“Mutum”, Sandra Kogut, 2007

Esse é o primeiro longa-metragem de ficção, a diretora Sandra Kogut, diretora do documentário “Passaporte Húngaro”. “Mutum” é uma adaptação da novela “Campo Geral”, primeira história que compõe o livro Manuelzão e Miguilim de Guimarães Rosa. Ele narra a dolorida infância de um menino que cresce nos campos do Mutum, sertão de Minas Gerais. Quer dizer, além de um local, Mutum significa mudo ou ainda, é uma ave negra que só canta à noite. Tudo isso casa com o filme.

Eu diria que é o filme brasileiro mais poético do ano de 2007. A escolha do elenco foi perfeita, contando desde a escolha de João Miguel de “Cinema, Aspirinas e Urubús”, Izadora Fernandes, em seu primeiro longa, e apresentando os dois garotos Thiago da Silva Mariz (Thiago) e Wallison Felipe Leal Barroso (Felipe), que são de uma naturalidade e de um carisma apaixonantes. Ainda temos a avó dos personagens Tiago e Felipe, que parece ter vivido sempre no mundo diegético do filme. Infelizmente não sei o nome da a atriz.

O filme porém tem um problema grave, que chega a incomodar, mas não tira o encanto do conjunto. O som. Não sei dizer se na capitação ou na mixagem, mas o erro é gravíssimo. Chega-se realmente a não entender boa parte do inicio do filme. Isso não pode mais acontecer no cinema nacional. Afasta o público. Que muitas vezes não volta.

Fora isso, a fotografia é simplória e eficaz. A narrativa é fria. Propositalmente fria. Eu diria mais, é uma narrativa árida, como o próprio lugar. Onde os valores das coisas são diferentes dos nossos, digo nossos, indivíduos urbanos.

Em Mutum, são as relações humanasos, oque tem de mais essecencial e de mais dificil. O filme encanta, emociona, sem cair na pieguisse ou deslumbramento de paisagens. Algo muito facil de acontecer ao cairmos fora do lugar comum, dos centros urbanos. Como aconteceu em “Casa de Areia” por exemplo.

Thiago, o personagem principal vivido pelo não ator Thiago Mariz, é digno de prêmio. Você sai do cinema apaixonado por ele e seu irmão. A cena do choro dele no meio da floresta é de impressionante realismo. “Cria” da maravilhosa preparadora de elenco Fátima Toledo, ele é um show a parte. Fátima Toledo por sua vez, está presente em 09, das 10 melhores interpretações dos nossos cinemas como, “Cidade Baixa”, “O Céu de Suely”, “Cidade de Deus”, “Central do Brasil”, etc.

“Mutun” tem um pouco da poesia infantil dos bons filmes irânianos, como “O Jarro” ou “Filhos do Paraiso”. Não estou comparando o tipo de cinema e sim o lirismo. A visão infantil de uma realidade dura e pesada.

Algo que caiu estranhamente eficaz foi não existir trilha sonora no filme. A ausência dessa trilha foi muito bem usada. Os sons da floresta, o barulho do vendo nas árvores, o andar de um cavalo. Tudo é como parte da trilha do filme. Até mesmo o silêncio de uma vila do interior do país. E a fotografia, como falei antes, simplória, e naturalista também. Essa naturalidade toda, nos faz chegar mais perto da simplicidade e da humildade daquele lugar. E da simplicidade das pessoas que nele vivem.

Jair Santana

“O Hospedeiro”, de Bong Joon-ho, 2006

O Hospedeiro

Surpreendente, tenso, engraçado, assustador. Essas são algumas das qualidades desse despretensioso filme Coreano, que passou quase que despercebido no Brasil. Apesar de ter alcançado ótimas críticas, o filme foi vendido de maneira errada, como mais um “enlatado” sobre monstros, e acabou se dando mal no mercado.

“O Hospedeiro” é bem mais que isso. É um filme sobre monstros, sobre o sistema, sobre familia, sobre desordem urbana, sobre ecologia.

Direção de Bong Joon-ho, que também assina o roteiro com mais dois roteiristas. Muito bem amarrado, inteligente, mas sem pretensões. Pelo contrário, é por vezes, bobão, no melhor sentido que esse “bobão” possa ser usado, e também engraçado.

Conta com atores que não fazem feio, em especial, a garotinha, Hyun-seo (Ko Ah-sung), está ótima no papel que lhe é entregue. Os efeitos especial são muito bem realizados, e o filme, não tem esse medo todo de mostrar o monstro no ininio mesmo, como fazem os filmes americanos. O que surpreende, e ao mesmo tempo, nos prende mais ainda.

Preste atenção, na cena do ataque inicial, num parque com restaurantes de rua e traillers. E impressionantemente bem realizada e assustadora. Muito melhor que a maioria dos filmes de monstros americanos, que fora King-Kong, só tem nos trazido filmes realmente abomináveis como “Tentáculos”,  que nada mostra e tenta prendere o espectador por isso (por nada mostrar), e “Godzila” por exemplo, que foi o mais abominável de todos dos filmes de monstros realizado nos últimos tempos.

O cinema Coreano, ou melhor, o cinema oriental como um todo, tem, em sua maioria, nos trazido ótimas surpresas. É preciso estar mais atento a esse cinema, e a alguns diretores em especial, como Kim-Ki-Duk, Park Chan-wook, Hirokazu Koreeda e Wong Kar-Wai por exemplo.

Voltando ao, “O Hospedeiro”. O filme é uma ótima pedida. É leve e tenso ao mesmo tempo. Coisa rara de se conseguir. Tem boas cenas de ação e é politicamente correto sem ser chato e demagogo. Sem essa de pedir muitas explicações ao filme, sem essa de levar tudo a sério demais (sendo assim estariamos pedindo cenas de silêncio total nas guerras espaciais de filmes como “Star Wars”), é preciso entender a proposta do filme, é preciso entender que cinema, não é novela, e não tem que se explicar tudo. “O Hospedeiro” é pra quem gosta, acima de tudo, de “CINEMA”.

Jair Santana