“SHORTBUS”, John Cameron Mitchell, 2006

Shortbus

Shortbus

“Shortbus” é o filme dos filmes mais ousados, criativos, e inspirados que vi nos ultimos tempos. Não pelas cenas de sexo explicito, por que sim, o filme tem sexo explicito, não pela trilha inspiradissima, não pela fotografia com cara de anos 70, não pela entrega dos atores ou mesmo pela profundidade de seu roteiro. Mas pelo conjunto de tudo isso.

O diretor, John Cameron Mitchell, tem uma pequena mas ótima filmografia, seu primeiro filme foi o curioso “Hedwig: Rock, Amor e Traição” em 2001, volta com “Shortbus” tão ou mais ousado que seu primeiro filme, tanto no tema, quanto nas imagens, e muda totalmente seu estilo com seu terceiro trabalho como diretor, o filme  “Reencontrando a Felicidade”.

“Shortbus” no filme, é representado por um lugar, é bem mais que isso. É um lugar dentro de nos. Onde encontraremos o prazer, desligado de qualquer amarra, ou seja, um filme hedonista mesmo. Essa amarra pode partir de nos mesmos, do ser amado, da sociedade cristã, judaica ou seja lá o que for. “Shortbus” não é imoral. É bem maior que isso. É amoral.

Com certeza o filme não agradará os conservadores, os moralistas, e pode mexer com pessoas que tem problemas de aceitação com seu tipo de prazer. Pois o filme trata disso, de aceitação de si mesmo. A mulher que ama o marido e não sente orgasmo, uma outra que sente prazer em tirar fotos constrangedoras de pessoas estranhas, um casal gay, onde apesar de se amarem, são infelizes até entrar uma terceira pessoa na relação, enfim, várias situações inusitadas, mas não impossíveis, pelo contrario, mais comum do que se imagina.

Algumas coisas me chamaram a atenção, como a fotografia de Frank DeMarco, que nos remete a fotografias de filmes do anos 70, e os anos 70 na fotografia, na música, no estilo, é uma referência do filme. Pois aquele clima de sexo livre, é citado no filme, e como o próprio filme diz “só que com menos esperança”.

A a música de Yo La Tengo, que também nos faz remeter a década de 70. “Shortbus” é um filme moderno, inovador, mas nostaugico e poético ao mesmo tempo.

Um filme que fala de sexo com total liberdade, independente de posições morais, culturais e políticas, pois as pessoas vão a Shortbus falar de tudo. Sexo, drogas, filosofia, relacionamento pessoais, seja ele qual for. Lá impera a busca de si mesmo, a música esta presente no bar, todos os tipos de pessoas estão lá, atrás da mesma coisa, relações mais verdadeiras, assuntos mais verdadeiros, pois tudo ficou superficial demais nos tempos de hoje. O filme ainda utiliza como ponto para uma nova busca social, o 11 de setembro, onde a partir dali, gradativamente, as coisas vão mudando no comportamento social das pessoas.

Este é um filme pra ter em casa. É engraçado, inteligente, profundo, e também chocante pra alguns. Eu diria até que para alguns é MAIS CHOCANTE que qualquer outra coisa. Não é um filme fácil. Ainda mais pra um país moralista e cristão como o Brasil. E foi mais dificil ainda para um país conservador e hipócrita com os EUA.  “Shortbus” ficou sendo exibido no país em mostras e festivais. Somente depois de três anos de luta para distribuição, ele entrou em cartaz, no segundo semestre de 2008.

Se cada um, achasse esse lugar dentro de si. O mundo ia ser bem mais feliz. Bem mais facil. E os conservadores e falsos moralistas, sendo mais felizes, deixariam as outras pessoas viverem em paz, como tem que ser.

Jair Santana

“300”, Zack Snyder, 2007

300

Uma das produções mais equivocadas dos ultimo anos. Equivocada, trash, burra e preconceituosa. Mas o que poderia se esperar de Zack Snyder, onde seu único longa até então, era “Madrugada dos Mortos”, um filme de terror B, com direito a zumbis e tudo mais. Nem “Sessão da Tarde” tolera mais isso. Ele só fez levar os zumbis, para uma super produção de Hollywood. O resultado? Assista “300”.

Os herois, todos brancos, sarados, virís. Os vilões, negros, pardos, exóticos, com deformidade fisica e alguns, como o Deus-Rei Xerxes, claramente gay, tão afetado parece uma drag queen.

Técnicamente bem feito, mas continuo a afirmar, cinema é acima de tudo roteiro. Cinema é roteiro + dramaturgia + técnica + interpretação.. .enfim, o bom cinema é a soma de vários trabalhos, não é somente técnica. O Spielberg por exemplo, adora fazer filmes cheio de efeitos especiais, novas técnicas, mas nunca esquece que tem que haver um bom roteiro que justifique o uso da técnica. Técnica por técnica não é cinema. Cinema é imagem sim, mas não somente isso.

“300” é totalmente equivocado, é o tipo de filme que você acha que ja viu. E já viu mesmo…muitos. Um grupo de guerreiros que luta contra um exercito. E só. Não tem mais historia que isso. Franck Miller virou sinônimo de “quadrinhos cult” e de levar o quadrinhos pra tela grande, ele se inspirou em “Os 300 de Esparta” de 1962, filmado na própria Grécia e dirigida por Rudolph Maté.

O filme de Snyder  não é uma refilmagem de  “Os 300 de Esparta” . O HQ foi inspirado livremente no filme, e “300” é uma cópia fiel dos quadrinhos e não do filme orinal de 62.

Figurino equivocado, a direção de arte pior ainda…ou eles se inspiraram no carnaval brasileiro ou eu não sei…o Deus-Rei Xerxes anda pra lá e pra cá num carro alegórico digno do carnaval carioca. Fantasiado como ele está naquele figurino, parece mais ainda que a ala de uma escola de samba escapou pra telona.

O visual exagerado e esquisito, tornou até o cartaz do filme, HORRIVEL. Os Espartanos são de uma artificialidade grosseira. Diferente de “Sin City”, inspirado na obra de Franck Miller também, onde o visual do filme era totalmente se referenciando aos filmes noir, e agradavel ao olhos. Fica a pergunta, de onde vem o visual estético de “300”? Somente do HQ? São duas estéticas artísticas diferentes, um bom diretor as usaria como referência e não como objetivo único.

A voz que deram ao Rodrigo Santoro…tsc tsc… coitado. Parece que vem do alem. O Rodrigo Santoro é um ótimo ator. Mas seu personagem, que poderia ter sido um presente, acaba mesmo como um presente grego. A voz digitalizada reforça mais ainda o estilo drag queen do seu personagem.

A fotografia e a música acertam vez ou outra, e também vez ou outra erram feio. O filme não sabe se quer assumidamente trash ou kit (o trash que virou chic). O roteiro de uma pobreza lamentával. Apropósito, historicamente, totalmente equivocado também, que tem como fonte de inspiração histórica principal o texto de Heródoto, sobre a batalha dos gregos com os persas na Batalha das Termópilas.

O orçamento do filme, foi de absurdos 60 milhões de dólares, Wood Allen faria dezenas de filmes com esse dinheiro. Digo, BONS FILMES. Se é para se gastar tanto, que gaste bem. É impressionante, ver como o público é pouco exigente, e facilmente manipulado. “300” foi um sucesso de bilheteria.

Qualquer sessão da tarde é melhor que “300”, que pra mim, não passou mesmo foi de um tremendo “171” com a promessa do que poderia ser esse filme.

Jair Santana