“Vocês, os Vivos”, Roy Andersson, 2007

Vocês, Vivos!

Vocês, Vivos!

 O diretor sueco Roy Andersson, utiliza pequenas esquetes do cotidiano, que parecem historias reais, mas com personagens caricatos e fotografia monocromática, e geralmente um único plano para nos apresentar essa experiência.

Apesar de na maioria das vezes tratar de assuntos sérios, quase sempre também as esquetes tem um tom cômico, mesmo que as vezes, infelizmente caia no pastelão.

Seja a punck que grita aos quatro cantos que ninguem a entende, a mulher que sonha com seu casamento, o homem que vai para cadeira elétrica por um motivo fútil ou os componentes de uma banda ensaiando. Tudo, tem seu lado pessoal, dramático e ao mesmo tempo um tom sarcástico e cômico.

Assim como a mulher punck, parece que o diretor faz das palavras dela as suas palavras. “Ninguem me entende”. E ficamos mesmo sem entender muito do que nos é apresentado. 

A ultima cena, onde aviões da 2° guerra sobrevoam a cidade, e todos olham para cima, fica meio perdida. Mas podemos “entender” como aquilo, sendo o único fator ou ação que liga todos os personagens a uma só situação.

 


O filme tem proposta, mas parece que se perde ao meio de sua própria proposta, que também parece não se sustentar. Em meio a suas apresentações de um único plano (as vezes dois) para cada cena, mas sem movimentos de câmera, utilizando apenas o de corte seco para editar, vemos uma cena com movimento, que parece perdida no meio do filme.. e quebra o encanto de toda obra.

O filme vale como experiência e novidade. Apresenta boas historias, bons questionamentos, as angustias se misturam ao engraçado, tem boa música, um bom clima, mas ao mesmo tempo parece faltar algo muito importante, o saber saber onde se quer chegar.

Jair Santana

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“W.”, Oliver Stone, 2008

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W.

Pode-se dizer, que Oliver Stone está entre os mais politicamente engajados, dos diretores americanos. Diretor de clássicos políticos como “Nixon”, “JFK – A Pergunta que não quer calar”, “Platoon”, “Nascido em 4 de Julho”, todos fazendo fortes críticas ao governo americano. Em “W.”, seu filme sobre a vida do ex-presidente americano George W. Bush, o diretor faz uma grande crítica ao ex-presidente e a era Bush.

“W.” é talvez o filme mais sarcástico do diretor. Ainda assim, Stone foi acusado de ser condescendente com o seu personagem, o ex-presidente George W. Bush, o que eu discordo, pois o diretor nos mostra, como ele mesmo falou no encontro promovido pela Folha e o Cine Bombril, que quis mostrar como um candidato e uma equipe totalmente equivocada chegaram a presidência dos EUA.

Em “W.”, vemos então um Bush patético, trapalhão, um playboy que tem como maior argumento a se candidatar a presidência um “chamado divino”. Isso mesmo, Bush se compara a Moisés, e diz que teve um chamado de Deus para se candidatar a presidência.

Josh Brolin está incrível no papel. O ator, que em “Milk” de Gus Van Sant interpretou outro político enfadonho, Dan White, faz aqui um outro trabalho inesquecível. “W.” tem outro ponto em comum com “Milk”, a interferência de imagens reais na sua diegese, o que dá maior veracidade ao filme.

Segundo o próprio Oliver, ele quis ser o mais justo possível com seu personagem, sua pesquisa, além de imagens, teve a leitura de várias biografias, o que vemos, por exemplo, de seu relacionamento com o pai, está tudo registrado em suas biografias. Relacionamento esse por sinal, quase que patológico.

Movimento de câmera que por muitas vezes se aproxima do documentário, mistura de imagens reais em meio as ficcionais, isso tudo deu um tom mais documental ao filme, mas que destoa da fotografia certinha demais em muitos outros momentos.

 

 

Esse talvez, seja o mais irônico dos filmes de Oliver Stone, recheado de música do imaginário americano, como “Pompa e Circunstância”, “Aleluia” entre outras, dando esse tom cômico e sarcástico em algumas cenas que nos mostram um presidente claramente risível.

Exemplo disso é a visita do presidente ao hospital para visitar vítimas de guerra, quando faz uma pergunta para um soldado que não pode falar pois está com a face destruída. O constrangimento parece abalar a todos a sua volta, só não o presidente.

Oliver Stone falou em seu bate papo virtual para Folha, que a era Bush está muito presente e viva ainda hoje, por isso mesmo viu a importância da realização desse filme mesmo depois da saída do presidente Gerge W. Bush.

“W.” é um filme para ser visto, até mesmo para não se esquecer desse que foi, de quem já se fala de pior presidente dos EUA, ou o maior equivoco.

A vergonha americana foi tanta, que as majors não quiseram bancar o filme, como o próprio Oliver colocou, mesmo sendo um diretor consagrado vencedor de dois Oscar, por “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, teve que buscar dinheiro fora do pais para realizar seu filme.

Sendo assim, “W.” é uma produção, digamos, globalizada, um pool de cinco países: EUA / Alemanha / Austrália / Hong Kong / Inglaterra. Isso, porque não é um filme caro para os padrões Hollywoodianos, tendo o custo de apenas 25 milhões de dólares.

Um filme não que pode deixar de ser visto, até mesmo para não se esquecer de tais equívocos.

Jair Santana

“Laços de Ternura”, Michael Gore

Filme: Laços de Ternura
Diretor: James L. Brookes
Ano: 1983
Música: Terms of Endearment Theme
Compositor: Michael Gore
Trilha Sonora: Michael Gore

 

“7 Nation Army”, The White Stripes

Música: 7 Nation Army
Ano:2003
Composição: The White Stripes
Album: Elephant

“Valsa com Bashir”, Ari Folman, 2008

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Valsa com Bashir

Estão reinventando o documentário. Assim como “Persépolis” de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi em 2007, o documentário também autobiográfico “Valsa com Bashir” se utiliza da encenação e da animação para reconstrução da historia.

A imagem não deixa de ser importante, e o real, não deixa de ser contato, mas a forma do documentário, antes pensada de forma somente “jornalística” , ganha mais amplitude.

Em entrevista para Revista Cinética, a cineasta Jia Zhang-ke nos presenteou com uma frase espetacular sobre esse tipo de realização: “Alguns dos sentidos de realidade não podem ser expressados pela mera observação do real. Em muitos momentos, a intervenção ‘surrealista’ é muito mais verdadeira para essa expressão do mundo”.

Sendo assim, “Valsa com Bashir” então, nos apresenta uma expressão surrealista para mergulhar no mais real que a guerra pode nos oferecer.

Partindo da premissa da reconstrução de sua própria memória, Ari Folman, o próprio cineasta, parte em busca de suas lembranças durante a Primeira Guerra do Líbano, pois até então, Folman, reconhecia a guerra apenas como um filme, se ausentando de sua real participação dela.

Mas então, com o reconhecimento do real, surge também um grande “mea culpa!” do diretor, usando assim, o cinema como exercício para catarse,  ou melhor, usando assim, o cinema como um grande exercício terapêutico.

 

 

Mesmo como um filme Israelense, mas não somente, a produção engloba também os EUA, França, Finlândia, Bélgica, Austrália e Suiça, o filme aponta a omissão, mais que isso, a conivência do Exército de Israel, com o massacre ocorrido em Sabra e Shatila, em 1982, onde em 15 e 16 de setembro daquele ano, a milícia libanesa cristã-falangista, revoltada com a morte de seu idolatrado líder Bashir Gemayel, executou centenas – possivelmente milhares (isso não importa) – de refugiados palestinos. Não muito diferente do que os Alemães fizeram com Judeus na Alemanha, mas esse outro lado nunca é contado pelos judeus.

Não é só o roteiro, a nova forma de realização de um documentário ou o lado psicológico do filme que nos arrebata. Tecnicamente o filme é impressionante. Seus traços são de uma realidade que impressiona, sua técnica da mistura de 2D e 3D, o movimento de câmera, as cores mais tranqüilas de sua vida atual e o alaranjado angustiante das lembranças de guerra. Tudo muito bem pensado e realizado.

Apesar da encenação, pois o diretor optou por vozes de atores e uma outra concepção do real, as imagens finais, depois de toda descrição sonora e visual da guerra, ainda nos choca. O desespero de famílias, a descrição do lugar pelo personagem e logo posteriormente as imagens documentais do lugar, nos deixa um silencio sepulcral nas salas de cinema.

Aquilo tudo por fim, se coloca como algo real. Todas as imagens descritas estão ali. A garotinha com cachinhos, morta entre os escombros e ratos, as mulheres desesperadas, a indiferença do exército.

Jair Santana

“Adeus Lenin”, Yann Tiersen

Filme: Adeus Lenin
Diretor: Wolfganger Becker
Ano: 2003
Música: Summmer’78
Compositor: Yann Tiersen