“A SEITA DO GATO PRETO”, de Marcello Gabbay

Gato Preto

Gato Preto

Com o avanço da informática os homens parecem ter redescoberto a mágica precisão e o poder das ciências exatas. Sendo o computador e seus programas baseados em códigos e sistemas numéricos, na informática, tudo é números.

Aconteceu que dia desses ví um anúncio espantoso que chamou minha atenção de maneira especial. Um grupo de cientistas brasileiros, do Norte do país havia desenvolvido um software capaz de revelar a data e hora exatas da morte de qualquer pessoa. Com base nos dados pessoais e datas da vida, o computador podia montar uma função aritmética que tem como resultado o momento da morte. Não me perguntem como, mas os resultados e testes que estes cientistas haviam revelado eram assombrosos.

A empresa autora do software acabou adquirindo o efeito de uma seita religiosa entre os adeptos e crentes do programa, causando certo reboliço na região. Seu símbolo, um gato preto cujo rabo dava a volta em seu corpo formando um desenho circular ao seu redor, passou a aparecer em vidros de automóveis, postes, e folhetos pelas ruas das principais cidades do Brasil. Várias filiais foram instaladas, sendo uma delas em Belém. Uma modesta casa de altos e baixos no final de uma alameda da Avenida Almirante Barroso podia ser facilmente identificada pela placa com o imenso gato preto. No interior da casa, instalações simples porém dispostas do que de mais moderno havia em informática.

Para saber a data de sua morte, bastava preencher um cadastro on line com alguns dados de sua vida e voala!: A data e hora de sua morte impressas num laudo em papel couchê com o maldito gato preto timbrado embaixo. Certo dia, não me contive e fui até o local. Minha intenção era de simplesmente ‘espiar’ o que se passava ali e a quantidade de pessoas que estariam interessadas no assunto.

Logo na entrada, uma mulher gorda de semblante simpático e amigo era a recepcionista do local. Além dela apenas dois homens, cada um por volta dos 30 anos de idade, operavam os comutadores preenchendo os dados. Todos se vestiam de branco com batas sobre a roupa, assim como cientistas. Na hora em que fui, não havia quase ninguém, e estupefato pela aura mórbida do local, não prestei atenção enquanto a recepcionista gorda me inscrevia na fila de atendimento. Ela foi me pedindo os documentos pessoais: Carteira de identidade, C.P.F, estas coisas. Desatento entreguei-lhe a carteira e quando dei por mim, percebi que meu cadastro estava quase completo. Foi aí que tomei um grande susto! Não queria dar prosseguimento àquela loucura. Pedi que parassem, expliquei-lhes que passava por ali apenas por curiosidade, mas os ‘cientistas’ insistiram em digitar fervorosamente os dados enquanto as equações mortuárias tomavam forma na tela do computador.

Peguei minha carteira e sai correndo dali, que eles soubessem a data de minha morte, tudo bem, mas eu não queria contar os dias de minha vida. Já estava no meio da alameda quando a mulher gorda gritou o meu nome. Chamou-me pelo nome!! De forma íntima e preocupada! Não resisti à mórbida curiosidade, e sem que pudesse controlar minhas ações, virei-me e peguei de suas mãos, o maldito laudo com o gato preto impresso embaixo. Foi quando tive a péssima notícia que já estava muito bem estampada nos olhos esbugalhados e piedosos da gorda recepcionista: Minha morte viria naquele mesmo dia, em apenas seis horas…

Restavam-me seis horas de vida apenas para realizar uma infinidade sonhos e planos. Rever pessoas de quem sentia saudades, conhecer pessoas que eu admirava ou imaginava existirem. Comprar o carro dos meus sonhos, casar com a mulher que eu amava, Ter filhos, netos, conhecer a Europa, a Ásia, o Rio de Janeiro. Tudo que eu imaginara para mim, em apenas seis horas…

Por alguns minutos o desespero tomou conta de mim. Mas logo decidi, calmamente, que deverei dedicar estes últimos momentos a viver o que pudesse. Decididamente, não contaria a ninguém a triste notícia, assim evitaria perda de tempo com choros e lamentos, o tempo era agora, mais do que nunca, valioso para mim. Segui para casa e despedi-me dos objetos e lembranças que jamais veria de novo. As músicas, livros, fotografias e filmes que deixaria para sempre no mundo dos vivos. Fui à praça que tanto amava caminhar e dizer adeus às árvores, bancos, pássaros, lagos e à calçada.

Antes de tomar o laudo do ‘gato preto’, tinha programado para aquela noite ir a uma festa com minha namorada. Já era de tarde e como era mesmo impossível fazer tudo o que eu queria, decidi ir logo à esta festa, assim poderíamos aproveitar juntos aquela que seria minha última noite. Apanhei minha garota em sua casa e fomos dançar, beber, e namorar bastante; por um instante esqueci de meu trágico destino que se aproximava, dançamos tanto que quando dei por mim já era bem tarde!!

-“Depressa!!!!! Vamos embora, por favor, sim?” Sai puxando minha namorada pelo braço, queria que houvesse tempo para uma última noite de amor, não poderia partir sem isso! Mas já era tarde, quando coloquei a chave do carro na maçaneta da porta, meu telefone celular ‘berrou’ um bip muito estranho e contínuo, como um alarme bem alto.

Bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip

Puxei o aparelho do bolso e olhei no visor que também piscava nervosamente. QUE SUSTO!!!!! Era o gato preto! Maldito!! Por meio segundo imaginei que sofreríamos um terrível acidente de carro. Rezei para que não acontecesse nada com minha garota. Um milhão de dúvidas pipocaram em minha mente: Será que sentirei muita dor? O que existe após a morte? Nunca mais verei ninguém que conheci nesta vida? Ai meu Deus!!??

O telefone ainda bipava, apertei então o botão do aparelho e o gato preto sumiu da tela, em seu lugar, apareceu a seguinte inscrição:

Marcelo
*1940 + 1971

Foi aí que um enorme alívio invadiu meu corpo como um cobertor no frio! Meu nome é Marcelo, mas não nasci em 1940, e nós não estamos em 1971. Não sou eu, houve um terrível engano! Que alívio, meu Deus, que alívio senti naquela hora. Foi quando entrei no carro e sentei-me no banco ao lado de minha garota que me olhava docemente; agora vou aproveitar bem mais a vida. Afinal, tenho apenas vinte e poucos anos, ainda viverei pelo menos mais sessenta!

Foi quando a terrível conclusão chegou na minha cabeça como um nó que se desata, ou melhor, como a resposta secreta de uma equação mórbida como aquela que a Seita inventou para descobrir a data da morte. Neste instante um gato preto cruzou pela frente do carro, ainda parado, e fisgou os olhos amarelos e bem acesos em minha direção. Tudo ficou claro.

-“Meu Deus, Este Marcelo cujas datas de nascimento e morte aparecem em meu celular morreu aos 31 anos de idade!!!!! Então essa é a notícia. Morrerei aos 31??????????????…

Marcello Gabbay é músico e mestrando em Comunicação e Cultura na UFRJ

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“Paratodos”, Chico Buarque

Música: “Paratodos”
Disco: Paratodos
Ano: 1993

“A Rainha” – Stephen Frears – 2006

A Rainha

A Rainha

“A Rainha” é antes de qualquer coisa, um belíssimo filme. Sério, técnicamente correto, sem muita ousadia, com cara do Oscar, mas um Oscar da década de 80. Para um diretor, de filmes como “Ligações Perigosas” e “Coisas, Belas e Sujas”, o ousado talvez, seja realizar um filme tão certinho.

É interessante então, observar um diretor que gosta de passear por diferentes estilos e consegue ter diferentes caras. Mas uma coisa não se questiona. Os filmes de Stephen Frears, você pode gostar não, mas o difícil é ficar indiferente. Sempre muito bem realizados, sutis e claro, maravilhosamente bem dirigidos.

A rainha Elizabeth II, interpretada por Helen Mirren, como o Oscar, BAFTA, Globo de Ouro, Volpi Cup, European Film Awards, e por ultimo, apesar de não ser indicada, na exibição de A Rainha no Festival de Veneza a interpretação de Helen Mirren recebeu 5 minutos de oaplausos após o término da sessão. Mais difícil que interpretar uma bêbada ou uma louca, interpretar uma Rainha, fria e contida como a rainha Elizabeth II. Helen Mirren incorporou, e foi simplesmente perfeita.

Fora a interpretação de Helen Mirren, temos ainda a delicadeza e comprometimento do roteiro de Peter Morgan, não em explorar a imagem da Rainha Elizabeth II, mas trabalhar os meandros de toda situação que a família real passou mediante a morte de Lady Di.

Também podemos falar que “A Rainha” é um filme crítico. Crítico acima de tudo a familia real e ao comportamento da rainha Elizabeth II, mas também mostra um outro lado, sua criação, as tradições e os valores aos quais está presa.

Uma cena em especial já se torna clássica. Sequência em que a rainha Elizabeth II, sozinha no meio do campo, sentada a beira de um rio, tem um minuto de fraqueza emocional, e chora. Chora mas nunca vemos seu rosto expressando dor, fraqueza, ela chora de costas para câmera. Stephen Frears em escolher filmar dessa maneira, só vem confirmar sua genialidade na direção. Ele assumiu desde o inicio mostrar uma rainha forte, que sempre “guarda para si seus sentimentos”, não cair em contradição com sua personagem foi acertadíssimo.

A fotografia correta, que misturava a textura de pinturas, sem extrapolar e constratar muito com as imagens documentais. O responsável pela bela fotografia é o brasileiro Affonso Beato. Podemos citar ainda o cuidado direção de arte, figurino, o todo, ou seja, o filme foi muito bem direcionado, e podendo ser redundante, muito bem dirigido mesmo.

Fora as indicações a premiação de Helen Mirren, o filme foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora. Ganhou Globo de Ouro, de Melhor Roteiro. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme – Drama e Melhor Diretor. Ganhou além de atriz, prêmio BAFTA, de Melhor Filme. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme Britânico, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Michael Sheen), Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Maquiagem e Melhor Edição. Ganhou no European Film Awards, o prêmio de Melhor Trilha Sonora. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Prêmio de Excelência (edição). Recebeu uma indicação ao César de Melhor Filme Estrangeiro e foi vencedor do Goya de Melhor Filme Europeu.

“Rainha” não é o melhor filme do ano, não é o mais impactante, mas é um belo filme, que de maneira alguma, pode passar em branco. É historicamente e cinematograficamente importante.

Jair Santana

“Ce Matin La”, Air

Música: “Ce Matin La
Album: “Moon Safari”
Ano: 1998