“À Deriva”, Antonio Pinto

Filme: À Deriva
Diretor: Heitor Dhalia
Ano: 2009
Música: Ausência da Praia
Composição: Antonio Pinto

“Shame”, Harry Scott

Filme: Shame
Diretor: Steve McQueen
Ano: 2011
Música: Unravelling
Composição: Harry Scott

 

Xingu, Cao Hamburger, 2012

Xingu

Xingu

“Xingu”, de Cao Hamburger, é um apaixonante e importante resgate de uma pouco conhecida parte da história recente do Brasil. O primeiro contato com grande número de tribos indígenas, feita recentemente, a pouco mais de 50 anos, com o motivo de povoar, desbravar o país.

O filme nos conta a história desse momento em que o governo brasileiro contratava peões para o desbravamento do seu interior. Aqui, mais especificamente a expedição do Rio Xingu, a historia dos irmãos Vilas Boas.

“Xingu”, como ainda no início se deixa bem claro, é uma adaptação livre sobre uma historia real. É um romance baeado em uma historia real.

O roteiro é de Cao Hamburger, Elena Soarez (Os Desafinados e Cidade dos Homens), e Anna Muylaet (Durval Discos e Proibido Fumar), que também co-roteirizou com Cao o “Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”.

É um roteiro muito bem escrito. Coloca tudo que tem que colocar no filme. A relação dos irmãos, a diferença de personalidade de cada um deles, a historia da relação deles com os índios e como conseguiram negociar a criação do Parque. Em momento algum, o filme os mitifica. Pelo contrário, os humaniza. Nos explica bem a longa historia desde o primeiro contato até a criação do Parque, sem pulos temporais abruptos. Além de sintetizar muito bem, na mesa onde um latifundiário, um político e um coronel resolvem o futuro do país, um pouco sobre nossa historia e nossa relação com os índios e com a floresta. 

Os 102 minutos de filme nos contarem o importante da história, sem excesso de “paisagens bucólicas” e sem pular o que importa. O roteiro é de uma preciosidade rara nesse tipo de filme.

Essa sequência pra mim é uma das mais geniais do filme. De um lado, os irmãos Vilas Boas e os índios, do outro, três conservadores ligados a alguns dos maiores poderes do país até hoje (militares, ruralistas e políticos). Ainda assim, o resultado final, se provou que a luta pode ser vitoriosa. E melhor ainda, é saber que a história é real. Com meandros de dramatização claro, mas a sua essência é real.

A direção de fotografia ficou a cargo de Adriano Golman, que já havia trabalhado com Cao em “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e com o produtor do filme, o diretor Fernando Meirelles em “360”. A fotografia é correta, sem grandes preciosismos, mas é o que se espera. As belezas naturais falam por si. Os lugares, belos também podem ser perigosos, ostís, por isso o cuidado na fotografia em não somente encantar, mas mostrar um lado mais real. E é esse objetivo direção de fotografia. O realismo. Contrário de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” que remetia a algo mais melancólico, poético e época.

“Xingu” é uma grande produção brasileira, talvez a mais cara produção brasileira dos últimos anos. Seu valor estimado é de 14 milhões de reais. É grandiosa em muitos sentidos, inclusive na coragem, de filmar nos lugares reais por onde os irmãos Vilas Boas passaram. Não é faz de conta, as locações são reais. E isso, quando se fala de cinema, é algo raro e muito caro também.

Ao contrário do que acontece com “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios” de Beto Brant, aqui, essa locomoção de espaço físico é realmente importante. O lugar, é parte da diegese. A interação com o espaço é algo muito importante. Esse foi um grande acerto do filme.

Soma-se isso a direção segura de Cao Hanburger, que como um dos roteiristas, sabia muito bem o que realmente queria, o que realmente importava. A decupagem é muito bem realizada, sem muitas firulas, mas com certa grandiosidade. As paisagens aparecem sim, mas para nos dar dimensão do país, da mata, do tamanho Parque, e não somente para nos deslumbrarmos com a bela vegetação.

A segurança da decupagem é excepcional. A escolha de cada quadro, do mais simples, do enquadramento de um rosto, aos mais complexos, como o do avião em queda livre, deixando o avião flutuar, nos levando junto aquela sensação de “vácuo”, de desespero, e por fim, ao suspense dos primeiros contatos com os indíos. Cao é um diretor que sabe criar o clima necessário pra cada cena, e também sabe finalizá-las.

Os verdadeiros irmãos Villas Boas

Os verdadeiros irmãos Villas Boas

Outro acerto. A escolha dos atores  e a entrega deles aos personagens. Em especial, o narrador da historia, Claudio Vilas Boas, interpretado por João Miguel. João Miguel dos maiores atores de sua geração. E já havia provado isso em “Mutun”, “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Estômago” por exemplo. Pernambucano, nesses  filmes João sempre fazia papel de personagens nordestinos.

Então aqui João Miguel perde o sotaque e prova que pode fazer muito mais que papeis regionais. Sua interpretação é monstruosa. Talvez por não ser expansiva, mas contida, o que é muito mais difícil. Uma interpretação contida, firme e que nas telas do cinema fica de uma tamanho imensurável. João ganhou o Festival do Rio em 2005 por “Cinemas, Aspirinas e Urubus” de Marcelo Gomes, e em 2011 por “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Vinícius Coimbra, ainda inédito.

“Xingu” é um bom filme para se entender um pouco mais da historia política de um dos mais importantes parques de preservação do país, também entender sobre nossa relação com os povos indígenas e mostrar, que os índios não são os vilões como durante anos o cinema, principalmente o americano, nos mostrou.

“Árvore da Vida”, Alexandre Desplat

Filme: “Árvore da Vida”
Diretor: Terrence Malik
Ano: 2011
Música: Rive
Composição: Alexandre Desplat
Trilha Sonora do Filme: Alexandre Desplat

“Tomboy”, Celine Sciamma, 2011

Tomboy Cartaz

Tomboy Cartaz

“Tomboy”, filme da cineasta francesa Céline Sciamma, é um filme acima de tudo, atual, inteligente e leve. Apesar do tema complicado que aborda, consegue manter esse equilíbrio da seriedade, leveza e bom humor.

Em seu roteiro, que é da própria Celine Sciamma, temos uma família que acaba de se mudar para um bairro novo nas redondezas de Paris. Família aparentemente feliz, bem estruturada, pai, mãe e duas crianças.

O filme se inicia com o pai chegando na casa nova, com um dos filhos ao seu lado, dirigindo o o carro com o pai, os dois brincam, estão felizes com a casa nova.

Uma das maiores dificuldades de se falar desse filme é comentá-lo sem estragar algo para seu espectador. A grande questão está justamente em que o casal tem “duas crianças”, e dentro dessa visão é mais fácil entendermos o filme.

A ingenuidade, a visão mais simplória de uma criança, visto claramente no filme na filha mais jovem do casal, ao perceber a condição da irmã e não questionar, é a maior prova de amor mostrada no filme.

O filme não aborda sexualidade, mas sim gênero sexual, pois Laure, a filha mais velha do casal, por mais que sua família nunca tenha questionado, se identifica como “menino”, e assim se apresenta para os colegas de seu novo bairro, então passa a se chamar Michael.

Esse fator nos é trazido naturalmente, sem grandes surpresas, sem ser uma grande revelação. Na verdade, conhecemos primeiro Michael, depois viemos descobrir que ele, é na verdade Laure. Mas também sem grande surpresa ou como a grande revelação do filme.

O gênero sexual de Laure é claramente natural, não é sintoma de revolta ou não identificação familiar, é simples assim. Identificação de gênero sexual.

E assim Laure começa a se relacionar com as crianças locais, com o nome Michael. Brinca como todo e qualquer garoto normal. De futebol, vai a praia, enfim, nada além do normal, nada que um garoto não faria.

A questão é tratada de maneira leve, e até com certo humor, sem que com isso, se faça piada do comportamento, da situação delicada que Laure se encontra. A família é harmônica e sua relação com a irmã mais nova é tocante e chega a emocionar.

A reação de sua família, que antes parecia não perceber nada é incomoda, e ao mesmo tempo compreensível. Julgar ou não o comportamento da mãe? Mais radical, mais passional, chegamos como espectador a sofrer junto com Laure tudo que ela sofre naquele momento. Mas seria diferente? Teria como ser diferente?

Interpretação memorável de Zoé Héron como Laure e Michael. Interpretação delicada, centrada, sensível e acima de tudo séria, ainda mais Zoé sendo realmente uma criança. Chega a nos impressiona e nos questionar, qual seu gênero sexual realmente. De maneira geral, interpretações naturalistas, convincentes. Outro destaque é para sua irmã menor, que como uma criança que ainda não foi superexposta a valores e conceitos sociais, recebe a irmã de uma maneira mais natural, como deveria ser o normal. E também sua mãe, que reage com mais firmeza e passionalmente a situação da filha. Interpretações fortes, porém equilibradas, como o filme.

A fotografia também mantêm o tom realista, como uma boa parte dos filmes franceses prefere manter. Fotografia que combina com o clima do filme. Boa decupagem, realismo, mais uma vez, o equilíbrio presente, se conectando com tudo no filme, mostrando a direção firme e segura de Celine Sciamma.

“Tomboy” é um filme para se ver, pensar, e também para nos questionar. Quanto aos gêneros e comportamentos morais e sociais que temos com o mundo, e em especial com as pessoas. Com certeza, o filme será tema de aulas, de debates, pois, sem levantar bandeiras ou questionar toda essa questão moral e social, ele levanta uma questão séria e que deve ser sim, conversada entre todos.

Jair Santana

“Moça com Brinco de Pérola”, Alexandre Desplat

Filme: Moça com Brinco de Pérola
Diretor: Peter Webber
Ano: 2003
Música: Girl With A Pearl Earring Theme
Composição: Alexandre Desplat
Trilha Sonora do Filme: Alexandre Desplat

Hebemus Papam, Nanni Moretti, 2011

Habemus Papam cartaz

Habemus Papam cartaz

“Hebemus Papam”, filme do cineasta italiano Nanni Moretti, diretor de filmes como “Caos Calmo” e “O Quarto do Filho”, nos conta a historia da escolha mais mítica da igreja, do Papa, e por fim, o Papa, que se recusa a ser Papa. Sim, ao contrário do imaginário popular, no filme de Moretti não há disputa entre os cardeais, e sim o medo de ser escolhido.

Logo no início do filme, durante o conclave na Capela Sistina, vemos o clero escolhendo o nome do próximo Papa, e ouvimos seus pensamentos dizendo “Eu não Senhor, eu não”, em cada um dos membros ali presentes.

E assim caminha o filme de Nanni Moretti, mostrando o quanto são humanos os sagrados e míticos rituais da Igreja Católica, o quanto é humano também, a Vossa Santidade, o Papa.

Moretti coloca, por que não dizer, em debate, o sagrado e o profano, o divino e o humano, em seu filme que podemos então colocar, que se situa entre o drama e a comédia.

Em meio a crise de depressão de um Papa, que em sua juventude gostaria de ser ator, e que literalmente foge do personagem que seria o mais importante de sua vida, o clero chama um psicólogo ateu, para cuidar ajudar esse Papa.

Em uma sessão nada convencional, onde todo clero está presente, o psicólogo vivido por Nanni Moretti tenta conversar com o Papa sobre o porque de sua recusa a assumir o papado, e questiona sua fé.

Embora proibido pela Igreja, em meio a tantos escândalos de pedofilia e corrupção, as críticas de Nanni Morreti são sobretudo sobre o homem, e não a Igreja Católica em si. O diretor enfatiza com o filme, que por mais “divina” que seja a escolha ou a condição de um Papa, todos ali, são acima de qualquer coisa, seres humanos, com todas as angustias e sofrimentos que um homem possa ter.

Com o Papa andando como um homem comum em meio a cidade, um soldado toma seu lugar no quarto, para que o clero fique mais tranqüilo, com a suposta presença de Vossa Santidade. Isso resulta em ótimas cenas sobre o sentimento de se ter um “líder” mesmo que invisível, mesmo que ausente.

A escolha do Papa é esperada pelo mundo todo, o jornalista narra sua escolha como quem narra um grande espetáculo, uma multidão do mundo todo aguarda seu pronunciamento, se mente para o povo não se sentir órfão até que consigam convencer o Papa de tomar posse. Nada mais humano que uma mentira, por mais boa intenção que ela tenha.

Em todo momento, mesmo sem Papa, mesmo sem um líder, o nome do filme se faz justificar, então temos “Habemus Papam”, que ironicamente em latim significa “Temos Papa”.

As críticas e as piadas em torno da Igreja e todo seu mito, são muito menos contundentes do que se esperaria de um diretor como Moretti. Mas ele foi ainda mais feliz, em transformar um tema que realmente poderia ser pesado, porém clichê, em uma comédia deliciosa, e não por isso menos crítica e verdadeira.

Interpretando o Papa, temos Michel Piccoli, um grande e experiente ator que já trabalhou com nomes como Godard, Alain Resnais, Jean Renoir e era um dos preferidos atores de Luis Buñuel. Piccoli dá certa leveza e a humanidade necessária ao personagem. Você até consegue o ver como Papa alí, mas acima de tudo, acredita em seus medos e suas angustias.

Nanni Moretti por sua vez, faz um personagem que se aproxima muito dele mesmo. Um ateu culto e questionador sobre essa política da Igreja. Moretti é um questionador, da política italiana, da igreja, da sociedade de um modo geral.

A fotografia de Alessandro Pesci, que já havia trabalhado com Moretti em “Caos Calmo” é correta, limpa e agradável aos olhos, mesmo nos mostrando toda aquela poluição visual da riqueza e ostentação contida nos palácios da Igreja Católica.

“Habemus Papam” mais que um filme autoral de Moretti, é filme inteligente, mas nada presunçoso, sem arrogância, pelo contrário, é leve, fácil e gostoso de se ver. Um jogo de personagens e situações nunca antes imaginados.

Nanni Moretti está construindo uma filmografia politizada, critica, e também atemporal. Seus filmes ficarão, seu mais antigos filmes continuam atual, sua visão de mundo é libertária, sensível e humana. E esse é o grande charme de seus personagens, de suas historias.

Jair Santana