“Nome Próprio” – Murilo Salles, 2008

Nome Próprio

Nome Próprio

“Nome Próprio” é um filme acima de tudo inquietante.

Murilo Salles (de “Faca de Dois Gumes” e “Como Nascem os Anjos”) demonstra ser corajoso ao realizar esse filme. Vencedor, merecidademente, do 36° Festival de Gramado, o filme tem cara de cinema de vanguarda, universal, atual e autoral.

Leandra Leal está totalmente entregue para a personagem Camila. Na verdade, Leandra Leal empresta seu corpo, a essa outra pessoa que é a personagem Camila. Uma garota, difícil, egocêntrica, confusa, arrogante com seus conceitos e sentimentos, aproveitadora, ou seja, praticamente insuportável. Mas, acima de tudo, curiosamente atual.

Camila parece aquela garota que mora ao lado e conhecemos pouco. Tem cara de “gente comum da Augusta”. Tem cara de uma garota, ou melhor, tem a cara da uma geração que está na rua, enchendo os bares, boates e blogs.

Uma geração individualista, que não tem medo ou vergonha de se expor (nos orkuts, fotologs e blogs), mas não quer ser lembrada por ninguém de sua exposição. E tem receio e até raiva quando, ou opinam ou a criticam por isso.

Camila quer demonstrar, para os outros pra si mesma, ser auto-suficiente, autoconfiante, independente, principalmente emocionalmente, e com isso, comporta-se como o centro do mundo de todos que a cercam. Mas na verdade, depende de todos. Inclusive para ter um teto. É carente, e procura mais que uma estabilidade, uma dependência emocional. A personagem, dentro do seu universo, é totalmente antagônica, paradoxal, mas real.

Não se coloca algo na internet, se não for para ser lido por outras pessoas. Mas Camila, assim como Clarah Averbuck, a garota real que serviu de inspiração para personagem, negam isso com toda veemência que podem.

Clarah Averbuck é escritora dos livros, “Vida de Gato” e “Máquina Pinball”, além de bloguista claro. E em seu blog, Clarah escreve seus pensamentos, suas angustias, sua vida. Assim como a personagem Camila.

Leandra Leal levou o prêmio de melhor atriz em gramado. É o reconhecimento de um trabalho difícil, de entrega e construção de personagem muito bem realizada.

Fotografia ora suja, ora rebuscada, conversa muito bem com o filme, e a câmera é um show a parte. Os movimentos de câmera entram totalmente na diegese do filme, tornando-se fundamental ao que ele se propõe.

O filme ganhou ainda, Prêmio de Direção de Arte em Gramado. Se vê um trabalho de pesquisa muito bem realizado realmente. Murilo Salles, apesar de ser um diretor carioca, transpôs um universo paulista real. Sem caricaturas. Desde de a escolha de locações ao figurino. Algo próximo do que foi realizado em “Nina”, de Heitor Dhalia.

Apesar de ser um filme atual, jovem, e ter inúmeras qualidades, “Nome Próprio” não tem sido um sucesso de público. Talvez pela personagem dificil. Talvez pela baixa divulgação do filme, ou pelo preço do cinema, ou ainda, porque o filme exija demais seu público. Talvez ainda, porque, grande parte do público de cinema no país, seja exatamente como Camila. E o incomodo de se ver na tela, os fazem sentir, como Camila se sente ao ser criticada em seu blog.

O que fica para o para o público, é um cinema de qualidade, “Nome Próprio” tem cara de cineasta streante. No melhor que isso possa significar. Pois, como ja foi dito, é um filme corajoso, ousado e barato. Filme com cara de cinema brasileiro, cara de um bom cinema latino. Novo, autêntico,visceral. “Nome Próprio” tem cima de tudo, cara de cinema, e posiciona bem nisso. Não quer ser visto como uma adaptação da literatura. E em momento algum se propõe a se confundir em ser literatura, teatro ou novela. É CINEMA.

Jair Santana

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