“Santiago”, João Moreira Salles, 2007

Santiago

Fiquei extasiado com “Santiago”. Um filme de uma sensibilidade e de uma coragem, de poucos diretores. Da fotografia simplória e funcional, a narração ousada e pessoal, usada afirmativamente para se conseguir montar o filme. Tudo em “Santiago” é belo.

Eu diria que o diretor João Salles, de “Entreatos” e “Nelson Freire”, fez o filme sobre e para ele mesmo. É como o resultado de uma análise. É como o receber alta de sua analista e transformar isso num projeto visual.

Ainda assim, não é um filme egoísta ou presunçoso, pelo contrário, é de uma generosidade e humildade de poucos. No documentário “Santiago” o personagem, o assunto principal talvez, mais que o próprio Santiago e o próprio João Salles, seja as relações humanas, a solidão, sobre uma época perdida, ou até mesmo a tentativa de se fazer um filme.

“Santiago” é um filme antagônico. Profundo e distante. Divertido e extramente triste. Visualmente poético e poluído ao mesmo tempo. Vivo, mas muito próximo de quem está no “fim da vida”. Todo esse antagonismo, é muito presente em tudo no filme. Faz o filme mais rico ainda.

É um filme muito intimista, de uma fotografia poética de Walter Carvalho. O som, em especial o que está fora de quadro, é muito curioso. E a narração de Fernando Moreira Salles, irmão do diretor, é ótima. A escolha foi perfeita. Alguém que, como João, morou no cenário da historia. e viveu muito do que está sendo contado.

O final do filme em especial, é de uma frieza e de uma emoção, mais uma vez o antagonismo presente, que choca. O distanciamento do diretor com o personagem Santiago, e a aproximação dele com o público é impressionante.

O personagem principal,  o Santiago, foi mordomo da família Moreira Salles durante 30 anos. Uma família rica, reservada, muito bem relacionada e também muito culta. Inteligente, metódico, entre outras coisas, Santiago realmente era uma figura curiosa. Mais o filme “Santiago” é bem mais que isso. Quando João filmou, viu que só a figura do mordomo Santiago, não era o bastante para se ter um filme. E por aproximadamente 15 anos o filme ficou inacabado. Até que, como já falei, resultado de uma longa terapia, João viu, que TINHA QUE TERMINAR ESSE TRABALHO. E terminou muito bem. Acabou sendo ele o principal personagem do filme, e não mais o Santiago.

“Santiago” ganhou prêmio de melhor filme, pelo júri popular no festival de Alba, e tem sido unanimidade entre críticos e público. Apesar de não ter arrebatado multidões pro cinema, pois o brasileiro ainda não aprendeu a assistir documentário.

O mais triste mesmo, é saber que o diretor, João Salles, está com esse filme se despedindo do cinema por achar que não é tão apaixonado por cinema como a maioria dos diretores que conhece. Acho isso sim, um profundo egoísmo. Já imaginaram se Di Cavalcante, Noel Rosa e Fernanda Montenegro nos negassem suas realizações artísticas por causa de autocríticas? Acho que é um pouco isso que o João está fazendo quando está nos tirando seu cinema.

Mesmo que não tenha essa paixão por cinema ou não se classifique como cineasta, João nos deixa filmes maravilhosos, e ajudou muito ao Brasil estar vivendo uma época de tantos e bons documentários nos cinemas. E sempre será sim, identificado acima de tudo como cineasta. É quase que como um dogma. É como ser batizado. Ninguem deixa de ser batizado mesmo que se afaste completamente da igreja. E cinema, João deve saber, é como uma religião.

Com os filmes que tem, João nunca deixará de ser cineasta mesmo que se afaste completamente do cinema. Daqui a 20 anos, seus filmes vão estar aí, vivos com toda certeza. E o título “cineasta” ainda estará grudado a sua vida.

Jair Santana

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