“O Signo da Cidade”, Carlos Alberto Riccelli, 2008
Sinopse
Um grupo de pessoas costuma ouvir um programa noturno de rádio, onde uma astróloga lida com suas angústias.
Opinião
Surpreendente. Por puro preconceito, ou mesmo ignorância, resisti assistir esse filme por algum tempo, até amigos e mesmo a crítica me entusiasmarem a ir a sala de cinema e tirar minhas próprias conclusões. Enfim, resolvi arriscar, escolhi um bom dia, uma ótima companhia e fui. Afinal, se o filme realmente não prestasse, eu estava no mínimo com uma boa companhia.
O filme estruturalmente falando lembra um pouco “Magnólia” do Paul Thomas Anderson ou “Short Curts - Cenas da Vidas”, do mestre Robert Altman. Vidas que seguem e se entrelaçam. Pequenos e marcantes pedaços da vida de alguns personagens. Até aí, nada de novo, pelo contrario, parece apenas uma releitura do que já se foi realizado. Mas o filme não é só isso. Com um clima nostálgico, de uma grande cidade onde o que realmente aproxima as pessoas é uma mídia, nesse caso um programa de rádio, o roteiro desenha as relações humanas de uma forma delicada e inteligente.
A personagem principal, Teca, vivida por Bruna Lombardi, é uma astróloga (que inexplicavelmente em momento algum do filme lê o mapa astral das pessoas e somente cartas) que apresenta um programa de rádio, tentando através da leitura das estrelas, ajudar, aconselhar e até manipular as pessoas. Ao mesmo tempo, Teça, não consegue resolver problemas básicos de sua própria vida. Como seus relacionamentos, tanto familiar quanto amoroso.
Personagens consistentes, roteiro bem desenhado e até arriscado com a quantidade de personagens secundários, boa fotografia de Marcelo Trota, que casa perfeitamente com o clima do filme, além boas interpretações, do elenco novo, mas com destaque especial para Juca de Oliveira e Eva Wilma, que são protagonistas de duas das mais belas cenas do filme, faz com que esse filme, uma boa surpresa do cinema nacional que volta a falar do presente e do urbano.
O filme toca e emociona sem cair na pieguice. Trata do cotidiano, de fraquezas emocionais de cada um, da vontade de ter certezas de suas escolhas, ou pelo menos, da errada “certeza” que cada um de nos tem dentro de si. Seja essa certeza da nossa própria vida ou da vida de quem nos cerca. E isso é colocado de uma maneira inteligente, e sem certezas. Nada no filme é definitivo, sem aquele “viveram felizes para sempre”. Tudo fica em aberto. Como deve ser.
A música é outro destaque. Com letras do casal, o diretor Carlos Alberto Riccelli e a roteirista Bruna Lombardi, nas vozes de Caetano e Maria Bethânia. Apresentam um clima nostálgico, lento, melancólico que casam perfeitamente com o filme.
Qualquer um que mora numa grande cidade irá se identificar com muita coisa colocada no filme. Pessoas com envolvimentos afetivos, relacionamentos com outras pessoas, seja família ou amigos ou amantes. Qualquer um que tenha certezas absolutas, ou que viva perto de quem tem, também encontrará essa identificação. Nada é definitivo. Nada está escrito nas estrelas. Tudo é mutável. Talvez seja essa a grande questão do filme.
Jair Santana
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