“Fim dos Tempos” – M. Night Shyamalan – 2008

Fim dos Tempos

Fim dos Tempos

O filme é realmente assustador, acima de tudo, pelo grotesco que o filme consegue chegar, e também, assusta pelo sucesso desse filme, que chegou a ser o primeiro na lista dos mais vistos nos EUA, e olha que sem dúvida, é o pior filme do ano.

Mas Shyamalan, desde o grande sucesso “O Sexto Sentido”, tem conquistado um certo público fiel, que vai atrás, não de cinema, mas sim de um surpresa final, pois é essa a única formula do diretor.

Que M. Night Shyamalan é uma farsa eu já havia falado, mas o cara conseguiu fazer, com quase 60 milhões de dólares, o filme mais trash que “A Ilha dos Homens Peixes”, um clássico da “Sessão das Dez” do SBT.

Fotografia pobre, pouco trabalhada e até meio suja. Produção pobre, onde Nova York perde praticamente todos seus moradores, mas somente vemos algumas poucas estradas ou bares fechados, atores bem “mais ou menos”, roteiro absurdamente inverossímil, com sustinhos previsíveis e personagens que não tem porque existirem, pois não tem função nem uma no roteiro, como o personagem da velha louca que mora no meio do nada. Sem contar algumas cenas grotescas e sem necessidade de auto-flagelação.

A fotografia é feia,  sem nada do que se espera de um filme catástrofe, nada surpreendente. Muito dinheiro gasto, 57 milhões, em um filme muito fraco. Levou 4 indicações ao Framboesa de Ouro.  nas categorias de Pior Filme, Pior Diretor, Pior Ator (Mark Wahlberg) e Pior Roteiro. Os únicos prêmios que realmente merecia ser indicado.

Em um filme, nada pode ser ao acaso. Mas Shyamalan parece não conhecer esse principio básico do roteiro. Shyamalan foi além de roteirista, o diretor e produtor desse filme. Talvez por ninguém mais querer produzir um filme desse. Eu diria que “Fim dos Tempos” é o inicio do fim de sua carreira como diretor, e infelizmente não o ponto final. Seus filmes são datados e baseiam-se em surpresinhas ou algo nesse sentido, ou seja, seus filmes não são eternos como os do Wood Allen, Bergman ou qualquer outro grande diretor.

Realmente, com “Fim dos Tempos”, M. Night Shyamalan, que já caminhava para tal destino, chegou ao fundo do poço. É impossível  descer mais que isso.  Ou podemos esperar algo pior de Shyamalan?

Jair Santana

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“Os Estatudos do Homem” – Thiago de Mello

https://i1.wp.com/i264.photobucket.com/albums/ii191/jairsantana/e0ffea48cb16ebca944cf0d0f8864a81_3.jpgAmadeu Thiago de Mello nasceu na pequenina cidade de Barreirinha, Amazonas, quase na fronteira do Pará, em 1926. “Não fui profetizado. Aconteci.” Aos 25 anos, deixou o curso de medicina para seguir a carreira literária, estreando com o livro de poemas Silêncio e Palavra.

Rapidamente reconhecido, começou a participar do círculo dos intelectuais da época, convivendo com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Adido Cultural da Embaixada do Brasil no Chile, nos anos 60, teve longa amizade com Pablo Neruda.

O golpe de 64 no Brasil decretou seu exílio e esteve em países sul-americanos – Argentina e Chile – e na Europa – Portugal, França e Alemanha. Só em 78 voltou ao país, tendo sua obra poética, publicada pela Civilização Brasileira e exaltada como denúncia contra a opressão. Sua obra mais polêmica é “Os Estatutos do Homem”, direitos e deveres líricos, peça antológica que corre o mundo em sucessivas edições estrangeiras, escrita e publicada em 1964.

Da sua bibliografia constam, ainda, A Canção do Amor Armado, Mormaço na Floresta, Num Campo de Margaridas, De uma Vez por Todas e Campo de Milagres. Tradutor, é responsável por versões para a língua portuguesa de T.S. Eliot, Ernesto Cardenal, Cesar Vallejo, Nicolás Guillén, Eliseo Diego e Pablo Neruda.

No livro mais recentemente publicado, “De Uma Vez Por Todas”, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

Conheço pouco ou quase nada do Thiago de Mello. Mas “Os Estatutos do Homem” é poema realmente abençoado. Transcrevo aqui abaixo, para quem não conhece.

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.