“Dúvida”, Howard Shore

Filme: Dúvida
Direção: John Patrick Shanley
Ano: 2008
Música:Doubt Ost – Main Title
Composição: Howard Shore
Trilha Sonora do Filme: Howard Shore

“Entreatos”, João Moreira Salles. 2004

Entreatos

Inquestionávelmente,  “Entreatos” é mais um ótimo documentário de João Moreira Salles, que ja provou saber conduzir esse estilo de filme, com filmes como “Nelson Freire” e “Santiago”. O que fica aparente também, é que parece um filme quase que encomendado pelo próprio Lula.

O filme mostra os ultimos dois meses, ou melhor, os ultimos 40 dias do Lula antes de ser presidente do Brasil, ou seja, a disputa já estava bem definida quando o João chegou pra filmar. Como havia possíbilidade dele ganhar no primeiro turno, as filmagens foram adiantadas

Apesar das autorizações prévias, a equipe ainda tinha que negociar diariamente nova autorização para as filmagens. Dificil acreditar que isso não aconteceria. Logo, temos apenas imagens que não comprometem a imagem do Lula, dificil acreitar que a liberdade seria tanta, que não precisariam ter uma acessoria de imprensa que “filtrariam” as imagens depois. Mesmo que o João diga o contrário, como ele já disse.

O filme vende a imagem de um Lula, boa gente, simples, brincalhão (a melhor de todas é ele fingindo falar no telefone com o Bush), amigo, sensivel, enfim, quem não gostaria de um lider com todas essas qualidades? O filme chega, justamente em um momento do governo Lula, que se esta passando por uma crise de aceitação principalmente entre os intelectuais que os apoiaram, e o filme atinge justamente a que público?

“Entreatos” tem como proposta a mais pura das propostas de um documentário: A observação. Em nem um momento há um entrevistador que pergunte algo ao Lula, em nem um momento há interferência em qualquer atividade que o Lula esteja fazendo por parte da equipe, mas também não é um “Big Brother”, onde se pode até esquecer de está sendo filmado por não vêr a câmera. A consciência disso é muito clara, a equipe é grande ( sete pessoas entre tecnicos e direção), o Lula sabia o tempo todo e também era lembrado o tempo todo, pela presença dessa equipe. Logo, o que vemos alí, é uma interpretação de como o Lula gosta de ser visto.

Muito delicada a situação do diretor, em filmar um governante, durante sua reta final para a vitoria, e lançar o filme enquanto esse governante se encontra no poder. Dificil acreditar na autênticidade do filme, quando observamos o momento de sua realização.

O personagem popular que vemos, é encantador. O real carisma de Lula é incontestável. A fortaleza que o cerca também é incontestável. A cena em que José Dirceu questiona a existencia da equipe e os expulsa da sala é muito emblemática e coloca a força que esse outro personagem tem na vida política de Lula. Não é o candidato que expulsa, mas sim seu “braço direito”.

Concluindo, o filme é bom sim, tem um fotografia maravilhosa, em especial a ultima cena é fantástica, o olhar do documentárista se afasta, depois de acompanhar por 40 dias aquele personagem, e o entrega nas mãos da mídia e do povo. Mas a intimidade criada entre os dois não se repetirar com toda aquela multidão de câmeras e flashs. O único olho que registrou tudo, foi o “nosso”, através do diretor.

Jair Santana

“Tulpan”, Sergey Dvortsevoy, 2008

Tulpan

“Tulpan”, filme de estreia ficcional do diretor de documentários Sergey Dvortsevoy, é um filme poético, sobre escolhas e sobre a aceitação, ou mesmo conformismo, de um determinado estilo de vida.

Asas, interpretado com grande realismo pelo não ator Askhat Kuchinchirekov, é um ex-marinheiro, que ao retornar do serviço militar para casa, tem o choque do retorno ao sentir o isolamento, que até antes de sua partida, era a única realidade que conhecia.

Asas entrou em contato com a civilização, teve acessos a coisas que alí não mais terá. Viu grandes casas, prédios, carros. A escolha entre o se conformar e assumir sua historia antiga, de ser pastor de ovelhas, ou uma historia nova, de desbravar novos lugares, novos mundos, é o grande questionamento do filme.

Para se firmar naquele lugar, deserto do Cazaquistão, Asas precisa casar, e para casar precisa ter um emprego, o que naquela região seria de pastor de ovelhas para um fazendeiro local. Mas Asas ainda não é um pastor, e é rejeitado pela familia da pretendente, com a desculpa de sua aparência física ( a pretendente diz que Asas possue orelhas grandes demais).

Então, parte da historia, é a readapitação de Asas ao local. Suas dificuldades em se tornar um pastor, de se moldar aquele estilo de vida, suas brigas com o duro cunhado, o carinho por seus sobrinhos.

Aquela é sua historia, Alí estão suas raizes. Sua irmã, sua familia, mas aquele mundo agora, Asas se questiona, se ainda é o seu. O rito de passagem para se tornar um adulto, não foi em alto mar, não foi sozinho enquanto servia a marinha, e sim acontecerá agora, em seu regresso.

O diretor Sergey Dvortsevoy nos coloca o quanto vazio, grandioso e isolado é aquele deserto. Como é dificil e dura a vida naquele lugar. Em grandes planos abertos, temos apenas a natureza como personagem com maior interferência na vida daquelas pessoas. Os poucos animais, o som forte do vento, a terra seca.

Depois de situados, familiarizados com esse deserto, a câmera chega sem percebermos quando ao certo, cada vez mais perto dos personagens. Da irmã de Asas, que é o equilibrio emocional da familia, da seu cunhado que é o responsável financeiro, e seus dois sobrinhos. De planos grandes e abertos, chegamos a câmera na mão,colada no ombro dos personagens. A intimidade agora é explorada ao máximo pelo diretor.

Muito emblemática a cena em que Asas mostra para Tulpan, que por sinal nunca vemos direito, o seu “paraiso”. Mostra desenhado em seu traje de marinheiro. O que seria o paraiso pra ele, ou pelo menos o que achava ser, e é justamente a vida que ele leva no deserto.

Ser um pastor de ovelhas, ter uma casa, uma esposa, um camelo. Asas não precisa de muito, ou pelo menos limitava seu ideal de vida, ao que achava que seria possível. Mas agora, ele se questiona sobre o que realmente quer para sua vida.

Outras duas sequências fortes no filme, são a que Asas, sozinho, fez o parto de uma ovelha, que se encontra fraca no meio do campo aberto. Sequência realmente forte, muito bem filmada, onde sintetiza alí, a virada do menino em homem. A outra, seria a partida do personagem para se aventurar no mundo. Quando Asas olha pra tras e enxerga extamente, o que seria seu paraiso, idealizado e desenhado em sua roupa de marinheiro.

O filme tem feito boa carreira internacional, vencedor do prêmio “Um Certo Olhar” em Cannes, arrebatou também prêmios no Festival de Tokio, Vezena e outros.

O filme não é um acontecimento cinematográfico, nem tem planos inovadores ou atuações que ficarão pra historia. Mas é um filme verdadeiro, não limitado a ser um filme étinico, e nem ao lugar ou época em que acontece. Sendo assim, essa já é uma grande arma do filme. Atemporal e a universalidade que apresenta.

“Tulpan” é um filme que emociona. Pela verdade que retrata, pela naturalidade de suas interpretações e pela verdade da direção.

Jair Santana