“Madagascar 2”, Eric Darnell e Tom McGrath, 2008

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Madagascar 2

“Madagascar 2”, como o primeiro, é um filme leve, divertido, porém ácido e inteligente. Sim, “Madagascar 2”, é um filme infantil “ácido” e “inteligente”. Na verdade, temos tido uma leva de filmes infantis críticos e inteligentes. Nessa linha tivemos em 2003 “Procurando Nemo” de Andrew Stanton, que tratava das diferenças e limitações de cada um e também do preconceito, em 2008, “Wall-E”, não coincidentemente também de Andrew Stanton. Nesse ultimo, uma mensagem ecologicamente correta, além de um alerta ao sedentarismo da vida moderna.

Em “Madagascar 2”, temos o roteiro de Etan Cohen, ele mesmo, dos irmãos Cohen, roteirista de Onde os Fravos Não Tem Vez”  Queime Depois de Ler”, então não poderiamos esperar algo diferente, se não um roteiro cheio de críticas a sociedade americana, além de humor ácido e disfarçadamente ingênuo.

O filme é dos mesmos diretores do primeiro “Madagascar“, que também é otimo. Eric Darnell, diretor também de “FormiguinhaZ” e Tom McGrath conseguiram manter o nível do primeiro filme.

“Madagascar 2” conta a historia de um grupo de animais “urbanos”, tentando voltar para o zoológico. Sim, o grupo de animais quer voltar para o zoológico que entendem ser seu habitat natural, pois são animais que cresceram no zoológico de Nova York.

A critica fica por conta de um grupo de Nova York que está fazendo um safari na áfrica. Entre esses novaiorquinos, a velinha que no primeiro, se defendendo, espanca o leão Alex. Depois de perderem seu carro após um atendado realizado pelos soldados punguins (uma das grandes atraçoes do filme), a velinha lidera uma reação em prol da defesa do grupo.

“Novaiorquinos são sobreviventes”, é a frase do levante, e com a justificativa da auto-defesa, esse grupo de americanos, interfere e destroi tudo ao redor, secando rios e prejudicando toda fauna local. Sobreviventes sim, mas que não vêem um palmo frente do nariz, como também está no filme.

Essa crítica claro, para os menos atentos, passa despercebida, somente como diversão, para os mais, o filme diverte e critica. A velinha, é como um lobo em pele de cordeiro, e mesmo com aquele rostinho bonzinho, lidera um levante armado e não pensa nas consequências para a “popuilação” local. Não muito diferente do que fez o governo Bush.

 

 

O filme em certo momento dá uma caida no ritimo, focando historias paralelas de seus personagens. Mas não chega a prejudicar o andamento geral da historia.

Na dublagem original, o filme conta com um elenco de peso, como Ben Stiller (Alex), Chris Rock (Marty), Sacha Baron Cohen (Rei Julien) e Alec Baldwin (Makunga). Na verdade, nomes de peso é que o não falta em “Madagascar 2”, a música fica a cargo de Hans Zimmer, compositor de trilhas de filmes como “Batman Begins”, Batman – O Cavaleiro das Trevas”, “Conduzindo Miss Daisy”, “Gladiador” e “O Código de Da Vinci”, entre outros.

Talvez seja uma tendência, se realizar filmes infantis, críticos e com alguma mensagem mais que moral, politicamente correta, para desde cedo, fazer com crianças e jovens, pensem e tomem posturas críticas sobre o que vêem, lêem e ouvem.

E caminhando nessa linha de pensamento, começam a chegar bons filmes, o que talvez, seja uma esperança, para no futuro, mesmo os blockbusters, sejam cinema de verdade, pois cinema não é somente diversão. Como toda expressão artística, cinema é também manifestação cultural e de idéias.

Jair Santana

“Miss Me Blind” – Culture Club

Música: Miss Me Blind
Album: Colour By Numbers
Ano: 1983

 

“Ready For The Floor” – Hot Chip

Música: Read For the Floor
Album: Ready For the Floor
Ano: 2008

“The Boy With the Thorn in His Side” – The Smiths

Música: The Boy With the Thorn in His Side
Album: The Queen Is Dead
Ano: 1985

 

Domingos de Oliveira, 1936 –

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Costumo dizer que Domingos de Oliveira é o Woody Allen brasileiro, ou o Woody Allen é o Domigos de Oliveira do mundo. Seus filmes e seus perfis individuais são muito parecidos. Seus filmes por exemplo, são parecidos pelos assuntos abordados, e pela maneira de se filmar. Onde o roteiro é o carro chefe.

Assim como Woody Allen, Domingos também é um artista multifacetado. É ator, roteirista, diretor de cinema, TV e teatro, escritor, poeta, compositor, cantor e bloquista. Entre mil outras coisas que não sabemos.

Contemporâneo do cinema novo, preferil não fazer parte do movimento, mas ainda assim, parece que pegou a frase de Glauber “uma câmera na mão e uma idéia” pra si. E filmou, como na novelle vague, saiu filmando, em cenários naturais, mostrando a cidade, à luz natural, com interpretações naturalistas.

É um dos cineastas brasileiros mais antigos em ação, desde 67, já erm seu primeiro filme, “Todas as Mulheres do Mundo”, lança a eterna musa Leila Diniz. Filme que conta ainda com a participação de Paulo José e Joana Fomm.

Seu cinema não é técnica, super produção ou mesmo um mega sucesso de bilheteria. É um cinema de historias, de bons roteiros e boas interpretações. É um cinema que se valoriza o texto e o ator, e acima de tudo livre, despretensioso, que conversa com o público.

Domingos é tem formação acadêmica em engenharia, porém, ainda em sua juventude, se envolveu com o teatro amador, e nunca mais conseguiu sair desse mundo. Um dos diretores mais atuantes na década de 80, dirigiu adores como Paulo José, Fernanda Montenegro, Jorge Dória, Tônia Carreiro, Carlos Vereza, entre outros grandes nomes.

No teatro, ainda na década de 80 recebeu o prêmio Molière de melhor direção, até então o mais importante prêmio do teatro nacional. No cinema, ganhou o Kikito de ouro do Festival de Gramado, e o Candango no Festival de Brasília.

Seus filmes são acima de tudo humanos. nada de formalismo por formalismo. Nada de pretensão. Seu cinema é simples, divertido, filosófico e inteligente. Como o próprio Domingos, seu cinema é encantador pelas palavras.

Jair Santana

Filmografia :

2008 – Todo Mundo tem seus Problemas Sexuais
2008 – Juventude(também como ator)
2006 – Carreiras (também como ator)
2005 – Feminices (também como ator)
2002 – Separações (também como ator)
1997 – Amores (também como ator)
1978 – Vida, vida
1977 – Teu tua
1973 – Deliciosas traições do amor (também como ator)
1971 – A culpa
1970 – É Simonal
1969 – As duas faces da moeda
1967 – Edu, coração de ouro
1966 – Todas as mulheres do mundo

“A Bela Junie”, Christophe Honoré – 2008

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A bela Junie

O novo filme de Christophe Honoré, lembra um pouco seu filme anterior, “Canções de Amor”. Não pelo elenco, repetindo as presenças de Grégoire Leprince-Ringuet e Louis Garrel, ou por Otto, o personagem de Grégoire, sair cantando pelos corredores, como no anterior “Canções de Amor”, mas por ser um filme leve, gostoso e inteligente.

“A Bela Junie”, interpretada pela, belíssima mesmo, Léa Seydoux, que é de uma beleza de ofuscar os olhos, comparável a Isabele Adjani mais nova. Junie é recém chegada no colégio, e desperta o interesse de vários alunos. Resolve ficar com Otto, o mais tímido da turma, mas Junie acaba se apaixonando por Nemours, seu professor, personagem de Louis Garrel.

Honoré fala de uma juventude contemporânea sem foco. E como os amores, da sensação de excesso de liberdade e da perda, pode tornar a beleza, uma grande maldição. Junie, apesar de linda, após a morte de seus pais, muda-se para Paris, e não consegue se encontrar nem com ela e nem com ninguém.

June é introspectiva, densa e fria. Tornou seus movimentos amorosos mecânicos, como na hora em que se entrega a Otto. Ou em sua conversa com o professor Nemours, em que apesar de gostar, não se entrega por racionalizar sua possível relação com ele.

Entre aulas de música, filosofia, literatura, Honoré faz um retrato um tanto cruel dessa juventude. Com tanto acesso a educação e cultura, mas muitas vezes, pouco preparada para as relações humanas. A ponto de se chegar a extremos com essa falta de equilíbrio emocional.

Assim como em seu filme anterior, “A Bela Junie” traz consigo algo de nouvelle vague na maneira com que Christntophe Honoré filma. Cenários reais, luz quase natural, interpretações naturalistas. Passeamos por Paris, como ocorreu em “Canções de Amor”.

Outro acerto no filme é a bela trilha sonora, ao cargo de Alex Beaupain e recheada de canções de Nick Drake. O clima melancólico das músicas, com o clima sempre cinzento e frio do outono parisiense, dá um tom especial ao filme.

Retratando sempre relações humanas, amores impossíveis, ou possíveis e não realizados, amores héteros e homossexuais, Honoré faz um cinema acima de uma classificação sexual ou mesmo de gênero. Seus filmes não são somente dramáticos, ou comédias românticas, e apesar de apresentarem amores gays, seus filme não atraem o público gay que vai atrás de cinema temático. Seus filmes atraem, acima de tudo, os que amam cinema.

Acho o cinema do diretor Christophe Honoré magnífico por sua relação com o público. Há uma conversa e uma intenção nela. Sem pretensão, sem pragmatismos, sem julgamentos. É um cinema ao mesmo tempo que jovem, de uma forte maturidade.

Christophe Honoré está formando um público fiel aqui pelo Brasil, mesmo sem grande campanha publicitária para o lançamento. Seus filmes não deixam as salas vazias. Pelo contrario, a procura é sempre acima da média dos filmes com o mesmo perfil.

O longa é um bom acerto. Não o melhor do ano, e nem vai mudar nada na maneira de se fazer cinema. Mas é um bom roteiro e muito bem realizado. Nada de formalismos, nada de pretensão. “A Bela Junie” é um filme simples, e talvez por isso, tão maravilhoso.

Jair Santana

“Regret” – New Order

Música:Regret 
Album: Republic
Ano: 1993