Gran Torino, Clint Eastwood , 2008

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Gran Torino

“Gran Torino”, novo filme de Clint Eastwood, onde ele além de dirigir também atua, é um drama, sarcástico, sobre uma atual e velha América. Uma América preconceituosa, conservadora, xenófaba e que se coloca acima de tudo e todos.

O personagem Walt Kowalski é um retrato de toda essa América, decadente em todos os sentidos. Kowalski é ex funcionário da Ford, que um dia foi a maior montadora e revendedora de carros do país, é também ex-combatente da gerra da Coréia, pai de dois filhos, marido fiel de uma única esposa, e, apesar de ter realizado o “american way of life” é uma pessoa solitária e infeliz.

Sua vizinhança, em uma cidade do meio oeste americano que não é identificada, é tomada por negros, latinos e asiáticos. Quase não existem “americanos típicos” por ali, o que para o Kowalski é inadmissível.

Mais uma vez, o cinema retrada a falta de identidade nacional, agora vemos isso em um filme americano, algo já retratado em “Horas de Verão” de Olivier Assayas e o recente “Entre os Muros da Escola” de Laurent Cantet.

A globalização tornou os países multicuturais, e estar fechado a isso, é sinônimo de atraso e preconceito. A aceitação torna tudo mais fácil e simples. Porém, para Kowalski, “seu pais” foi tomado por uma horda de estrangeiros.

Kowallski tem como seu maior símbolo do auge da glória americana, seu Ford Gran Torino 1972, que ele mesmo ajudou a montar. O carro, é conservado com mais carinho e cuidado que o personagem demonstra por seus filhos e netos.

 

 

Esse apego exacerbado pelo carro, representa o total dependência de um passado que não mais existe, e uma negação de um presente que está totalmente diferente do que foi um dia.

A tradições foram mantidas como dogmas que não mais funcionam. Como o almoço de ação de graças, a bandeira americana na porta de casa, o jardim bem cuidado e o velho churrasco de quintal.

O filme tem ótimos momento de humor, com piadas politicamente incorretas, atuações ótimas de Eastwood, e roteiro bem executado.

Porém, em alguns momentos parece não se aprofundar muito nas questões pessoais, e a má interpretação de Thao (Bee Vang), o garoto coreano pelo qual Kowalski se apega, compromete um pouco o filme.

“Gran Torino” é um filme acima de tudo crítico. Mais um ótimo filme da nova fase de Clint Eastwood desde de “Meninos e Lobos”. Talvez esse seja seu filme mais diretamente crítico a sociedade americana.

O filme é menos emocionante, por exemplo, que “Menina de Ouro”, porém com mais críticas sociais e morais, com mais crônicas sobre o modo de vida americano.

Ainda assim, vendo o filme, com toques do antigo formado de “velho oeste americano”, percebemos que o filme poderia ser mais do que é. Talvez um herói menos caricato, talvez um final menos politicamente correto, menos heróico, ou talvez não, pois o final é menos previsível, menos “Charles Bronson” do que o cinema americano adora executar.

Jair Santana

“Elephant Gun”, Beirut

Música: Elephant Gun
Ano: 2007
Composição: Beirut
Album: Lon Gisland

“Avenida Dropsie”, Felipe Hirsch

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Avenida Dropsie

 “Avenida Dropsie” é uma recriação cênica da gráphic novels de Will Eisner, recebeu quatro indicações ao Prêmio Shell e teve sua primeira montagem em 2005.

 A peça foi sucesso absoluto de público e crítica. “Aceite um conselho, entre num avião, tome um ônibus, suba num trem, pegue uma bicicleta, faça qualquer coisa mas vá a São Paulo assistir Avenida Dropsie” – Arthur Xexeu, editor do caderno de Cultura do Jornal O Globo no Rio.

Uma grande crônica sobre o cotidiano de uma grande cidade. Na peça, essa cidade é Nova York, mas que poderia ser qualquer outra grande cidade. Com seus encontros e desencontros, com seus ruídos, suas pessoas, que chegam de várias partes do mundo, enfim, seus vários olhares.

Com uma produção refinada e impecável, “Avenida Dropsie”, que poderia encantar simplesmente pelo ótimo texto e com ótimas interpretações que tem, nos ganha também pelo figurino, pela bela iluminação, e pelo grandioso cenário de Daniela Thomas. A quarta parede do teatro, conhecida como “invisível” torna-se “visível”, e adquire uma importante função narrativa. Filipe Hirsch mostra uma direção corajosa, inovadora, conceitual, e acima de tudo autoral. O que torna “Avenida Dropsie”, mais ainda, obrigatória para quem gosta de teatro.

No elenco, Guilherme Weber, que faz parte da companhia desde sua formação a 15 anos, Leonardo Medreiros, Érica Migon mais um grupo de cinco ótimos atores. Temos ainda um off do saudoso Gianfrancesco Guarniere. “Avenida Dropsie” vai até o dia 04 de abril, no teatro SESI Paulista, aos preços de 10 reais a inteira e 05 a meia, e fazem parte das comemorações do 15 anos da Sutil Companhia de Teatro. 

Jair Santana

“Human”, The Killers

Música: Human
Ano: 2008
Composição: The Killers
Album:
Human

“Entre os Muros da Escola”, Laurent Cantet, 2007

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Entre os Muros da Escola

O filme tem roteiro e direção de Laurent Cantet, baseado no livro homônimo de François Bégaudeau, que interpreta o professor François Marin do filme, esse filme de baixo orçamento, foi um sucesso de público (2 milhões só na França) e crítica na França e por onde tem passado.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes “Entre os Muros da Escola” nos coloca dentro de uma sala de aula, que representa a síntese da França atual.

O filme conta historia de um professor, François Marin, que da aula a turmas do ensino médio em uma escola do subúrbio de Paris, mostrando sua relação com os alunos, a luta por ensinar algo a eles, seu o dia a dia de sua sala de aula, os conflitos, as dificuldades, as relações dos alunos entre eles e com os professores.

A sala de aula é repleta de estudantes das mais variadas origens, com os mais diferentes interesses, enquanto François, de origem francesa, vindo de um ensino iluminista, quer ensinar literatura e artes ocidentais, seus alunos buscam outras coisas e muitas vezes não sabem o que é.

Assim é a França, mais que isso, a Europa de hoje, com forte problema de identidade, já retratado em vários filmes recentes, como em “Do Outro Lado” de Fatih Akin. A não aceitação de novas culturas, o conflito do velho com o novo, tudo isso, é colocado no filme.

François Bégaudeau, o autor do livro, que é um dos personagens no filme, o professor, é também professor na vida real. Os alunos do filme são em sua maioria, alunos de escolas francesas do subúrbio de Paris.

A maioria dos personagens, principalmente os alunos, tem o mesmo nome na vida real. O personagem principal, o professor, François Marin por exemplo é na vida real o professor François Bégaudeau, onde só muda o sobrenome. Com algumas exceções como o Souleymane que na vida real tem o nome de Franck Kelta e a maioria dos professores.

A historia de Souleymane é por sinal uma das mais interessantes. Seu personagem é irritante, brigão, indisciplinado, aparentemente até perigoso. Mas depois, percebemos que ele não somente isso, mas é também um bom filho, responsável por muita coisa em casa, tem uma familia unida, mas o conflito entre a cultura dentro de casa, a de fora, e falta de identificação com as duas talvez o deixe perturbado, negando tudo que chega até ele.

O filme, apesar de ser uma ficção, é quase realizado como um documentário, com tamanha verdade pela qual é filmado. Não só por nos colocar diante de verdadeiros alunos, professores, por nos colocar dentro de uma escola real e não de um cenário, mas pelo formato, pela segurança da direção, pela fotografia que é realizada no filme, com câmera na mão, com uma decupagem forte, com um tempo certo para cada cena.

“Entre os Muros da Escola” é um filme mais que francês, e sim mundial. Nosso mundo está com uma educação atrasada ( o Brasil então..), careta, sem perspectivas de melhoras, mesmo que o autor diga que seu livro não é negativo, é isso que vemos alí.

A cena em que uma aluna de François chega a ele, depois de ter passado o ano na sua turma, e diz: “Eu não aprendi nada esse ano. Nada me interessou e nada me interessa. Não quero ser nada quando crescer”, é um cena assustadoramente verdadeira.

O que fazer pra chamar atenção de uma criança assim? Como dentro do formato escolar de hoje, chamar essa garotinha e fazer com ela se interesse por alguma coisa?

Saí chocado do cinema. Saí extasiado com tamanha inteligência e sutiliza no roteiro. Sai maravilhado com o cinema ali me apresentado. Saí pensando. Pensar, é a melhor coisa que um filme pode nos proporcionar. Quando levamos ele pra casa, dormimos com ele, e ele não vai embora…fica por dias nos fazendo companhia.

Jair Santana

“Serra do Luar”, Leila Pinheiro

Música: Serra do Luar
Composição: Walter Franco
Interprete:
Leila Pinheiro
Album: Outras Caras
Ano:
1998

“Blowin’ In the Wind”, Bob Dylan

Música: Blowin in the wind
Ano:
1963
Compositor: Bob Dylan
Album: The Freewheelin’ Bob Dylan