“Entreatos”, João Moreira Salles. 2004

Entreatos

Inquestionávelmente,  “Entreatos” é mais um ótimo documentário de João Moreira Salles, que ja provou saber conduzir esse estilo de filme, com filmes como “Nelson Freire” e “Santiago”. O que fica aparente também, é que parece um filme quase que encomendado pelo próprio Lula.

O filme mostra os ultimos dois meses, ou melhor, os ultimos 40 dias do Lula antes de ser presidente do Brasil, ou seja, a disputa já estava bem definida quando o João chegou pra filmar. Como havia possíbilidade dele ganhar no primeiro turno, as filmagens foram adiantadas

Apesar das autorizações prévias, a equipe ainda tinha que negociar diariamente nova autorização para as filmagens. Dificil acreditar que isso não aconteceria. Logo, temos apenas imagens que não comprometem a imagem do Lula, dificil acreitar que a liberdade seria tanta, que não precisariam ter uma acessoria de imprensa que “filtrariam” as imagens depois. Mesmo que o João diga o contrário, como ele já disse.

O filme vende a imagem de um Lula, boa gente, simples, brincalhão (a melhor de todas é ele fingindo falar no telefone com o Bush), amigo, sensivel, enfim, quem não gostaria de um lider com todas essas qualidades? O filme chega, justamente em um momento do governo Lula, que se esta passando por uma crise de aceitação principalmente entre os intelectuais que os apoiaram, e o filme atinge justamente a que público?

“Entreatos” tem como proposta a mais pura das propostas de um documentário: A observação. Em nem um momento há um entrevistador que pergunte algo ao Lula, em nem um momento há interferência em qualquer atividade que o Lula esteja fazendo por parte da equipe, mas também não é um “Big Brother”, onde se pode até esquecer de está sendo filmado por não vêr a câmera. A consciência disso é muito clara, a equipe é grande ( sete pessoas entre tecnicos e direção), o Lula sabia o tempo todo e também era lembrado o tempo todo, pela presença dessa equipe. Logo, o que vemos alí, é uma interpretação de como o Lula gosta de ser visto.

Muito delicada a situação do diretor, em filmar um governante, durante sua reta final para a vitoria, e lançar o filme enquanto esse governante se encontra no poder. Dificil acreditar na autênticidade do filme, quando observamos o momento de sua realização.

O personagem popular que vemos, é encantador. O real carisma de Lula é incontestável. A fortaleza que o cerca também é incontestável. A cena em que José Dirceu questiona a existencia da equipe e os expulsa da sala é muito emblemática e coloca a força que esse outro personagem tem na vida política de Lula. Não é o candidato que expulsa, mas sim seu “braço direito”.

Concluindo, o filme é bom sim, tem um fotografia maravilhosa, em especial a ultima cena é fantástica, o olhar do documentárista se afasta, depois de acompanhar por 40 dias aquele personagem, e o entrega nas mãos da mídia e do povo. Mas a intimidade criada entre os dois não se repetirar com toda aquela multidão de câmeras e flashs. O único olho que registrou tudo, foi o “nosso”, através do diretor.

Jair Santana

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