“Horas de Verão”, Olivier Assayas, 2008

Horas de Veráo

O novo filme do aclamado diretor Olivier Assayas, diretor e roteirista de filmes como “Clean” e “Demonlover“, e ainda com participações em “Paris, te Amo” e “Cada um com seu cinema”. Olivier é um diretor francês, de filmografia ainda pouco extensa, porém relevante. Com apenas quatro longa-metragens, teve duas indicações a Palma de Ouro em Cannes.

“Horas de Verão nos conta a historia de três gerações de uma mesma família, e sua relação entre eles e a casa de verão. Um recanto próximo a Paris, testemunha de segredos, amores, momentos felizes daquela família. Hélène, interpretada pela ótima Edith Scob, é a matriarca da família, e também, o grande elo entre seus filhos e netos.

Hélène apresenta uma relação casa  muito mais forte. Pois a casa, é também seu lar. Relação essa, totalmente diferente do restante da família, como seus filhos, Frédéric (Charles Berling), que vive na França. Adrienne (Juliette Binoche) é uma artista que vive nos EUA e Jérémie (Jérémie Renier) que tem planos de ir morar na China.

Os filhos de Hélène, com esses três tão distintos e diferentes perfis, é um pouco o retrato dessa geração da França de hoje. Poderíamos dizer, que mais que isso, é um pouco o retrato, dessa geração, no mundo globalizado.

Mais que um imóvel, “Horas de Verão” traz em suas entrelinhas, discussões sobre valores, sejam eles familiares ou culturais. Se discute ainda o valor do apego, da carga emotiva que cabe e material  que esse bem contém na divisão da herança e como esses valores mudam de geração pra geração.

Curioso que os valores que Hélène agrega a suas coisas, é por ela mesmo, desprendido dessa responsabilidade para seus filhos.

Assim como para os filhos Frédéric, Adrienne e Jérémie a questão dos valores que a casa e os objetos dela tem em sua vida não passam de um local para as reuniões de família, para filha de Frédéric, tudo que a casa representa, tudo que aquele mundo representa, não vale mais que uma parada de dez segundos e algumas boas recordações nos últimos momentos do filme.

Para os filhos, a casa já não faz parte é parte de suas vidas. Para Jérémie por exemplo, a França já não é parte de seu mundo e nem de sua esposa e filhos. Mais uma vez, o cinema retratando a perda de identidade cultural, retratando a nova geração sem pátria.

Não mais importa de onde viemos, mas sim onde, e somente onde, se constrói o mundo a qual, se ganhará dinheiro ou se terá status. A globalização traz por fim, essa superficialidade genealógica, onde a única ligação com a pátria mãe pode ser a língua, e isso basta.

A síntese do filme, está no momento solitário de Hélène, após a visita de seus filhos. Quando antes, um dos filhos fala “Essa casa continua viva” e a emprega responde, “Duas vezes no ano quando vocês estão por aqui”. Logo depois essa conversa faz sentido. Hélène então encontra-se sozinha. Questionando a pressa com que os filhos saíram de casa, enfatizando o individualismo que a sociedade moderna nos colocou.

Hélène então, falando de sua solidão, e de sua aproximação com a morte, coloca que a casa, assim com ela mesma, detém memórias e segredos que irão com ela quando se for.

Olivier coloca, filosófa, questiona sobre todas essas questões de maneira disfarçadamente simplória. Algo dramaturgicamente parecido com o usado por Jean Becker , em “Conversa com meu Jardineiro”. A utilização do cotidiano, para se discutir temas sérios, fazendo esses assuntos, se enquadrarem totalmente no nosso dia a dia. Seja através de ações ou mais claramente, de palavras.

“Horas de Verão” conta ainda com uma fotografia bela. Com movimentos de câmeras de tirar o fôlego. Eric Gautier é o responsável por isso. Com movimentos que conversam dramaturgicamente com o filme, Gautier encanta nosso olhos, e nos emociona com seus movimentos ousados.

O filme é cheio de grandes acertos. Do roteiro, com personagens ricos e densos, com sua belíssima música e também a escolha do elenco. “Horas de Verão” é um rico filme francês, novo, politizado e questionador. E melhor, gostoso e acessível.

Jair Santana

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