“Ensaio Sobre a Cegueira”, Fernando Meirelles – 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Ensaio Sobre a Cegueira

Ao contrario do que escreveram alguns críticos, que “Ensaio Sobre a Cegueira” seria o filme mais frio de Fernando Meirelles, eu digo que é acima de tudo, o mais maduro de sua brilhante carreira até então.

Orçado em 25 milhões de dólares, e ainda assim, um filme totalmente independente, sem nem uma grande majors envolvida na produção, e sim somente em distribuição, “Ensaio Sobre a Cegueira” é sem dúvida, o filme mais ousado e corajoso de Meirelles.

Difícil dizer se é o melhor, pois seus quatro filmes são ótimos. Na verdade, Fernando Meirelles tem uma filmografia realmente invejável: “Domésticas”, “Cidade de Deus”, “O Jardineiro Fiel” e “Ensaio Sobre a Cegueira”

Do humilde e quase desconhecido “Domésticas” ao tão falado e esperado “Ensaio Sobre a Cegueira”, todos, fora a questão de produção, tem o diferencial de ter uma direção de atores realmente maravilhosa.

Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Sandra Oh e Gael García, e com uma equipe técnica, assim como elenco global, temos diretor de fotografia uruguaio, editor brasileiro, produtor canadense, enfim, assim como o livro do Saramago, “Cegueira” é um filme do mundo.

Outro ponto que se deve chamar atenção é o de pesquisa e firmeza de Meirelles. Para entrar nesse mundo da cegueira, ironicamente o diretor foi atrás de referências de imagens e leituras. O quadro “Cego Guiando os Cegos” de Pieter Brueghel, foi uma dessas referências para as sequências do grupo, liderado por Julianne Moore, andando pelas ruas da cidade.

Cego Guiando Cegos de Pieter  Brueghel
Cego Guiando Cegos de Pieter Brueghel

Sobre essas sequências, tivemos de Saramago o seguinte comentário: “Aquela imagem representa um pouco da historia da humanidade, sabendo que nosso destino é duro, mas é preciso marchar”. Talvez essa seja a síntese do filme. Seguir a diante, nos anulando e nos agredindo, sem saber pra onde e nem por que, talvez apenas por instinto, mas, seguir a diante.

Julianne Moore faz aqui o papel mais forte de sua carreia. Não falo o melhor ou o maior, e sim, o mais forte. A mulher do médico, torna-se, por ser a única dentro da diegese que nos foi a apresentada, que enxerga, tornando-se então, a salvadora, a responsável por todos, e também o algoz. Na verdade, tudo, e bem e o mal, se encontra separados por uma linha muito tênue. A mesma mulher que salvadora de um determinado grupo, é a mulher que foge com a comida de outro, apesar de saber onde tem mais, não os conduz até lá. Não é julgamento, é apenas uma leitura.

Uma das sequências mais bonitas do filme, na minha opinião, é o momento em que o grupo já livre, andando pela cidade, “se vê” diante da chuva. Essa chuva, algo tão trivial, é algo novo, para alguém que sem a visão, passou a perceber mais outros sentidos, como nesse momento, o tato. Sentir a chuva, em todas as partes do corpo, e sem a visão, valorizar esse momento, faz com que esse grupo tenha um breve momento de felicidade.

Algo parecido acontece, quando ainda presos, dividem um momento ouvindo uma música. Cada uma a sua maneira, solitários ou acompanhados, felizes ou tristes, aquele momento, ao escutar aquela música, percebem que existem outros sentidos. Esse despertar para esses outros sentidos, um a um, é algo muito curioso no filme.

Uma das únicas imposições de Saramago para vender os direitos de sua fábula para o cinema, foi que não fosse identificada nem o país e nem a cidade das filmagens. Meirelles então assumiu filmar em São Paulo, Montevidéu e em estúdios Canadenses.

O produtor Canadense, Niv Fichman, sugeriu, ou melhor, insistiu para que as externas fossem realizadas no Canadá, em cidades com neve. Oque de certa forma, seria muito mais fácil para fortalecer a imagem da cegueira branca. Meirelles, defendeu a idéia de usar São Paulo como locação, pelo motivo que o que se teria em São Paulo, representaria uma metrópole mais “comum” e degradada, como o livro de Saramago pedia.

Foram realizadas as filmagens utilizando as duas hipóteses. Meirelles convenceu Niv Fichman que a sua, era a melhor solução e as imagens com neve foram retiradas do filme antes mesmo do primeiro corte final.

A música minimalista do grupo mineiro Uakti, que tem a frente o maestro Marco Antonio Guimarães é totalmente inusitada. Merelles declarou que era exatamente oque queria para o filme. Assim como a fotografia devia levar o espectador a algo novo, a música também teria essa função. Justamente por esse motivo, Uakti foi convidado para executar a trilha. Como resultado, temos então essa mistura, esse minimalismo, essa “som diferente” para a nos acompanhar ao mundo de “Ensaio Sobre a Cegueira” segundo Fernando Meirelles.

Uma forte crítica que se tem feito ao filme é que, se coloca que o livro é bem mais forte que o filme. Meirelles teve que tornar o filme mais “leve” para ser assistido por um maior número de pessoas. Cortou duas sequências grandes, dois estupros e uma grande sequência de diálogos “asquerosos”, como ele mesmo definiu, sobre as mulheres darem seu corpo em troca de comida.

Algo “comum” em situações de guerras. Acabamos de assistir isso entre a Geórgia e a Rússia por exemplo., onde soldados russos roubavam familias e estrupavam as mulheres. Mas também, algo que não se admite discutir. Por isso o diretor, que por contrato é dono do corte final, resolveu tirar 58 minutos de filme, para que ele chegasse a mais pessoas.

“Cegueira” é um filme forte. Faz pensar. Incomoda, ao ponto de fazer pessoas abandonarem o cinema. Um retrato da degradação, fragilidade e da miséria humana.

Interessante, como o filme coloca “a mulher do médico” (os personagens não tem nome). Responsavel por um grupo de pessoas, ela é a única testemunha visual de tudo que acontece. E talvez preferisse estar cega diante de tudo que vê.

É um filme imperdível. Meirelles está se tornando o rei das adaptações. E já se tornou o maior diretor do cinema brasileiro das ultimas décadas. E um dos maiores do mundo, sem sombra de dúvida.

Jair Santana

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2 Respostas

  1. olá!
    Assisti o filme e também li o livro, e também me pareceu uma das melhores adaptações – sendo um livro tão difícil – que foram feitas. Não sou critico de cinema e nenhum “intelectual” por assim dizer, mas gosto de escrever e ler, e quando li o comentário por você escrito sobre o filme me lembrei das cenas – essas bonitas da chuva e da musica – e também me veio na cabeça outra: quando na janta na casa do médico, eles não queriam beber champagne nem coca nem qualquer outra coisa: simplesmente água.
    No blog também escrevi algo sobre o filme , se podes leia e comente:

    http://gerundiando-deodato.blogspot.com/

    abraços!

  2. eu vi o filme e gostei muito,foi uma esperiencia de vida para eles e para mim

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