“Onde os Fracos não tem Vez”, Joel e Ethan Coen, 2007

Onde os Fracos Não Tem Vez

Sinopse
Um caçador pega uma valise cheia de dinheiro após encontrá-la com um traficante de drogas abandonado no deserto. Para recuperar o dinheiro é enviado um assassino psicótico, que precisará enfrentar também o xerife local.

Opinião
O filme, dos irmãos Coen, é uma crônica, da falta de crença na sociedade atual. O velho oeste americano, sobretudo o retratado em filmes com John Ford e John Wayne, onde ainda existia o mocinho e o bandido, aqui no filme dos Coen isso já não existe.

Quem é mocinho, quem é bandido? O ex-veterano do Vietnã Llewenly, interpretado aqui por Josh Brolin, é um homem que, apesar de amar sua esposa, a trata como um capacho. O xerife Ed Tom Bell, na sempre brilhante atuação de Tommy Lee Jones, esta cansado, desacreditado, é ateu e está sempre, um, ou vários passos atrás do bandido. E o bandido, um psicopata frio, metódico e inteligente, que caiu nas graças de Javier Barden, que está fabuloso.

O título original do filme “Nenhum país para homens de idade” diz muito mais do filme do que o título nacional. O velho oeste, os velhos hábitos, valores, costumes…não tem mais vez. Não existe mais país pra isso. Aí poderiamos até misturar os títulos, ou apenas pensar como o velho, sendo igual a fraco.

O filme é violento sim, como tudo o mundo ao nosso redor. É frio, como o a maioria das pessoas, a cena em que o Llewenly foge no meio da cidade, do louco Chigurh, de Javier Barden, tudo acontece no meio da cidade, e os “tiros” parecem de balas perdidas. Niguem sabe de onde vem. Como o dia-a-dia de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo.


O filme impressiona pela leitura descrente em tudo, inclusive na descrença em Deus. Uma das frases mais fortes, acredito eu, seja quanto o Xerife Bell, divagando sobre seu momento de vida, diz, “Sempre pensei, que quando envelhecesse, Deus entraria na minha vida. E ele não entrou”. A espera por algo melhor, que acabou não acontecendo. Agora, nada mais faz tanto sentido ou o encoraja.

A falta de “o bem vence o mal” desagradará alguns espectadores. A falta do encontro dos 3 personagens principais, ou mesmo do confronto, incomodará outros, como me incomodou. Mas o filme é de uma inteligência e sutileza, que nos ganha por outros motivos.

Os irmãos Coen utilizam do silêncio, a sonoridade diegética pra falar mais que com palavras e música. E isso, é o máximo no cinema. Falar com imagens. A fotografia de Roger Deakins é árida, monocromática, casa com o filme, mas não chama muita tenção. Apesar de ser uma fotografia ganhadora de prêmios. Os Coen assinam o roteiro, a direção e a edição. Essa ultima com o pseudônimo de Roderick Jaynes. Sei lá por qual motivo o uso desse pseudônimo.

Em “Onde os Fracos não tem Vez”, assim como “Fargo”, é uma grande crítica a sociedade americana. Então, os “velhos não tem vez”, e tudo é superficial, consumível (inclusive o silêncio dos dois adolescentes no final do filme) e caótico. Uma américa, onde não existe mais mocinhos e bandidos. Todos são cúmplices, ou melhor, todos fazem parte de uma mesma moeda.

Jair Santana

“Cloverfield – O Monstro”, Matt Reeves, 2007

“Cloverfield – O Monstro” é uma boa surpresa do gênero. Quando se achava que os monstros de Hollywood estavam esgotados, sem mais espaços para “Godzilas” e coisas do gênero, J.J. Abrams, produtor de “Lost”, chama seu amigo de infância, o roteirista Matt Reeves, para estrear na direção desse ousado filme.

“Cloverfield” é uma produção de 30 milhões de doláres, dinheiro que poderiamos dizer que foi realmente uma aposta da Paramount, entregando a direção a um diretor estreante. Mas deu tão certo, que “Cloverfield 2” já está em pré-produção.

Não temos como não comparar, o filme é uma mistura de “A Bruxa de Blair” com “Godzila”, porém, tirando o que poderia haver de melhor no dois filmes. Digamos que “A Bruxa de Blair” é sim original, mas realizado por amadores, e “Godzila” por produtores experientes mas pouco ousados, eu diria até meio limitados pois caprixaram muito pouco inclusive nos efeitos do filme, que dirá no roteiro. Enfim, “Cloverfiel” é inteligente, ousado e muito bem realizado.

Muitos com certeza odiarão a câmera balançando o tempo todo. Durante o 1º fim de semana de lançamento nos Estados Unidos vários cinemas exibiram avisos de que as cenas gravadas com câmeras de mão poderiam causar tonturas e enjôos.

Mas colocar o espectador, no lugar de pessoas comuns, onde a câmera, ou o diretor do filme, não é onipresente e onisciente é fabuloso. Estamos como qualquer um. Estamos colocados no meio de um grande ataque a cidade de Nova York sabendo tanto, quanto qualquer cidadão comum. Ou seja, quase nada.

O monstro vem aparecendo aos poucos, as informações chegam sempre incompletas, as imagens nunca revelam tudo, e o desespero é presente sempre. Claro, temos falhas, como o rapaz que quer salvar a namorada, e os amigos fieis que o acompanham, acho meio exagerado, meio clichê, mas ao mesmo tempo, podemos questionar, se seria fidelidade ou pânico de ficar sozinho? Exagerada aliais, a interpretação do personagem principal. Mas não chega a comprometer o filme.

O crítico do blog “O bonequinho viu”, do jornal O Globo, Tom Leão, escreveu uma ótima crítica sobre o filme. Falando, que “Cloverfield” fala muito mais do que de um monstro, fala de momentos em nossas vidas que não podemos perder. O que realmente importa, é o que está em baixo da fita que o filme é gravado. Que é o dia seguinte, a primeira noite de amor entre no mocinho e a mocinha do filme. Aquele era o único registro, e tudo ficou pra trás, também porque eles deixaram. O momento não mais se repetirá, temos que viver o hoje, pois o amanhã, ninguém sabe como será, pode mesmo, um monstro cair sobre nossas cabeças. Sim, pode ser um monstro, um terrorista, ou um assaltante.

O filme surpreende pelas cenas de pânico no meio da cidade, pelas cenas de devastação de uma grande cidade, no caso do filme Nova York, supreende pela veracidade do comportamento das pessoas em tal situação. Temos a impressão que nunca tivemos essa visão interna da catástrofe. Só vimos algo parecido em cenas de câmeras amadoras no ataque de 11 de setembro.

Na narração assumida pelo filme não temos música tema e nem trilha sonora, a música do filme inicia um minuto e meio depois de começarem os créditos. A música é linda, um tom meio épico, maravilhosa. Mas para o meu azar, sai do cinema após a música quando ainda não tinham acabado totalmente os créditos. Ao término dos créditos finais há uma transmissão de rádio, com informações sobre o filme.

J.J. Abrams, é com certeza, um novo respiro ao cinemão americano. Um respiro ousado, que prova que ainda podemos usar velhas formulas e reconstrui-las. Como o cinema de “monstros” por exemplo.

Jair Santana

“Proibido Proibir”, Jorge Duran, 2006

Depois de mais de 20 anos sem dirigir, o anterior foi “A Cor do Seu Destino” (1986), Jorge Durán nos presenteia com esse filme, despretencioso, com um ár jovem (não pelos personagens mas pela levaza que apresenta), bem feito, bem cuidado. Não é o filme do ano, nem o filme que queremos que concorra ao próximo Oscar, ou aquele que vai nos levar a Cannes (não quer dizer que ele não tenha qualidade pra tudo isso), mas é um filme em podemos nos apaixonar.

O roteiro inteligente de Jorge Durán e Dani Patarra, é atual, longe de estereotipar os personagens, tornando o filme, um dos que melhor apresenta o jovem universitário brasileiro atual, se não for O FILME que melhor faz isso. É supreendente como um roteirista tão experiente como Duran, tem uma visão tão fresca e verdadeira sobre os jovens. Com certeza, haverá muita identificação do jovens que vão ao cinema, com os personagens do filme.

Os três personagens principais, interpretados por Caio Blat (“Carandiru” e “Batismo de Sangue”), Alexandre Rodrigues (“Cidade de Deus”) e Maria Flor (“Diabo a Quatro” e “Cazuza”). funcionam muito bem entre si. Com destaque para interpretação do Caio Blat que dá um show de naturalismo, e foi vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cinema Brasileiro de Miami. Talvez por ter o melhor personagem também, o que melhor dá pra trabalhar em cima. A Letícia, personagem de Maria Flor, é quem recebe a interpretação mais fraca. Maria Flor ainda não tem o tamanho da atriz, que merece muitos papeis que tem chegando à suas mãos. Já Alexandre Rodrigues dá o tamanho e ponto certo ao seu contido e ao mesmo tempo, forte, Leon.

A fotografia do Luis Abramo é simples, verdadeira e funcional, mas sem grandes destaques. O filme merecia uma fotografia mais trabalhada. Camera agil e muito bem realizada ajudam a nos prender ao filme.

A trama em si é muito atual, e trás muito do universo jovem, sem se perder. É meio policial, meio romântico, meio político, sem querer ser demagogo ou algo assim. O filme não quer ensinar nada e sim apresentar. Isso fundamental para o sucesso do roteiro. Parabéns mesmo para o roteiro de Duran e Dani Parrata, cheio de conversas ágeis e reais, algo que está faltando na maioria dos roteiros brasileiros.

O jovem brasileiro com certeza vai se ver nesse filme, pode não se ver nas situações em que os personagens se encontram em meio a tantas aventuras entre traficantes ou algo assim, mas nas atitudes comportamentais de cada um. Seus debates, suas músicas, seus livros, suas conquistas amorosas. A música por sinal é algo que chama atenção. Cheio de samba e poesia. Como uma leitura esperançosa a juventude brasileira.

O filme é uma clara prova que se pode fazer um filme muito bem realizado com um orçamento moderado. O orçamento de Proibido Proibir foi de R$ 1,2 milhões. Pra quem tem algum tipo de pré-conceito deixo o seguinte pensamento:

Pode-se dizer que “Proibido Proibir” é um filme pipoca diferente, pois é inteligente, ou um filme cabeça inovador, pois é agil e está longe de ser chato.

Jair Santana

“Juno”, Jason Reitman, 2007

Juno

“Juno” poderia ser classificado apenas como um filminho romântico americano. Mas é bem mais que isso. Poderia ser apenas um filme sessão da tarde, e muito provavelmente seria, se Brad Silberling, de “Desventuras em Série”, tivesse aceitado o roteiro. Ele recusou porque não concordava com o elenco proposto, e por falta de liberdade criativa.

Acho Silberling um diretor exagerado, mas seus motivos foram muito dignos. É o diretor quem deve escolher o elenco e ter total liberdade artística. Cinema é a arte do diretor.

“Juno” é estrelado pela ótima Ellen Page, indicada ao Oscar pelo papel, Ellen, é a garotinha de “Menina Má.Com”, outro ótimo filme e outro ótimo exemplo de boa interpretação. Juno MacGuff é um personagem riquíssimo, e de ótima construção nas mãos de Ellen. No elenco temos ainda Jason Bateman (O Ex-Namorado da Minha Mulher), que está legal, mas passa despercebido como candidato a pai adotivo, e ainda as ótimas presenças de Allison Janney (Hairspray – Em Busca da Fama), a madraste de Juno, e Jennifer Garner (Elektra), como esposa de Jason Bateman e candidata a mãe adotiva. As mulheres realmente estão mandando no filme. O ator Michael Cera (Superbad – É hoje), também ocupa bem seu espaço, mas não chega a se destacar.

A fotografia de Eric Steelberg, mesmo fotografo do filme “Os meus quinze anos”, trabalha numa fotografia quase que nostálgica. Nada de roubar a cena, mas se acoplar a ela. Sua fotografia lembra álbuns de colégios americanos, não tem cara de fotografia “Hollywoodiana”, ou cara de Oscar.

O roteiro do filme é da estreante Diablo Cody. Sim, Diablo Cody é o nome de uma mulher. Uma linda mulher, com cara e corpo de modelo, ela é publicitária, e trabalhou como streeper em uma boate apenas com diversão. “Juno” é seu primeiro roteiro para o cinema. E já de cara, foi indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar de roteiro.Agora, ela já está com outros 3 roteiros vendidos para o cinema.

O roteiro do filme é simplório, sarcástico e muito bem amarrado. Nem a acidez e a equivocada (sim, acho isso um problema do roteiro) maturidade e segurança de Juno, a personagem título, estraga o roteiro. Juno MacGuff é madura e segura em excesso, culta demais, para descrever seus 16 anos e todos os problemas que ela está passando. É inverossímil ver a adolescente que cita uma vasta cultura musical de rock anos 70, ligar para amiga de um telefone em formato de hamburguer, como uma adolescente qualquer. Mas ainda assim, não deixamos de amar e acreditar no filme.

Interessante oberservar, o ótimo paralelo  das fases da personagem com as estações do ano que o roteiro nos apresenta.

No verão, tudo é mais divertido, as novidades e suas resoluções aparentemente fáceis, é um clima mais “up”, mais e algre. No outono, onde as folhas caem e se colheita o que se plantou, começam os questionamentos e a aparecer coisas que o verão ofuscou. O inverno, junto com o frio, trás verdades mais duras, a solidão, isolamento e a crise. E finalmente a primavera, o renascimento, a continuidade ou melhor um novo começo literalmente, e por fim, o filho.

O diretor Jason Reitam, um outro quase estreante, seu primeiro filme foi o aclamadíssimo “Obrigado Por Fumar”, faz um trabalho leve e seguro. Não por acaso, o filme está indicado ao Oscar em várias categorias, entre elas, além de melhor filme, também direção.

A trilha sonora é um show a parte. Com o melhor da música moderna contemporânea, caindo no gosto dos “indies” com a presenças como a nostálgica “Cat Power”, os maravilhosos rockinhos do “Belle & Sebastian”, ainda “Sonic Youth” e “Velvet Underground”, e pra finalizar, temos ainda a presença de muita bossa nova na voz de Astrud Gilberto. A trilha sonora de Juno surpreendentemente é a mais vendida no ultimo mês de janeiro/2007 nos EUA. Nem mesmo os produtores acreditaram que isso aconteceria tão fortemente.

“Juno” é uma ótima surpresa do cinema americano que não tem feito muita coisa interessante ultimamente. Sim, eles tem os bluckbusters da vida, mas cinema não é só isso. É também, e não somente. “Juno” tem cara de cinema independente, mas não é. É uma produção PARIS Filmes. O que nos surpreende mais ainda

Mas nada disso tira o brilho dessa ótima comédica romântica e de costumes, que é “Juno”. Que retrata um pouco da sociedade americana, como em “Pequena Miss Sunshine”, mostrando uma superficialidade, um sociedade fria e doente, com todas as mazelas, que qualquer povo civilizado tem, e faz questão de esconder. E tudo isso, em um ótimo tom de comédia. Não há julgamento em “Juno”, epenas se retrata. Esse, é um dos principais diferenciais do filme.

Jair Santana

“O Cheiro do Ralo”, Heitor Dhalia, 2007

"O Cheiro do Ralo"

Este é o segundo filme em que o diretor Heitor Dhalia, e o segundo também em que o ator Selton Mello e diretor trabalham juntos. O anterior foi “Nina”, que apesar de muito depreciado por parte da crítica, eu pessoalmente adorei o filme. “Nina” tem um “quê” de inovador no cinema nacional.

Mas voltando ao “Cheiro de Ralo”. Este é um filme simples e inteligente. Talvez, sua maior qualidade seja essa. A simplicidade. Que está presente em tudo. Na direção de arte, na câmera, na interpretação, em seu conjunto. Mas não uma simplicidade depreciativa, longe disso, é uma simplicidade rica e encantadora. O filme é simples pela realidade que passa. Não tem grandes efeitos, coisas absurdas acontecendo, ele é REAL e surreal ao mesmo tempo.

Também é muito corajoso, quando nos coloca a acompanhar um cara “filho da puta”. Desculpem mas não achei outra palavra pra usar. Acredito eu, que o Lourenço, personagem interpretado magnificamente, por Seltom Melo, seja o primeiro anti-heroi assumidamente mal caráter do cinema brasileiro.

Quando tivemos o “Boca de Ouro” que era um bandido, ele era o “bom bandido”, amava sua mulher, defendia e ajudava os amigos, e mesmo quando tivemos o Chicó no “Auto da Compadecida” era o enganador, mas engraçado, carismático, já o Lorenço de “O Cheiro do Ralo” não é nada disso. É mal carater mesmo, ganancioso, egoísta, mesquinho, escroto em tudo, e mesmo assim, o filme tem a ousadia de te deixar colado nele o tempo todo. Faz o espectador acompanhar o “heroi” do filme, que o Lourenço, dono de todas essas qualidades. Você não sabe se torce por ele, ou pra ele se estrepar. O torcer por ele seria pra ele mudar e não se dar bem. Pois é impossível torcer só por ele, ele continuando ser o mesmo que é.

A fotografia de José Roberto Eliezer, nos coloca numa atemporalidade e é quase monocromática. Sem estouros de cores, tudo parece antigo mas nada nostalgico. Muito bem realizada dando o clima que o filme pede. A direção de arte de Guta Carvalho também é maravilhosa em tudo, nos levando a um clima de sub-mundo e mistério, ora meio repartição pública ora meio máfia. Tudo novamente é atemporal e curioso. Procuramos, mas nunca conseguimos nos situar temporalmente, o que é ótimo para a proposta do filme. O figurino idem, atemporal, careta, e acima de tudo real. Meio suburbano, meio urbano, tudo é milimetricamente pensado, mas nada soa como arrogante, ou seja, nada quer parecer estudado demais.

Tudo conversa muito bem. Isso é direção afiada. Sem falar nas interpretações tanto do Seltom Melo, que já ganhou dois prêmios com sua interpretação, quando do resto TODO do elenco, em especial Sílvia Lourenço (“Bicho de 7 Cabeças” e “Contra Todos”), a viciada que volta e meia volta a fazer negociações com Lourenço. Que espetáculo de interpretação. Ela rouba a cena. Poucas vezes no cinema brasileiro ví uma interpretação tão realista.

Quanto ao roteiro de Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em livro de Lourenço Mutarelli, não nos deixa furos, mas pode decepcionar quem espera aquele ápice com direito a fatos surpreendentes. Como falei, tudo parece muito real. Talvez seu monocronísmo nas cores e fotografia, seja retrato de um roteiro minimalista. A música de Apollo Nove é sarcástica, brincalhona, perfeita para o filme, que parece, mas não se leva tão a sério.

Parabéns a condução, ou melhor direção, de Heitor Dhalia levando tudo isso. O que tem de negativo nesse filme? Esse minimalismo do roteiro, de como é levada a historia me incomode um pouco. Pois eu, como público, espero algum grande acontecimento. Mas esse minimalismo percebe-se, não foi um erro, e sim uma proposta do filme.

O filme não teve patrocínio, o preconceito com o tema e o nome do filme, afastaram os patrocinadores, e foi feito com a raça e a coragem do diretor Heitor Dhalia, do Selton Melo e TODA equipe que entrou pra trabalhar de graça, ou quase de graça, porque acreditavam no projeto do filme. Para realizar o filme, se criou uma espécie de cooperativa, e só assim, um orçamento de 2,5 milhões de reais, se transformou em 315 mil. Isso é um reflexo de como o filme é um bom representando novo cinema nacional. Diferente, corajoso e inovador.

Jair Santana

“SHORTBUS”, John Cameron Mitchell, 2006

Shortbus

Shortbus

“Shortbus” é o filme dos filmes mais ousados, criativos, e inspirados que vi nos ultimos tempos. Não pelas cenas de sexo explicito, por que sim, o filme tem sexo explicito, não pela trilha inspiradissima, não pela fotografia com cara de anos 70, não pela entrega dos atores ou mesmo pela profundidade de seu roteiro. Mas pelo conjunto de tudo isso.

O diretor, John Cameron Mitchell, tem uma pequena mas ótima filmografia, seu primeiro filme foi o curioso “Hedwig: Rock, Amor e Traição” em 2001, volta com “Shortbus” tão ou mais ousado que seu primeiro filme, tanto no tema, quanto nas imagens, e muda totalmente seu estilo com seu terceiro trabalho como diretor, o filme  “Reencontrando a Felicidade”.

“Shortbus” no filme, é representado por um lugar, é bem mais que isso. É um lugar dentro de nos. Onde encontraremos o prazer, desligado de qualquer amarra, ou seja, um filme hedonista mesmo. Essa amarra pode partir de nos mesmos, do ser amado, da sociedade cristã, judaica ou seja lá o que for. “Shortbus” não é imoral. É bem maior que isso. É amoral.

Com certeza o filme não agradará os conservadores, os moralistas, e pode mexer com pessoas que tem problemas de aceitação com seu tipo de prazer. Pois o filme trata disso, de aceitação de si mesmo. A mulher que ama o marido e não sente orgasmo, uma outra que sente prazer em tirar fotos constrangedoras de pessoas estranhas, um casal gay, onde apesar de se amarem, são infelizes até entrar uma terceira pessoa na relação, enfim, várias situações inusitadas, mas não impossíveis, pelo contrario, mais comum do que se imagina.

Algumas coisas me chamaram a atenção, como a fotografia de Frank DeMarco, que nos remete a fotografias de filmes do anos 70, e os anos 70 na fotografia, na música, no estilo, é uma referência do filme. Pois aquele clima de sexo livre, é citado no filme, e como o próprio filme diz “só que com menos esperança”.

A a música de Yo La Tengo, que também nos faz remeter a década de 70. “Shortbus” é um filme moderno, inovador, mas nostaugico e poético ao mesmo tempo.

Um filme que fala de sexo com total liberdade, independente de posições morais, culturais e políticas, pois as pessoas vão a Shortbus falar de tudo. Sexo, drogas, filosofia, relacionamento pessoais, seja ele qual for. Lá impera a busca de si mesmo, a música esta presente no bar, todos os tipos de pessoas estão lá, atrás da mesma coisa, relações mais verdadeiras, assuntos mais verdadeiros, pois tudo ficou superficial demais nos tempos de hoje. O filme ainda utiliza como ponto para uma nova busca social, o 11 de setembro, onde a partir dali, gradativamente, as coisas vão mudando no comportamento social das pessoas.

Este é um filme pra ter em casa. É engraçado, inteligente, profundo, e também chocante pra alguns. Eu diria até que para alguns é MAIS CHOCANTE que qualquer outra coisa. Não é um filme fácil. Ainda mais pra um país moralista e cristão como o Brasil. E foi mais dificil ainda para um país conservador e hipócrita com os EUA.  “Shortbus” ficou sendo exibido no país em mostras e festivais. Somente depois de três anos de luta para distribuição, ele entrou em cartaz, no segundo semestre de 2008.

Se cada um, achasse esse lugar dentro de si. O mundo ia ser bem mais feliz. Bem mais facil. E os conservadores e falsos moralistas, sendo mais felizes, deixariam as outras pessoas viverem em paz, como tem que ser.

Jair Santana

“300”, Zack Snyder, 2007

300

Uma das produções mais equivocadas dos ultimo anos. Equivocada, trash, burra e preconceituosa. Mas o que poderia se esperar de Zack Snyder, onde seu único longa até então, era “Madrugada dos Mortos”, um filme de terror B, com direito a zumbis e tudo mais. Nem “Sessão da Tarde” tolera mais isso. Ele só fez levar os zumbis, para uma super produção de Hollywood. O resultado? Assista “300”.

Os herois, todos brancos, sarados, virís. Os vilões, negros, pardos, exóticos, com deformidade fisica e alguns, como o Deus-Rei Xerxes, claramente gay, tão afetado parece uma drag queen.

Técnicamente bem feito, mas continuo a afirmar, cinema é acima de tudo roteiro. Cinema é roteiro + dramaturgia + técnica + interpretação.. .enfim, o bom cinema é a soma de vários trabalhos, não é somente técnica. O Spielberg por exemplo, adora fazer filmes cheio de efeitos especiais, novas técnicas, mas nunca esquece que tem que haver um bom roteiro que justifique o uso da técnica. Técnica por técnica não é cinema. Cinema é imagem sim, mas não somente isso.

“300” é totalmente equivocado, é o tipo de filme que você acha que ja viu. E já viu mesmo…muitos. Um grupo de guerreiros que luta contra um exercito. E só. Não tem mais historia que isso. Franck Miller virou sinônimo de “quadrinhos cult” e de levar o quadrinhos pra tela grande, ele se inspirou em “Os 300 de Esparta” de 1962, filmado na própria Grécia e dirigida por Rudolph Maté.

O filme de Snyder  não é uma refilmagem de  “Os 300 de Esparta” . O HQ foi inspirado livremente no filme, e “300” é uma cópia fiel dos quadrinhos e não do filme orinal de 62.

Figurino equivocado, a direção de arte pior ainda…ou eles se inspiraram no carnaval brasileiro ou eu não sei…o Deus-Rei Xerxes anda pra lá e pra cá num carro alegórico digno do carnaval carioca. Fantasiado como ele está naquele figurino, parece mais ainda que a ala de uma escola de samba escapou pra telona.

O visual exagerado e esquisito, tornou até o cartaz do filme, HORRIVEL. Os Espartanos são de uma artificialidade grosseira. Diferente de “Sin City”, inspirado na obra de Franck Miller também, onde o visual do filme era totalmente se referenciando aos filmes noir, e agradavel ao olhos. Fica a pergunta, de onde vem o visual estético de “300”? Somente do HQ? São duas estéticas artísticas diferentes, um bom diretor as usaria como referência e não como objetivo único.

A voz que deram ao Rodrigo Santoro…tsc tsc… coitado. Parece que vem do alem. O Rodrigo Santoro é um ótimo ator. Mas seu personagem, que poderia ter sido um presente, acaba mesmo como um presente grego. A voz digitalizada reforça mais ainda o estilo drag queen do seu personagem.

A fotografia e a música acertam vez ou outra, e também vez ou outra erram feio. O filme não sabe se quer assumidamente trash ou kit (o trash que virou chic). O roteiro de uma pobreza lamentával. Apropósito, historicamente, totalmente equivocado também, que tem como fonte de inspiração histórica principal o texto de Heródoto, sobre a batalha dos gregos com os persas na Batalha das Termópilas.

O orçamento do filme, foi de absurdos 60 milhões de dólares, Wood Allen faria dezenas de filmes com esse dinheiro. Digo, BONS FILMES. Se é para se gastar tanto, que gaste bem. É impressionante, ver como o público é pouco exigente, e facilmente manipulado. “300” foi um sucesso de bilheteria.

Qualquer sessão da tarde é melhor que “300”, que pra mim, não passou mesmo foi de um tremendo “171” com a promessa do que poderia ser esse filme.

Jair Santana