Entrevista com André Klotzel

André Klotzel, é diretor paulistano formado em cinema na USP, já trabalhou na Boca do Lixo, com diretores como Nelson Pereira dos Santos, e em meio a curtas e longa metragens foi diretor de filmes como “A Marvada Carne”(1986), sucesso de público e crítica, o filme foi vencedor de quase todos os Kikitos em Gramado, 10 ao todo, incluindo direção, filme pelo juri oficial e popular, entes muitos outros, visto por mais de 1.2 milhões de espectadores no país, e em uma época que antecede a moda do cinema brasileiro lá fora, o filme foi vendido pra mais de 15 países e convidado a 22 Festivais Internacionais. Depois André dirigiu alguns curtas e os longas “Capitalismo Selvagem” (1993) e Memórias Póstumas”(2001), e ainda o recente “Reflexões de um Liquidificador”, o principal assunto na entrevista que ele concede aqui.

A entrevista foi uma conversa leve e descontraída. O diretor mostrava muita segurança, objetividade e simpatia nas respostas. Ficou mais claro ainda, o lado autoral de seu trabalho. Ele sabia, comentava sempre sendo muito claro, cada mínimo detalhe de toda preparação, de todos os pontos de seu filme.

JairS: Como você chegou ao roteiro. “Reflexões de um Liquidificador” é o primeiro filme que vejo que você não aparece envolvido no roteiro.
André Klotzel: Sim realmente, esse é o primeiro roteiro que não é me envolvi diretamente. O roteiro era de um amigo, que queria me mostrar. Eu lí o roteiro e rolou uma empatia. Conversamos, mexemos no roteiro, 6, 7, 10 vezes até chegar onde chegou. Ele mexeu no roteiro mas através de muitas conversas entre nos dois.
E sim, esse é o primeiro roteiro que filme, que a ideia não partiu de mim. Não lembro de nem um outro amigo meu , nem outro caso parecido, que o roteiro tenha vindo dessa maneira. Sendo que desde o inicio estou envolvido no projeto. Bateu uma química, uma empatia forte pelo roteiro.
O roteiro, tem que me desafiar, e essa empatia tem que realmente ser forte, essa química tem que ser forte, pois um filme, esse roteiro, eu terei que conviver por um longo período de tempo. Desde sua primeira versão, até a filmagem, montagem, lançamento, todos os festivais, enfim…. é muito tempo de convivência.

JairS: Vejo seu cinema também como um cinema bem autoral. Geralmente além da direção, você também é roteirista, e produtor. Aqui, você também novamente produtor. Isso é opção, para se ter liberdade dessa realização ou mais uma necessidade de não encontrar um produtor que fosse parceiro no projeto, ou mesmo que topassem por ser um roteiro ousado?
André Klotzel: Bom, comecei no cinema como produtor. Meu primeiro trabalho foi como na “Boca do Lixo”, depois fiz assistência de direção do Nelson Pereira dos Santos em “A Estrada da Vida”. Na verdade estou muito confortável como produtor, mas claro que seria muito mais confortável eu ter um produtor. Porém, eu mesmo sendo o produtor, tenho mais liberdade artítica evidentemente, mas é claro que isso tem um preço a se pagar.
Sou o produtor, porém,  me associei a algumas pessoas durante as filmagens para ficar focado na direção. Trabalhei com os produtores Rui Pires e André Montenegro da Aurora Filmes, e assim, durante as filmagens eu não sabia de nada relativo a dinheiro. Só saberia se tivesse algum problema, oque não chegou a acontecer. Durante as filmagens, fui somente diretor, não assinei cheque nem um.Realmente me desliguei do meu lado produtor.
Depois, a função de produtor volta novamente, e tenho que cuidar da carreira do filme, do lançamento, mas isso anda lado a lado com a função de diretor também.

JairS: Como funcionou a escolha do elenco? O Selton por exemplo que é o ator mais popular do elenco só se utiliza a voz, ao mesmo tempo temos a Ana Lucia Torre, que pode não ter o mesmo apelo popular, mas é uma atriz de uma carreira maravilhosa, e ainda nomes como Aramis Trindade e Fabiula Nascimento, que também são menos conhecidos do grande público porém, até mesmo por isso, dão uma verdade maior ao filme. Como se chegou a esse elenco?
André Klotzel: Bom, antes de mais nada, eu como diretor, não me sentiria bem por usar como critério de escolha do elenco, o marketing do filme. Minha postura é ter os atores no filme, que realmente tem que ser. E eu sinceramente acho que acertei. To muito satistfeito com o elenco do filme. E a boa escolha do elenco é metade do trabalho para se ter um bom filme.Para se chegar a esse elenco, não precisei fazer testes. Não acho que se precisa sempre. Já fiz testes, mas quando fiz, era porque não tinha visto nada dos atores. No caso desse filmes em específico (Reflexões de um Liquidificador”) eu já conhecia os atores, então o teste seria uma situação meio superfificial até.

JairS: Outra coisa que me chamou atenção no filme foi o casamento do lado mais técnico do filme. Direção de arte, fotografia, música, tudo, som, tudo é muito bem realizado, muito bem casado com a proposta do filme de ficar sem grandiosismos aqui ou alí.
André Klotzel: A proposta do filme é justamente essa, de nada se sobressair demais a outra. Tudo é uma coisa limpa. O menos é mais. Trabalhar sempre em função do roteiro, da historia do filme.. Nada de se gritar muito, a leveza é muito mais valorizada. Nada de muitas sombras, de música muito alta e etc. O mais importante, repito, é a historia. Pensar no que é preciso e o que pode ser superfulo.

JairS: Vemos na sua carreira um espaço um pouco longo entre um curta e outro, mas também uma série curtas também. Muito veêm o curta apenas como um passo, um meio de se chegar a um longa metragem. Como é sua relação com o curta e longa metragem?
André Klotzel: O que me chama atenção é um bom roteiro. Eu gosto de realizar curtas e longas, vejo os dois apenas como gêneros diferentes, linguagens diferentes. O problema é que não dá pra se viver de curta metragem hoje. Na verdade viver de longa metragem também é bem dificil, os projetos levam tempo, mas apesar de também ser dificil, ainda é mais possível se viver de longa. É preciso de realizar projetos paralelos para se sobreviver de cinema. E voltando aos curtas, eu não me sentiria a vontade de concorrê a prêmios de editais com curtametragistas, com diretores iniciantes, pois já sou um diretor de longa, e acho que seria uma concorrência injusta, visto a historia que já tenho.

JairS: Pra finalizar, como está a carreira do “Reflexões de um Liquidificador”? Seu lançamento nas outras capitais do país já esta toda fechada, ou ainda vai ser estudado. Visto que vejo que alguns lançamentos demoram, e as vezes nem chegam a sair do circuito Rio-São Paulo, a não ser em festivais.
André Klotzel: Bom, não tem nada fechado. O lançamento paulista por exemplo é meio que experimentaç. Vários preços, algumas sessões com pocket shows, e eu gostaria muito de repetir esse tipo de lançamento no restante do país, mas vai depender de como é aceito aqui. A verdade, é que o filme depende de sua continuidade de público, então é a partir do que acontecer aqui, que vamos planejar o restante.

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2 Respostas

  1. […] André Klotzel, diretor paulistano, tem uma carreira com filmes de sucesso de público e crítica, e vencedor de vários prêmios, além de filmes exibidos em Cannes, Festival de Berlin, entre outros festivais pelo mundo. Apesar de uma bela carreira, ainda é um diretor de nome não tão conhecido pelo grande público. (Veja entrevista com o diretor aqui) […]

  2. […] entrevistas. Domingos foi a terceira delessas entrevistas (antes conversei com Laís Bodanzky e André Klotzel). Mandei um email e marquei uma conversa por telefone com Domingos,  já que eu estava em São […]

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