“Mamma Mia!”, Phyllida Lloyd, 2008

Mamma Mia!

Mamma Mia!

“Mamma Mia!” é um típico filme de domingo. Alegre, divertido, e boas músicas. Bom, “Mamma Mia!” é acima de tudo, um musical.

Estréia de Phyllida Lloyd como diretora de cinema, que também dirigiu a versão de “Mamma Mia!” montada na Broadway, depois de seu sucesso em Londres em 1999.

Graças a esse sucesso na sua versão para Broadway, Phyllida conseguiu das produtoras  52 milhões de doláres para sua realização.  Esse investimento teve retorno rápido, “Mamma Mia!” arrecadou  quase 28 só no seu final de semana de estreia nos EUA.

Apesar de falhas técnicas, que vão de montagens mal realizadas e fotografia feia em muitos momentos, e também, algumas interpretações super exageradas, talvez mais culpa da diretora que do próprio elenco, “Mamma Mia!” ainda assim, vale a ida ao cinema, principalmente para os que tem alguma ligação afetiva com as músicas do ABBA, pois a trilha toda do filme são as músicas  do pop grupo sueco de maior sucesso de todos os tempos.

Além de boas músicas, o filme conta com participações como de Meryl Streep, que SEMPRE vale conferir em qualquer atuação. A triz além de dançar, arrisca-se a cantar no filme. Maryl não foi dublada como acontece em muitos musicais que vão para o cinema.

Em alguns momentos faz lembrar dos velhos músicais hollywoodianos. Sem o glamour de antigamente, até mesmo por que a própria historia do filme tem outra realidade. Faz lembrar os números musicais, pelos personagens cantando e dançando pra lá e pra cá, com um grande número de dançarinos os acompanhando, enfim, essas coisas sempre presentes em grandes musicais.

Algumas cenas são risíveis, no sentido de meio rídiculas mesmo. Alguns personagens exagerados e a fotografia erra muito. Também temos um final feliz como todos do seu gênero, uma bela paisagem, alguns personagens engraçados e uma estória singela e romântica.

Mas a dica que dou é: não leve o filme muito a serio. Vá até onde o filme convidou a ir. Somente se divertir. Então divirta-se.

Jair Santana

“Dull Flame Of Desire”, Bjork

Musica: “Dull Flame Of Desire”
Album: Volta
Ano: 2007
OBS: Participação de Anthony Hegarty, vocalista do grupo Anthony and the Johnsons

“Canções de Amor”, Christophe Honoré, 2007

Canções de Amor

Canções de Amor

“Canções de Amor” é um filme no mínimo curioso. As canções do filme já existiam, assim como Mamma Mia”, de Phyllida Lloyd, um musical com as músicas do ABBA, o roteiro foi escrito para se encaixar nas músicas e não o contrário, o que é mais comum.

Conta com bons atores, boa câmera e lindas canções, não todas, mas a maioria. Algumas das canções são um tanto bregas, mas não compromete todo a qual filme se propõe.

O personagem principal, Ismaël, interpretado pelo assexuado Louis Garrel, de “Os Sonhadores”, é chato, prepotente e egoista com seus sentimentos. Mas o filme é sobre isso, amores mal resolvidos, interrompidos e não correspondidos.

Também sobre possibilidades. seja do amor livre, ménage a trois, homossexualidade ou bissexualidade. Tudo acontece naturalmente, nada é definido ou fechado, nada acontece porque têm que acontecer, mas porque podem acontecer, além do que, não são eternos com o famoso “foram felizes para sempre”, e esse é um ótimo ponto no filme.

Este é o segundo filme de Christophe Honoré. diretor de “Em Paris” de 2006, onde Louis Garrel também trabalha. Apesar da minha opinião sobre Louis Garrel, ele é o ator “queridinho” do momento. É um bom ator, e cai bem ao personagem Ismael.

“Canções de Amor” conta com um grande diferencial da maioria dos musicais. Nem um dos atores sai do personagem para cantar. Diferente da maioria dos filmes, em que os atores parecem incorporar na hora em que estão cantando, em “Canções de Amor”, é o próprio personagem que canta a mensagem que a canção quer passar, e pra isso, não precisa sair pulando ou fazendo acrobacias.

Sim, tivemos ótimos musicais nesse estilo, como “Cantando na Chuva”, e tantos outros, podemos citar ainda o recente “Mamma Mia”, porém é fato, que esse é um estilo, porém, que não se encaixa em todos os filmes, e as vezes parece ser visto como única saída para os musicais.

O filme conta ainda com as ótimas participações de Chiara Mastroianni, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme e Brigitte Roüan.

“Canções de Amor” é filme que não agradará a todos, pelos temas, por ser musical ou qualquer outro motivo. Mas que ao mesmo tempo nos oferece ótimos motivos para se apaixonar pelos filme. Seja pelas interpretações, por algumas boas músicas, pelo clima de cinema “Nouvelle Vague”, com longos planos nas ruas de Paris e também pelo próprio roteiro e direção desse novo diretor que é Christophe Honoré, que mostrar saber muito bem o que faz.

Jair Santana

“Is It Wicked Not To Care” – Belle and Sebastian

Música: “Is It Wicked Not To Care”
Album: Boy With The Arab Strap
Ano: 2005

“Ensaio Sobre a Cegueira”, Fernando Meirelles – 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Ensaio Sobre a Cegueira

Ao contrario do que escreveram alguns críticos, que “Ensaio Sobre a Cegueira” seria o filme mais frio de Fernando Meirelles, eu digo que é acima de tudo, o mais maduro de sua brilhante carreira até então.

Orçado em 25 milhões de dólares, e ainda assim, um filme totalmente independente, sem nem uma grande majors envolvida na produção, e sim somente em distribuição, “Ensaio Sobre a Cegueira” é sem dúvida, o filme mais ousado e corajoso de Meirelles.

Difícil dizer se é o melhor, pois seus quatro filmes são ótimos. Na verdade, Fernando Meirelles tem uma filmografia realmente invejável: “Domésticas”, “Cidade de Deus”, “O Jardineiro Fiel” e “Ensaio Sobre a Cegueira”

Do humilde e quase desconhecido “Domésticas” ao tão falado e esperado “Ensaio Sobre a Cegueira”, todos, fora a questão de produção, tem o diferencial de ter uma direção de atores realmente maravilhosa.

Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Sandra Oh e Gael García, e com uma equipe técnica, assim como elenco global, temos diretor de fotografia uruguaio, editor brasileiro, produtor canadense, enfim, assim como o livro do Saramago, “Cegueira” é um filme do mundo.

Outro ponto que se deve chamar atenção é o de pesquisa e firmeza de Meirelles. Para entrar nesse mundo da cegueira, ironicamente o diretor foi atrás de referências de imagens e leituras. O quadro “Cego Guiando os Cegos” de Pieter Brueghel, foi uma dessas referências para as sequências do grupo, liderado por Julianne Moore, andando pelas ruas da cidade.

Cego Guiando Cegos de Pieter  Brueghel
Cego Guiando Cegos de Pieter Brueghel

Sobre essas sequências, tivemos de Saramago o seguinte comentário: “Aquela imagem representa um pouco da historia da humanidade, sabendo que nosso destino é duro, mas é preciso marchar”. Talvez essa seja a síntese do filme. Seguir a diante, nos anulando e nos agredindo, sem saber pra onde e nem por que, talvez apenas por instinto, mas, seguir a diante.

Julianne Moore faz aqui o papel mais forte de sua carreia. Não falo o melhor ou o maior, e sim, o mais forte. A mulher do médico, torna-se, por ser a única dentro da diegese que nos foi a apresentada, que enxerga, tornando-se então, a salvadora, a responsável por todos, e também o algoz. Na verdade, tudo, e bem e o mal, se encontra separados por uma linha muito tênue. A mesma mulher que salvadora de um determinado grupo, é a mulher que foge com a comida de outro, apesar de saber onde tem mais, não os conduz até lá. Não é julgamento, é apenas uma leitura.

Uma das sequências mais bonitas do filme, na minha opinião, é o momento em que o grupo já livre, andando pela cidade, “se vê” diante da chuva. Essa chuva, algo tão trivial, é algo novo, para alguém que sem a visão, passou a perceber mais outros sentidos, como nesse momento, o tato. Sentir a chuva, em todas as partes do corpo, e sem a visão, valorizar esse momento, faz com que esse grupo tenha um breve momento de felicidade.

Algo parecido acontece, quando ainda presos, dividem um momento ouvindo uma música. Cada uma a sua maneira, solitários ou acompanhados, felizes ou tristes, aquele momento, ao escutar aquela música, percebem que existem outros sentidos. Esse despertar para esses outros sentidos, um a um, é algo muito curioso no filme.

Uma das únicas imposições de Saramago para vender os direitos de sua fábula para o cinema, foi que não fosse identificada nem o país e nem a cidade das filmagens. Meirelles então assumiu filmar em São Paulo, Montevidéu e em estúdios Canadenses.

O produtor Canadense, Niv Fichman, sugeriu, ou melhor, insistiu para que as externas fossem realizadas no Canadá, em cidades com neve. Oque de certa forma, seria muito mais fácil para fortalecer a imagem da cegueira branca. Meirelles, defendeu a idéia de usar São Paulo como locação, pelo motivo que o que se teria em São Paulo, representaria uma metrópole mais “comum” e degradada, como o livro de Saramago pedia.

Foram realizadas as filmagens utilizando as duas hipóteses. Meirelles convenceu Niv Fichman que a sua, era a melhor solução e as imagens com neve foram retiradas do filme antes mesmo do primeiro corte final.

A música minimalista do grupo mineiro Uakti, que tem a frente o maestro Marco Antonio Guimarães é totalmente inusitada. Merelles declarou que era exatamente oque queria para o filme. Assim como a fotografia devia levar o espectador a algo novo, a música também teria essa função. Justamente por esse motivo, Uakti foi convidado para executar a trilha. Como resultado, temos então essa mistura, esse minimalismo, essa “som diferente” para a nos acompanhar ao mundo de “Ensaio Sobre a Cegueira” segundo Fernando Meirelles.

Uma forte crítica que se tem feito ao filme é que, se coloca que o livro é bem mais forte que o filme. Meirelles teve que tornar o filme mais “leve” para ser assistido por um maior número de pessoas. Cortou duas sequências grandes, dois estupros e uma grande sequência de diálogos “asquerosos”, como ele mesmo definiu, sobre as mulheres darem seu corpo em troca de comida.

Algo “comum” em situações de guerras. Acabamos de assistir isso entre a Geórgia e a Rússia por exemplo., onde soldados russos roubavam familias e estrupavam as mulheres. Mas também, algo que não se admite discutir. Por isso o diretor, que por contrato é dono do corte final, resolveu tirar 58 minutos de filme, para que ele chegasse a mais pessoas.

“Cegueira” é um filme forte. Faz pensar. Incomoda, ao ponto de fazer pessoas abandonarem o cinema. Um retrato da degradação, fragilidade e da miséria humana.

Interessante, como o filme coloca “a mulher do médico” (os personagens não tem nome). Responsavel por um grupo de pessoas, ela é a única testemunha visual de tudo que acontece. E talvez preferisse estar cega diante de tudo que vê.

É um filme imperdível. Meirelles está se tornando o rei das adaptações. E já se tornou o maior diretor do cinema brasileiro das ultimas décadas. E um dos maiores do mundo, sem sombra de dúvida.

Jair Santana

“Os Desafinados”, Walter Lima Jr, 2008

Os Desafinados

Os Desafinados

Parece incrível, mas mesmo Walter Lima jr, com toda sua historia, sendo um dos poucos diretores do Cinema Novo que filma até hoje, demorou mais de 2 anos para finalizar seu ultimo projeto.  Por falta de dinheiro pra finalizar, pra distribuir, pra qualquer coisa, mas infelizmente, mas é assim o cinema no Brasil.

“Os Desafinados”  é um filme que no fundo, parece ser, um grande ode à juventude de Walter Lima. Alguém que esteve próximo de alguns dos grandes acontecimentos, e personalidades culturais do século passado no país.

Bossa Nova, Cinema Novo, nossa MPB engajada. Walter esteve presente. Conversando com Glauber, ouvindo Tom, bebendo com Chico.

E seu filme, dança entre uma bossa nova alheia qualquer engajamento, falando de amores, barquinhos e paisagens, e um cinema novo, politizado, empírico e censurado. Seu filme é assim. Meio romântico, meio crítico, mas, sobretudo, é um filme nostálgico.

Um velho encontro, lembranças da juventude, amores e paixões que se foram, e a vontade, ou a esperança, que tudo possa voltar. Como acontece no filme, com o retorno de um personagem, representando esse novo começo, ou melhor recomeço.

“Os Desafinados” em sua diegese, é um grande flashback. Walter Lima deixa um pouco seu vanguardismo, e pra falar de saudade, se posiciona no cinema mais careta, mais certinho.

Um filme difícil para o grande público, sem as referências culturais que o filme apresenta. Tentando sintetizar toda uma geração naqueles cinco amigos, e em Luiza, a grande diva de todos. Bonita, culta, moderna, independente.

Há uma sequência em especial, que me chamou muita atenção em particular, e que também deve ter sido uma das mais emocionantes para diretor e também para os atores envolvidos, em especial Selton e Rodrigo Santoro.

A gravação da música de Joaquim, interpretado por Rodrigo Santoro, para trilha do cineasta do grupo, Dico, na pele do sempre ótimo Selton Melo. O crescente da cena, da união do cinema novo com o vanguardismo da música brasileira, e a expectativa de tudo que poderia ter sido esse casamento e não foi, pois a música caminhou e o cinema estagnou.

Eu diria, que mais que um filme feito pra classe média, é um filme para uma geração saudosista de cultura, de um país que não temos mais. Deixamos a bossa, perdemos nossas musas como Nara Leão, Maysa, e oque se colocou no lugar foram Carlas Perez, Kellys e Ivetes.

O filme peca talvez por tornar essa nostalgia evidente demais, parece meio meloso as vezes. Mas não chega a acabar com o filme. Algumas situações poderiam menos explicitas. Mas ainda assim, e mesmo com duas horas e vinte de filme. “Os Desafinados” vale a ida ao cinema.

Jair Santana

“A SEITA DO GATO PRETO”, de Marcello Gabbay

Gato Preto

Gato Preto

Com o avanço da informática os homens parecem ter redescoberto a mágica precisão e o poder das ciências exatas. Sendo o computador e seus programas baseados em códigos e sistemas numéricos, na informática, tudo é números.

Aconteceu que dia desses ví um anúncio espantoso que chamou minha atenção de maneira especial. Um grupo de cientistas brasileiros, do Norte do país havia desenvolvido um software capaz de revelar a data e hora exatas da morte de qualquer pessoa. Com base nos dados pessoais e datas da vida, o computador podia montar uma função aritmética que tem como resultado o momento da morte. Não me perguntem como, mas os resultados e testes que estes cientistas haviam revelado eram assombrosos.

A empresa autora do software acabou adquirindo o efeito de uma seita religiosa entre os adeptos e crentes do programa, causando certo reboliço na região. Seu símbolo, um gato preto cujo rabo dava a volta em seu corpo formando um desenho circular ao seu redor, passou a aparecer em vidros de automóveis, postes, e folhetos pelas ruas das principais cidades do Brasil. Várias filiais foram instaladas, sendo uma delas em Belém. Uma modesta casa de altos e baixos no final de uma alameda da Avenida Almirante Barroso podia ser facilmente identificada pela placa com o imenso gato preto. No interior da casa, instalações simples porém dispostas do que de mais moderno havia em informática.

Para saber a data de sua morte, bastava preencher um cadastro on line com alguns dados de sua vida e voala!: A data e hora de sua morte impressas num laudo em papel couchê com o maldito gato preto timbrado embaixo. Certo dia, não me contive e fui até o local. Minha intenção era de simplesmente ‘espiar’ o que se passava ali e a quantidade de pessoas que estariam interessadas no assunto.

Logo na entrada, uma mulher gorda de semblante simpático e amigo era a recepcionista do local. Além dela apenas dois homens, cada um por volta dos 30 anos de idade, operavam os comutadores preenchendo os dados. Todos se vestiam de branco com batas sobre a roupa, assim como cientistas. Na hora em que fui, não havia quase ninguém, e estupefato pela aura mórbida do local, não prestei atenção enquanto a recepcionista gorda me inscrevia na fila de atendimento. Ela foi me pedindo os documentos pessoais: Carteira de identidade, C.P.F, estas coisas. Desatento entreguei-lhe a carteira e quando dei por mim, percebi que meu cadastro estava quase completo. Foi aí que tomei um grande susto! Não queria dar prosseguimento àquela loucura. Pedi que parassem, expliquei-lhes que passava por ali apenas por curiosidade, mas os ‘cientistas’ insistiram em digitar fervorosamente os dados enquanto as equações mortuárias tomavam forma na tela do computador.

Peguei minha carteira e sai correndo dali, que eles soubessem a data de minha morte, tudo bem, mas eu não queria contar os dias de minha vida. Já estava no meio da alameda quando a mulher gorda gritou o meu nome. Chamou-me pelo nome!! De forma íntima e preocupada! Não resisti à mórbida curiosidade, e sem que pudesse controlar minhas ações, virei-me e peguei de suas mãos, o maldito laudo com o gato preto impresso embaixo. Foi quando tive a péssima notícia que já estava muito bem estampada nos olhos esbugalhados e piedosos da gorda recepcionista: Minha morte viria naquele mesmo dia, em apenas seis horas…

Restavam-me seis horas de vida apenas para realizar uma infinidade sonhos e planos. Rever pessoas de quem sentia saudades, conhecer pessoas que eu admirava ou imaginava existirem. Comprar o carro dos meus sonhos, casar com a mulher que eu amava, Ter filhos, netos, conhecer a Europa, a Ásia, o Rio de Janeiro. Tudo que eu imaginara para mim, em apenas seis horas…

Por alguns minutos o desespero tomou conta de mim. Mas logo decidi, calmamente, que deverei dedicar estes últimos momentos a viver o que pudesse. Decididamente, não contaria a ninguém a triste notícia, assim evitaria perda de tempo com choros e lamentos, o tempo era agora, mais do que nunca, valioso para mim. Segui para casa e despedi-me dos objetos e lembranças que jamais veria de novo. As músicas, livros, fotografias e filmes que deixaria para sempre no mundo dos vivos. Fui à praça que tanto amava caminhar e dizer adeus às árvores, bancos, pássaros, lagos e à calçada.

Antes de tomar o laudo do ‘gato preto’, tinha programado para aquela noite ir a uma festa com minha namorada. Já era de tarde e como era mesmo impossível fazer tudo o que eu queria, decidi ir logo à esta festa, assim poderíamos aproveitar juntos aquela que seria minha última noite. Apanhei minha garota em sua casa e fomos dançar, beber, e namorar bastante; por um instante esqueci de meu trágico destino que se aproximava, dançamos tanto que quando dei por mim já era bem tarde!!

-“Depressa!!!!! Vamos embora, por favor, sim?” Sai puxando minha namorada pelo braço, queria que houvesse tempo para uma última noite de amor, não poderia partir sem isso! Mas já era tarde, quando coloquei a chave do carro na maçaneta da porta, meu telefone celular ‘berrou’ um bip muito estranho e contínuo, como um alarme bem alto.

Bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip

Puxei o aparelho do bolso e olhei no visor que também piscava nervosamente. QUE SUSTO!!!!! Era o gato preto! Maldito!! Por meio segundo imaginei que sofreríamos um terrível acidente de carro. Rezei para que não acontecesse nada com minha garota. Um milhão de dúvidas pipocaram em minha mente: Será que sentirei muita dor? O que existe após a morte? Nunca mais verei ninguém que conheci nesta vida? Ai meu Deus!!??

O telefone ainda bipava, apertei então o botão do aparelho e o gato preto sumiu da tela, em seu lugar, apareceu a seguinte inscrição:

Marcelo
*1940 + 1971

Foi aí que um enorme alívio invadiu meu corpo como um cobertor no frio! Meu nome é Marcelo, mas não nasci em 1940, e nós não estamos em 1971. Não sou eu, houve um terrível engano! Que alívio, meu Deus, que alívio senti naquela hora. Foi quando entrei no carro e sentei-me no banco ao lado de minha garota que me olhava docemente; agora vou aproveitar bem mais a vida. Afinal, tenho apenas vinte e poucos anos, ainda viverei pelo menos mais sessenta!

Foi quando a terrível conclusão chegou na minha cabeça como um nó que se desata, ou melhor, como a resposta secreta de uma equação mórbida como aquela que a Seita inventou para descobrir a data da morte. Neste instante um gato preto cruzou pela frente do carro, ainda parado, e fisgou os olhos amarelos e bem acesos em minha direção. Tudo ficou claro.

-“Meu Deus, Este Marcelo cujas datas de nascimento e morte aparecem em meu celular morreu aos 31 anos de idade!!!!! Então essa é a notícia. Morrerei aos 31??????????????…

Marcello Gabbay é músico e mestrando em Comunicação e Cultura na UFRJ

“Paratodos”, Chico Buarque

Música: “Paratodos”
Disco: Paratodos
Ano: 1993

“A Rainha” – Stephen Frears – 2006

A Rainha

A Rainha

“A Rainha” é antes de qualquer coisa, um belíssimo filme. Sério, técnicamente correto, sem muita ousadia, com cara do Oscar, mas um Oscar da década de 80. Para um diretor, de filmes como “Ligações Perigosas” e “Coisas, Belas e Sujas”, o ousado talvez, seja realizar um filme tão certinho.

É interessante então, observar um diretor que gosta de passear por diferentes estilos e consegue ter diferentes caras. Mas uma coisa não se questiona. Os filmes de Stephen Frears, você pode gostar não, mas o difícil é ficar indiferente. Sempre muito bem realizados, sutis e claro, maravilhosamente bem dirigidos.

A rainha Elizabeth II, interpretada por Helen Mirren, como o Oscar, BAFTA, Globo de Ouro, Volpi Cup, European Film Awards, e por ultimo, apesar de não ser indicada, na exibição de A Rainha no Festival de Veneza a interpretação de Helen Mirren recebeu 5 minutos de oaplausos após o término da sessão. Mais difícil que interpretar uma bêbada ou uma louca, interpretar uma Rainha, fria e contida como a rainha Elizabeth II. Helen Mirren incorporou, e foi simplesmente perfeita.

Fora a interpretação de Helen Mirren, temos ainda a delicadeza e comprometimento do roteiro de Peter Morgan, não em explorar a imagem da Rainha Elizabeth II, mas trabalhar os meandros de toda situação que a família real passou mediante a morte de Lady Di.

Também podemos falar que “A Rainha” é um filme crítico. Crítico acima de tudo a familia real e ao comportamento da rainha Elizabeth II, mas também mostra um outro lado, sua criação, as tradições e os valores aos quais está presa.

Uma cena em especial já se torna clássica. Sequência em que a rainha Elizabeth II, sozinha no meio do campo, sentada a beira de um rio, tem um minuto de fraqueza emocional, e chora. Chora mas nunca vemos seu rosto expressando dor, fraqueza, ela chora de costas para câmera. Stephen Frears em escolher filmar dessa maneira, só vem confirmar sua genialidade na direção. Ele assumiu desde o inicio mostrar uma rainha forte, que sempre “guarda para si seus sentimentos”, não cair em contradição com sua personagem foi acertadíssimo.

A fotografia correta, que misturava a textura de pinturas, sem extrapolar e constratar muito com as imagens documentais. O responsável pela bela fotografia é o brasileiro Affonso Beato. Podemos citar ainda o cuidado direção de arte, figurino, o todo, ou seja, o filme foi muito bem direcionado, e podendo ser redundante, muito bem dirigido mesmo.

Fora as indicações a premiação de Helen Mirren, o filme foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora. Ganhou Globo de Ouro, de Melhor Roteiro. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme – Drama e Melhor Diretor. Ganhou além de atriz, prêmio BAFTA, de Melhor Filme. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme Britânico, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Michael Sheen), Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Maquiagem e Melhor Edição. Ganhou no European Film Awards, o prêmio de Melhor Trilha Sonora. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Prêmio de Excelência (edição). Recebeu uma indicação ao César de Melhor Filme Estrangeiro e foi vencedor do Goya de Melhor Filme Europeu.

“Rainha” não é o melhor filme do ano, não é o mais impactante, mas é um belo filme, que de maneira alguma, pode passar em branco. É historicamente e cinematograficamente importante.

Jair Santana

“Ce Matin La”, Air

Música: “Ce Matin La
Album: “Moon Safari”
Ano: 1998

“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, Jean-Pierre Jeunet – 2001

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Esse é um desses filmes, que surpreendentemente, e despretensiosamente, conquistou o mundo e consequentimente uma legião de fãs. Jean-Pierre Jeunet é um diretor francês com uma carreira curiosa. Realizou o mais trash dos filmes da série “Alien’s”, é diretor também do curioso “Delicatesen”, mas se destacou no cinema mesmo foi com o “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”.

Feito para cumprir tabela como falou o próprio Jeunet. “Amelie” foi realizado porque o diretor tinha um prêmio em dinheiro, para utilizar até aquele ano, com a produção de um filme. Pegou um roteiro engavetado, chamou seu amigo Guillaume Laurant para ajuda-lo a terminar, alguns outros amigos pra produzir, fazer a fotografia… e assim nasceu o filme.

Segundo próprio diretor, talvez o filme tenha dado certo como deu, pela leveza com que tudo foi realizado. Pela despretensão, e também pelo compromisso e paixão de sua equipe pelo cinema.

O filme é uma grande fábula, de como podemos ser felizes, procurando fazer outras pessoas felizes. Uma gostosa e inteligente comédia romântica, que nos faz lembrar os bons filmes de Frank Capra. Pela inteligência de roteiro (indicado a vários prêmios, incluindo Oscar), pelo acerto do elenco, e pelo, apesar de parecer clichê, bem realizado final feliz.

Impossível imaginar a Amelie, sem o doce e expressivo rosto de Audrey Tautou. O filme por sua vez, deu a Audrey, o presente de se tornar uma atriz mundialmente conhecida. Depois desse filme a atriz foi chamada para realizar vários trabalhos em Hollywood, que todos sabem, é o mais bem sucedido, financeira e popularmente falando, mercado cinematográfico que existe.

A fotografia é um outro show a parte. Suas cores fortes, vemos uma Paris colorida, alegre e ao mesmo tempo, pouco óbvia. E esse espetáculo de imagens ficou a cargo de Bruno Delbonnel, diretor de fotografias de filmes como “Paris, Te amo” e “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”.

Da direção de arte de Volker Schäfer, ao figurino da dupla Madeline Fontaine e Emma Lebail, tudo no filme é muito bem realizado. Outro ponto muito importante em qualquer filme, e que aqui nos chama muito atenção é  a maravilhosa trilha de Yann Tiersen, responsável também por trilhas de filmes como “Adeus Lênin” e “A Vida Sonhada dos Anjos”.

Yann Tiersen realmente é um ótimo compositor de trilhas sonoras, e não somente de trilhas. É um compositor que vale a pena pesquisar e escutar. A trilha sonora de “Amelie” fez um enorme sucesso. Foi indicada ao BAFTA e ao Cesar como melhor trilha do ano. E foi a trilha mais vendida na frança em 2001.

“O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” é um filme que vale a pena ver e rever. Não é um filme difícil para o grande público, mas é um filme inteligente e feliz, sem ser bobo. Desses que nos faz acreditar nas pessoas e no mundo. Ver beleza em coisas simples, como a personagem Amelie. É acima de tudo, um filme apaixonante.

Jair Santana

“Thriller”, Michael Jackson

Música: “Thriller”
Disco: Thriller
Ano: 1982

“Conduta de Risco”, Tony Gilroy – 2007

Conduta de Risco

Conduta de Risco

Tony Gilroy, apesar de um ótimo roteirista, leia-se filmes como “O Advogado do Diabo”, “Eclipse Total”, entre os filmes da série “Bourne’s”, se da mal em sua estréia como diretor. Por ser um ótimo roteirista, acredito que errou na sua forma de narrar visualmente, ou seja direção mesmo.

“Conduta de Risco” é um filme confuso, pretencioso, sem ritimo. Sim, tem boa premissa mas mas não decola . Apesar de concorrer ao Oscar de melhor roteiro original e ser vencedor do BAFTA na mesma categoria.

O roteiro realmente é interessante mas contado de maneira equivacoda. O filme só realmente acontece nos últimos 20 minutos. E por causa desses últimos 20 minutos não saímos com raiva do cinema.

Não tem uma narrativa envolvente, que faça com que nos, os espectadores, se aproximem do personagem principal, Michael Clayton, vivido pelo ótimo, mas frio, George Clooney. É fato que o personagem pede certa frieza, mas a Catherine Tramell, em “Instinto Selvagem”, vivida pela então desconhecida do grande público, Sharon Stone , era fria e nem por isso, deixava de fascinar o público.

 

“Conduta de Risco” é um filme que não nos envolve. Nos deixa distantes mesmo. Faz com que o espectador fique perdido o tempo todo em suas supostas intrigas e traições. Parece que o que realmente importa é “parecer” ter algo a desvendar. E tenta se prender a isso.

Orçado em 25 milhões de dólares, e agradando boa parte da crítica, o filme não acontece. Não tem o clima de suspense que se propõe, nem um grande final, nem um grande herói e muito menos um grande vilão. Tudo é morno. Tudo é um equívoco.

Vamos torcer, para que Tony Gilroy volte a fazer o que realmente ele faz de bem, ficar atrás do computador e de suas pesquisas e ficar apenas no roteiro. Na verdade, Tony Gilroy, teve a idéia de conduta de risco quando ainda pesquisava entre os grandes escritórios de direito, para “Advogado do Diabo”. Talvez se tivesse sido dirigido por um verdadeiro diretor, o roteiro tivesse sido um grande filme.

Jair Santana

“Os Simpsons – O Filme”, David Silverman, 2007

Os Simpsons - O Filme

Os Simpsons - O Filme

Não sei falar que o filme não se distancia tanto do desenho é um elogio ou uma depreciação. Pra mim, prefiro entender como elogio. “Os Simpsons – O Filme” de nada decepciona os fãs do desenho, desde de sua nova abertura, a todo conceito do desenho que nada se perde durante o filme.

Na verdade, o que realmente surpreende aos antigos fãs é a tecnologia usada pro desenho.

O roteiro agora, apresenta uma historia politicamente correta, mas não comportada. O fundo moral é politicamente correto, mas sem encaretar. Homer mais uma vez é o grande responsável pela maior parte das confusões no desenho.

O desenho foi criado por Matt Groening, em 1987 e a partir de 1988 passou a ser transmitido semanalmente pela rede FOX. James L. Brooks, diretor de filmes como “Laços de Ternura” e “Melhor é Impossível” é produtor e um dos roteiristas do filme e do setiado a 19 anos.

“Os Simpsons, como poucos produtos artísticos antes dele, diluiu fronteiras entre a alta cultura e a cultura de massa, realizando o velho sonho do artista plástico Andy Warhol” – Revista BRAVO de Agosto e 2007.

Nada explicaria melhor o que é “Os Simpsons” do que essa frase. Humor inteligente, refinado, sarcástico e ao mesmo tempo, a liberdade de se chegar ao popular pastelão. Assistir repetidas vezes um episódio de “Os Simpsons” é quase que se surpreender sempre com uma nova piada nas entrelinhas a cada vez que assistir. Seja uma frase, uma imagem, um personagem de fundo.

A família Simpsons já receberam visitas que vão de Tom Wolf a Hitchcock, de Tony Blair a Stephen Hawk, foram da Austrália ao Brasil. Quase tudo já passou pelo desenho, e o melhor de tudo, é que as coisas nunca se repetem.

O nome “Simpsons” hoje dificilmente passam sem causar algum reboliço. Alguns meses atrás, o jornalista Willian Bonner, foi obrigado a dar explicações sobre seu comentário, em que f ala que “a média do espectador do Jornal Nacional é estilo Homer Simpson”, ou ainda, quando durante seu governo, Tony Blair, o então primeiro ministro inglês, no meio da Guerra do Iraque, saiu da Inglaterra, para dublar seu personagem, o próprio Tony Blair em um episódio, o que rendeu enormes críticas a ele. Ainda tivemos o caso do governo brasileiro, que se ofendeu tanto, ao ponto de ameaçar a FOX de processo, quando no desenho, o Brasil era um país violento e exótico. Alguém pode falar o contrário?

O Brasil é um pais onde mulheres dançam na boquinha da garrafa e organizações criminosas como PCC ou Comando Vermelho podem parar as maiores cidades do país.

Voltando ao “Os Simspons -o Filme” , o que podemos realmente afirmar é que é tão bom e inteligente quanto a série. Bom roteiro, boas piadas, boa mensagem, tecnologia inovadora. Recebeu indicação do Globo de Ouro e do BAFTA de Melhor Filme de Animação.

Jair Santana

“Roda Viva”, Fernanda Porto e Chico Buarque

Música: Roda Viva
Disco: Giramundo
Ano: 2004