairS: E o B.O.A.A. (Baixo Orçamento e Alto Astral)? Foi um movimento, foi uma crítica, uma brincadeira. Eu realizei um filme com o B.O.A.A. Coloquei nos créditos em homenagem a você. O BOAA acabou?

Domingos: O B.O.A.A. não morreu, é algo que criei para realizar cinema. Algo pessoal mesmo.  Já lutei muito por isso mas tive uma reação muito negativa. Só se quer pagar o filme pelo projeto, de se escolher na subjetividade, e eu sou a favor de mais do que o projeto, sou a favor do filme, da arte em geral. De alto orçamento, de baixo orçamento, sou a favor da realização. O B.O.A.A. foi a idéia que tive de realizar e posteriormente capitar recursos para se pagar aquela equipe. Com filme pronto, por todos terem trabalhado a valores mínimos ou até nem isso, somente como colaboradores, algo meio como uma cooperativa. Mas não deu certo. Não quiseram, não aceitam pagar depois de o filme pronto. Prefere-se julgar pelo projeto que pelo próprio filme.

JairS: Domingos, você é um dos mais respeitados artistas brasileiros. Pode não  ser tão conhecido pelo grande público, mas qualquer um adoraria trabalhar com você. Lí que mesmo pra você é difícil conseguir patrocínio para seus trabalhos. Que muitas vezes você precisa ir até o diretor de marketing com um global, como foi o caso do filme “Todo Mundo Tem Seus Problemas Sexuais” que você ia com o Pedro Cardoso visitar o marketing. Mesmo com toda sua historia na arte brasileira, porque acha que isso acontece?

Domingos: Eu não sou famoso. Ninguém é famoso no Brasil. Eu sou um cara simples, sou respeitado no meio eu sei, mas sou muito simples. Quando você vai atrás de patrocínio as empresas acham que a gente quer tirar dinheiro deles, que queremos ficar rico com o patrocínio deles, mas eu insisto. Não sou rico, nunca fiquei rico com algum trabalho meu. Pelo contrário, eu até já perdi dinheiro. E eu continuo fazendo, tenho sempre 10 projetos nas mãos. Muita gente tem inveja de mim sabe, porque sou muito livre. E realizo e realizo e realizo. Com dinheiro ou sem dinheiro. E isso incomoda muita gente.

JairS: E sua relação com os atores. Muitos adorariam trabalhar com você,  atuando em seus filmes, suas peças, acho que trabalhariam até de graça.  Qualquer ator toparia. Mas você na maioria prefere trabalhar com atores menos conhecidos. Já trabalhou com muito dos grandes e mais conhecidos, mas não é o usual. Trabalha com bons atores, mas dificilmente pega um ator, digamos, Global. Como é essa relação sua com a escolha do elenco.

Domingos: Ator adora fazer cinema porque acha que vai terminar em Hollywood. Mas teatro ninguém quer fazer, o público é restrito e paga pouco. Ninguém fica famoso com teatro. E nem fica rico. Essa é a relação.

3 Respostas

  1. Muito inteligente a entrevista. Clara, objetiva e de muito bom gosto.

  2. Entrevista gostosa…Deixa um gosto bom de quero mais…

  3. Querido, adorei a entrevista. Admirável teu empenho no blog!

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