“A Culpa é do Fidel!”, Julie Gravas, 2006

A Culpa é do Fidel

A Culpa é do Fidel

A crianças e seus olhares, estão aparecendo cada vez mais em bons filmes. Podemos citar, “Estamos Bem Mesmo Sem Você”, “Machuca”, “O Ano em Que Meus Pais Sairam de Férias”, Mutum“, enfim, e cada vez mais aparecendo filmes com essa perspectiva. O que é muito bom, pelo menos a qualidade dos filmes está ótima. Diz um amigo, que quem lançou a moda foram os Irãnianos, o resto do mundo, vendo que aquilo funcionava, absorveu.

Claro, sempre tivemos um “Oliver”, uma “Anie”, mas realmente, poucos eram os filmes dramáticos, introspectivos, antes de “Filhos do Paraiso” por exemplo. Tivemos sim, mas foram poucos. Agora parace ser essa a uma certa tendência.

“A Culpa é do Fidel” é a estreia na ficção de Julie Gravas, filha de Costa Gravas, diretor de filmes como “Z”, “Quarto Poder” e “Corte”. Julie Gravas, mostra em seu primeiro filme, uma sensibilidade política, social, e dramática, de quem viveu realmente perto de grandes mudanças políticas, e entendeu o quanto tudo é muito confuso para uma criança.

No filme Anna (Nina Kervel), é uma garota, de uma familia de boa vida, estuda em um tradicional colégio católico, tem uma vida e uma educação requintada. E se adapta muito bem a esse seu mundo. De repente, por causas ideológicas, sente perder tudo isso.

Como entender que essa perda toda, é por um bem maior. E é por um bem maior? Um pai ser afastar dos filhos, da familia é um bem maior? Questões sociais colocadas a uma criança como Ana, até então longe de qualquer “problema” é um bem maior? Acredito que o filme não chega a fazer julgamentos, mas abrir questões e deixar o espectador se encontrar e questionar tudo que acontece. Levar uma criança de 9 anos para uma passeata em prol, da melhor idologia que seja. É o correto?

O filme tem um momento emblemático e inesquecivel. Quando Ana, após uma briga com seus pais, pega seu irmão mais novo, e sai pela cidade. Andando, sem rumo, sem se perguntar pra onde. É muito claro, que ela, naquele momento em comparação ao momento que está passando em sua vida. Não sabe onde está. Não sabe como se posicionar. É o momento de “surto”. Chega de fingir que há controle. Chega de fingir que tudo está normal. É preciso parar e se reposicionar.

Ana é muito apegada a sua empregada. Que em determinado momento, conversando com ela, coloca para Ana, a frase título do filme. “A Culpa é do Fidel”. Ainda chama os comunistas de “vermelhos” e “barbudos”.

É interessante identificar como isso cai na cabeça de Ana, de apenas 9 anos. Como tudo para ela começa a ter relação com o “vermelho” e os “barbudos”. Ana é uma garota inteligente, observadora, crítica, questionadora. Não acredita em nada muito facilmente. Tem que sentir, que essa nova realidade, pode fazer bem pra ela. E isso fica claro no final sutil que Julie Gravas nos coloca.

Quando Ana, chega a sua nova escola. Onde algumas regras, como o uniforme, parece ter caido. Tudo é novo, estranho, mas Ana, é convidada a se encaixar naquele espaço. E aceita o convite.

A Culpa é do Fidel!” é um filme inteligente, que nos faz pensar, e ao mesmo tempo que leve e despretencioso. Tem boas interpretações, uma direção de arte bem cuidada, música delicada. É um filme realmente pra ser visto. É uma ótima estreia da diretora Julie Gravas. A sutileza e delicadeza de sua direção fez desse filme uma grande estreia sua como diretora.

Jair Santana

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