“Sonata de Tóquio”, Kiyoshi Kurosawa, Japão 2008

Sonata de Tóqui

Sonata de Tóquio

“Sonata de Tóquio” pode ter várias leituras. Um drama, com alguns bons pontos cômicos, Kiyoshi Kurosawa (que não tem nem um parentesco com Akira), pode ser visto simplesmente como um drama família, mas também um filme sobre “mentiras absolutas”.

A familia Sasaki, formada pelo casal Ryuhei (Teruyuki Kagawa) e Megumi, e seus dois filhos Kenji (Kai Inowaki) e Taka (Yu Koyanagi). O ponto inicial , dramaturgicamente falando, é a proposta a Ryuhei para um cargo mais baixo na sua empresa. Orgulhoso demais para isso, Ryuhei pede demissão. Desempregado, ele tenta ainda manter o mesmo ritimo de vida que tinha, sem comunicar a sua família tal fato.

A família Sasaki, tem um tipo de relacionamento, talvez culturalmente justificado, distante e formal. Todas as relações, marido-mulher, pai-filho, irmão-irmão, são frias, sem conversa e sem qualquer demonstração de afeto.

Tudo é movido justifica pela autoridade masculina, pela autoridade do pai, desempregado e tão frágil como qualquer outro personagem. Quando Kenji coloca para família que quer estudar piano. Essa direito lhe é negado sem qualquer justificativa. O mesmo acontece quando Taka, diz querer alistar-se no exercito dos EUA por achar que é o responsável pela defesa mundial. Nada é conversado, somente proibido.

Proibição essa que vem sempre justificada através da hierarquia, acompanhado com doses de violência, pois quando se falta conversas e argumentos, o que sobra é a violência.

A família parece querer manter mentiras por medo de maiores conflitos ou mesmo por auto-proteção. Assim, eles caminham, fingindo estar tudo bem, sem querer enxergar o que realmente importa. Megumi, sente-se solitária mas não reage, a não ser internamente. Kenji mesmo contra vontade do pai, vai atrás de suas aulas de piano. Ryuhei passa a trabalhar de faxineiro, mas continua chegando em casa de terno para manter o status e não perder sua “moral” com a família. Taka, também sem autorização dos pais, vai servir ao exercito americano no Oriente Médio.

Porém isso não se sustenta. Então, como no estilo musical que dá nome ao filme, o movimento muda. Todos, individualmente, caminham para o extremo.

Interessante observar como o diretor, Kiyoshi Kurosawa, pontua os momentos dramáticos com a luz e o som do trem passando. Os momentos mais dramáticos, são marcados pelo trem, que se torna não mais um ponto de referência somente físico, mas sim diegético. Assim como a fotografia de Akiko Ashizawa, que também pontua alguns momentos dramáticos estourando sua luz por alguns segundos nos personagens.

Através de palavras ou ações, todos os personagens buscam a fuga, Nagomi é quem mais forte exterioriza isso, ““Que maravilha seria se minha vida toda tivesse sido um sonho, e eu acordasse e fosse uma outra pessoa”, sintetiza ela. Pergunta ainda se é possível recomeçar a sua vida.

Caminham nesse sentido todos os personagens. E também, todos os personagens caem em si. Isso não ocorre de maneira moralista, de clichê focando o “final feliz”, mas sim como uma conquista que ainda está em processo.

Uma cena muito forte desse processo é quando Ryuhei caminha meio sem rumo pela rua, tropeçando inúmeras vezes até cair de vez. Seria uma metáfora da vida, para se chegar a algum lugar é preciso cair, varias vezes, e talvez parecer derrotado, para então, levantar-se mais forte e continuar.

Então, assim como Nagomi ou Ryuhei, todos os personagens passam a enxergar de maneira mais clara, que não é a fuga que os salvará ou lhes dará uma vida melhor. Mas a reestruturação de sua própria vida. O que realmente vale é ter capacidade de enxergar os outros, ou outros lados, daquilo que parece evidente pra você.

Assim, é com esses novos olhos, que Taka escreve uma carta para família, dizendo que agora, vê que os EUA não são os únicos que estão certos na Guerra do Oriente Médio, e o outro lado, também tem suas razões, suas certezas. E é com esse novo olhar também, que Nagomi e Ryuhei assistem Kenji tocando no piano, “Claire de Lune”, de Debussy. Na cena mais emocionante do filme.

É quando então, parece que começam a perceber um ao outro. Mas como ainda é um novo começo de uma mesma vida, ao fim, ainda é difícil a demonstração de afeto. Porém, o respeito ao próximo, já um grande passo.

Jair Santana

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