“Confissões de Super-Heróis”, Matthew Ogens – 2007

Confissões de Super-Héroi

 

Confissões de Super-Herói

Quando você pensa em Los Angeles, Hollywood, logo associa ao fantástico mundo do cinema, ao glamour das celebridades que por ali passam ou até mesmo aos turistas que visitam a região em busca desse universo da fama. Ledo engado. Pelo menos esse não é o contexto em que vivem Christopher Dennis, Joe McQueen, Jennifer Gerht e Maxwell Allen, personagens de “Confissões de Super-Heróis”, o ótimo documentário de Matthew Ogens, e uma das boas surpresas da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, exibido pela primeira vez na noite desta quarta-feira (22).

Todos eles têm algo em comum: são atores que não deram certo na capital do cinema e ‘trabalham’ fantasiados de super-heróis na Calçada da Fama, há poucos metros dos grandes estúdios, tirando fotos com turistas em troca de algumas gorjetas. Uma ocupação aparentemente fácil, não fosse a cola da polícia de Los Angeles, que põe oficiais à paisana para acompanhar de perto se eles não estão “abusando” dos turistas.

Como se não bastasse, os anti-heróis ainda enfrentam o preconceito das autoridades locais – um ex-prefeito de Hollywood, por exemplo, dá um depoimento ao longa dizendo que eles não passam de “mendigos” e “precisam ser retirados o mais rápido de lá”.

Durante o filme, é impossível você não se identificar ou no mínimo se sensibilizar com a pesada realidade em que vivem estes anti-heróis americanos, que vivem na linha tênue entre heróis e vilões – principalmente no momento em que o diretor expõe momentos críticos do dia-a-dia de todos. E vemos personagens de todos os tipos, do mais obecado pelo trabalho ao mais insatisfeito com a situação humilhante. “É como mendigar”, diz um deles.

O persistente Maxwell, um Hulk negro, por exemplo, vendeu seu videogame Super Nintendo para comprar uma passagem de ônibus com destino a Hollywood. Enquanto os planos não se concretizaram, ele passou quatro anos vivendo com um sem-teto nas ruas de Los Angeles, fazendo testes furados para a TV e no cinema.

A Mulher Maravilha cresceu na pequena Maynardville, no Tennessee, em boa família, e foi rainha do baile e líder de torcida no colegial. Se mandou para a capital do cinema determinada a ser uma atriz e teve total apoio dos pais. Lá engatou um romance, que virou um casamento fracassado.

O tempestuoso Batman nasceu no Texas e foi preso inúmeras vezes por diversas razões. É dele uma das cenas mais tragicômicas do filme, quando o mesmo vai à consulta com o psiquiatra, fantasiado de Homem Morcego, e confessa ter deixado “rastros de corpos no passado”. O bad boy, que guarda semelhanças com George Clooney [“é a cara dele”, diz a esposa], também faz bicos como segurança em sets de filmagem.

Mas o personagem principal e o mais interessante não é nenhum desses. É, sem sombra de dúvidas, o pirado Christopher Dennis, que encarna o Super-Homem há mais de dez anos no Hollywood Boulevard. Ele é o mais dedicado ao trabalho e um exímio conhecedor e colecionador de itens do super-herói mais carismático de todos os tempos. Para completar, é extremamente parecido – do pescoço pra cima – com Christopher Reeve, ator que interpretou o Homem de Ferro nos cinema.

Sua devoção ao ícone é tão grande, que ele copia até o “código de ética” do herói; situação visível quando enxergamos sua relação de juiz com os colegas de trabalho da região da Calçada – principalmente nas cenas em que ele repreende o Motoqueiro Fantasma por fumar na frente dos turistas ou tenta aconselhar a Marilyn Monroe, quando a mesma está irritada com os japoneses que “não deram uma gorjeta sequer”.

Durante o filme, ele apresenta sua casa, com todas as relíquias do Super-Homem, revela que é filho da atriz Sandy Dennis [vencedora do Oscar pelo filme “Quem tem medo de Virginia Wolf?, em meados dos anos 60] – e nem se abala quando os familiares da artista desconhecem o fato – e vai à uma convenção do herói dos quadrinhos com sua esposa, uma PhD em psicologia, tão excêntrica quanto ele.

Um dos momentos mais tensos, porém engraçados, do filme é quando o trabalho dos super-heróis de rua fica ameaçado pela prisão do Elmo, da “Vila Sésamo”, e do Senhor Incrível, do desenho “Os Incríveis”. Só que como a notícia foi destaque em todo o continente norte-americano, eles acabaram ganhando ainda mais fama ao aparecer em talk shows e matérias de várias revistas. “Toda publicidade é válida”, comenta Chris.

Mesmo com a fama que ganham de polêmica em polêmica, o caminho de todas essas figuras – ou losers, como prefere chamar Maxwell – para o estrelato é íngrime e longo. Mas o documentário cumpre o papel de humanizar estes personagens tão comuns como a maioria das pessoas, sob uma fotografia interessante e uma trilha sonora bem legal – assinada por Greg Kuehn, que foi tecladista da banda punk TSOL. 

O filme tem produção e narração de Morgan Spurlock [ele mesmo de Super Size Me] e chegou aos cinemas americanos no ano passado. No Brasil, está sendo exibido em Mostras e Festivais, com legendas eletrônicas e talvez nem chegue no circuito comercial de cinema.

Thyago Gadelha

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