“Os Estatudos do Homem” – Thiago de Mello

https://i1.wp.com/i264.photobucket.com/albums/ii191/jairsantana/e0ffea48cb16ebca944cf0d0f8864a81_3.jpgAmadeu Thiago de Mello nasceu na pequenina cidade de Barreirinha, Amazonas, quase na fronteira do Pará, em 1926. “Não fui profetizado. Aconteci.” Aos 25 anos, deixou o curso de medicina para seguir a carreira literária, estreando com o livro de poemas Silêncio e Palavra.

Rapidamente reconhecido, começou a participar do círculo dos intelectuais da época, convivendo com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Adido Cultural da Embaixada do Brasil no Chile, nos anos 60, teve longa amizade com Pablo Neruda.

O golpe de 64 no Brasil decretou seu exílio e esteve em países sul-americanos – Argentina e Chile – e na Europa – Portugal, França e Alemanha. Só em 78 voltou ao país, tendo sua obra poética, publicada pela Civilização Brasileira e exaltada como denúncia contra a opressão. Sua obra mais polêmica é “Os Estatutos do Homem”, direitos e deveres líricos, peça antológica que corre o mundo em sucessivas edições estrangeiras, escrita e publicada em 1964.

Da sua bibliografia constam, ainda, A Canção do Amor Armado, Mormaço na Floresta, Num Campo de Margaridas, De uma Vez por Todas e Campo de Milagres. Tradutor, é responsável por versões para a língua portuguesa de T.S. Eliot, Ernesto Cardenal, Cesar Vallejo, Nicolás Guillén, Eliseo Diego e Pablo Neruda.

No livro mais recentemente publicado, “De Uma Vez Por Todas”, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

Conheço pouco ou quase nada do Thiago de Mello. Mas “Os Estatutos do Homem” é poema realmente abençoado. Transcrevo aqui abaixo, para quem não conhece.

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

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