“Soul Kitchen”, Fatih Akin, 2009

Soul Kitchen

“Soul Kitchen” , último filme de Fatih Akin, alemão de decendência turca, diretor dos filmes “Contra Parede” e “Do Outro Lado”, passa pela maioria das pessoas, em geral o espectador comum, apenas como uma gostosa comédia sobre conzinha.

Mas observando sua filmografia, percebemos como estranho seria se o filme fosse exatamente ou somente isso. Akin é um diretor altamente engajado politicamente, crítico em suas realizações e também contextador. Mas nem por tudo isso, “Soul Kitchen” deixa, também de ser, uma deliciosa comédia.

Com uma sinopse superficial, poderiamos descrever o filme da seguinte maneira: A luta, para que Zinos (Adam Bousdoukos, que é também roteirista do filme) continue com seu restaurante, com os diversos obstáculos que aparecem, entre eles a distancia de sua namorada, dificuldades financeiras, o irmão pedindo sua ajuda, essas coisas de sempre. E superficialmente é até aí mesmo. Porém, é nas entrelinhas que encontramos o verdadeiro Fatih Akin.

Mais que uma cozinha, mais que um restaurante, o filme fala de áreas, não só em Hamburgo, mas que no mundo todo, estão sofrendo com a especulação imobiliária. Áreas onde, a alma, o “soul”, acaba dando lugar a enormes emprendimentos frios, porque tornam-se de uma hora outra pra outra, valorizadas.

Não há limites para essa especulação. Nem que para isso, tenha que se “fuder” com o governo. Como na cena em que Thomas, seu amigo de colégio, o especulador, interpretado por por Wotan Wilke Mõhring tranza com a fiscal do governo no meio do restaurante e ainda tira fotos em seu celular. No final, ele mesmo afirma estar feliz por “fuder com o governo”.

Mais longe ainda, o filme fala de como o alemão trata seu imigrante. Com certo preconceito e desprezo, mais que isso, com uma certa limitação de até onde pode esse imigrante chegar, como colocou muito bem Eduardo Diaz em sua crítica na Revista Cinética.

O restaurante “Soul Kitchen” tem um público, mesmo que limitado, mas um público que frequenta quase que diariamente o restaurante. Tentando solucionar seus problemas, Zinos tenta realizar uma mudança no cardápio para atrair novos frequentadores.

“Quando o menu é reformulado, o lugar esvazia, pois os frequentadores não querem criatividade, apenas que os imigrantes cozinhem sua comida e limpem seu chão. Logo, um novo público aparece: pessoas mais jovens, que entendem a nova comida (agora  “glamourizada”) e que buscam outras experiências além da comida: música, arte etc.” diz Eduardo Diaz Camarneiro da Revista Cinética (www.revistacinetica.com.br).

E é exatamente isso que Aki quer retratar. A negação ao novo, ao imigrante, do tradicional e velha sociedade alemã, a aceitação vem dos jovens, dos artististas, dos intelectuais..Mas ess público, esta aberto, mas não tem dinheiro, então Zinos, tem que recorrer a mesma sociedade alemã tradicional para lhe ajudar financeiramente.

Sendo uma comédia que é, estamos então aberto a reviravoltas mais absurdas possíveis, situações tragicômicas, como o próprio problema na coluna de Zinos, e diferente de seus outros filmes, temos em “Soul Kitchen”, tudo resolvido e um final feliz, no melhor estilo “happy end” de qualquer comédia, quase romântica.

A partir desse filme Fatih Akin expandiu seu cinema. Continuou fiel ao seu público e com toda certeza adiquiriu muitos outros, que buscarão sua filmografia anterior.

A música é também muito bem utilizada pelo diretor. A fotografia de Rainer Klausmann utiliza o maior número possível de luz natural e de interferência (aquela que está no próprio set como cenário).  O roteiro é do próprio Fatih Aki e de Adam Bousdoukos, que interpreta o Zinos Kazantsakis , é muito bem realizado, abordando temas fortes e mesmo assim, se mantendo como uma comédia desde seu primeiro instante.

No mais, “Soul Kitchen” é um filme divertido, apaixonante e inteligente, que deve ser visto com bastante atenção.

Jair Santana

2 Respostas

  1. […] seu segundo filme,  Fatih Akin , diretor de “Contra Parede” e  “Soul Kitchen”,  retrata o comportamento da “nova” comunidade europeia e também, de um modo geral, […]

  2. Eu ainda não vi nenhum destes filmes, mas gostei muito dos comentários e vou´procurar adquirí-los no site da Americanas.com e no Submarino.

    Muito grata,
    Lina

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