“Contato”, Robert Zemeckis, 1997

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"Contato"

“Contato” é na minha opinião é um do melhores filmes, sérios, de ficção cientifica dos últimos anos Entrando para um seleto grupo de filmes como “Blade Runner”, “O Dia em que a terra Parou” o original, “Inteligência Artificial” e Filhos da Esperança.

Com direção de Robert Zemeckis, mesmo de “Forrest Gump”, e baseado em um romance de Carl Sagan, que tambem colabora com o roteiro. O filme nos leva um possível contato com uma civilização mais avança que a nossa e muitas possibilidade de reações, sejam elas políticas ou pessoais.

O filme encanta com o rico roteiro de James V. Hart e Michael Goldenberg, pela fotografia sensível de Don Burgess, pela ótima interpretação Judie Foster, que faz um personagem humano, forte e que conquista o espectador. Judie concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz pelo papel.

O filme acontece, como um grande épico da ficção, no decorrer de vários anos, desde a busca pelo financiamento de pesquisas, passa pelo seu primeiro contato e vai até a construção de uma máquina para viajar pelo espaço.

Sua construção dramática não chega ser introspectiva ou poética, mas está longe de ser o tipo “video-clip” que estamos mais acostumados a ver no cinema americano.

Durante a pré-produção, ainda antes de começar as filmagens, o Carl Sagan daria uma palestra de 2 horas, para todos da equipe entrarem no clima do filme, e entenderem o que se passaria, mas a palestra acabou durando 10 horas, e ninguém queria ir embora. Isso sintetiza o quanto encantador é a historia do filme.

Carl Sagan infelizmente morreu antes do lançamento do filme, e “Contato” é dedicado a sua memória. Nada mais justo.

Interessante observar, a busca da Dra Eleonor, personagem de Judie Foster, por financiamento para suas pesquisas, seu interesse e sua força de vontade, e mais ainda, o oportunismo do governo ao tomar pra si o trabalho da Dra. Eleonor, somente quando consegue algo de concreto em suas pesquisas, financiadas até então por dinheiro privado. Algo comum de acontecer.

Outro ponto interessante abordado pelo filme são discussões filosóficas. Com o próprio debate da existencia ou não de uma civilização fora do nosso sistema solar, ou mesmo a existência ou não de Deus, e ainda como somos apegados a certos formalismos filosóficos, mais que qualquer outra coisa. No fim, não estamos muito distantes da Santa Inquisição, por mais que agora, estejamos mais civilizadamente disfarçados.

Preste atenção também na maravilhosa trilha sonora de Alan Silvestri. É emocionante, grandiosa e também melancólica, passando todas as emoções que o filme precisa. É assim que tem que ser uma boa trilha. Ser casada com tudo no filme.

“Contato” é desses filmes para ver e rever, muito bem produzido, dirigido, e com um desses personagens inesquecíveis. Um ótimo filme de Robert Zemeckis que, com muitos acertos, tem construído uma filmografia coerente ao longo de sua carreira. Com filmes ousados para o cinema americano, mesmo se utilizando de um formalismo tradicional.

Jair Santana

“Porcelain” – Moby

Música: Porcelain
Album: Play
Ano: 1999

“Águas de Março” – Tom Jobim

Música: Águas de Março
Disco: Elis & Tom
Ano: 1974

 

“Romance”, Guel Arraes, 2008

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"Romance"

Esse novo encontro de Jorge Furtado e Guel Arraes, não chega a ser uma completa decepção, mas até pela proposta do filme, elenco e equipe técnica, o filme poderia ser bem mais do nos é apresentado.

“Romance”, o novo filme de Guel Arraes, ou melhor, de Paula Lavigne como incrivelmente e inexplicavelmente é lido na tela de apresentação, conta com um ótimo elenco, Wagner Moura, Leticia Sabatéla, Vladimir Brichta, Andrea Beltrão e Marco Nanini, a fotografia nem sempre acertada, mas ainda assim funcional de Adriano Goldman, o ótimo figuro de Cao Albuquerque, e a forçada música de Caetano Veloso .

Sim, o filme tem suas qualidades, como vontade de misturar ficção e realidade através do uso da meta-linguagem, mas essa opição acaba sendo mal usada. Guel e Furtado são ótimos roteiristas e nos dão bons momentos no filme, mas ainda que não seja um filme longo, com aproximadamente 100 minutos, o filme apresenta certa barriga, cansando o espectador.

As interpretações também são por vezes exageradas, cheias de caras e bocas, talvez pela mistura do teatro-cinema, porém perde sentido quando se está fora do jogo de cena com o teatro, e a fotografia, principalmente na primeira parte do filme, acaba exagerando junto com a interpretação, ou seja, o real problema esta na direção.

Porém, as cenas no sertão da Paraiba, são bem mais interessantes. A fotografia cresce, as atuações idem, e com destaque para Vladimir Brichta e Marco Naniini que são os dois, dos melhores pontos do filme.

O figurino, principalmente dentro do Especial de TV, é espetacular, Cao Albuquerque só faz se reafirmar como um figurinista criativo e sensível.

“Romance” também erra por querer ser didático demais. Ora explicando a dramaturgia, ora explicando o processo teatro-TV para os atores brasileiros, ora, tendo que explicar sua própria proposta.

O roteiro apresenta bons textos, com diálogos inteligentes e alguns pontos que só os que trabalham no meio de cinema, teatro e TV entenderão. Porém, isso talvez seja um problema. Interessante também a situação de se colocar a relação existente do teatro em São Paulo e o trabalho TV no Rio de Janeiro, justamente pela posição que cada meio exerce com a cidade.

“Romance” é um “Jogo de Cena”, ficcional. “Jogo de Cena” é o documentário de Eduardo Coutinho que brinca com o jogo da ficção com a realidade. Mas isso, Coutinho ou Jia Zhangke com seu “24 City” por exemplo, fazem como mestres.

“Romance” tem seus  bons momentos, porém vale muito mais pela tentativa, pela equipe e pela premissa que tem, que pelo filme que é.

Jair Santana

“Ilha das Flores”, Jorge Furtado, 1989

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Sinopse
Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Produção Mônica Schmiedt, Giba Assis Brasil e Nôra Gulart
Fotografia: Roberto Henkin e Sérgio Amon
Edição: Giba Assis Brasil
Direção de Arte: Fiapo Barth
Trilha original: Geraldo Flach Narração Paulo José

Prêmios e Festivais
Urso de Prata no Festival de Berlim 1990
Prêmio Crítica e Público no Festival de Clermont-Ferrand 1991
Melhor Curta no Festival de Gramado 1989
Melhor Edição no Festival de Gramado 1989
Melhor Roteiro no Festival de Gramado 1989
Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989
Prêmio do Público na Competição “No Budget” no Festival de Hamburgo 1991

 
Assista Aqui:

“The Scientist” – ColdPlay

Musica: The Scientist
Album: A Rush Of Blood To The Head
Ano: 2004

“Creep” – Radiohead

Música: Creep
Album: Pablo Honey
Ano: 1993

“Os Sapatos De Aristeu”, Luiz René Guerra, 2008

 

Os Sapatos de Aristeu

Os Sapatos de Aristeu

 

Sinopse

O corpo de uma travesti morta é preparado por outras travestis para o velório. A família, após receber o corpo, decide enterrá-lo como homem. Uma procissão de travestis então se encaminha para o velório para reclamar a identidade construída da falecida.

Elenco:
Berta Zemel
Denise Weinberg
Greta Star
Phedra D, Córdoba
Renato Turnes

Ficha Técnica:
Co-produção: Daniel Tonacc e Renata Cavalcanti
Fotografia: Juliana Vasconcelos
Roteiro: Luiz René Guerra
Edição: Vitor Motter
Direção de Arte: Maíra Mesquita
Montagem: Vinicius Calderoni

Mostras e Prêmios:
Curta Cinema – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro
Mostra Internacional de Curtas de São Paulo
Festival Mix Brasil 2008

“O Argentino” e “Guerrilha”, Steven Soderbergh, 2008

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"The Argentine"

Tive a oportunidade de assistir o novo filme de Steven Soderbergh em uma única sessão de quatro maravilhosas horas. “Che” chegará aos cinemas divido em dois filmes de aproximadamente duas horas. “O Argentino” e “Guerrilha”

No elenco do filme conta com um Che, interpretado pelo ótimo Benicio Del Toro, dando um tom humano ao cultuado herói latino americano, Fidel Castro, na pele do ator Demián Bichir, que em algumas cenas fica muito parecido fisicamente com Fidel mas sua interpretação não chega a chamar atenção, e seu irmão Raul Castro, na pele de Rodrigo Santoro, que faz uma bonita participação. Bonita participação também faz Catalina Sandino Moreno, interpretando a guerrilheira Aleida March e temos ainda nomes como Franka Potente e Julia Ormond.

A primeira parte da historia, ou melhor, o primeiro filme, “O Argentino” conta como Che, Fidel e Raul se conheceram, e planejaram e realizaram a revolução política em Cuba. Conta como conseguiram o apoio da população local e suas ideologias e sonhos políticos.

A segunda parte, “Guerrilha”, como esse sonhador Ernesto Che Guevara, quis levar essa revolução para o restante da américa do sul, sonho construído e fundamentado na sua viagem pela America do Sul, também mostrada pelo cinema em 2004, no filme de Walter Salles “Diários de Motocicleta”.

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"Guerrilla"

No filme, Guevara conhece uma América pobre, sofrida, com um povo e uma terra maravilhosa, mas também cheia de governantes oportunistas. Não, Guevara não era um santo, mas foi um jovem idealista e sonhador. Buscou uma América mais justa, independente, mas não viu os custos e a conseqüência desse seu sonho.

E é isso que nos mostra os filmes de Soderbergh. E o custo desse sonho, foram milhares de mortes, ditaduras políticas, e todo um povo submetido à uma justiça ditada por um único homem, e um povo sem liberdade.

O filme não defende a revolução ou o próprio Che, e nem o ataca, e talvez esse certo distanciamento seja o que de melhor o filme apresenta. A crítica ficou super dividida, pois enquanto uns atacaram o formalismo e a frieza do filme, outros o defendiam justamente por esse mesmos adjetivos.

A minha opinião, “Che” é um filme grandioso. Com bela fotografia, ótimas interpretações e acima de tudo, uma direção marcante e segura. Soderbergh fez um filme pra ficar pra historia do cinema. Independente de ideologia e pragmatismo.

O filme nos conta o que tem que contar. Sem grandiosas cenas de conquistas ou de perdas. Por exemplo, no primeiro filme “The Argentine” em Cuba, conta toda preparação do golpe político, como começaram a sonhar com o golpe, como foram as conquistas das cidades, como se ganhou a população local, e nos contextualiza historicamente do porque essa população apoiou os guerrilheiros, porém sem grandes clichês, então Soderbergh nos deixa no final do filme, na estrada, a caminho de Havana. Sem participar da conquista da capital.

A segunda parte “Guerrilla”, Cuba já é uma conquista de fato, Guevara já está na Bolívia, iniciando a guerrilha, treinando e tentando conquistar as comunidades locais, como aconteceu em Cuba, mas lá ele encontra outras dificuldades, como a falta de credibilidade de seu ideal político, claro, implantada pelo próprio governo da Bolívia com ajuda do governo americano.

“Che”, teve suas duas partes filmadas simultaneamente, foi resultado de sete anos de pesquisa e de trabalho para levantar a produção por Steven Soderbergh e Benicio Del Toro. Inicialmente pensado como um único filme, mas pressionado para ter distribuição garantida a ser divido em dois.

Ainda assim, “Che” tem mais um forte ponto de filme autoral. Diferente de “Frida”, filme biográfico da artista plástica cubana Frida Khalo, dirigido por Julie Taymor, o filme de Soderbergh conseguiu ser essencialmente falado em espanhol, com algumas poucas conversas em inglês, frutos de uma entrevista ocorrida nos Estados Unidos para a TV americana. Um filme americano, falado em qualquer outra língua sem ser o inglês é algo muito raro de os estúdios aceitarem.

Se o Comunismo é bom ou não, essa não é a questão do filme. Acima de tudo, “O Argentino” e “Guerrilha” nos mostra um homem, sonhador e idealista. Cheio de falhas, autoritário, mas acima de tudo, humano.

“Che”, ou melhor, “O Argentino” e “Guerrilha”, além de dois ótimos filmes, tem grande importância histórica em retratar um dos personagens mais marcantes da recente historia política da América latina. Esse distanciamento dá maior credibilidade a esse grande filme.

Jair Santana

“BMW Vermelho”, Edu Ramos e Reinaldo Pinheiro, 2000

BMW Vermelho

BMW Vermelho

Sinopse
Uma família humilde recebe um verdadeiro presente de grego: um carro de luxo, que não pode ser vendido por dois anos. Para piorar a situação, ninguém na familia sabe dirigir. O tempo passa, e o automóvel acaba tendo mil de uma utilidades, exceto o de altomóvel.

Elenco
Denise Weinberg
Gabriel Priolli
Otávio Augusto

Ficha Técnica
Produção:
Irivan Filho
Fotografia: Fernando Nunes
Roteiro: Reinaldo Pinheiro e Edu Ramos
Edição Edu: Ramos e Frederico Ricci
Som Direto: Alfredo Guerra
Direção de Arte: Silvia Pasta

Prêmios e Festivais
Melhor Direção de Arte no Festival de Gramado 2000
Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2000

Para Assistir BMW Vermelho click aqui:
BMW Vermelho

Pedro Almodovar, 1954 –

 

Pedro Almodovar

Pedro Almodovar

Nascido no interior da Espanha, cidade de Calzada de Calatrava no dia 14 de setembro de 1951, Almodóvar teve uma infância pobre, aos oito anos sua família migrou para Extremadura, onde estudou em colégios religiosos Salesianos e Franciscanos, aos 16 anos, exatamente no ano de 1968 mudou-se para Madri a fim de estudar cinema.

Chegando a Madri, longe se dua família e sem dinheiro, Almodóvar se deparou com mais um problema. Percebeu ser impossível estudar cinema, pois Franco havia fechado todas escolas de cinema de Madri. Impossibilitado de estudar cinema na teoria, Pedro Almodóvar decidiu que iria para pratica.

Arrumou diversos quebra galhos até conseguir seu primeiro emprego formal na Companhia Telefônica Nacional, onde trabalhou 12 anos, lá conseguiu guardar dinheiro e comprar sua primeira câmera 8mm.

Foi membro ativo da “Movida Madrileña”, movimento de renovação cultural lançado em Madri após a morte do ditador Francisco Franco, Almodóvar começou a realizar curtas em super-8, chegou a realizar um longa experimental também em super-8 onde fazia a sonoplastia durante a projeção.

Seu envolvimento com movimentos culturais lhe abriu portas para escrever para revistas alternativas, escrevias contos e crônicas, entrou também para o grupo de teatro “Los Gollardos”, e posteriormente para um grupo de punck-rock, o “Almodovar e McNamara”.

Teve seu primeiro longa oficial, em 1980, o “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón”, e desde então, nunca mais parou. No inicio da carreirei chegou a ser creditado com pseudónimos, como Pepe Patatia e Pepe Patatin.   Almodóvar passou a roteirizar, dirigir, e produzir cinema.

A dificuldade financeira e a falta de liberdade artistíca fez com que, em 1985, junto com seu irmão, criasse a produtora “El Desejo” para produzir seus filmes, e posteriormente projetos de diretores menos conhecidos. Foi assim, através de sua produtora que produziu pro exemplo filmes  como “Minha Vida Sem Mim” e “A Vida Secreta das Palavras” de Isabel Coixet, “Menina Santa” de Lucrecia Martel, “A Espinha do Diabo” do hoje reconhecido Guillermo del Toro, entre muitos de seus próprios filmes, entre eles, “Fale com Ela”, o filme que Almodóvar produziu, roteirizou e dirigiu, vencendo o Oscar de Melhor Roteiro Original e Globo de Ouro de Melhor Filme.

Pedro Almodóvar tem na maioria de seus filmes sexualidade como principal tema, homossexual assumido, foi o único diretor espanhol que concorreu ao Oscar de melhor direção. Está entre os três diretores Espanhóis mais aclamados de todos os tempos, ao lado de nomes como Luis Buñuel, e Carlos Saura.

Com vasta filmografia de 18 filmes, muitos deles premiados internacionalmente, Almodóvar é um dos mais respeitados cineastas do cinema mundial, conseguindo realizar um cinema autoral com uma identidade forte e polêmica.

Jair Santana

Filmografia

2006 – Volver (Volver)
2004 – Má Educação (La mala educación)
2002 – Fale com ela (Habla con ella)
1999 – Tudo sobre minha mãe (Todo Sobre Mi Madre)
1997 – Carne trêmula (Carne Trémula)
1995 – A flor do meu segredo (La Flor de Mi Secreto)
1993 – Kika (Kika) 1991 – De salto alto (Tacones Lejanos)
1990 – Ata-me! (¡Átame!)
1988 – Mulheres à beira de um ataque de nervos (Mujeres Al Borde De Un Ataque de Nervios)
1987 – A lei do desejo (La Ley Del Deseo)
1986 – Matador (Matador) 1985 – Tráiler para amantes de lo prohibido (TV)
1984 – Que fiz eu para merecer isto? (¿Qué he hecho yo para merecer esto?!!)
1983 – Maus hábitos (Entre Tinieblas) 1982 – Labirinto de paixões (Laberinto de Passiones)
1980 – Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón
1978 – Folle…Folle…Fólleme Tim! (curta-metragem)
1978 – Salomé (Média-Metragem) 1977 – Sexo va, sexo viene (curta-metragem)
1976 – Muerte en la carretera (curta-metragem) 1976 – Sea cariativo (curta-metragem)
1975 – Blancor (curta-metragem) 1975 – La caída de Sodoma (curta-metragem)
1975 – Homenaje (curta-metragem) 1975 – El Sueño, o la estrella (curta-metragem)
1974 – Dos putas, o historia de amor que termina en boda (curta-metragem)
1974 – Filme político (Film Político) (curta-metragem)

“Synecdoche, Nova Iorque”, Charlie Kaufman, 2008

Synecdoche, Nova Iorque

"Synecdoche, Nova Iorque"

Decepcionante, é esse o sentimento que mais me aflorou ao assistir o novo filme do hypado e ótimo Chalie Kaufiman. O roteirista de filmes como “Adaptação”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Quero Ser John Malkovich”, errou feio no seu novo roteiro e na sua estreia na direção.

 

Apesar do elenco maravilhoso, que conta com nomes como Philip Seymour Hoffman, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Emily Watson, Dianne Wiest o filme é um erro tão grande que esses erros, acabam engolindo todo possível, e quase nem um acerto.

O filme é pretensioso, com incursões filosóficas interessantes sobre a existência humana, a morte, mas que acabam soando forçadas dentro do filme, pois não encaixam.

O roteiro é sobre um diretor de teatro, Caden Cotard, que infeliz com a vida que leva, se da conta que não realizou nem um projeto para ser lembrado depois que morrer. Então, resolve realizar esse grande projeto. Um grande espetáculo teatral sobre sua vida, para celebrar a banalidade do cotidiano. Para complicar mais ainda seus delírios, e os delírios do filmes, Caden sofre de uma doença misteriosa que ataca o sistema nervoso.

Quanto mais entra nessa complexa obra, mais Caden mergulha em questionamentos filosóficos, procurando entender o sentido da existência humana e de sua própria. Porém, o filme começa a ter uma viagens sem sentido. Como a casa que está em incêndio constante, e a confusão de suas relações amorosas.

Acaba abrindo alas a um realismo fantástico que não vai a lugar nem um, diferente de seus outros filmes. Kaufman vai abrindo leques e mais leques dentro do roteiro, que acabam não se fechando e nem tendo uma razão.

“Synecdoche, Nova Iorque” começa bem, chegando a parecer que manterá um certo rítimo narrativo mais realista. Que inexplicavelmente começa a mudar, e acaba se perdendo. Beirando muitas vezes o ridículo.

Música boa e fotografia certinha não fazem o filme acontecer. Nem diverte nem faz pensar. Se tivesse 40 minutos menos talvez esboçasse alguma mensagem, mas nem isso consegue fazer. Kaufiman é um belo roteirista, mas que aqui apresenta um roteiro confuso e vazio, diferente de seus filmes anteriores. Também se apresenta nesse filme, como um diretor é totalmente perdido.

Jair Santana

“Vicky Cristina Barcelona”, Woody Allen, 2008

Vicky Cristina Barcelona    

Vicky Cristina Barcelona

“Formidável”, essa foi a palavra que o veterano crítico Michel Ciment, usou para definir o filme de Wood Allen na revista “Positif”. “Vicky Cristina Barcelona” foi, merecidamente, o filme mais aplaudido pelo público, na 61° Edição do Festival de Cannes.

Wood Allen é um dos diretores de maior atuação no mundo hoje. Realizando um filme por ano, chega à 2008 com seu 41° filme, e já produzindo seu próximo para 2009, o diretor nova-iorquino, filme dessa vez em Barcelona, a convite da própria prefeitura, que bancou parte do filme.

Não foi uma encomenda, Woody Allen escreveu o roteiro especialmente para a cidade, valorizando sua cultura e seus pontos turísticos. Não como uma grande propaganda da cidade, apesar de funcionar como, mas tornando sim, a cidade perfeita para a proposta de seu roteiro.

O elenco formado pelos premiados Javien Bardem como Juan Antonio e Penélope Cruz na pele de Maria Helena, a musa de Woody, Scarlett Johansson como Cristina e a nova e elogiadíssima Rebecca Hall de “O Grande Truque” como Vicky. Rebeca realmente apresenta em “Vicky Cristina Barcelona” uma memorável interpretação, além de dona de uma beleza encantadora. Javier e Penélope apresentam ótima química, e ela, com um ótimo personagem, rouba a cena. Na verdade, o elenco é sempre um acerto dos filmes de Woody Allen.

“Vicky Cristina Barcelona”, assim como a maioria dos filmes de Woody Allen, são filmes que discutem problemas existenciais, mal de amores, questionamentos sobre si mesmos. Woody dificilmente fala de problemas sociais por exemplo, mesmo em filmes como “A Rosa Púrpura do Cairo” ou “A Era do Rádio”, filmes situados em épocas complicadas economicamente falando, a depressão de 30 e o inicio da segunda guerra respectivamente, são filmes que usam esses momento econômicos apenas como pano de fundo.

O diretor escreve suas historias sobre o mundo que o cerca, sobre o seu mundo, e como falou uma vez Domingos de Oliveira, “é sobre o que conhecemos que devemos escrever, pois é sobre o que melhor escreveremos”. O mundo de Woody Allen é formado por pessoas cultas, intelectuais, artistas como Cristina ou Juan Antonio, ou envolvidas com arte mesmo que indiretamente como Vicky.

O roteiro de “Vicky” é sobre duas amigas, duas melhores amigas, que levam suas vidas, quando falamos de relacionamento, bem diferentes. Vicky procura levar uma vida certinha, contida e planejada. Cristina, é movida por impulsos, paixões e vive o hoje sem pensar muito no amanhã. Duas americanas que vão a Barcelona passar férias de verão, e lá conhecem e se envolvem, direta e indiretamente, com Juan Antonio e Maria Elena.

Dentro desses poucos, porém ricos personagens criados por Woody Allen, esse universo criado por ele, dá um vasto leque de questionamentos e posicionamentos dentro do que cada um acredita ser certo de como se levar suas relações amorosas.

Apesar de ter uma premissa e um desenrolar que poderia dar um belo drama, ou mesmo um pesado dramalhão, “Vicky Cristina Barcelona” é uma deliciosa comédia romântica. Com todos seus sérios questionamentos, o filme em momento algum fica pesado. Pelo contrário, é despretensioso, delicado e romântico.

Romance esse, que é enfatizado pelas belas músicas, linda fotografia de Javier Aguirresarobe e acima de tudo, pelo belo cenário e paisagens das cidades espanholas de Barcelona e Oviedo.

O filme balança qualquer apaixonado, qualquer um que esteja amando, prestes a casar, ou dividido entre dois amores. Woody Allen tem a capacidade de mexer verdadeiramente com seus espectadores. E seus questionamentos estão acima de qualquer moral ou ética. São questões totalmente pessoais. De como cada um deve, ou pode levar sua vida, para poder ser feliz.

Tudo é muito forte no filme. O clima romântico, as paixões, as amizades. Saímos do filme com vontade definirmos um rumo para nossas vidas, nossas relações. Assim é o filme, assim é Woody Allen.

Jair Santana

“Horas de Verão”, Olivier Assayas, 2008

Horas de Veráo

O novo filme do aclamado diretor Olivier Assayas, diretor e roteirista de filmes como “Clean” e “Demonlover“, e ainda com participações em “Paris, te Amo” e “Cada um com seu cinema”. Olivier é um diretor francês, de filmografia ainda pouco extensa, porém relevante. Com apenas quatro longa-metragens, teve duas indicações a Palma de Ouro em Cannes.

“Horas de Verão nos conta a historia de três gerações de uma mesma família, e sua relação entre eles e a casa de verão. Um recanto próximo a Paris, testemunha de segredos, amores, momentos felizes daquela família. Hélène, interpretada pela ótima Edith Scob, é a matriarca da família, e também, o grande elo entre seus filhos e netos.

Hélène apresenta uma relação casa  muito mais forte. Pois a casa, é também seu lar. Relação essa, totalmente diferente do restante da família, como seus filhos, Frédéric (Charles Berling), que vive na França. Adrienne (Juliette Binoche) é uma artista que vive nos EUA e Jérémie (Jérémie Renier) que tem planos de ir morar na China.

Os filhos de Hélène, com esses três tão distintos e diferentes perfis, é um pouco o retrato dessa geração da França de hoje. Poderíamos dizer, que mais que isso, é um pouco o retrato, dessa geração, no mundo globalizado.

Mais que um imóvel, “Horas de Verão” traz em suas entrelinhas, discussões sobre valores, sejam eles familiares ou culturais. Se discute ainda o valor do apego, da carga emotiva que cabe e material  que esse bem contém na divisão da herança e como esses valores mudam de geração pra geração.

Curioso que os valores que Hélène agrega a suas coisas, é por ela mesmo, desprendido dessa responsabilidade para seus filhos.

Assim como para os filhos Frédéric, Adrienne e Jérémie a questão dos valores que a casa e os objetos dela tem em sua vida não passam de um local para as reuniões de família, para filha de Frédéric, tudo que a casa representa, tudo que aquele mundo representa, não vale mais que uma parada de dez segundos e algumas boas recordações nos últimos momentos do filme.

Para os filhos, a casa já não faz parte é parte de suas vidas. Para Jérémie por exemplo, a França já não é parte de seu mundo e nem de sua esposa e filhos. Mais uma vez, o cinema retratando a perda de identidade cultural, retratando a nova geração sem pátria.

Não mais importa de onde viemos, mas sim onde, e somente onde, se constrói o mundo a qual, se ganhará dinheiro ou se terá status. A globalização traz por fim, essa superficialidade genealógica, onde a única ligação com a pátria mãe pode ser a língua, e isso basta.

A síntese do filme, está no momento solitário de Hélène, após a visita de seus filhos. Quando antes, um dos filhos fala “Essa casa continua viva” e a emprega responde, “Duas vezes no ano quando vocês estão por aqui”. Logo depois essa conversa faz sentido. Hélène então encontra-se sozinha. Questionando a pressa com que os filhos saíram de casa, enfatizando o individualismo que a sociedade moderna nos colocou.

Hélène então, falando de sua solidão, e de sua aproximação com a morte, coloca que a casa, assim com ela mesma, detém memórias e segredos que irão com ela quando se for.

Olivier coloca, filosófa, questiona sobre todas essas questões de maneira disfarçadamente simplória. Algo dramaturgicamente parecido com o usado por Jean Becker , em “Conversa com meu Jardineiro”. A utilização do cotidiano, para se discutir temas sérios, fazendo esses assuntos, se enquadrarem totalmente no nosso dia a dia. Seja através de ações ou mais claramente, de palavras.

“Horas de Verão” conta ainda com uma fotografia bela. Com movimentos de câmeras de tirar o fôlego. Eric Gautier é o responsável por isso. Com movimentos que conversam dramaturgicamente com o filme, Gautier encanta nosso olhos, e nos emociona com seus movimentos ousados.

O filme é cheio de grandes acertos. Do roteiro, com personagens ricos e densos, com sua belíssima música e também a escolha do elenco. “Horas de Verão” é um rico filme francês, novo, politizado e questionador. E melhor, gostoso e acessível.

Jair Santana

“Festim Diabólico”, Alfred Hitchcock, 1948

Festim Diabólico

Festim Diabólico

Pode-se dizer, que “Festim Diabólico” é, se não o mais, um dos mais ousados filmes de Alfred Hitchcok. tecnicamente falando, com toda certeza, é o mais ousado. Apresentou algo novo para o cinema. Plano sequências espetaculares já haviam sido trabalhados por Orson Welles por em “A Marca da Maldade” por exemplo.

Porém, até Hitchhock, nem um diretor tinha sido tão ousado quanto ele. O filme foi todo rodado em planos seqüência. Na época, o diretor conseguiu o máximo que se podia conseguir, e realizou o filme em oito planos de dez minutos, que era o tempo máximo do rolo cinematográfico naquela época.

A edição do filme é feita de maneira tal, para que seus cortes sejam imperceptíveis, Geralmente a câmera fechava na costa de um dos personagens, trocava-se o rolo de filme, e voltava para mesma cena, continuando o mesmo movimento.

Hitchcock é um diretor de ousadias. Tanto tecnicamente como dramaturgicamente falando. Seu cenário em “Janela Indiscreta” por exemplo, virou atração para os próprios técnicos, diretores e atores de Hollywoody, a ousadia de seu roteiro em Psicose” de mudar de protagonista apos meia hora de filme foi realmente inovadora.

A historia de “Festim Diabólico” se passa todo em um apartamento. Cenário construído especialmente para esse tipo de filmagem. Em 1948, as câmera eram bem maiores e de difícil locomoção, então o diretor junto com sua equipe criaram um carrinho especial para câmera, e o cenário foi todo construído com paredes móveis, que se locomoviam conforme o movimento de câmera,abrindo espaço para esse carrinho passar sem problemas.

Hitchhock, assim como Stanley Kubrick, não media esforços para adaptar a tecnologia que lhe era disponível para realizar seus trabalhos. O diretor Stanley Kubrick, em seu filme “Barry Lyndon” por exemplo, filmou seu roteiro de época, sem luzes de cinema, e sim, somente com velas e luz natural. Para isso, utilizou lentes especiais encomendadas para técnicos da NASA.

O roteiro de Festim Diabólico, o primeiro filme colorido de Hitchhock, foi inspirada no caso real de Leopold-Loeb, dois estudantes da Universidade de Chicago que cometeram um assassinato de forma bem parecida com a mostrada no filme.

Impossível não remeter a forma de realização de “Festim Diabólico” a um tipo de leitura mais teatral. Por se concentrar em um só cenário e todos os personagens estarem quase sempre presentes no “palco”. O diretor, “mestre do suspense” como é conhecido, tira de seu roteiro, o máximo de tensão que se conseguiria.

Boas interpretações, dão veracidade merecida ao roteiro, é de Hitchhock a frase, que diz atores devem ser tratatos como “gado”, assim então, se consegue tirar deles o que se quer. Frase polêmica, mas que não dimiuiu a vontade de grandes atores trabalharem com o diretor.

Em “Festim Diabólico, James Stewart como Rupert Cadell e o ótimo John Dall dando vida ao denso Brandon Shaw, que representam a dupla principal. O filme conta ainda com atores de teatro consagrados na época como Cedric Hardwicke (Sr. Kentley) e Constance Collier (Sra. Atwater). Contatamos também com Farley Granger na pele do professor Phillip Morgan, o principal rival intelectual da dupla, e o único capaz de descobrir o assassinato.

Jair Santana