“Linha de Passe”, Walter Salles e Daniela Thomas, 2008

Linha de Passe

Talvez por já ter sido um tema explorado demais, mas “Linha de Passe” em nada me arrebatou ao sair do cinema.

Apesar do prêmio de melhor atriz, para Sandra Corveloni, no Festival de Cannes, e Sandra realmente ter mostrado um excelente trabalho, não acho que o papel seja digno para tal premiação. Não pela atriz, mas sim, pela própria personagem. Ficamos feliz pelo prêmio, mas não sei o quanto foi realmente merecido.

O roteiro apostou por diálogos pesados e vulgares demais, sem falso moralismo, talvez para dar credibilidade ao universo descrito, mas não vejo isso como algo realmente fundamental para a construção dessa credibilidade. Acaba soando forçado.

Temos ainda historias que não chegam a lugar nem um, personagens que não apresentam transformação dramática e ainda uma falta de conclusão para todos esses personagens. “Linha de Passe” parece ter boa premissa, mas não sair do lugar.

O filme apresenta certo naturalismo, de sua fotografia à suas interpretações, que lhe cai maravilhosamente bem. Também é muito evidente o ótimo trabalho de conceito, mostrando sem firulas, daquela pobreza, que não é, mas beira a miséria. E também, o trabalho de decupagem minucioso. Mas fica nisso.

A ideia do filme foi tirada de três pontos principais. O documentário  “Santa Cruz” e a série para tv “Futebol”, ambos de João Moreira Salles, e ainda uma reportagem que saiu nos principais  jornais do país sobre um garoto de 14 anos que passava o dia andando de ônibus para descobrir quem era seu pai, que sabia ser motorista de ônibus e um dia roubou e dirigiu um ônibus pela cidade de São Paulo.

Essa conversa do filme ficcional com o documentário é muito evidente em “Linha de Passe”, onde isso é registrado em no tipo de câmera, fotografia e interpretações assumidos pelo filme. Mas isso não é novidade, “Cidade de Deus” sim, chegou vanguardista nessa linguagem. E de lá pra cá isso tem sido insistantemente utilizado por aqui.

Interessante observar no filme os escapes que sobram a pobreza, principalmente nas grandes capitais brasileiras. A quem não resta nada, nem a dignidade, sobra então a bebida, o futebol, a busca pela religião infundada, ou então, lhes sobra somente a marginalidade.

Isso é colocado de maneira interessante no filme. Pontuando a busca de cada personagem e sua maneira de fugir interiormente daquela miséria. O meu protesto fica na falta de conclusão de todas a estórias desses personagens. Porém, essa pode ser uma opinião bem pessoal, pois realmente, podemos argumentar, que isso, é como um ciclo, e não teríamos um final concreto, e aquela família, seria apenas microcosmos de todo aquele universo ali representado.

A personagem Cleuza, interpretada por Sandra Corveloni, é forte, e tenta no meio de toda pobreza, ter filhos que não se tornem marginais. Grávida de seu quinto filho, Cleuza trabalha até o extremo, se anulando e fazendo grandes esforços físicos, mesmo com sua gravidez.

“Linha de Passe” dentro dos filmes brasileiros dos últimos anos, apresenta talvez um novo universo da grande maioria. Diríamos, que socialmente, a família de Cleuza, encontra-se entre a baixa classe média de “A Casa de Alice” de Chico Teixeira, e a favela retratada em “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles. Essa linha tênue entre esses dois mundos, talvez, seja o que realmente, o filme tem de novo para nos mostrar. Sim, o filme nos apresenta um bom retrato social.

O que realmente temos de melhor no filme, é a trilha sonora do Oscarizado Gustavo Santaolalla. Uma trilha sensivel, triste, e até poética, mas com leve sensação de “de ja vu”, para quem assistiu “Babel”.

Jair Santana

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