“Confissões de Super-Heróis”, Matthew Ogens – 2007

Confissões de Super-Héroi

 

Confissões de Super-Herói

Quando você pensa em Los Angeles, Hollywood, logo associa ao fantástico mundo do cinema, ao glamour das celebridades que por ali passam ou até mesmo aos turistas que visitam a região em busca desse universo da fama. Ledo engado. Pelo menos esse não é o contexto em que vivem Christopher Dennis, Joe McQueen, Jennifer Gerht e Maxwell Allen, personagens de “Confissões de Super-Heróis”, o ótimo documentário de Matthew Ogens, e uma das boas surpresas da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, exibido pela primeira vez na noite desta quarta-feira (22).

Todos eles têm algo em comum: são atores que não deram certo na capital do cinema e ‘trabalham’ fantasiados de super-heróis na Calçada da Fama, há poucos metros dos grandes estúdios, tirando fotos com turistas em troca de algumas gorjetas. Uma ocupação aparentemente fácil, não fosse a cola da polícia de Los Angeles, que põe oficiais à paisana para acompanhar de perto se eles não estão “abusando” dos turistas.

Como se não bastasse, os anti-heróis ainda enfrentam o preconceito das autoridades locais – um ex-prefeito de Hollywood, por exemplo, dá um depoimento ao longa dizendo que eles não passam de “mendigos” e “precisam ser retirados o mais rápido de lá”.

Durante o filme, é impossível você não se identificar ou no mínimo se sensibilizar com a pesada realidade em que vivem estes anti-heróis americanos, que vivem na linha tênue entre heróis e vilões – principalmente no momento em que o diretor expõe momentos críticos do dia-a-dia de todos. E vemos personagens de todos os tipos, do mais obecado pelo trabalho ao mais insatisfeito com a situação humilhante. “É como mendigar”, diz um deles.

O persistente Maxwell, um Hulk negro, por exemplo, vendeu seu videogame Super Nintendo para comprar uma passagem de ônibus com destino a Hollywood. Enquanto os planos não se concretizaram, ele passou quatro anos vivendo com um sem-teto nas ruas de Los Angeles, fazendo testes furados para a TV e no cinema.

A Mulher Maravilha cresceu na pequena Maynardville, no Tennessee, em boa família, e foi rainha do baile e líder de torcida no colegial. Se mandou para a capital do cinema determinada a ser uma atriz e teve total apoio dos pais. Lá engatou um romance, que virou um casamento fracassado.

O tempestuoso Batman nasceu no Texas e foi preso inúmeras vezes por diversas razões. É dele uma das cenas mais tragicômicas do filme, quando o mesmo vai à consulta com o psiquiatra, fantasiado de Homem Morcego, e confessa ter deixado “rastros de corpos no passado”. O bad boy, que guarda semelhanças com George Clooney [“é a cara dele”, diz a esposa], também faz bicos como segurança em sets de filmagem.

Mas o personagem principal e o mais interessante não é nenhum desses. É, sem sombra de dúvidas, o pirado Christopher Dennis, que encarna o Super-Homem há mais de dez anos no Hollywood Boulevard. Ele é o mais dedicado ao trabalho e um exímio conhecedor e colecionador de itens do super-herói mais carismático de todos os tempos. Para completar, é extremamente parecido – do pescoço pra cima – com Christopher Reeve, ator que interpretou o Homem de Ferro nos cinema.

Sua devoção ao ícone é tão grande, que ele copia até o “código de ética” do herói; situação visível quando enxergamos sua relação de juiz com os colegas de trabalho da região da Calçada – principalmente nas cenas em que ele repreende o Motoqueiro Fantasma por fumar na frente dos turistas ou tenta aconselhar a Marilyn Monroe, quando a mesma está irritada com os japoneses que “não deram uma gorjeta sequer”.

Durante o filme, ele apresenta sua casa, com todas as relíquias do Super-Homem, revela que é filho da atriz Sandy Dennis [vencedora do Oscar pelo filme “Quem tem medo de Virginia Wolf?, em meados dos anos 60] – e nem se abala quando os familiares da artista desconhecem o fato – e vai à uma convenção do herói dos quadrinhos com sua esposa, uma PhD em psicologia, tão excêntrica quanto ele.

Um dos momentos mais tensos, porém engraçados, do filme é quando o trabalho dos super-heróis de rua fica ameaçado pela prisão do Elmo, da “Vila Sésamo”, e do Senhor Incrível, do desenho “Os Incríveis”. Só que como a notícia foi destaque em todo o continente norte-americano, eles acabaram ganhando ainda mais fama ao aparecer em talk shows e matérias de várias revistas. “Toda publicidade é válida”, comenta Chris.

Mesmo com a fama que ganham de polêmica em polêmica, o caminho de todas essas figuras – ou losers, como prefere chamar Maxwell – para o estrelato é íngrime e longo. Mas o documentário cumpre o papel de humanizar estes personagens tão comuns como a maioria das pessoas, sob uma fotografia interessante e uma trilha sonora bem legal – assinada por Greg Kuehn, que foi tecladista da banda punk TSOL. 

O filme tem produção e narração de Morgan Spurlock [ele mesmo de Super Size Me] e chegou aos cinemas americanos no ano passado. No Brasil, está sendo exibido em Mostras e Festivais, com legendas eletrônicas e talvez nem chegue no circuito comercial de cinema.

Thyago Gadelha

“Gomorra”, Matteo Garrone, 2008

Gomorra

Gomorra

 “Gomorra”, de Matteo Garrone, junto com “Il Divo”, Paolo Sorrentino, estão sendo considerados pelos maiores críticos internacionais como os representantes do “renascimento do cinema italiano”. Ovacionados pela não só pela crítica, mas também pelo público, saíram de Cannes em 2008, mais que festejados.

Baseado no livro de mesmo nome e fundamentado em pesquisa jornalísticas de Roberto Saviano, que está jurado de morte na Itália em função do livro. “Gomorra” tem aguçado a curiosidade e o interesse do público no mundo todo.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, o filme faz uma nova leitura da máfia italiana, entrando pra o hall dos bons filmes do tema, como “Poderoso Chefão”, “Era Uma Vez na América”, por exemplo.

“Gomorra” apresenta uma máfia menos glamorosa e mais seca. Seus chefões não são romantizados como em “O Poderoso Chefão” de Coppola. Pelo contrarário, são feios, sujos e, podendo parecer trocadilho, e malvados.

A proposta é de uma narrativa voltada para se aproximar o máximo do documental. Pra isso, Garrone se utiliza de uma fotografia pouco trabalhada, suja e do grande uso de câmera na mão. Além de pouca utilização de música incidenteal e mesmo trilha sonora.

Sem um personagens central, o filme apresenta cinco situações se entrelaçam, e o que tem em comum, são as relações com a máfia, mais especificamente com a Organização Camorra. Situações não distantes das que, os residentes da província de Nápoles e Caserta, são obrigados a conviver diariamente.

O filme mostra a relação da máfia com o comércio local, com a moda, enfim, com tudo que pode render algum lucro para a organização e como tudo é controlado por eles, direta e indiretamente.

A mistura de atores e não atores, a violência e as várias historias entrelaçadas e mesmo o tipo câmera, fazem lembrar, e talvez seja uma citação proposital, do filme “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles. Inclusive, citado em várias criticas internacionais sobre o filme de Garrone.

Scorsese definiu o filme, na noite de estréia no New York Film Festival, da seguinte maneira:

“Esqueçam a narrativa tradicional. E as explicações. Aqui vocês não sabem em que país estão, não sabem em qual estrada estão. E não o saberão nunca. Estão encurralados em um outro planeta e estão sozinhos. Ninguém os socorre, não existe saída. Ou melhor, perece que a única saída para os personagens será ruim. E entenderão que este mundo vai continuar. E é uma verdadeira desgraça”.

Poucas explicações poderiam ser melhor. Garrone é pessimista. Não existe redenção, nem saída visível. Não existe controle do estado, somente o da máfia. É ela quem decide quem vive ou quem morre, quem ganha e quem perde, e quem vende ou não.

Porém, apesar de toda crítica favorável, público apostando, foi o vencedor de Melhor Filme do Festival do Rio, segundo o júri popular. Não vejo o filme como tão encantador assim. Como já foi dito, essa narrativa desconstruída e a violência exagerada, já se viu em “Cidade de Deus” ou em menor escala,Crash e “Babel”.

É um bom filme sem dúvida, mas acredito em uma superestima da crítica pelo filme e pelo próprio diretor. Não apresenta nada de novo, ou que realmente possa chocar quem já tem os filmes citados, em sua bagagem cinematográfica.

“Gomorra” foi escolhido para representar a Itália, para concorrer ao Oscar de Melhor Filme, estrangeiro. Seu maior concorrente, “Il Divo” de Sorrentino, aborda o mesmo tema. A Máfia Italiana.

Jair Santana

“O Clone Volta Pra Casa”, Kanji Nakajima, 2008

O Clone Volta pra Casa

O Clone Volta pra Casa

 

Escolhido por Wim Wenders para fazer parte de sua seleção de filmes para a 32º Mostra de Cinema de São Paulo, “O Clone Volta pra Casa”, o terceiro longa do diretor Kanji Nakajima é pretensioso, monótono e confuso.

Sua tentativa de misturar de ficção científica, drama e realismo fantástico. Acaba por não saber trabalhar o roteiro e conseqüentemente não convencer em nem uma das linhas que aposta.

Produção caprichada, mas cheia de equívocos, tornam esse filme um grande emaranhado de tentativas dramáticas que não se concluem.

“O Clone Volta pra Casa” narra a historia de Kohei Takahara, um astronauta que se perde no espaço e é legalmente ressuscitado, como um clone. Porém, ao acordar, sua memória volta a reviver um episódio trágico de sua infância. A partir daí, o filme começa a ficar confuso e fantástico demais, sem encaixar essa fantasia ao que o filme se propõe.

Fotografia monocromática, não casa com nem com linha dramática do filme, muito menos com a ficção cientifica. A música, sem nem uma sensibilidade, o torna mais lento e sonolento.

Kanji está em seu quinta longa metragem, e costuma ser o roteirista, fotografo, montador e compor a trilha para os seus filmes. O que eu acho um certo exagero. Cinema autoral tudo bem, mas esse monopólio exagerado acaba, claramente, nesse caso em particular, prejudicando o filme.

Wood Allen por exemplo tem total poder sobre seus filmes, mas delega funções e trabalha junto com seus técnicos. Assim fazia Hitchcock e tantos outros diretores autorais

A busca de Kohei pelo passado, poderia ter dado um rumo dramático inusitado ao filme de ficção científica que a premissa propõe. Mas essa opção foi totalmente ignorado pelo diretor.

“O Clone Volta pra Casa” nada acrescenta ao cinema de hoje. Nem técnicamente, nem dramaticamente e nem mesmo atrai o público. Wim Wenders tem ótimos filmes, mas, sem querer parecer prepotente por criticar um grande mestre como ele, essa sua “dica” é um grande erro.

Jair Santana

“Sonata de Tóquio”, Kiyoshi Kurosawa, Japão 2008

Sonata de Tóqui

Sonata de Tóquio

“Sonata de Tóquio” pode ter várias leituras. Um drama, com alguns bons pontos cômicos, Kiyoshi Kurosawa (que não tem nem um parentesco com Akira), pode ser visto simplesmente como um drama família, mas também um filme sobre “mentiras absolutas”.

A familia Sasaki, formada pelo casal Ryuhei (Teruyuki Kagawa) e Megumi, e seus dois filhos Kenji (Kai Inowaki) e Taka (Yu Koyanagi). O ponto inicial , dramaturgicamente falando, é a proposta a Ryuhei para um cargo mais baixo na sua empresa. Orgulhoso demais para isso, Ryuhei pede demissão. Desempregado, ele tenta ainda manter o mesmo ritimo de vida que tinha, sem comunicar a sua família tal fato.

A família Sasaki, tem um tipo de relacionamento, talvez culturalmente justificado, distante e formal. Todas as relações, marido-mulher, pai-filho, irmão-irmão, são frias, sem conversa e sem qualquer demonstração de afeto.

Tudo é movido justifica pela autoridade masculina, pela autoridade do pai, desempregado e tão frágil como qualquer outro personagem. Quando Kenji coloca para família que quer estudar piano. Essa direito lhe é negado sem qualquer justificativa. O mesmo acontece quando Taka, diz querer alistar-se no exercito dos EUA por achar que é o responsável pela defesa mundial. Nada é conversado, somente proibido.

Proibição essa que vem sempre justificada através da hierarquia, acompanhado com doses de violência, pois quando se falta conversas e argumentos, o que sobra é a violência.

A família parece querer manter mentiras por medo de maiores conflitos ou mesmo por auto-proteção. Assim, eles caminham, fingindo estar tudo bem, sem querer enxergar o que realmente importa. Megumi, sente-se solitária mas não reage, a não ser internamente. Kenji mesmo contra vontade do pai, vai atrás de suas aulas de piano. Ryuhei passa a trabalhar de faxineiro, mas continua chegando em casa de terno para manter o status e não perder sua “moral” com a família. Taka, também sem autorização dos pais, vai servir ao exercito americano no Oriente Médio.

Porém isso não se sustenta. Então, como no estilo musical que dá nome ao filme, o movimento muda. Todos, individualmente, caminham para o extremo.

Interessante observar como o diretor, Kiyoshi Kurosawa, pontua os momentos dramáticos com a luz e o som do trem passando. Os momentos mais dramáticos, são marcados pelo trem, que se torna não mais um ponto de referência somente físico, mas sim diegético. Assim como a fotografia de Akiko Ashizawa, que também pontua alguns momentos dramáticos estourando sua luz por alguns segundos nos personagens.

Através de palavras ou ações, todos os personagens buscam a fuga, Nagomi é quem mais forte exterioriza isso, ““Que maravilha seria se minha vida toda tivesse sido um sonho, e eu acordasse e fosse uma outra pessoa”, sintetiza ela. Pergunta ainda se é possível recomeçar a sua vida.

Caminham nesse sentido todos os personagens. E também, todos os personagens caem em si. Isso não ocorre de maneira moralista, de clichê focando o “final feliz”, mas sim como uma conquista que ainda está em processo.

Uma cena muito forte desse processo é quando Ryuhei caminha meio sem rumo pela rua, tropeçando inúmeras vezes até cair de vez. Seria uma metáfora da vida, para se chegar a algum lugar é preciso cair, varias vezes, e talvez parecer derrotado, para então, levantar-se mais forte e continuar.

Então, assim como Nagomi ou Ryuhei, todos os personagens passam a enxergar de maneira mais clara, que não é a fuga que os salvará ou lhes dará uma vida melhor. Mas a reestruturação de sua própria vida. O que realmente vale é ter capacidade de enxergar os outros, ou outros lados, daquilo que parece evidente pra você.

Assim, é com esses novos olhos, que Taka escreve uma carta para família, dizendo que agora, vê que os EUA não são os únicos que estão certos na Guerra do Oriente Médio, e o outro lado, também tem suas razões, suas certezas. E é com esse novo olhar também, que Nagomi e Ryuhei assistem Kenji tocando no piano, “Claire de Lune”, de Debussy. Na cena mais emocionante do filme.

É quando então, parece que começam a perceber um ao outro. Mas como ainda é um novo começo de uma mesma vida, ao fim, ainda é difícil a demonstração de afeto. Porém, o respeito ao próximo, já um grande passo.

Jair Santana

“Caos Calmo”, Antonello Grimaldi, 2008

Caos Calmo

Caos Calmo

“Caos Calmo”, é um filme poético, leve e emocionante. Primeiro filme de Antonello Grimaldi, e no elenco, o personagem principal é interpretado pelo diretor, ator e produtor Nanni Moretti, do aclamado filme “O Quarto do Filho”.

O filme é basicamente, sobre o sentimento de perda, e a maneira de se ligar com esse sentimento. O empresário Peitro perde sua mulher, ficando responsavel por sua filha de 10 anos.

Algumas criticas especializadas, colocaram que, apesar de o filme ter somente o roteiro de Nanni Moretti, com a direção do estreante Antonelo Grimaldi, o filme está muito próximo da cinematografia de Moretti, parecendo uma continuação de seus trabalhos, justamente por seu tema.

Em “Caos Calmo”, a maneira com que o personagem Pietro encontra para lidar com tal situação, é retirando-se de tudo que até então lhe era essencial, passando então a se dedicar somente ao amor por sua filha.

Pietro então passa a dividir seu dia entre sua casa e uma praça em frente ao colégio de sua filha. Passando a trabalhar, receber amigos, fazer negócios, enfim, tudo referente a sua vida, passa a ser resolvido naquela praça. Então, com o passar do tempo, Pietro vai passando a conviver, conhecer e fazer parte daquele mundo.

A interpretação de Nanni Moretti é memorável. Introspectiva e simplista como o filme sugere, um tipo de interpretação difícil, pois os personagens comuns acabam por exigir mais esforço dos atores que os que claramente pedem uma maior carga dramática.

A direção é segura, e sabe muito bem onde quer chegar. As cenas onde a direção consegue transformar situações simples, momentos de reflexão e poesia são muito bem realizadas. Apresentando também ótimos momentos de humor, algo incomum em filmes que se propõe a trabalhar de maneira séria, com o sentimento de perda.

“Caos Calmo” tem roteiro adaptado do livro, de mesmo título, do autor Sandro Veronesi, que também participou do roteiro, junto com Nanni Moretti, Laura Paolucci e Francesco Piccolo . O maior problema do filme talvez esteja aí, no roteiro. Paralelamente a trama principal, temos Pietro participando de uma negociação, que fica um tanto confusa e acaba perdendo um pouco a função que talvez tivesse que ter.

Uma ótima e irônica surpresa fica com a participação de Roman Polanski, interpretando um capitalista empresário americano, negociando a compra da TV a qual Pietro trabalho. Roman Polanski que hoje é proibido de entrar nos EUA acusado de pedofilia.

“Caos Calmo” ainda apresenta uma trilha sonora marcante e muito boa. Seja na música tema do filme de Paolo Buonvino. e ainda nas músicas que compõe o restante da trilha com participações como a de  Radiohead por exemplo.

É um filme que apresenta uma dessas trilhas para se escutar sem parar. E é um desses filmes para se ver e rever. Pois nem tudo é entregue mastigado, e suas entrelinhas podem conter mais que do que simplesmente é mostrado.

Jair Santana

“Pra Que Serve o Amor Só Em Pensamento?”, Achim von Borries, 2004

Pra Que Serve o Amor Só Em Pensamento?

Pra Que Serve o Amor Só Em Pensamento?

Filme alemão, de Achim von Borries, mesmo roterista do aclamdo “Adeus, Lenin!”, e tão bem excutado quanto, porém com um ritmo totalmente diferente. Em ritimo de romance, porém com final trágico, Achim von Borries nos preseteia com um filme visualmente deslumbrante.

O filme tem seu roteiro baseado numa história real, ocorrida em Berlim, em 1927, que ficou conhecido como “Clube do Suicídio” e chocou a sociedade britânica no final da décda de 20.

“Pra Que Serve o Amor Só Em Pensamento?” tem uma boa fotografia de Jutta Pohlmann, uma ótima trilha sonora de Thomas Feiner, e interpretaçoes que lhe caem com suavidade ao mesmo tempo que com muita segurança. O único conhecido do grande público é Daniel Bruehl, de “Adeus Lenin” e “Edukators”, mais uma vez, com excelente participação. Conta ainda com August Diehl, que apesar de uma filmografia de 11 filmes ainda é conhecido somente na Alemanha, e a belissima e expressiva Anna Maria Nuehe, que é um presente nesse filme, pois além de boa é de uma sensualidade de atrizes de época, que encatavam mais com um olhar que com o tirar a roupa.

Guenther (August Diehl ) e Paul (Daniel Brühl ) são dois jovens convencidos de que a vida deve ser vivida no limite e sem regras, o que também vale para o amor. Junto com Hilde (Anna Marie Hehe), irmã de Guenther, eles vão passar um fim de semana numa casa de campo. Paul fica fascinado por Hilde e se apaixona rápidamente. Em princípio, ela parece também estar sentindo o mesmo por ele. Mas Hilde, há algum tempo, vem se encontrando secretamente com um rapaz chamado Hans, ex-amante de seu irmão Guenther. A partir desse quadrilátero amoroso, o roteiro nos coloca em situações inusitadas, envolventes, nos conduzindo a um clímax inesperado.

O filme prende, envolve, nos apresentanto uma juventude não muito diferente da juventude hoje. Seu ritimo é mais lento dos filmes que apresentam o mesmo teor dramático, mas está longe de por isso, ser cansativo ou monótono.

Mais uma boa pedida do cinema alemão, que nos últimos anos tem apresentado uma filmografia variada e muito bem executada. “Pra Que Serve o Amor Só Em Pensamento?” fez boa carreira na Alemanha, teve uma distribuição pequena pela Europa, e recebeu uma indicação ao European Film Awards de Melhor Ator – Júri Popular (Daniel Brühl).

Jair Santana

“Herói”, Zhang Yimou, 2002

HeroiHeroi

Filme do cineasta chinês Zhang Yimou, diretor do ótimo “Lanternas Vermelhas”, vem agora com o estonteante “Heroi”. O melhor adjetivo pra classificar esse filme é como “IMPRESIONANTE”. De sua beleza técnica, ao seu roteiro, de sua poesia ao seus momentos de ação. “Herói” é um desses achados do cinema oriental.

Na mesma linha de técnica e dramaturgia do arrebatador “Tigre e o Dragão” de Ang Lee, “Heroi” é um filme que mistura ação e poesia pura, é emocionante, rico historicamente baseado numa lenda chinesa, e também, inquestionavelmente, é rico aos olhos.

O historia se passa há cerca de mil anos, quando a China era uma enorme região divida em sete reinos. O pano de fundo explica que o rei da província de Qin (Daoming Chen), mais ao norte, está no meio de uma ofensiva militar para dominar todos os outros sob um único império. Por causa disso, Qin é odiado e faz inimigos mortais em vários territórios inimigos. Quando “Herói” começa, ele está recebendo no palácio um guerreiro sem nome (Jet Li) que anuncia ter dado cabo dos três mais perigosos assassinos que tentavam matar Qin. O imperador, então, pede ao estranho que explique como conseguiu exterminar três adversários tão poderosos.

Uma das mais caras produções da historia do cinema Chinês, com o custo de 30 miulhões de dólares, o filme foi também uma das maiores bilheterias em seu país. Mesmo sendo seriamente criticado pelo governo, o épico de Zhang Yimou chamou atenção também do mercado internacional, e “Herói” foi o segundo maior sucesso de língua não inglesa nos EUA, atrás somente de “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson.

O filme reúne atores do circuito do cinema de arte como Meggie Cheung e Tony Leung, e do comercial como Jet Li, que cobrou cachê reduzido para participar do filme. Este é o segundo de três filmes em que o diretor Zhang Yimou e a atriz Zhang Ziyi trabalham juntos

A direção de arte de Tingxiao Huo e a fotografia de Christopher Doyle, fotografo do mestre visual Wong Kar-Wai, fazem um lindo casamento. E a utilização das cores se torna um espetáculo inesquecível. Porém, as cores fazem sentido real se você está consciente das associações emocionais atribuídas pelo diretor à paleta de cores: vermelho (paixão), azul (amor), verde (juventude), branco (verdade) e preto (morte). Mas se você não está por dentro desse quadro, vai achar tudo lindo apenas “bonito”

O diretor e produtor Quentin Tarantino foi responsável diretamente com o lançamento de “Heroi” nos Estados Unidos, que entrou em contato com os executivos da Miramax de forma a convencê-los a lançar o filme comercialmente nos cinemas, sob o título “apresentado por Quentin Tarantino”.

Tarantino se mostra sempre estar atento ao que acontece no cinema mundial, principalmente ao cinema oriental. Foi assim também quando convidou foi diretor de Juri do Festival de Cannes, convidou “Old Boy”, de Park Chan-wook para o Festival e este acabou ganhando o Grande Prêmio do Júri.

Muitos poderão falar que “Herói”, se aproveitou do sucesso de “Tigre e o Dragão” para tentar conquistar o mercado internacional. Porém, mais que isso, “Herói” é uma aula de cinema e filosofia oriental.

Perto de “Herói” , falando-se de produção e ousadia, maioria dos grandes épicos do cinema americano, parecem filmes “menores”. A ousadia de se misturar ação e poesia é algo pouco pensado e usado pelo cinema Hollywoodiano

Jair Santana

“Aganju” – Bebel Gilberto

Música: Aganju
Disco: Tanto Tempo
Ano: 2004

“Bette Davis Eyes” – Kim Carnes

Música: Bette Davis Eyes
Album: Mistaken Identity”
Ano: 1981

“Baby Love”, Vincent Garenq – 2008

 

Baby Love

Baby Love

Primeiro longa-metragem do diretor de televisão francês Vincent Garenq, “Baby Love” estranhamente, foi a maior bilheteria na França até agora no ano de 2008. Falo “estranhamente” porque apesar da temática polêmica, o filme não apresenta aprofundamento no assunto e tambem  nada de realmente novo.

Parece mais um filme médio americano para televisão, que um bom cinema francês. Isso mais pela superficialidade que apresenta seu roteiro, que por qualquer outra coisa.

Um casal gay, Manu, interpretado pelo ator francês Lambert Wilson, mais conhecido pelo grande público como o Merovingian de “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”, e seu companheiro Phillippe (Pascal Elbé), lutam entre si, e contra o sistema de adoção francês para adotar uma criança.

Apesar de nunca se aprofundar seriamente, e em alguns momentos tender mais para piadinhas para conquistar o grande público, o filme deixa claro sua crítica a França em proibir casais gays de adotarem crianças. Comparando até a evolução nesse tema da “atrasada” Espanha.

O roteiro é inspirado em uma situação real ocorrida com um amigo do diretor e roteirista Vincent Garenq. Que também passou a realizar pesquisas na Associação de Pais Gays e Lésbicas (APGL) e, por meio dela, teve contato com famílias e levantou casos interessantes para colaborar com o roteiro. Sua primeira idéia, era realizar um documentário sobre o assunto, acabou transformando em ficção por achar que chegaria a mais pessoas.

No geral filme diverte mas não convence. Os atores estão bons, a fotografia de Jean-Claude Larrieu de “Paris, Te Amo” é usual, a música da dupla Loïc Dury e Laurent Lavesque passa despercebida. Resumindo, o filme não decola.

Não é um filme para se levar a sério. Fica com cara de filme pra televisão, algo que é o que realmente Vincent Garenq está acostumado a fazer.

Jair Santana

“O Nevoeiro”, Frank Darabont, 2008

O Nevoeiro

O Nevoeiro

O diretor e roteirista Frank Darabont volta com sua terceira adaptação de livros de Stephen King. As outras duas foram “Um Sonho de Liberdade” e “À Espera de um Milagre”

“O Nevoeiro” é vendido basicamente para o grande público como um filme de terror. E até certo ponto o é, e por sinal, um filme que realmente dá medo. Porém não se resume somente a isso.

A historia, é sobre um grupo pessoas preso em um supermercado de uma pequena cidade americana, em função de um nevoeiro misterioso e fatal. Esse grupo se vê obrigado a conviver e sobreviver juntos durante um tempo indeterminado.

Em meio aquele microcosmos da sociedade americana pós-11 de setembro, temos uma clara noção do quanto o medo nos torna doentes e tão fatais quanto o nevoeiro, ou seja, tão ou mais fatais que o nosso medo do desconhecido. E esse desconhecido, ali representado pelo nevoeiro, poderia ser qualquer coisa, como um pais ou uma cultura diferente por exemplo.

Dentro daquele supermercado discutiremos então, o poder das forças armadas, a imigração, o extremismo em defesa da “moral”, da família, e principalmente o estado laico versus estado religioso.

A metáfora usada por Darabont para mostrar esse conflito é usada maravilhosamente bem. O filme mostra bem como a insanidade é usada em nome do bem, em nome de Deus, com discursos não muito irreais de muitos que vemos por aí.

Fotografia monocromática, dá um clima especial ao filme. A música do grupo “Dead Can Dance”, The Host Of Seraphim, interage perfeitamente com o final do filme, frisando o mistério de tudo que ocorre no filme.

Boas interpretações, em especial da insuportável extremista religiosa interpretada por Marcia Gay Harden, de “A Naturesa Selvagem”, numa interpretação digna de premiações.

Esses debates sociais e religiosos dentro do filme acabam sendo o que realmente importa e deve-se prestar atenção em “O Nevoeiro”. As atitudes violentas que nossos medos trazem a tona. O que mais nos chama atenção é a histeria coletiva, justificada por disputa de poder, territorialismo, religião ou qualquer outra situação que tente justificar esse comportamento quase animal.

O filme em si parece defender um estado laico e liberal. E por fim, nos coloca em cheque com ceticismo do personagem principal. O fim poderia ser diferente se existisse a crença por um final feliz? O filme então coloca nossa fé em cheque.

Me surpreendi muito com o filme. Que tem um dos finais mais arrebatadores, angustiantes que vi nos ultimos anos. Apesar de beirar o cinema trash em algumas cenas, onde aparecem insetos gigantes e tentáculos asquerosos, “O Nevoeiro” vale a pena a ida ao cinema, e se prestar atenção nas entrelinhas do filme.

Jair Santana

“Linha de Passe”, Walter Salles e Daniela Thomas, 2008

Linha de Passe

Talvez por já ter sido um tema explorado demais, mas “Linha de Passe” em nada me arrebatou ao sair do cinema.

Apesar do prêmio de melhor atriz, para Sandra Corveloni, no Festival de Cannes, e Sandra realmente ter mostrado um excelente trabalho, não acho que o papel seja digno para tal premiação. Não pela atriz, mas sim, pela própria personagem. Ficamos feliz pelo prêmio, mas não sei o quanto foi realmente merecido.

O roteiro apostou por diálogos pesados e vulgares demais, sem falso moralismo, talvez para dar credibilidade ao universo descrito, mas não vejo isso como algo realmente fundamental para a construção dessa credibilidade. Acaba soando forçado.

Temos ainda historias que não chegam a lugar nem um, personagens que não apresentam transformação dramática e ainda uma falta de conclusão para todos esses personagens. “Linha de Passe” parece ter boa premissa, mas não sair do lugar.

O filme apresenta certo naturalismo, de sua fotografia à suas interpretações, que lhe cai maravilhosamente bem. Também é muito evidente o ótimo trabalho de conceito, mostrando sem firulas, daquela pobreza, que não é, mas beira a miséria. E também, o trabalho de decupagem minucioso. Mas fica nisso.

A ideia do filme foi tirada de três pontos principais. O documentário  “Santa Cruz” e a série para tv “Futebol”, ambos de João Moreira Salles, e ainda uma reportagem que saiu nos principais  jornais do país sobre um garoto de 14 anos que passava o dia andando de ônibus para descobrir quem era seu pai, que sabia ser motorista de ônibus e um dia roubou e dirigiu um ônibus pela cidade de São Paulo.

Essa conversa do filme ficcional com o documentário é muito evidente em “Linha de Passe”, onde isso é registrado em no tipo de câmera, fotografia e interpretações assumidos pelo filme. Mas isso não é novidade, “Cidade de Deus” sim, chegou vanguardista nessa linguagem. E de lá pra cá isso tem sido insistantemente utilizado por aqui.

Interessante observar no filme os escapes que sobram a pobreza, principalmente nas grandes capitais brasileiras. A quem não resta nada, nem a dignidade, sobra então a bebida, o futebol, a busca pela religião infundada, ou então, lhes sobra somente a marginalidade.

Isso é colocado de maneira interessante no filme. Pontuando a busca de cada personagem e sua maneira de fugir interiormente daquela miséria. O meu protesto fica na falta de conclusão de todas a estórias desses personagens. Porém, essa pode ser uma opinião bem pessoal, pois realmente, podemos argumentar, que isso, é como um ciclo, e não teríamos um final concreto, e aquela família, seria apenas microcosmos de todo aquele universo ali representado.

A personagem Cleuza, interpretada por Sandra Corveloni, é forte, e tenta no meio de toda pobreza, ter filhos que não se tornem marginais. Grávida de seu quinto filho, Cleuza trabalha até o extremo, se anulando e fazendo grandes esforços físicos, mesmo com sua gravidez.

“Linha de Passe” dentro dos filmes brasileiros dos últimos anos, apresenta talvez um novo universo da grande maioria. Diríamos, que socialmente, a família de Cleuza, encontra-se entre a baixa classe média de “A Casa de Alice” de Chico Teixeira, e a favela retratada em “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles. Essa linha tênue entre esses dois mundos, talvez, seja o que realmente, o filme tem de novo para nos mostrar. Sim, o filme nos apresenta um bom retrato social.

O que realmente temos de melhor no filme, é a trilha sonora do Oscarizado Gustavo Santaolalla. Uma trilha sensivel, triste, e até poética, mas com leve sensação de “de ja vu”, para quem assistiu “Babel”.

Jair Santana