“Nosso Lar”, Wagner de Assis, 2010

 

Nosso Lar

Nosso Lar

O diretor, de A Cartomante, e roteirista Wagner de Assis (“Xuxa Requebra” e “Xuxa e os Duendes 1 e 2) chega com seu segundo como diretor com “Nosso Lar”. Vale ressaltar, que para o segu segundo filme, é um projeto bem corajoso, bem ousado. O filme mais caro já produzido no país até hoj, 20 milhões de reais, perde apenas para “Lula – O Filho do Brasil” orçado em 15 milhões. “Nosso Lar” é baseado no best seller de Chico Xavier, o mais famoso espírita brasileiro, e aos que acreditam, psicografado pelo espírito de André Luis, o personagem principal da trama.

O filme conta a história de André Luis, um médico no início na década de 30, que é um homem muito materialista ligado a status, posição social, que vem a falecer logo no início do filme. Então, aí sim começa sua historia. Baseado na doutrina espírita, o filme conta como é feita essa passagem, da vida para o outro lado.

A historia em sí é curiosa, o livro (que não lí) pode ser realmente bem interessante, mas o  filme tem um grave, um gravíssimo problema. O roteiro. Sem dramaturgia.  Apesar do diretor ser antes de tudo um roteirista, o filme peca por diálogos superficiais e excesso de didatismo, cheio de frases feitas, que até podem (eu disse que podem) funcionar na literatura, mas não saindo da boca de um ator.  Talvez faltasse um personagem na equipe de roteiro chamado “dialoguista”. A adaptação do livro para o cinema é pobre e mal realizada.

Somando-se ao problema de roteiro está a interpretação, ou melhor, a falta dela principalmente do elenco principal. Renato Prieto e Fernando Alves Pinto não convencem em seus papeís, talvez por falta de direção. Contudo, o roteiro já não colabora e falas não o ajudam a estar a vontade,  e com isso o filme perde muito.

E por último, pelo menos o que considero o último grande problema do filme. A edição,  careta, sem ousadias, parece apresentar o mesmo didatismo do roteiro. O intercalar o personagem principal em vida ,  e vida pós desencarnado por exemplo, nos afasta do personagem principal. Não há envolvimento, e chega a cortar o clima de boas situações

O diretor peca também na direção quando tenta explicar com off o que as imagens já estão mostrando. Algo muito comum em telenovelas. A primeira parte, no lugar identificado como umbral, o diretor insiste em nos mostrar e explicar tudo que está acontecendo. Cinema não é isso. Ou você mostra, ou você explica, fala, conta.

 

 

Mas o filme não é só problemas não. A mal escolha do elenco principal, compensou com um elenco de coadjuvantes maravilhoso. Em especial Selma Egrei, a mãe do personagem principal, temos ainda Paulo Goulart, e sub aproveitada Chica Xavier. Não entendi a opção do diretor em sub aproveitar o melhor elenco.

A direção de arte está muito boa, os efeitos visuais do filme são bons, mas não maravilhoso como muitos tem comentado. O umbral, é muito mais bem produzido que a cidade “Nosso Lar” por exemplo. Na cidade, com construções inspiradas na arquitetura de Oscar Niemeyer, você percebe certa superficialidade, e uma frieza (como Brasilia) que em alguns momentos chega a incomodar, pois alí deveria ser um lugar feliz e bom para se “viver”. Os efeitos visuais foram realizados por uma empresa canadense que realizou os efeitos de filmes como “A Fonte da Vida”e “Anjos da Noite – A Rebelião”.

O diretor peca em muitos momentos, mas percebe-se um cuidado com a decupagem do filme. Ele realmente estuda movimentos, posicionamentos mais trabalhados, e isso ajudou a fotografia de Ueli Steiger, de “10.000 A.C” a realizar um bom trabalho.

A música de Philipe Glass, o compositor americano que já compôs trilhas pra filmes como “Notas de um Escândalo”e “Sonho de Cassandra”,  não decola. Se esperou muito de sua música para esse filme, mas a trilha caiu em lugar comum, tão comum que você nem lembra dela ao sair do cinema. O que realmente foi uma pena, pois uma boa música melhoraria algumas cenas dramáticas do filme. Mesmo que não savasse, ajudaria.

Quanto a historia, não foge muito ao moralismo cristão-ocidental-conservador de sempre, mas ainda assim o filme emociona, principalmente se você tiver alguma identificação com a doutrina espírita. Não há surpresas, o roteiro é clássico, apesar de mau trabalhado. O herói começa de um jeito, e há sua transformação no decorrer da historia, e ele chega ao fim com uma nova pessoa, mais maduro, mais forte.

Não acho que como filme, seja um material realmente relevante. Mas acredito, que também como cinema nacional, tenha seu valor, que é o de levar pessoas que não estão acostumadas, a sair de casa pra assistir o filme nacional na tela grande. E só esse mérito, já deve ser congratulado. Outro seria, que há sim possibilidade de se realizar outras temáticas no cinema nacional para grande público, que não seja violência e comédias bobas.

Jair Santana

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