“O Cheiro do Ralo”, Heitor Dhalia, 2007

"O Cheiro do Ralo"

Este é o segundo filme em que o diretor Heitor Dhalia, e o segundo também em que o ator Selton Mello e diretor trabalham juntos. O anterior foi “Nina”, que apesar de muito depreciado por parte da crítica, eu pessoalmente adorei o filme. “Nina” tem um “quê” de inovador no cinema nacional.

Mas voltando ao “Cheiro de Ralo”. Este é um filme simples e inteligente. Talvez, sua maior qualidade seja essa. A simplicidade. Que está presente em tudo. Na direção de arte, na câmera, na interpretação, em seu conjunto. Mas não uma simplicidade depreciativa, longe disso, é uma simplicidade rica e encantadora. O filme é simples pela realidade que passa. Não tem grandes efeitos, coisas absurdas acontecendo, ele é REAL e surreal ao mesmo tempo.

Também é muito corajoso, quando nos coloca a acompanhar um cara “filho da puta”. Desculpem mas não achei outra palavra pra usar. Acredito eu, que o Lourenço, personagem interpretado magnificamente, por Seltom Melo, seja o primeiro anti-heroi assumidamente mal caráter do cinema brasileiro.

Quando tivemos o “Boca de Ouro” que era um bandido, ele era o “bom bandido”, amava sua mulher, defendia e ajudava os amigos, e mesmo quando tivemos o Chicó no “Auto da Compadecida” era o enganador, mas engraçado, carismático, já o Lorenço de “O Cheiro do Ralo” não é nada disso. É mal carater mesmo, ganancioso, egoísta, mesquinho, escroto em tudo, e mesmo assim, o filme tem a ousadia de te deixar colado nele o tempo todo. Faz o espectador acompanhar o “heroi” do filme, que o Lourenço, dono de todas essas qualidades. Você não sabe se torce por ele, ou pra ele se estrepar. O torcer por ele seria pra ele mudar e não se dar bem. Pois é impossível torcer só por ele, ele continuando ser o mesmo que é.

A fotografia de José Roberto Eliezer, nos coloca numa atemporalidade e é quase monocromática. Sem estouros de cores, tudo parece antigo mas nada nostalgico. Muito bem realizada dando o clima que o filme pede. A direção de arte de Guta Carvalho também é maravilhosa em tudo, nos levando a um clima de sub-mundo e mistério, ora meio repartição pública ora meio máfia. Tudo novamente é atemporal e curioso. Procuramos, mas nunca conseguimos nos situar temporalmente, o que é ótimo para a proposta do filme. O figurino idem, atemporal, careta, e acima de tudo real. Meio suburbano, meio urbano, tudo é milimetricamente pensado, mas nada soa como arrogante, ou seja, nada quer parecer estudado demais.

Tudo conversa muito bem. Isso é direção afiada. Sem falar nas interpretações tanto do Seltom Melo, que já ganhou dois prêmios com sua interpretação, quando do resto TODO do elenco, em especial Sílvia Lourenço (“Bicho de 7 Cabeças” e “Contra Todos”), a viciada que volta e meia volta a fazer negociações com Lourenço. Que espetáculo de interpretação. Ela rouba a cena. Poucas vezes no cinema brasileiro ví uma interpretação tão realista.

Quanto ao roteiro de Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em livro de Lourenço Mutarelli, não nos deixa furos, mas pode decepcionar quem espera aquele ápice com direito a fatos surpreendentes. Como falei, tudo parece muito real. Talvez seu monocronísmo nas cores e fotografia, seja retrato de um roteiro minimalista. A música de Apollo Nove é sarcástica, brincalhona, perfeita para o filme, que parece, mas não se leva tão a sério.

Parabéns a condução, ou melhor direção, de Heitor Dhalia levando tudo isso. O que tem de negativo nesse filme? Esse minimalismo do roteiro, de como é levada a historia me incomode um pouco. Pois eu, como público, espero algum grande acontecimento. Mas esse minimalismo percebe-se, não foi um erro, e sim uma proposta do filme.

O filme não teve patrocínio, o preconceito com o tema e o nome do filme, afastaram os patrocinadores, e foi feito com a raça e a coragem do diretor Heitor Dhalia, do Selton Melo e TODA equipe que entrou pra trabalhar de graça, ou quase de graça, porque acreditavam no projeto do filme. Para realizar o filme, se criou uma espécie de cooperativa, e só assim, um orçamento de 2,5 milhões de reais, se transformou em 315 mil. Isso é um reflexo de como o filme é um bom representando novo cinema nacional. Diferente, corajoso e inovador.

Jair Santana

2 Respostas

  1. […] desmerecer seus filmes anteriores, os ótimos “Nina” e “Cheiro do Ralo”,  Heitor Dhalia com seu “À Deriva” chega a sua fase de cinematografia adulta. Com um […]

  2. Adorei o Filme Cheiro do Ralo vi a pouco tempo não no cinema. Pena que não deu mto ibope Selton Melo com certeza melhor ator brasileiro de todos tempos.

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